13 de março de 2018

Capítulo 43

As equipes se ajoelharam à entrada do corredor, examinando o mapa rudimentar da caverna que Mason tinha improvisado. Os demônios lotavam o túnel adiante, servindo de vigias.
— Eu não faço ideia de como esse túnel se liga com as cavernas, mas vou conhecer tudo muito bem quando a gente estiver lá dentro — explicou Mason, usando a espada para apontar uma grande câmara no meio. — Essa é a principal. Só fui lá uma vez, mas sei que é onde guardam os ovos de goblin. É uma câmara de magma, então esquenta. Pelo que eu vi, a ninhada mais antiga choca bem quando a mais nova chega, então a gente tem que tomar cuidado.
Ele olhou receoso para trás, túnel abaixo, depois para os ovos inchados no fosso.
— Alguns goblins devem vir pra recolher esse aí em algum momento, então a gente tem que seguir em frente logo.
— E quanto aos prisioneiros? — perguntou Cress, agachando-se ao lado dele. — Onde são mantidos?
Enquanto ela falava, Sylva observou seu rosto atentamente, a mão no cabo da falx.
Mason apontou um recinto conectado à caverna principal por um túnel longo e estreito, com outro corredor que se bifurcava para a superfície.
— É aqui que eles às vezes mantêm os prisioneiros. Não sei se meus amigos estarão lá a essa hora do dia.
— E a minha mãe fica aí? — indagou Rufus, os olhos arregalados.
— É. Ficava numa jaula. Eles nunca deixavam sua mãe sair ou a gente falar com ela — contou Mason, meneando a cabeça. — A gente não podia nem falar uns com os outros lá dentro; tinha goblins por perto a droga do tempo todo. É lá que a maioria deles dorme, ainda mais quando é dia de festa, que nem hoje. Já devem ter enchido a cara até cair a essa altura, mas a gente ainda vai ter um trabalhão pra sair sem ser visto.
Ao ouvir essas palavras, Rufus sacou a espada e se postou ao lado do próprio demônio, um Lutra com forma de lontra, no fim do túnel. Fletcher sabia como o rapaz se sentia. Ele daria qualquer coisa por uma chance de ver a mãe de novo.
Isadora bateu palmas uma vez, fazendo todos pularem.
— Certo, eis como tudo vai acontecer — disse ela, apontando o túnel. — Nós destruímos os ovos na caverna principal discretamente, até sermos descobertos e o alarme soar. Quando isso acontecer, o importante será destruir o máximo de ovos possível. Pólvora, bolas de fogo, relâmpagos, não importa quão barulhento o método; teremos que destruir a reserva de ovos e sair em segurança.  Alguém tem problema com isso?
Fletcher balançou a cabeça. Apesar dos problemas dele com Isadora, não poderia ignorar o bom senso daquelas ordens. Era o que ele teria feito também.
Isadora continuou, sem se importar com o silêncio dos outros:
— Assim que eles virem que alcançamos os ovos, o Corpo Celeste vai decolar e rumar para nosso ponto de encontro atrás da pirâmide, o que nos dará vinte minutos para completar o objetivo. Quando eles estiverem quase aqui, nossos demônios patrocinadores vão nos avisar que chegou a hora de ir. Teremos dez minutos adicionais para voltar ao ponto de extração nos fundos da pirâmide a partir daí. Chegue depois disso e estará por conta própria.
— E como é que vamos voltar se metade dos orcs do mundo está diante da pirâmide, armada até os dentes? — inquiriu Verity, pegando a tabuleta com Sylva e a erguendo para que todos vissem. A imagem exibia milhares de orcs perambulando do lado de fora, os vários jogos ainda sendo jogados em meio ao pôr do sol.
— Não faz diferença. — Mason espiou a tabuleta. — Eles não vão todos entrar aqui. Só orcs adeptos podem entrar na pirâmide, então a gente só vai encarar goblins, xamãs e os demônios deles quando chegarmos nesse ponto. Mas acho que a gente devia se mexer bem rápido mesmo quando o alarme tocar. As cavernas vão ficar cheias de orcs num segundo.
— Ótimo — disse Fletcher, afrouxando as pistolas nos coldres. — Agora, a não ser que alguém tenha mais perguntas, vamos andando.
— Nossa, mas ele está animadinho hoje — comentou Didric, abrindo um sorriso torto para Fletcher. — Você está esquecendo que tem uma leva de ovos bem aqui. Por que você não fica para trás e cuida deles enquanto os adultos fazem o trabalho de verdade?
Fletcher o ignorou, mas as palavras o fizeram pensar. Virou-se para Jeffrey, que segurava a espada curta diante de si, como se fosse uma cobra venenosa.
— Jeffrey, você fica aqui e destrói estes ovos — instruiu, apontando os globos grudentos que enchiam a área ao redor. — Alguém tem de fazê-lo. Prefiro que você fique de vigia no poço, fora do caminho. Você poderá nos avisar se algum xamã voltar. Tudo bem por você?
Jeffrey assentiu, agradecido.
— Honestamente, eu só iria atrasar vocês. Vou examinar estes ovos recém-fertilizados mais de perto, ver o que eu consigo descobrir.
Ele abriu o ovo mais próximo com um golpe desajeitado. O fedor ali só fez aumentar, provocando um grunhido coletivo.
— Idiota — comentou Didric. — Certo, vamos cair fora daqui.
E, simples assim, a missão tinha começado.
Os demônios foram na frente, seguindo um fogo-fátuo solitário que lançava um brilho tênue pela caverna. As paredes e o teto eram feitos de uma mistura estranha de solo, xisto e raízes que, para Fletcher, parecia tão instável quanto uma cadeira de três pernas. De vez em quando, a poeira caía sobre a cabeça deles, perturbada pela passagem de tanta gente.
— Aqui — disse o rapaz, entregando frascos de mana a Cress, Sylva e Otelo, enquanto guardava a última poção de vida para si. Depois de dois atentados à sua vida, não queria correr nenhum risco.
Quando ele passou o vidro a Cress, Sylva fez uma careta, ainda desconfiada da jovem anã. Porém, àquela altura, isso nada significava para Fletcher.  Tudo que lhe importava agora era proteger Hominum, e não se daria o luxo de se distrair com qualquer outra coisa. Apesar de todas as mentiras e truques sujos, os inimigos não ousariam fazer nada em plena vista dos quatro demônios patrocinadores e diante do mundo inteiro.
Com todos os demônios presentes, Fletcher sentiu uma confiança súbita nas chances deles. Tinham pelo menos uma dúzia de demônios ao todo, variando em tamanho desde a Hidra de Tarquin, Trébio, até o Caruncho de carapaça amarela de Rory.
Fletcher pôde observar o terceiro demônio de Verity avançando logo abaixo de Donzela, que pairava. O rapaz acalmou os nervos examinando-o. Era um Enfield, um primo distante do Vulpídeo. Era menor, apenas do tamanho de um cão grande, mas tinha a cabeça de uma raposa, as patas dianteiras de uma águia, o peito estreito de um galgo e os quartos traseiros de um lobo. As garras da frente eram perigosamente afiadas, com penas castanhas entremeadas em meio ao pelo ruivo da parte anterior e cinzento do dorso. Um demônio elegante em todos os sentidos; assim como a dona, ruminou ele.
Havia uma luz no fim do túnel, um luzir vermelho-alaranjado que lembrava Fletcher da caverna sob o Viveiro. Mason, que caminhava logo atrás dos demônios, ergueu um punho fechado. Os conjuradores detiveram o avanço, e o rapaz se esgueirou agachado até a luz.
Ficou lá por um momento, depois voltou, de olhos arregalados.
— A gente tirou a sorte grande — sussurrou ele. — Malditos milhares deles, empilhados de qualquer jeito.
— Algum goblin? — perguntou Tarquin.
— Nem unzinho — respondeu Mason com um sorriso. — A gente vai ter alguns minutos só pra gente antes que alguém venha atrapalhar. Que nem tirar doce de criança.
— Vamos acabar logo com isso — rosnou Otelo, erguendo o machado de batalha. — O resgate já deve ter decolado a esta altura. Vinte minutos; entrar e sair.
Com essas palavras, as quatro equipes investiram em direção à luz.

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