2 de março de 2018

Capítulo 44

Átila estava inconsciente quando eles finalmente chegaram à Cidadela, mas ainda respirava. A perna do anão estava enrijecida com sangue coagulado, mas, na escuridão, Fletcher não conseguia ver o tamanho do estrago. Ele enfaixou o ferimento o mais apertado possível com uma tira de pano da camisa de Átila, então seguiu Valens pela ponte levadiça.
— Aonde vamos agora? — perguntou Fletcher num sussurro para o demônio que pairava acima dele.
O Caruncho zumbiu de forma encorajadora e parou na metade da subida da escadaria leste.
Fletcher encarou os degraus íngremes com apreensão.
— Eu não sei se consigo! — resmungou ele, erguendo o corpo de Átila.
Sentindo o humor de Fletcher, Ignácio saltou para o chão.
— Obrigado, amigo, agora está muito mais leve — murmurou Fletcher sem muita empolgação, afagando o queixo do diabrete.
Valens o guiou escada acima, o vibrar de suas asas orientando Fletcher nas trevas. Ele não arriscou acender um fogo-fátuo. Se Rook o pegasse com Átila, relataria tudo ao rei.
Eles chegaram ao último andar, depois continuaram a subida pela torre nordeste. A essa altura, os joelhos de Fletcher estavam quase desabando, mas ele continuou teimosamente. De alguma forma, Valens tinha um plano.
Finalmente, eles alcançaram um par de pesadas portas de madeira no ponto mais alto da torre, e Fletcher percebeu que tinham chegado à enfermaria. Antes que tivesse uma chance de bater, as portas se abriram e ele topou com uma Sylva frenética.
— Vocês estão bem! Achávamos que tinham morrido! — soluçou Sylva, enterrando o rosto no peito de Fletcher. Otelo o encarava, com o rosto pálido e marcado por lágrimas. O anão correu até o rapaz e tomou Átila nos braços.
Fletcher deu tapinhas amistosos e desajeitados na cabeça de Sylva e olhou em volta. Havia várias fileiras de camas, com armações enferrujadas e cobertas de poeira. Três camas mais novas ficavam perto da porta, e Sariel descansava embaixo delas. Quando Otelo deitou Átila numa delas, Fletcher percebeu que não estavam todas vazias.
Lovett jazia na cama mais próxima. Ela estava tão imóvel que poderia ser um cadáver, não fosse pelo subir e descer quase imperceptível do tórax. Ela vestia uma camisola, com os longos cabelos negros espalhados à sua volta como um halo. Os outros tinham acendido as tochas e velas dos dois lados da cama, o que lançava o salão numa luz tênue, alaranjada.
— Valens trouxe vocês até aqui também? — indagou Fletcher, enquanto o Caruncho pousava no peito da mestra.
— Ele nos encontrou há mais ou menos uma hora, e saiu voando pela janela assim que chegamos aqui — contou Sylva, enxugando uma lágrima do olho. — Ele deve ter sentido que você estava com problemas.
— Não acho que seja apenas a Valens que devemos agradecer — comentou Fletcher, acariciando a carapaça do besouro demônio.
— O que você quer dizer? — indagou Sylva.
— Arcturo me contou que alguns conjuradores conseguem aprender como ver e ouvir pelo demônio, efetivamente usando sua própria mente como uma pedra de visão. Duvido que um Caruncho pudesse ter feito tudo que Valens fez esta noite sem alguém o guiando. Você estava lá com ele, capitã Lovett? — Fletcher fitou o rosto imóvel da professora.
O demônio zumbiu e girou.
— Não é possível! — exclamou Sylva.
— Como ela sabia? — indagou Fletcher, arregalando os olhos de espanto.
— Ela deve ter ficado de olho na gente. Provavelmente desde que Rook apareceu — disse Sylva, ajeitando o cabelo de Lovett no travesseiro. — Tivemos sorte. Estaríamos mortos se não fosse por ela.
— Se vocês já terminaram de se maravilhar, eu preciso de ajuda aqui — resmungou Otelo com a voz entrecortada.
Os olhos de Fletcher se arregalaram ao ver a perna de Átila.
Otelo tinha cortado o pano em volta e revelado um buraco irregular que ainda derramava sangue.
Fletcher nunca tinha visto um ferimento de bala antes, e o estrago parecia muito pior que o furinho que ele imaginara.
— Tivemos sorte; a bala não acertou nenhuma artéria principal. O osso certamente está quebrado, porém, então não podemos tentar um feitiço de cura. Na última vez em que vi um ferimento assim foi quando um Pinkerton atirou num jovem anão que não tinha pago por proteção — contou Otelo, cortando uma longa tira do lençol com a machadinha. — O melhor que podemos fazer é uma atadura para estancar o sangramento. Levantem a perna dele para mim.
Eles ajudaram Otelo a enfaixar o ferimento, até que a perna de Átila estava embrulhada numa faixa grossa de ataduras brancas.
Cuidadosamente, Otelo limpou o sangue coagulado.
— Sei que Átila parece ser tão racista com humanos quanto muitos homens são com os anões, mas ele tem um bom coração. O problema é que tem uma cabeça quente à altura — murmurou ele, colocando um travesseiro sob a cabeça do irmão adormecido.
Os dois ficaram em silêncio enquanto Otelo enxugava a testa do outro.
Então Sylva falou:
— Acho que precisamos conversar sobre as coisas que aconteceram esta noite.
— De acordo — disse Fletcher. — Mas temos que buscar Serafim primeiro. Ele merece saber o perigo que sua família pode estar correndo.
— Eu vou — decidiu Otelo. — Preciso buscar um uniforme extra no meu quarto, de qualquer maneira. Vamos precisar de um, se quisermos tirar Átila daqui escondido amanhã.
O anão foi embora, seguido por Salomão, que parecia deprimido. Fletcher sabia que Otelo provavelmente estava com o peso do mundo nas costas.
O rapaz se sentou na lateral da cama de Lovett, gemendo de satisfação perante o alívio em seus pés doloridos. Acariciou a cabeça de Sariel distraidamente, e ela respondeu com um barulho de satisfação. Sorrindo, ele coçou o queixo dela do mesmo jeito que fazia com Ignácio. Ela se esfregou de volta e latiu com prazer.
— Hum, Fletcher — gaguejou Sylva.
Fletcher ergueu o olhar e viu que a elfa estava ruborizada, o rosto e pescoço completamente vermelhos.
— Desculpa... eu não pensei! — exclamou ele, tirando a mão.
Sylva ficou parada no lugar por um instante, então suspirou e sentou na cama ao lado dele.
— Eu nunca te agradeci — murmurou ela, torcendo as mãos.
— Pelo quê? — indagou Fletcher, confuso.
— Por ter me seguido. Se você não tivesse… Grindle poderia ter me capturado de novo.
— Não sei não; acho que ele poderia ter tido uma surpresa e tanto. Você disse que Sariel valia dez homens, e isso resultaria numa luta justa. Se não fosse por você, poderíamos estar no meio de uma guerra civil agora. Você tomou a decisão correta.
Valens zumbiu animado e empurrou a mão de Fletcher.
— Acho que a capitã Lovett quer saber o que está acontecendo. Conte a ela o que houve na praça Valentius, e eu explicarei o que aconteceu hoje à noite.
Contar a história toda levou algum tempo; Otelo e Serafim chegaram bem quando eles terminaram.
O recém-chegado ainda estava de pijama, e estreitava os olhos para a luz.
— Otelo me explicou tudo no caminho — declarou ele, fitando os corpos inconscientes de Átila e Lovett. — Eu só tenho uma pergunta. Por que os Forsyth contrataram Grindle para matá-la naquela noite em Corcillum, mas também fizeram amizade com você?
Sylva se levantou e mordeu o lábio.
— Sempre pensei que eles buscavam minha amizade para poderem suprir os elfos no caso de uma aliança se materializar — respondeu ela, andando pelo salão. — Mas o que faz de mim uma inimiga deles? Por que eles me querem morta?
— Acho que a verdadeira pergunta é: por que eles queriam que você fosse executada publicamente? — afirmou Otelo, sem rodeios. — Eles poderiam ter matado você a qualquer momento. Por que fazer um manifesto disso?
— Para incitar uma guerra entre os elfos e Hominum — sugeriu Serafim. — Uma guerra de verdade. Isso aumentaria a demanda por armas, e manteria os negócios deles vivos, mesmo com a concorrência dos anões.
Fletcher sentiu uma onda de repugnância. Começar uma guerra por lucro?
— Então eles querem o melhor dos dois mundos... — murmurou ele. — Se os elfos se aliassem a Hominum, os Forsyth planejavam assegurar um contrato de armamentos por meio da amizade falsa com Sylva. Só que eles preferem uma guerra, porque gera mais lucro. Eles não a abandonaram no mercado, Sylva, e sim a levaram direto aos braços de Grindle!
— Não diga “eu te avisei”… — Sylva encarava os próprios pés.
A enfermaria ficou em silêncio, interrompido apenas pelo zumbido furioso de Valens, esvoaçavando de um lado para o outro.
— Aqueles almofadinhas malévolos! — resmungou Serafim. — Eu sabia que eles estavam armando alguma, mas isso... isso é traição!
— Não podemos provar nada! — praguejou Fletcher, cerrando os punhos. — Na verdade, se contarmos a história toda ao rei, é mais capaz de ele pensar que os anões estavam cometendo traição, com o conselho de guerra e tudo aquilo.
— Não faz diferença — anunciou Sylva. — O plano deles está arruinado. Vou escrever para meu pai agora e contar que os Forsyth não são de confiança. A tramoia para iniciar uma guerra civil com os anões foi detida, e estou em relativa segurança na Cidadela. Não há nada que eles possam fazer para nos prejudicar agora.
— Há, sim — acautelou Serafim. — O torneio. Se um dos Forsyth vencer, ele se tornará um oficial de alta patente e ganhará um assento no conselho do rei. É um voto extra para Zacarias e mais uma voz falando contra minha família, sem falar dos elfos e anões.
Otelo concordou com a cabeça, em seguida coçou a barba, pensativo.
— Não vamos esquecer que as pessoas mais importantes de Hominum estarão assistindo; os nobres e os generais — afirmou o anão, andando de um lado para o outro. — Serão eles quem decidirão se os elfos e anões são aliados valorosos, e depois se reportarão ao rei. Podemos ter certeza de que os Forsyth farão tudo ao seu alcance para nos desacreditar e envergonhar no torneio, também.
— Então nós temos que derrotá-los! — Fletcher se levantou num salto. — Quem disse que não podemos vencer o torneio? Temos um Golem, um Cascanho, um Canídeo e uma Salamandra!
Serafim balançou a cabeça.
— Não somos tão poderosos quanto eles. Até os plebeus do segundo ano levam vantagem sobre nós. Como poderemos vencer?
Fletcher respirou fundo e o fitou, olho no olho.
— Treinando.

6 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!