22 de março de 2018

Capítulo 43


— Certo, homens, prestem atenção agora! — bradou Rotherham.
A noite caía, e Sir Caulder finalmente tinha encerrado as lições com os recrutas, permitindo-lhes um instante para devorar sanduíches de carne de veado antes de retornarem ao que havia se tornado seu campo de treinamento: o antigo gramado da mansão Raleigh.
— Vou demonstrar a maneira certa de armar e disparar um mosquete — prosseguiu o sargento. — Um soldado de elite pode disparar quatro vezes em um minuto. É possível, e vou provar. Vou disparar cinco.
Rotherham sacou o mosquete da alça às costas, uma arma idêntica à dos soldados. Ele a ergueu até a altura do olho e agitou a arma até encontrar um alvo: um toco de árvore coberto de cogumelos.
— Um mosquete consegue atingir um alvo de 13 centímetros a uma distância de 50 metros, mais ou menos a distância daqui até aquele tronco — prosseguiu Rotherham, apertando os olhos na direção apontada pelo cano. — Quando atirarem em um grupo de inimigos, vamos disparar a uma distância duas vezes maior, mas posso garantir que vão conseguir atingir seu alvo quando ele entrar na linha de alcance. Sir Caulder, comece a cronometrar o minuto assim que eu der o disparo.
Sir Caulder assentiu, segurando um relógio de bolso.
— Agora contem comigo — gritou Rotherham. — Um!
Ele disparou em meio a uma nuvem branca de fumaça, e o tronco estremeceu quando a bala espatifou seu centro. Fletcher arregalou os olhos quando a mão de Rotherham arrancou um cartucho de papel de uma bolsinha na lateral do corpo e o abriu com os dentes. Ele despejou uma pitada de pólvora negra na caçoleta do mosquete e depois também pelo cano. A vareta chacoalhou fora de seu encaixe embaixo da boca da arma, empurrando a pólvora uma, duas vezes, depois voltou ao lugar, e Rotherham apoiou a arma no ombro. Sua mão puxou o cão da arma. Em um instante: pou.
— Dois!
O tronco vibrou quando outro tiro de mosquete o atingiu, e todo o processo se repetiu mais uma vez. Fletcher sorriu ao ver o velho veterano ardiloso, cujas mãos executavam movimentos que tinham sido absorvidos ao longo de quase uma década. O ar estava cheio do cheiro de enxofre, e a fumaça foi levada pelo vento até os recrutas que observavam Rotherham, maravilhados. Então eles se juntaram à contagem com animação, as vozes ecoando pelas planícies em um coro a cada disparo do mosquete.
— Três!
Outro tiro atingiu a madeira com força, arrancando um pedaço e atirando para cima uma nuvem de terra. Rotherham não hesitou nenhuma vez: cuspia o papel e carregava a arma novamente. Seus movimentos eram quase mecânicos, seus dedos ágeis e rápidos tratavam a arma como um instrumento musical.
— Quatro!
Seu alvo estava em frangalhos, a madeira crua destroçada em uma maçaroca de farpas e serralho. Com certeza já devia ter se passado um minuto. Mas não: Sir Caulder ainda olhava o relógio de bolso. Rotherham suava, mas suas mãos moviam sem pestanejar. A vareta chacoalhou pelo cano, e então, um átimo de segundo depois de Rotherham dar o quinto e último disparo, Sir Caulder gritou:
— Tempo!
Os soldados soltaram vivas e bateram palmas, e alguns começaram a tossir por causa da fumaça que se espalhava em uma névoa ao redor. Aquela fora uma pura demonstração de habilidade, da qual Fletcher se recordaria nos dias vindouros. Ter um exército capaz de atirar tão bem assim seria uma força inesquecível.
— Eu dei a ele um segundo a mais — sussurrou Sir Caulder, indo para o lado de Fletcher. — Mas isso com certeza inspirou os rapazes, não?
— Com certeza — concordou Fletcher, observando seus soldados se levantarem, cansados, para parabenizar seu sargento. — Não conte isso a ele, ele ficará desapontado.
— Nem sonhando — disse Sir Caulder, sorrindo enquanto o velho veterano aceitava com relutância os elogios dos recrutas. — Ele e eu lutamos lado a lado em muitas batalhas, e ele me salvou de enrascadas mais vezes que posso contar. Dará um excelente sargento.
O crepúsculo descia uma vez mais, lançando um brilho cálido e alaranjado sobre o terreno. Os homens, em fileira, haviam recebido alvos a uma distância de 15 metros: pedras de calçamento cobertas de musgo, descartadas havia muito tempo da explosão que ocorrera anos antes. Primeiro, Rotherham fez com que eles executassem os movimentos de carregar a arma sem usarem munição de verdade para não desperdiçá-la, mas, depois de uma hora corrigindo sua técnica, sentiu que estavam prontos para começar a disparar com cartuchos de verdade. Agora Fletcher, Genevieve e Rory estavam ao lado, observando os procedimentos.
— Preparar! — berrou Rotherham. Ouviu-se o clique de 38 cães sendo puxados para trás. — Apontar!
Trinta e oito mosquetes foram levantados e apoiados no mesmo número de ombros. Fletcher olhou para o final da fileira. Sete armas pareciam mais baixas que as demais, em função da diferença de altura dos anões.
— Fogo!
Uma barreira de barulho atingiu os ouvidos de Fletcher, e a fumaça explodiu em grandes golfadas brancas. Balas de mosquete bombardearam as pedras, mas Fletcher não contou mais que doze baforadas de poeira lançadas pelos alvos. As outras balas se espalharam pela grama alta mais além, ou então atingiram o chão a alguns centímetros de distância.
— Carregar! — bradou Rotherham.
Vieram então o barulho metálico das armas e os movimentos frenéticos dos homens apanhando os cartuchos e rasgando-os com os dentes. Fletcher contou baixinho. Quinze segundos se passaram antes de Rotherham berrar:
— Preparar!
Foi um caos. A maioria dos homens ainda estava enfiando a pólvora cano abaixo, e mesmo os mais velozes ainda estavam cutucando as aberturas das varetas, tentando fazer com que deslizassem para o lugar certo.
— Apontar! — berrou Rotherham.
Não mais que um punhado de mosquetes foi erguido.
— Fogo!
Lamentáveis três tiros foram espalhados pela grama alta, seguidos pela vareta rodopiante de um dos atiradores, que tinha se esquecido de retirá-la do cano. Nenhum atingiu o alvo.
Rotherham suspirou e correu a mão cansada pelo rosto.
— Chocante — grunhiu ele. — Pontaria, lamentável. Carregamento, horroroso. Vocês vão continuar me encontrando aqui ao pôr do sol todos os dias para praticar, e vamos continuar fazendo isso até que consigam disparar pelo menos quatro vezes em um minuto. Vocês serão os melhores, cavalheiros.
— Essa foi só nossa primeira vez — reclamou o condenado com pele marcada.
— Se você fizesse isso no campo de batalha, os orcs o comeriam no café da manhã — devolveu Rotherham, rodeando o rapaz. — É sua sobrevivência que depende da rapidez e precisão com que você consegue disparar aquele mosquete.
Os recrutas olharam para baixo, envergonhados.
— Mas não se preocupem — disse Rotherham, a voz subitamente animada. — Logo, logo, vocês estarão transformando tocos de árvore em serralho. Dispensados!
Os soldados soltaram um grunhido de alívio e voltaram na direção da igreja, deixando Fletcher a sós com Rory, Genevieve, Sir Caulder e Rotherham. Aguardaram até que estivessem sozinhos.
— Vamos precisar de mais munição para o treinamento — disse Rotherham, com ar de desculpas. — É a melhor forma de aprender.
— Você a terá — disse Fletcher. — Mas preciso que me dê o nome de seus oito melhores atiradores. Eles não precisam ser rápidos, só precisos.
— Para os rifles? — perguntou Rotherham.
— Isso mesmo.
— Athol me mostrou, no caminho até aqui — disse Rotherham, coçando o queixo. — Já tenho alguns em mente. Bons atiradores são sempre úteis; podem atingir os que vêm na linha de frente em um ataque e neutralizar os batedores e sentinelas inimigos, como pode ser o caso.
— Ótimo — elogiou Fletcher. — Sir Caulder, você pode ficar com as tardes para treinamento.
— Por mim tudo bem — respondeu o velho soldado. — Eles estarão treinados em breve. Vou ensinar como se rebatem lanças, porretes, macanás, cavalarias... o escambau. Basta apenas me dar algumas semanas.
— Temos só o tempo até aqueles homens que estão defendendo o desfiladeiro resolverem partir — disse Fletcher, olhando para a serra. — Então, só vai nos restar torcer para que os orcs não tentem atacar.
Um calafrio desceu pela espinha de Fletcher. Ele dissera a Khan que era um Raleigh. O orc albino sabia que aquelas eram suas terras ancestrais. Se estivesse buscando vingança, aquele seria o primeiro lugar que atacaria.
— Deixe-os preparados — pediu Fletcher, estremecendo apesar do calor.
— Talvez precisemos entrar em combate mais cedo que pensamos.

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