13 de março de 2018

Capítulo 44

Eles entraram correndo numa enorme caverna, maior até que o Átrio em Vocans. Havia uma piscina de lava bem no meio, que borbulhava e fervia como um caldeirão em ebulição. Quatro rios de rocha derretida, que nasciam do lago flamejante e corriam às paredes até penetrá-las, dividiam o recinto em quatro quadrantes de rocha sólida. Cada um tinha o próprio túnel para outras câmaras, e as áreas de piso sólido eram todas conectadas entre si por pontes precárias feitas de pedras disformes, por sua vez mantidas juntas por reboco esfarelado.
E havia ovos. Não só centenas, mas milhares e milhares, alguns em pilhas tão altas que quase tocavam o teto. Muitos estavam cobertos com poeira e teias de aranha, enquanto aqueles mais próximos pareciam ser mais frescos. As cascas secas dos que já tinham chocado recobriam o chão. Havia quase tantas delas quanto haviam ovos.
— Já deve haver uma legião de goblins chocados a essa altura — murmurou Fletcher, cutucando uma casca próxima com o khopesh. — Talvez já seja tarde demais.
— Faz três anos a última vez que vim pra cá — comentou Mason, abrindo e fechando a boca como um peixe fora d’água. — Não tinha nem metade disso aí na época.
— Não temos tempo de nos preocuparmos com isso agora — afirmou Isadora, cravando a lâmina num ovo. — Deixem as grandes pilhas; vamos queimá-las por último para o caso de fazer fumaça demais.
O Felídeo dela, Tamil, já estava rasgando os ovos mais próximos, sibilando conforme o alúvio de dentro cobria suas garras. Os outros demônios seguiram o exemplo, exceto pelos Carunchos, que eram pequenos demais para causar muito estrago. Em vez disso, eles pairavam junto às três outras entradas, de olho em patrulhas de goblins.
— Vamos botar para quebrar! — exclamou Fletcher, erguendo o khopesh. Em segundos, o recinto se encheu com o cheiro acre de carne podre, um fedor tão forte que travava a língua de Fletcher. Então sentiu uma sensação súbita de conforto e satisfação que lhe deu um susto. Levou um momento até perceber que vinha de Ignácio. A Salamandra estava nadando até o centro da piscina de lava, onde a rocha derretida era de um branco incandescente. O demônio não sentia dor, apenas uma sensação de saudades e propósito; até... familiaridade. Fletcher se perguntou se o lugar lembraria o diabrete de seu lar no éter, onde que quer que fosse.
— O que diabos Ignácio está fazendo? — resmungou Otelo, chutando um par de ovos para a lava. Eles ferveram e enegreceram, emitindo uma baforada de cabelo queimado.
— Não faço ideia — comentou Fletcher.
Quando o diabrete teimoso alcançou o centro do lago, o rapaz sentiu um choque súbito de poder. Algo estava mudando.
Os segundos se passaram, e, apesar das mudanças em sua consciência, Fletcher não pôde fazer nada além de golpear repetidamente os ovos, ficando de olho em Ignácio enquanto ele nadava em círculos ao redor do coração do lago. Esse tempo todo, pulsos de mana escorriam do corpo do diabrete sem motivo aparente. Era como uma torneira vazando, e Fletcher desejou ter guardado um frasco de mana para si. Tinha certeza de que era algo relacionado à lava.
Tentou chamar Ignácio de volta, mas seu controle sobre ele não parecia funcionar, quase como se a pequena Salamandra nem estivesse ciente de sua presença na mente. Fletcher não poderia fazer nada além de esperar que, quando chegasse a hora de partir, Ignácio atendesse a seu chamado. Concentrou-se então em destruir os ovos, ignorando os choques de poder que o inundavam, vindos do demônio.
Mesmo com o trabalho ininterrupto, eles não tinham destruído mais que algumas centenas de ovos depois de cinco minutos. Alguns ovos já tinham até goblins semiformados, que precisavam ser destruídos assim que as pobres criaturas eram trazidas à luz. Fletcher avaliou a situação e viu que as equipes mal tinham limpado seu respectivo quadrante, que não incluía a imensa pilha central que precisaria ser queimada.
— E quanto aos prisioneiros? — ofegou Rufus, lançando um olhar suplicante para Malik. — Minha mãe?
— Vamos cuidar disto primeiro — respondeu Malik, grunhindo ao partir um ovo ao meio com a cimitarra.
— Ande logo com isso, Rufus. Vamos precisar dos esforços de todos nós para conseguir destruir isso tudo a tempo — rosnou Didric, empurrando o outro rapaz para o ovo mais próximo.
Rufus cambaleou e, em seguida, se virou, com ombros rígidos de raiva. Havia alguma coisa nos olhos dele que Fletcher não tinha visto antes. O menino de cabelos escuros era tímido e discreto nas melhores ocasiões, mas agora estava repleto de uma determinação férrea.
— Eu vou buscar minha mãe. De jeito nenhum vou deixar um plebeu metido à nobre pensar que pode mandar em mim. — Rufus cuspiu nas botas de Didric, e Fletcher não conteve um sorriso com a cara que o rival fez em resposta ao insulto.
Antes que qualquer um pudesse detê-lo, Rufus saiu correndo pela ponte mais próxima, ziguezagueando em meio aos ovos a caminho do túnel mais próximo. Fletcher não hesitou. Saiu em disparada atrás do rapaz, com Mason logo nos calcanhares.
— Rufus, pare! — exclamou Mason num meio grito, meio sibilo. — Você vai nos entregar!
Só que Rufus era rápido e tinha a vantagem. Quando Fletcher cruzou a ponte e alcançou o túnel, ele já havia desaparecido na escuridão.
— Pelo menos o maldito idiota está indo na direção certa — grunhiu Mason, alcançando Fletcher. — Os outros túneis levam pra superfície.
— É melhor o seguirmos — afirmou Fletcher, procurando ouvir ruídos de problemas adiante. — Ele não vai conseguir sozinho.
Mason sentiu o peso da arma, uma grande espada similar a um cutelo conhecida como alfanje. Parecia quase cômica ao lado do vulto macilento do menino, já sobrecarregado com uma grande besta. Ainda estava emagrecido pelo longo encarceramento, mas brandia a espada com habilidade suficiente. Afinal de contas, o rapaz um dia pertencera às Fúrias de Forsyth, um regimento temível de acordo com todos que os conheciam.
— Vamos lá, então — disse Mason, seguindo na frente.
Fletcher se deteve. Conhecia a dor de se perder um dos pais e se solidarizava com o nobre jovem mirrado.
Mas seria aquilo o que Hominum realmente precisava? Ainda havia milhares de ovos a serem destruídos. Como resgatar uma nobre velha e louca mudaria o destino da guerra?
Ainda assim, ele não poderia deixar Rufus correr cegamente em direção ao perigo, até porque ele poderia disparar um alarme. Dividido, ele deixou Atena continuar a destruir os ovos. Avançou pelo túnel, embainhou o khopesh e pegou o arco, com uma flecha já preparada na corda para o caso de um ataque súbito.
— Vamos voltar em quinze minutos — murmurou para si mesmo. — Com ou sem eles.
O túnel subia num aclive que fez Fletcher ofegar com o esforço. Na luz tênue, ele conseguia divisar a silhueta de Mason logo adiante. O menino se movia furtivamente, se mantendo nas sombras e evitando os fachos de luz que vinham da extremidade do túnel.
Esse brilho era diferente, natural. Eles pareciam próximos à superfície.
Houve uma subida final antes que o túnel se abrisse, uma subida que bloqueava a visão da caverna além. Mason rastejou até a beirada, e Fletcher seguiu o exemplo, tomando o cuidado de se manter bem colado ao chão. O peito ficou encharcado com o solo úmido quando ele alcançou o topo, mas esse pequeno desconforto foi esquecido rapidamente quando ele contemplou a cena além.
— Maldição — murmurou Fletcher.

7 comentários:

  1. Acho que Ignácio é um filhote de dragão, que não pôde crescer pq precisava de lava ou algo do tipo

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  2. O que será que eles viram? Mais ovos de goblim? Orcs?

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  3. Seria engraçado se fosse mais ovos kkkkkk

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  4. Acho que Mason é que esta tentando matar o Fletcher

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  5. Meu Deus, Ignácio vai virar um Dragão? Ou uma super Salamandra? Como a do Orc Branco que ja tinha até um toco de asas?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!