22 de março de 2018

Capítulo 42

Fletcher parou no meio do caminho e olhou para o velho combatente.
— Ora, ora — disse Rotherham, com as mãos nos quadris. — Quem está aqui?
— Olá, Fletcher — disse Rory, passando a mão nervosamente pelo cabelo.
— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntou Fletcher, incrédulo.
— Bem, um passarinho me contou que você estava recrutando homens — respondeu Rotherham, com um leve sorriso em seu rosto grisalho. — E esse passarinho foi o rei, lógico.
— O rei? — perguntou Fletcher.
— Ah, sim; agora somos unha e carne, nós dois — disse Rotherham, coçando a barba grisalha. — Por que acha que não fui ao julgamento de seu assassinato, Fletcher? Esse nosso rei é um ardiloso; assim que os homens do Triunvirato começaram a me procurar, ele me fez desaparecer de cena, sem um pio. Sabia que eu não ajudaria a melhorar as coisas para seu lado se eu fincasse pé, sendo tão espalhafatoso e um assim chamado desertor. Desde então eu estive mofando em uma fazendinha.
— Você é um bálsamo para meus olhos cansados — disse Fletcher, sorrindo ao ver o veterano grisalho. — Sua experiência vai ser útil para nós, pode ter certeza.
— Sim, senhor. Ou lorde. Nossa, como as coisas mudam, hein? Foi a melhor e a pior decisão que eu já tomei, ter dado aquele livro a você. Pelo que eu vi naqueles cristais de visualização, estaríamos enfiados até os olhos em cocô de goblin a essa altura se não fosse você e o seu diabo pequenininho.
— Bem, ele não é mais tão pequeninho como antes — revelou Fletcher, dando um tapinha nas costas de Rotherham. — Você vai ver.
Ele se virou para Rory e Genevieve, que estiveram aguardando parados em um silêncio constrangido.
— E vocês dois?
— Bem... a gente ouviu falar que você estava precisando de soldados, do mesmo jeito que o Rotter aqui — disse Genevieve. — E... o exército... bem.
— O que Genevieve está tentando dizer é que não gostamos do exército — disse Rory, esfregando a nuca. — Eles não estavam interessados em nossa capacidade de liderança, não queriam nem mesmo que lutássemos.
— Como assim? — espantou-se Fletcher. — Precisamos de todo mago de batalha que pudermos na frente de batalha!
— Eles só nos queriam para recarregar suas pedras de recarga — explicou Genevieve.
A compreensão atingiu Fletcher, e a memória voltou para as aulas com Rook no primeiro ano. As pedras de recarga eram um agrupamento de cristais de coríndon menores e de cor igual, usados para armazenar mana para uso futuro. Ele só as vira serem usadas como ferramenta de auxílio para conjuradores novatos em sua primeira tentativa de abrir um portal para o éter, mas sabia que eram essenciais nas frentes de batalha. O mana excedente era utilizado para manter os escudos dos magos de batalha em funcionamento sobre as trincheiras quando os xamãs orcs atiravam bolas de fogo sobre eles à noite.
— Os Carunchos têm pouco mana, mas se recuperam mais rapidamente que a maioria dos demônios. Por isso, todos os dias nos ordenavam que drenássemos nossos manas nessas pedras e, em seguida, nos dispensavam. Não éramos considerados importantes, porque nosso nível de conjuração é muito baixo — explicou Rory, remexendo a terra com a bota.
— Então, pedimos ao rei uma transferência, e ele a concedeu, com a condição de que você nos aceitasse — concluiu Genevieve, olhando para ele com ar suplicante.
Por dentro, Fletcher estava exultante. Por mais que eles tivessem um nível baixo de conjuração, ter aquela dupla a seu lado seria uma vantagem gigantesca em qualquer batalha. Sem falar que os dois tinham treinamento em estratégia e comando militar.
— Vocês serão segundos-tenentes — declarou Fletcher, tentando não transmitir sua empolgação com o tom de voz. — Mas cada um vai receber o comando de um esquadrão diferente. Se estiverem dispostos a aceitar esses termos, será uma honra recebê-los.
— Aceitamos! — Genevieve riu, e então Fletcher se viu com a boca cheia de cabelo ruivo quando a jovem maga de batalha o abraçou com força.
— Obrigado — agradeceu Rory, estendendo a mão.
Fletcher extraiu um braço do abraço de Genevieve e apertou a mão oferecida com empolgação. Pela primeira vez, sentiu como se Rory e Genevieve o tivessem verdadeiramente perdoado por quase ter matado Malaqui no Torneio. Até aquele momento, ele ainda não tinha se dado conta do quanto aquela culpa pesava em sua consciência.
— Se me permite a ousadia — disse Rotherham, enquanto Genevieve soltava Fletcher e enxugava uma lágrima do canto do olho —, você vai precisar de um sargento ou dois para colocar essas tropas em forma. Mostrar a eles como as coisas são, por assim dizer. Sou macaco velho, combato desde garotinho. Seria presunçoso demais me indicar para o cargo?
O veterano grisalho parecia se remexer de inquietação sob o olhar observador de Fletcher. Ele estava em dívida com ele, isso era certo, e precisava de um sargento para retransmitir as ordens de Genevieve e Rory. Além disso, era um combatente experiente. Conhecia cada truque e atalho das tropas. Por que não...
— Certo, então. Sargento você será — decidiu Fletcher, dando um tapinha no ombro de Rotherham e caminhando para dentro da savana. — Mas fique sabendo que Sir Caulder será seu sargento-major e que você receberá ordens dele. Isso vale para vocês também, Rory e Genevieve: Sir Caulder é seu superior.
Fletcher resistiu ao impulso de virar-se para ver o olhar no rosto de Rotherham. O velho devia ter sido descartado umas mil vezes nas promoções quando estava no exército. Somente um arfar de surpresa lhe deu ideia da reação do homem.
— Agora vamos dar uma olhada nas tropas — gritou Fletcher, dando passadas largas pela grama alta na direção do local de treinamento dos homens.
Eles estavam espalhados em um círculo, e Sir Caulder os pareara, de frente uns para os outros. Os combatentes se atacavam usando não as alabardas, mas sim lanças com peso — simples cabos em cuja ponta estava preso um pedaço de madeira, a fim de imitar o peso, o comprimento e o equilíbrio das alabardas.
— Bom trabalho, Kobe! — berrou Sir Caulder, pois o jovem soldado tinha acabado de passar uma rasteira em seu oponente com o cabo, e agora segurava o bloco de madeira contra sua garganta. — Usem todas as partes da arma. O cabo e o punho são tão úteis quanto a ponta.
Kobe deu um sorriso reluzente. Os dentes brilharam em contraste com a pele escura, e ele estendeu a mão para ajudar o oponente a se levantar.
Fletcher reconheceu o combatente dominado; era um dos condenados, um rapaz magrelo e dentuço com marcas de acne na face. O rapaz ignorou a mão estendida e se pôs de pé atabalhoadamente. Cuspiu nos pés de Kobe e saiu pisando forte.
Kobe encolheu os ombros e saudou Sir Caulder, antes de juntar-se ao círculo.
— Relaxem, rapazes — gritou Sir Caulder, ao ver Fletcher se aproximando. — Façam um intervalo.
As tropas caíram no chão, agradecidas, e muitos dos soldados tomaram água de seus cantis. Seus rostos estavam cobertos de suor graças ao esforço daquele dia, e Fletcher desconfiou que Sir Caulder estava treinando o grupo desde bem cedo.
— Deus abençoe minha alma e amaldiçoe meus olhos! Esse aí é Rotter? — gritou Sir Caulder, mancando até os quatro.
— Espere aí, vocês se conhecem? — perguntou Fletcher. Então ele percebeu: o arfar de Rotherham fora por ter reconhecido o nome de Sir Caulder, não devido à promoção.
— Pode apostar que eu conheço esse aí! — disse Rotherham, rindo de alegria. — Somos unha e carne desde que a gente não passava de moleques. Servimos no mesmo regimento por algum tempo, também, antes que esse velho rato se tornasse importante e virasse o guarda-costas de lorde Raleigh.
— Ei, mais calma com essa história de rato velho — pediu Sir Caulder, cutucando Rotherham com a mão de gancho. — Sou apenas uns poucos anos mais velho que você.
— Mas que coincidência! — Genevieve riu.
— Você sabe o que o povo diz — começou Rotherham, abraçando seu amigo havia tempos perdido. — Existem soldados velhos e soldados valentes, mas não soldados valentes e velhos. Acho que nós somos as duas únicas exceções.
— Rá, talvez um de nós seja — disse Sir Caulder. Virou-se para os dois novos oficiais e lhes deu uma piscadela. — Rory, Genevieve; que bom que estão se juntando a nós. Espero que não tenham esquecido meu treinamento.
— Não, senhor — disse Rory, dando um tapinha no espadim em sua cintura. — Estamos prontos para começar a guerrear.
— Bem, isso vai demorar um pouco ainda; temos algumas semanas pela frente, antes de assumirmos posição naquele desfiladeiro ali. — Sir Caulder apontou para a serra de cumes mais além das ruínas da mansão dos Raleigh.
Fletcher olhou para as montanhas, tentando identificar onde o desfiladeiro estaria. Parecia haver um ponto em que os picos se curvavam para dentro de cada lado no formato de ferradura, com uma depressão no fundo. Agora que olhava com atenção, as montanhas pareciam bastante próximas. Fletcher estremeceu ao pensar no quanto eles estavam perto dos orcs da selva. Ele precisava que seus homens estivessem preparados o quanto antes.
Quem saberia quando as tropas de lorde Forsyth abandonariam seus postos?

3 comentários:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!