13 de março de 2018

Capítulo 45

Havia milhares deles, espalhados pelo chão rochoso, como brinquedos no quarto de uma criança mimada. Goblins, dormindo na penumbra cálida da caverna.
Eram tantos deles que se via mais pele cinzenta do que chão, e eles estavam com os braços esparramados uns sobre os outros, como se tivessem tombado mortos ali mesmo.
Acima, a luz se infiltrava em grande feixes por aberturas, cortando as trevas, como blocos sólidos de gelo. Não parecia haver nenhum guarda, o que era ótimo. Rufus estava em movimento.
— Maldito maluco — resmungou Mason, observando enquanto o jovem nobre escolhia um caminho por entre os goblins adormecidos. — Está com sorte de eles ficarem completamente bêbados com coco fermentado durante o festival.
Fletcher seguiu a direção de Rufus e encontrou o alvo. Era uma jaula de bambu, abandonada encostada na parede da câmara, como se tivesse sido esquecida. Dentro, Fletcher percebeu uma figura esfarrapada encolhida no canto.
Alguma coisa chamou a atenção dele. Havia uma dúzia de rapazes cochilando do lado oposto da caverna, assim como um punhado de gremlins. Os meninos não vestiam nada mais que tangas, assim como os gremlins, e estavam todos amarrados uns aos outros com cruéis tiras de couro.
— Seus amigos? — perguntou Fletcher, indicando o grupo.
Mason estremeceu ao vê-los, perdendo a cor.
— Três anos eu passei ali — disse com voz trêmula. As mãos também tremiam enquanto ele desalojava a besta e as setas e as colocava no chão. — Eu vou buscar eles — murmurou.
O rapaz se levantou e oscilou, instável, a respiração reduzida a um ofegar curto e áspero. Estava sofrendo um ataque de pânico.
— Não, eu vou — disse Fletcher, tirando o cinturão de armas. Se Mason tropeçasse uma vez que fosse... todos eles tombariam.
— Eu dou cobertura — concordou Mason, com o alívio estampado no rosto.
Fletcher deixou o arco, pistolas, aljava e bainha, levando apenas a espada para libertar os prisioneiros.
Rufus progredia lentamente, o caminho bloqueado por uma área densa de goblins adormecidos. Fletcher observou enquanto o nobre era forçado a dar meia-volta e fazer um caminho indireto.
Na esperança de evitar o mesmo erro, Fletcher tentou determinar o trajeto mais eficaz ao redor dos goblins adormecidos. Então estava caminhando entre eles, encaixando os pés entre curvas de cotovelos e joelhos, mantendo o khopesh baixo e reto para se equilibrar. Um goblin abaixo dele fungou durante o sono, tão perto que Fletcher sentiu o bafo de ar no tornozelo. O rapaz ficou paralisado, com o coração na boca. Por um momento, o nariz do goblin ficou encostado em sua pele nua, molhado e frio como um peixe morto. Dava para sentir a meleca borbulhando na canela a cada fôlego.
Depois do que pareceu uma eternidade, o goblin engoliu e se virou, o cotovelo esbarrando de leve na perna de Fletcher. O goblin adormecido mal percebeu. De fato, estava agora esparramado sobre o corpo de outro. Ambos continuavam mortos para o mundo.
Encorajado, Fletcher acelerou o ritmo, pulando de uma área de rocha nua para a outra com passos cautelosos, mas velozes. Sabia que bastaria que um deles abrisse os olhos e o visse para que o caos se instalasse. Ele tinha de atravessar depressa.
Quando Fletcher ergueu o olhar para conferir o progresso, viu que um dos meninos estava acordado. Estava esquelético de tão magro, com pele escura como a de Electra e um emaranhado de cabelos negros bem enrolados. O menino observou os últimos saltos de Fletcher com olhos semicerrados, cansado demais para reagir à figura que se aproximava. Talvez pensasse que seu salvador fosse um sonho.
Foi só quando Fletcher cortou as tiras que o atavam à parede que o menino se moveu, fitando-o com espanto.
— O q...quê...? — Foi tudo que conseguiu dizer.
Fletcher o silenciou com um gesto de dedo nos lábios e foi até o prisioneiro seguinte. Não demorou muito para que estivessem todos livres, muitos se afastando desesperados, como se Fletcher fosse um fantasma.
Os gremlins mal se moveram. Não havia vida nos olhos deles, e muitos tinham braços e pernas tortos, o resultado de ossos partidos mal-curados. Fletcher pegou uma das criaturinhas no chão e a pressionou nas mãos do menino de cabelos emaranhados. Fez um gesto para os outros, até que todos os gremlins estavam seguramente instalados no abraço de um menino escravo.
Um som de algo se arrastando veio do outro lado da câmara. Fletcher ergueu o olhar e viu Rufus serrando a jaula. A espada curta despachava facilmente o bambu antiquíssimo. Não havia porta na estrutura. Era perturbador como os orcs a tinham construído em volta da mulher nobre, sem intenção alguma de jamais deixá-la sair.
Mason chamou os meninos com um aceno, e eles começaram a perigosa jornada de volta à entrada. Fletcher ficou onde estava, observando o progresso de Rufus. O jovem nobre tinha conseguido cortar duas barras da gaiola, o suficiente para que a mãe saísse engatinhando. Só que ela continuou encolhida no canto.
Cerrando os dentes de frustração, Fletcher começou a atravessar a caverna por entre os goblins.
A luz que vinha de fora estava mais fraca, tingida com o laranja do crepúsculo. O tempo deles era medido em segundos, agora, e cada segundo ali era outro que poderia ter sido gasto destruindo ovos. Na imagem sobreposta do monóculo, o cenário se deslocava conforme Ébano voava de um lado para o outro fora da pirâmide, complicando ainda mais a tarefa de escolher onde pisar na escuridão. Fletcher estremecia a cada passo. Não ajudava em nada o fato de que os pulsos de mana de Ignácio ficassem cada vez mais frequentes.
Houve um momento de puro pânico quando um goblin se levantou junto à entrada. Ele cambaleou na luz do exterior, agarrando a barriga e resmungando.  Fletcher ficou paralisado, imóvel como uma estátua. Segurou a respiração e trincou os dentes. Então o goblin sumiu.
Encharcado de suor frio, Fletcher seguiu em frente, movendo os pés o mais rápido que ousava. Quando ele chegou à gaiola, Rufus já estava apelando a sussurros frenéticos, o braço estendido para a figura encolhida.
— Mãe... mãe, sou eu. Pegue a minha mão. Pegue, inferno!
Ele soluçava, com lágrimas escorrendo pelo rosto sujo. Os ombros estremeciam violentamente com cada respiração, e as mãos tremiam ao tentar alcançar a mulher.
Mas ela se recusava a se mover. Simplesmente fitava através do menino com olhos vazios. Azul não tinha mentido quando disse que a mente dela não estava mais lá.
— Eu a pego, Rufus. Volte logo, você. Não vai poder ajudá-la nesse estado. — Fletcher pousou a mão no ombro do outro para acalmá-lo.
O jovem nobre engoliu seco e chegou para o lado, mas balançou a cabeça quando Fletcher o empurrou gentilmente na direção do túnel.
Não havia tempo para discussões, então Fletcher se espremeu para dentro da gaiola. As pontas afiadas do bambu partido arranharam com força o abdome de Fletcher conforme ele se espremia pelo buraco.
Do lado de dentro, a jaula parecia ainda menor. Era da metade do tamanho da sua velha cela; Fletcher só conseguiria se deitar na diagonal, com a cabeça tocando um dos cantos e os pés tocando o outro.
A mulher continuou sem reação, mesmo quando o rapaz engatinhou até ela. Havia velhos sinais da compreensão passada que ela tivera. Marcas feitas na barra acima de sua cabeça; mais de uma dúzia. Um pente grosseiro feito de casca de tartaruga, agarrado nas mãos. Até as roupas puídas estavam bem costuradas e remendadas; um osso apontado, tendões e pele de animal tinham feito as vezes de agulha, linha e pano, e estavam empilhados no canto oposto.
O sangue que cobria-lhe a boca e as tábuas abaixo em uma crosta confirmavam o que as pilhas de ossos e restos de animais sugeriam. Eles nunca tinham se dado ao trabalho de cozinhar a comida dela, ou mesmo limpar os arredores. Fletcher cobriu o nariz com a manga diante do odor, de alguma forma ainda mais forte na cela apertada. O fedor era como o de um ovo podre de goblin, e o estômago dele se retorceu de pena e repugnância.
A dama vestia um uniforme que Fletcher não reconheceu, e muito pouco restava do tecido original. Poderia ter sido branco um dia, mas agora era de um amarelo maculado. Os cabelos e o rosto estavam imundos além da possibilidade de reconhecimento. Só os olhos se destacavam da sujeira: o branco do olho límpido, as íris de um azul pálido. Eles se voltaram subitamente para o rosto do menino.
Fletcher levou um susto e conteve uma exclamação. A mulher o encarou, depois estendeu a mão, palma para cima, como um mendigo pedindo esmola. Fletcher a tomou com delicadeza, pois o pulso era tão fino que parecia prestes a se quebrar com a menor pressão. Ela fez um esforço para se levantar, forçando-se a ficar recurvada sob o teto da jaula. Fletcher percebeu que os joelhos iam ceder bem a tempo, e a pegou quando ela caiu. Era como segurar um fardo de ossos; o corpo era insubstancial e sem peso.
— Me dê ela — disse Rufus, em voz alta demais, mas ele claramente não dava mais a mínima. Fletcher passou a mulher pela abertura, e a cabeça dela balançando junto ao seu ombro. Ela estava tão mirrada que o rapaz podia erguê-la como a uma boneca de trapos.
Rufus a tirou dos braços de Fletcher e foi embora sem uma palavra. Saiu correndo por entre os corpos adormecidos sem olhar para baixo, dando longos passos e saltos na pressa, agarrando a mãe ao peito, como um bebê de membros longos. Foi um milagre que nenhum goblin tivesse acordado na correria louca do rapaz para o túnel.
Adiante, os escravos tinham sumido, mandados mais cedo para a caverna principal. Só restava Mason, que esquadrinhava o recinto em busca de sinais de movimento. Rufus mal lançou um olhar para o rapaz em sua passagem cambaleante, o fardo nos braços.
Assim que os dois se foram, Fletcher seguiu os passos de Rufus, dardejando cuidadosamente entre os goblins, o coração martelando o peito com cada salto. Ainda os goblins dormiam, alheios ao mundo em seu estupor ébrio.
Foi na metade do caminho que Fletcher viu.
Mason. Fazendo pontaria cuidadosamente com a besta, a ponta firmemente centrada na cabeça de Fletcher.
Fletcher parou completamente. Ergueu a mão para criar um escudo, mas não apareceu nada. O sangue gelou quando ele entendeu o que tinha acontecido; não restava mais mana algum. Ignácio tinha tomado tudo.
Mason estreitou o olhar ao longo da besta, com a ponta da língua para fora. Fletcher não poderia fazer nada além de ficar ali parado, esperando o fim. Não arriscaria estragar a missão saltando para o lado, mesmo que aquilo significasse a própria morte.
Como ele tinha sido burro em confiar no rapaz. Uma vez um Fúria de Forsyth, sempre um Fúria de Forsyth.
O vibrar seco do disparo atingiu os ouvidos bem quando a seta passou por ele. Atrás de Fletcher, um baque e um gemido.
Fletcher se virou para ver um goblin desabar no chão, com o virote cravado na garganta. Ele se debatia, tentando agarrar o pescoço, mas só conseguia emitir gorgolejos quietos.
— Ande logo — sibilou Mason, acenando. — Antes que outro deles acorde!

7 comentários:

  1. Aquele momento que o leitor quase da um infarto!

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  2. Que cena foi essa? Achei que Mason ia matá-lo...

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  3. Quase entrei no livro pra da nesse cara

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  4. Esses nobres dsempre ingratos

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  5. Cara pensei q já era.
    Esse moleque muito ingrato. Tm q levar umas porradas. 😠

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  6. Se dependessem de carater eles nunca teriam esse adjetivo de "nobre", que deveria ser conquistado e não ganho por causa de berco de ouro

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!