2 de março de 2018

Capítulo 45

Uma névoa pesada pairava ao redor da Cidadela, fazendo o horizonte se desvanecer numa brancura sombreada. Isso ofereceu a Fletcher e Átila a cobertura de que precisavam enquanto mancavam pela estrada.
— Espero que Uhtred chegue na hora — comentou Fletcher. — Rook ficará desconfiado se eu não aparecer na aula dele.
— Ele estará lá. Você disse que Valens entregou as instruções de onde me buscar sem problemas — respondeu Átila. Ele estava pálido, mas tinha se recuperado o bastante para andar, mesmo que mancasse nitidamente.
Os dois conseguiram se esgueirar para fora do castelo sem problema praticamente algum. Tarquin fizera um comentário sarcástico quando passou por eles na escada, perguntando se o anão estava mancando porque alguém tinha pisado nele naquela manhã. Felizmente, com o uniforme extra de Otelo e um rápido trançar da barba de Átila, os anões gêmeos eram indistinguíveis.
O coração de Fletcher se acelerou quando uma sombra escureceu a névoa adiante.
— Tudo bem, é meu pai — resmungou Átila.
Um javali emergiu do nevoeiro, puxando uma carroça. O condutor usava capuz, mas o vulto corpulento de Uhtred era inconfundível.
— Suba, rápido. Não é seguro por aqui! — exclamou o anão mais velho, parando a carroça ao lado deles. Fletcher ajudou Átila a se esparramar aos pés do pai. — Os anões estão em dívida com você. Se precisar de alguma coisa, o que for, é só pedir — ribombou Uhtred, estalando as rédeas do javali e virando a carroça.
— Espere, tenho algo a dizer — anunciou Átila.
Fletcher deu meia-volta, preocupado em se atrasar para a aula que começaria a qualquer minuto.
— Muito obrigado. Eu lhe devo minha vida. Diga a Otelo que... eu estava errado.
Com essas palavras de despedida eles desapareceram na névoa, se afastando até que Fletcher ouvisse apenas o som dos cascos do javali contra a terra.
Fletcher chegou atrasado à aula. Porém, quando ele chegou à câmara de evocação, tanto Rook quanto Arcturo estavam esperando por ele, com o restante dos estudantes parados em silêncio diante dos professores. Fletcher percebeu que Arcturo usava um tapa-olho, e não conseguiu segurar um sorriso. Com o chapéu tricorne, o professor parecia um capitão pirata.
— Tire esse sorrisinho do rosto, moleque. Você acha que o seu tempo é mais valioso que o nosso? — ralhou Rook, indicando com um aceno que ele deveria se juntar aos outros.
— Desculpe, senhor — disse Fletcher, indo até os colegas.
— Eu cuido dele mais tarde, Rook — afirmou Arcturo. — Mas talvez devêssemos continuar com a lição.
— Sim, talvez devêssemos — retrucou Rook secamente, dando um passo à frente. — Com a aproximação do torneio, achamos que chegou a hora de demonstrar como funciona um duelo. Pois bem, Arcturo acredita que aprender a duelar com outro mago de batalha é uma prática inútil...
— Os xamãs orcs raramente duelam. — O capitão interrompe Rook. — É pouco provável que vocês enfrentem um deles corpo a corpo. Eles preferem se esconder nas sombras e mandar os demônios lutar por eles.
— Uma estratégia que lhes serviu bem no passado. Suspeito que nossa taxa de perda de magos seja várias vezes maior que a deles, mas é o fato de lutarmos nas linhas de frente nos pondo em risco que nos está fazendo ganhar esta guerra — retrucou Rook.
— Só que isso não é duelar, Inquisidor. Isso é usar nossas habilidades para proteger e apoiar os soldados — retorquiu Arcturo.
— Porém, usamos as mesmas técnicas, não usamos? — refletiu Rook, esfregando o queixo, fingindo estar pensativo.
Fletcher ficou surpreso que os dois professores discutissem assim na frente dos alunos. Se em algum momento houve dúvida, aquilo acabava de confirmar: aqueles homens se detestavam.
Arcturo suspirou e se virou para os alunos.
— Independentemente de minhas opiniões quanto ao torneio, ele é uma tradição que data desde a fundação da escola de magos de batalha, há dois mil anos. Geralmente vocês passariam por quatro anos de treinamento antes de poderem competir no torneio. No ano anterior, esse período foi reduzido a dois anos. Agora, basta um. Tivemos sorte, pois todos vocês nesta turma aprendem bem rápido. Para a maioria dos calouros, leva dois anos para se aprender a executar um feitiço básico de escudo. Até você, Fletcher, está à frente da média. Há muitos veteranos do segundo ano que não conseguirão fazer um escudo decente.
Fletcher corou ao ser destacado, mas se sentiu melhor. Pelo menos não ficaria em último no torneio.
— Agora, prestem bem atenção — continuou Arcturo, entalhando o símbolo de escudo no ar e o fixando acima do dedo indicador. Ele disparou mana através do glifo e formou um escudo oval grosso e opaco diante de si. — Um escudo é sempre mais forte quando você se prepara para o impacto de seja lá o que for que estiver vindo na sua direção — explicou ele, agachando-se um pouco e cruzando os antebraços em X. — Na defesa contra um feitiço ofensivo, o baque tem um... efeito violento.
— Você está pronto? — indagou Rook preguiçosamente, erguendo um dedo brilhante.
— Est...
Um clarão iluminou a câmara quando Rook chicoteou um feitiço de relâmpago contra Arcturo, crepitando o ar com forquilhas de raios elétricos. Ele atacou tão rápido que Fletcher mal viu o dedo se mexer.
O escudo rachou como gelo num lago, emitindo estalos altos e agudos com cada fratura. O rosto de Arcturo se contorceu com esforço conforme alimentava o escudo com mais mana, filamentos opacos fluindo como seda para cobrir o dano. A força do impacto de Rook o empurrou para trás, fazendo seus pés deslizarem no couro.
Arcturo estendeu um dedo da outra mão e agitou o ar, em seguida descruzando os braços com um rugido e disparando um golpe cinético pelas laterais do escudo.
Rook foi lançado para trás, chocando-se contra a parede e deslizando para o chão.
— É por isso que o feitiço de escudo é a primeira coisa a ser feita quando se entra num duelo. Você até pode colocar seu adversário na defensiva se atacar primeiro. Porém, se você não o derrotar com esse primeiro golpe, ele só precisará usar um feitiço de ataque enquanto você estiver distraído e o duelo estará encerrado. Atacar sem um escudo é uma manobra de tudo ou nada. — Arcturo sorriu e o escudo se dissipou. A luz foi sugada de volta ao seu dedo com um silvar suave. — É melhor recuperar o mana dos seus escudos sempre que possível, especialmente no caso daqueles com demônios de nível baixo. Vocês vão precisar de todo mana que conseguirem se quiserem perdurar no torneio.
Fletcher ouviu Rory praguejar em voz baixa atrás de si.
— Aquilo foi um golpe baixo! — rosnou Rook, limpando as roupas com as palmas.
— Você passou tempo demais longe das linhas de frente, Rook. — Arcturo riu, retorcendo o bigode. — Até um segundo-tenente sabe que é vital erguer um escudo se o seu primeiro ataque não funcionar. Deixar de fazê-lo é um ato de inteligência bovina, se você me perdoa o trocadilho.
— Vamos ver o que você acha dos bovinos quando meu Minotauro estiver com as garras em volta da garganta do seu Canídeo — retrucou Rook, dando um passo em direção a Arcturo.
Os dois homens se encararam por um tempo, o ódio mútuo inconfundível. Eles lembravam a Fletcher cães de caça rivais, esticando as correias para atacar um ao outro. Se os aprendizes não estivessem na câmara, o rapaz tinha certeza de que um duelo ilegal estaria acontecendo ali e agora.
— Turma dispensada! — ralhou Rook, saindo da sala. — Não é como se algum de vocês pudesse capturar alguma coisa antes do torneio, de qualquer jeito. Inúteis, todos vocês!
Fletcher percebeu o sorriso de Rory. Apesar dos melhores esforços de Rook, os nobres não tinham chegado nem perto de capturar novos demônios. Mesmo com a pedra de carga, a habilidade de visualização deles era fraca demais para controlar seus demônios de forma eficiente. Por outro lado, os plebeus agora conduziam seus demônios com facilidade, fazendo-os correr e saltar pela pista de obstáculos que eles montaram no canto da câmara de conjuração. Fletcher era habilidoso, mas seu minúsculo cristal de visão o atrapalhava. Ele o tirou do bolso e o examinou.
— Vocês escutaram o homem; fora daqui, todos vocês! — resmungou Arcturo. — Menos você, Fletcher. Venha cá.
O rapaz foi até o professor lentamente, esperando uma bronca pelo atraso. Em vez disso, Arcturo pôs a mão em seu ombro.
— Deixe-me ver essa pedra de visão.
Fletcher a entregou sem pronunciar uma palavra.
— Você não vai vencer o torneio com isto. Há desafios, Fletcher, que exigirão muita visualização. Não posso lhe emprestar minha pedra; não tenho permissão para lhe favorecer e, mesmo se eu quisesse, Rook está me vigiando bem de perto. Dê um jeito nisso.
Ele largou o cristal de volta na mão de Fletcher e o olhou no olho.
— Essa é a diferença entre um bom guerreiro e um grande guerreiro. Rook se esforçou muito, mas perdeu aquela batalha. Não se esforce apenas. Seja inteligente.

7 comentários:

  1. Respostas
    1. ou o professor
      somente pensa isso
      ass:matheus

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  2. Fletcher merece um titulo estilo Daenerys
    Fletcher,o primeiro sem sobrenome,amigo dos anões,aliados dos elfos,invocador de demônios

    "— Vocês escutaram o homem; fora daqui, todos vocês! — resmungou Arcturo. — Menos você, Fletcher. Venha cá." kkkknn

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  3. Ah, gente, Arcturo é um baby, ele ganhou muito meu coração. Que homem.

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  4. precisa de uma gema maior flatcher

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Boa leitura, E SEM SPOILER!