13 de março de 2018

Capítulo 42

Eles se encolheram no túnel do fosso, em um ponto protegido do vento e fora da linha de tiro. Só Lisandro ficou fora, escondido novamente entre as vigas para o caso de o assassino voltar.
— Ou a equipe de Isadora está aqui, ou foi Cress — argumentou Sylva, com braços cruzados em desafio. — Não é estranho que ela não estivesse presente nas duas vezes que atiraram em você?
— Não, eu não posso acreditar — respondeu Otelo, igualmente teimosos. — Ela não faria isso conosco. Com Fletcher. Honestamente, acho até que ela tem uma quedinha por ele.
Sylva ficou vermelha com aquelas palavras, mas cerrou os dentes e encarou Otelo.
— Ela poderia ser uma fanática. Talvez ela queira uma guerra, e essa coisa de não vestir véu seja só uma fachada. Ela poderia ser igualzinha a como Átila já foi. — Os olhos de Sylva dardejavam de um lado a outro conforme ela falava. — Eu... nós quase o perdemos!
Esta era uma garota diferente da que ele tinha conhecido. Ainda estava bem colada nele, e Fletcher não tinha como deixar de se perguntar se alguma coisa teria mudado entre os dois naquele fugaz momento juntos.
Sylva tinha até conjurado Sariel, que vigiava o túnel escuro com atenção. Sylva acariciou o pelame do Canídeo distraidamente, e o demônio choramingou, infeliz.
— Lisandro viu quando fui atingido — sussurrou Fletcher, recostado na parede. — Se Cress não estava à vista de Calibã ou Sacarissa quando o ataque aconteceu... Hominum inteira vai pensar que foi ela. A seta tinha penas azuis.
— Provavelmente foi ela! — exclamou Sylva, exasperada. — Quantas vezes vou ter que repetir? Não podemos confiar em Cress.
— Você não entende? Eu não ligo se foi ela ou não — rebateu Fletcher em voz baixa. — Toda a boa vontade que acabamos de conquistar com a descoberta das chaves órquicas se perderia.
— Lisandro mal viu acontecer — sugeriu Otelo, com generosidade. — Além disso, deste ângulo, eles não conseguiriam ver a cor das penas.
— Talvez... — disse Fletcher, desanimado. — Mas um anão tentando assassinar um humano causaria revolta por toda Hominum.
— Não só um humano. Você é um nobre agora — suspirou Otelo, virando-se em seguida para Sylva. — De qualquer maneira, não é tão simples assim. A turma de Malik esteve do nosso lado do rio o tempo todo, também. Ele poderia guardar rancor de você depois da sua vitória no Torneio. Verity está na equipe dele: talvez esteja trabalhando para o Triunvirato. A avó é um deles, afinal.
— Você realmente acha que pode ter sido Verity? — indagou Fletcher, tentando imaginar aqueles grandes olhos mirando a besta, apontada para ele.
— Por que não? Só porque ela é bonitinha? — Sylva olhou feio para Fletcher.
— Pode ter sido Rory ou mesmo Genevieve, ainda furiosos por você quase ter matado Malaqui ano passado — continuou Otelo. — Não esqueça que o time de Serafim estava por perto também.
Fletcher se perguntou como adquirira tantos inimigos. Parecia que metade de Vocans tinha um motivo para matá-lo.
— Se vocês são cegos demais para ver, não vou discutir — ralhou Sylva, balançando a cabeça. — Não vou dizer nada quando ela aparecer. Mas vou ficar de olho.
Quando recaiu um silêncio mal-humorado sobre eles, um grasnar veio de cima. A equipe se preparou num instante; Fletcher e Sylva com as cordas dos arcos puxadas, Otelo com um feitiço de fogo entalhado. Eles esperaram, ansiosos, mirando as plataformas acima.
Didric espiou lá de cima.
— Eu falei que sentia fedor de esterco por aqui — comentou jovialmente. — Olhe, Tarquin, encontrei a origem.
Otelo sussurrou pelo canto da boca:
— Viu?
Sylva fez uma careta de raiva, mas ficou calada, a flecha apontada para o centro da cara de Didric. A cabeça de Tarquin surgiu, e ele franziu o cenho ao ver o grupo.
— Ora, ora! — exclamou ele com sua fala arrastada, levantando as mãos numa rendição zombeteira. — Vocês chegaram aqui, afinal. Acho que só temos nós mesmos a culpar, depois que os salvamos daquela patrulha.
— Vocês salvaram a gente? — grunhiu Otelo, incrédulo. — Se não tivéssemos voltado para ajudar, vocês agora não passariam de uma mancha marrom no fundo de uma latrina órquica!
— Ah, largue disso. Quanta bobagem. — A voz de Isadora ecoou do alto. — Grindle, querido, faça-me a gentileza de carregar o Atlas para nós. Ele está com um aspecto certamente medonho.
Uma sombra passou sobre eles, e então Fletcher viu o Wendigo, Aníbal, descendo na frente, o corpo magro e desengonçado tendo dificuldade com os estreitos degraus. Grindle surgiu logo atrás, com Atlas pendurado no ombro. Ele sorriu para os outros e foi seguido por Isadora, que saltitava alegremente. De alguma forma, o uniforme preto parecia tão limpo quanto estivera no dia em que chegaram na selva.
Fletcher e os outros foram obrigados a baixar as armas enquanto o Wendigo descia, os olhos negros fixados atentamente neles.
Tarquin e Didric vinham logo atrás. Quando chegaram à base do pilar, imitaram Grindle e saltaram sobre o fosso, como Otelo e Sylva tinham feito, enquanto o Wendigo vadeava a trincheira e erguia Isadora sobre o líquido. Fletcher revirou os olhos. Um verdadeiro cavalheiro...
— O que aconteceu com Atlas? — perguntou Fletcher, espiando o rapaz quase inconsciente.
— Ele comeu umas frutinhas ou coisa assim que não lhe caíram bem ontem, depois que atravessamos o rio — respondeu Isadora, examinando as unhas. — O bolo-fofo engolia tudo à vista. Duvido que vá sobreviver. Inútil trazê-lo conosco; ele nos atrasou o caminho inteiro. Só que Tarquin pareceu pensar que ficaria feio se nós o deixássemos para trás.
Fletcher se ajoelhou ao lado do rapaz adoecido. Ele estava muito pálido, e a respiração, superficial e inconstante.
— Há quanto tempo vocês estão aqui? — perguntou Fletcher, puxando outro frasco de cura da bandoleira. — Nós ficamos esperando vocês na entrada dos fundos.
— Acabamos de chegar — grasnou Didric com sua voz queimada, cutucando distraidamente um dos ovos com a rapieira. — Levamos uma eternidade, tendo de carregar esse idiota o caminho quase todo. Tivemos sorte de quase todos os orcs estarem do outro lado da pirâmide.
— Nós esperamos por vocês, sabia? — grunhiu Otelo. — Um agradecimento seria legal.
— Ninguém lhes pediu nada — retrucou Tarquin, dando de ombros.
Fletcher os ignorou e considerou o frasco. Ele só tinha mais dois, e o último lhe tinha salvado a vida. Será que poderia mesmo sacrificá-lo para salvar a pele daquele garoto traiçoeiro? Foi só um olhar de repreensão de Lisandro que o fez decidir-se. O mundo estava assistindo.
Ele tirou a rolha e derramou um pouco do líquido na boca de Atlas. O rapaz lambeu os lábios e engoliu.
— Você está perdendo tempo com ele; já tentamos o feitiço de cura. Esse aí já era, com certeza — observou Grindle, que depois se virou para Sylva e piscou um dos olhos. — Bacana ver que a elfa não morreu. Seria uma pena deixar que um orc me roubasse o prazer de matá-la eu mesmo.
Os dedos de Sylva se apertaram no cabo da falx com tanta força que a arma chegou a vibrar no ar ao lado dela. Apesar disso, ela respondeu com um olhar firme e frio.
— Por favor, tente. O prazer seria meu.
Conforme o frasco de elixir se esvaziou, a cor de Atlas começou a voltar. Ele tossiu e se sentou, olhando em volta com um aspecto sonolento.
— O feitiço de cura não fez nada — comentou Isadora, incrédula. — Gastamos imensas quantidades de mana tentando.
— Parece que o elixir é antiveneno também — observou Fletcher, conferindo a bandoleira no ombro. Só lhe restava um frasco vermelho de cura, mas ainda havia três dos azuis de mana. Seriam úteis na hora de destruir os ovos.
Atlas encarou Fletcher, com a confusão estampada no rosto. Fez menção de falar, mas hesitou a um pigarro de Tarquin. Atlas se virou na direção do barulho e, depois de uma breve pausa, levantou-se e andou, resignado, até os outros.
— De nada — resmungou Fletcher, sarcástico.
Mais um grasnado de Lisandro ecoou do alto, anunciando a chegada dos demais. Os olhos de Fletcher encontraram Cress, e ele considerou brevemente se as suspeitas de Sylva poderiam estar corretas. Mas um olhar ao rosto feliz da anã o convenceu de que ela era inocente.
Fletcher afastou a desconfiança da mente e contemplou o corredor escuro. Ar quente e fétido parecia soprar para dentro e para fora, como a respiração de um gigante adormecido. Agora era a hora. Todos os riscos que eles correram, tudo pelo que tinham passado, tudo levara àquele momento. Tinham alcançado as cavernas dos goblins com meia hora de sobra, e o ataque estava para começar.

2 comentários:

  1. ou vai ser Cress e Sylvia vai disser eu avisei ou vai ser alguém que eles que eles nunca esperavam tipo um irmão do mal do Fletcher.

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  2. Tem algurem Com muito ciume do Fletcher.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!