22 de março de 2018

Capítulo 45

O tamborilar de pingos de chuva acompanhava o ritmo das passadas dos soldados enquanto eles se colocavam em fila na Praça de Raleightown. Era uma chuva morna, intensa e pesada, que ensopou o cabelo de Fletcher e escorreu até os olhos conforme ele observava o exército à frente. Os treinos da manhã tinham sido cancelados, e agora eles precisavam encarar a situação.
Em algum lugar no horizonte, o ronco suave de um trovão ecoou por cima do barulho alto das gotas de chuva. Na própria mente, Fletcher sentiu Ignácio e Atena acima da tempestade, desfrutando dos ventos velozes que lhes permitiam deslizar alto sem bater nem uma única vez as asas. Fletcher os mandara voar sem ele, pois não quis puni-los pelo próprio fracasso.
Os soldados estavam ali parados, carrancudos e ressentidos. Nenhum o encarava enquanto ele aguardava, de braços cruzados, os olhos estreitados. Ele os observava, esperando que o verde de seus uniformes se escurecesse com a umidade e seu cabelo grudasse na cabeça. A mensagem era clara. Aquilo era um castigo.
— Que vergonha! — berrou ele, endurecendo a frustração em sua voz e transformando-a em uma fúria controlada. — Vocês deveriam ser os melhores, um exército de dar orgulho. Agora olhem só para vocês. Brigando como criancinhas mimadas.
Ele parou, examinando os rostos à frente: seria aquilo vergonha? Ou apenas a frustração de ter de ficar na chuva?
— O culpado sou eu — rosnou Fletcher. — Eu é que deixei a situação chegar nesse ponto, por isso vou lhes dar uma segunda chance. Resolver tudo.
Agora eles o olharam.
— Logan, Dália, Gallo, venham até aqui em cima — ordenou.
Os três relutantemente saíram da fila e foram até a frente. Ele fez sinal para Rory e Genevieve com um ligeiro retorcer de mão, e os dois oficiais saíram do abrigo do alojamento e juntaram-se a ele na chuva. Sir Caulder e Rotherham ficaram olhando.
Então Fletcher levantou a mão. Fios transparentes de energia cinética desabrocharam da ponta de seu dedo tatuado e se retorceram ao redor dos pés e das mãos de Logan. O garoto ofegou quando eles se apertaram em torno dele, e a chuva respingou do cordão invisível que agora o conectava ao dedo brilhante de Fletcher.
A seu lado, Gallo e Dália também lutavam contra aquelas amarras, enquanto Rory e Genevieve seguiam as instruções que ele lhes dera aquela manhã.
— O que você está fazendo? — gritou Logan.
— Como eu disse — respondeu Fletcher, rigidamente — todo mundo vai ter sua chance.
Ele se virou para os soldados, que estavam observando com ar de choque.
— Elfos, anões, eu quero que vocês façam uma fila única na frente de Logan. O restante de vocês, na frente de Gallo e Dália.
Eles o olharam, depois os olhos ficaram passando de Fletcher para os companheiros amarrados.
— Vocês ouviram o que ele disse! Andem logo! — bradou Sir Caulder, enviando os últimos soldados rapidinho a seus lugares.
— Logan fez comentários odiosos sobre as raças de vocês ontem à noite — declarou Fletcher. — Gallo correu o dedo pela garganta, e Dália segurou uma faca junto ao pescoço do homem. Nenhum dos três é inocente.
Ele respirou fundo, esperando que o plano desse certo.
— Você aí, Tallon — chamou Fletcher, apontando para um anão na frente. Fora ele que tinha se levantado com raiva dos comentários de Logan.
Tallon olhou para ele, o medo estampado no rosto.
— Bata nele.
Tallon hesitou.
— Eu...
— Ontem à noite, vi você se levantar, preparado a enfrentar Logan — berrou Fletcher no meio do aguaceiro, caminhando na direção de Tallon. — É assim que se trata seus companheiros de armas?
Ele rodeou as tropas atrás de si.
— A maioria de vocês tinha facas em punho. Não tentem negar!
Agora ele viu vergonha. Olhares de esguelha, rostos voltados para o outro lado.
— Então, aqui está sua chance — grunhiu Fletcher.
Tallon olhou para o rapaz à frente. Logan retribuiu seu olhar e levantou o queixo, desafiadoramente.
— Vá! — disse Fletcher, irritado, empurrando Tallon para a frente. O anão tropeçou nas pedrinhas do calçamento e recuperou o equilíbrio a poucos centímetros de Logan. Encarou seu rival, piscando através da chuva torrencial. Então Tallon lhe deu um empurrão fraquinho no ombro.
— Isso é idiotice — disse o anão, buscando apoiadores entre a multidão, mas todos permaneceram em silêncio, só olhando com medo.
— Você chama isso de soco? — perguntou Fletcher. — Achei que você o odiasse.
— Isso é errado — disse Tallon.
— Você estava prestes a atacá-lo com uma faca ontem à noite — disse Fletcher, cutucando Logan com um dedo. — Isso aqui não é nada comprado com aquilo.
— Eu não vou fazer isso — retrucou Tallon.
— Então, volte para a fila! — grunhiu Fletcher, empurrando.
Ele se virou para as tropas e caminhou na frente das três filas. Seus olhos pousaram sobre Cooper, um dos camaradas de Logan.
— E você, hein, Cooper? — perguntou Fletcher. — Você odeia Gallo o bastante para dar conta da tarefa?
O rapaz olhou feio para Gallo cujo rosto empalideceu quando ele deu um passo à frente.
— Solte ele — disse Cooper. — A gente vai resolver as coisas como homens. De igual para igual.
— Qual o problema? — perguntou Fletcher. — Aqui está seu inimigo, bem aqui! A única coisa que você precisa fazer é esticar o braço e acertá-lo.
— Ele não pode se defender — argumentou Cooper, balançando a cabeça.
— E você por acaso não mataria um orc se ele tivesse perdido a arma em batalha? — perguntou Fletcher. — O orc também estaria indefeso, não?
— Isso é diferente — argumentou Cooper.
— Você odeia os dois inimigos, não é? — disse Fletcher. — Ele não é nada para você. Então, vá em frente!
Cooper deu um passo adiante, estalou o pescoço. Olhou nos olhos de Gallo, os músculos da mandíbula se flexionaram quando ele rangeu os dentes, mas algo o conteve.
— Não — disse Cooper, balançando a cabeça. — Não vou fazer isso.
Fletcher empurrou o rapaz para a fila.
— Mais alguém? — perguntou. — Alguém aqui deve estar a fim de descontar a raiva nesses três indivíduos. A chance é essa.
Ele olhou para o rapaz na frente de Dália, um ex-escravo chamado Arif que não perdera tempo algum em apanhar uma faca e defender Logan.
Arif levantou as mãos e recuou até o fim da fila.
— Ah. De repente, ninguém mais quer machucar ninguém aqui — disse Fletcher, dando uma risada forçada e amarga. — O que mudou?
Sua única resposta foi o barulho da chuva caindo e o ribombar distante dos trovões.
— O negócio é o seguinte — disse Fletcher, correndo a mão pelo cabelo ensopado. — Se vocês odiassem mesmo uns aos outros, esse showzinho teria tido um resultado bastante diferente. Mas o problema de vocês não é ódio. É orgulho.
Ele balançou a cabeça diante deles, em desgosto.
— São orgulhosos demais para aceitar um insulto. Orgulhosos demais para sofrer uma humilhação. Orgulhosos demais para perdoar.
Os soldados ficaram em silêncio, em estado lastimável enquanto ele soltava os cachorros.
— Estão vendo isso aqui? — perguntou Fletcher, apontando por cima dos ombros para as ruínas do lar de seus ancestrais. — Minha família foi massacrada pelos orcs. Todas as pessoas desta cidade foram empaladas em lanças e deixadas apodrecendo nos limites da selva além dessas montanhas. Isso sim é ódio. Esse sim é o inimigo.
Ele libertou Logan do feitiço cinético, deixando que o garoto caísse de joelhos sobre as pedras do calçamento. A um aceno de sua cabeça, Genevieve e Rory o imitaram, e Gallo e Dália também tombaram no chão.
— Os Forsyth organizaram tudo — disse Fletcher, e viu a surpresa passar pelo rosto dos homens. — Disseram para os orcs como poderiam entrar, onde ir. É verdade.
Ele colocou Logan de pé.
— Como vocês bem sabem, a família deles semeou a desavença entre nossos povos, apenas para alimentar os próprios interesses. E vocês estão jogando o joguinho deles, como patinhos! Eles se alimentam do orgulho de vocês. De seu medo do desconhecido. Não. Deixem!
Fletcher se inclinou para a frente e sussurrou para Logan:
— Se fizer comentários como aqueles mais uma vez, eu vou cortá-lo de meu exército. Esta foi sua primeira e única chance.
Logan saiu correndo na direção dos homens, com a ajuda de um empurrão de Fletcher. Seu recado para Logan tinha sido alto e claro, embora as palavras em si não pudessem ter sido ouvidas pelo restante das tropas.
Gallo deu um aceno respeitoso para Fletcher ao se juntar às fileiras, enquanto Dália caminhava rápido sem o olhar duas vezes.
Fletcher deu um suspiro por dentro. Era tão difícil saber o que ela pensava quanto Sylva. Apesar disso, ele sabia que, por enquanto, a raiva da tropa tinha sido controlada. Só lhe restava torcer para que as coisas permanecessem assim.
— Meu lorde — gritou uma voz. Fletcher se virou e viu um jovem garoto emergir da rua atrás de si, os olhos arregalados de medo. — Soldados estão a caminho.
Fletcher virou-se para olhar para as montanhas, de onde os guardas dos Forsyth viriam. Mas não havia nada. O garoto lhe puxou a manga e apontou para a rua, na direção de onde ele tinha vindo.
— Não, milorde, ali.
— Não há motivo pa...
As palavras de Fletcher morreram em seus lábios. Havia homens marchando, vindo do norte: tornaram-se visíveis quando entraram na rua principal de Raleightown.
Mesmo do fim da rua, Fletcher reconheceu o amarelo e preto de seus uniformes.
Eram soldados de Didric.

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