2 de março de 2018

Capítulo 42

Os anões montados seguiram Otelo caverna adentro, o baque dos cascos dos javalis ecoando até desaparecer no subterrâneo.
— Eles estavam esperando por Otelo. Ainda acha que não é problema nosso? — sussurrou Sylva.
— Bem, não exatamente. Esse conselho de guerra poderia ser sobre qualquer coisa. Afinal, eles acabaram de entrar para o exército. — A voz de Fletcher soava grave e aborrecida. Ele estava decepcionado com Otelo. O anão conhecia todos os seus segredos, até os mínimos detalhes. Como pôde seu melhor amigo esconder isso dele?
— Os anões podem estar tramando uma rebelião — retrucou Sylva. — Pense bem. O rei Alfric criou as leis mais severas contra os anões em toda a história, mesmo que seu filho, Harold, tenha começado a aboli-las. Eles já se revoltaram contra Hominum por muito menos no passado, sem falar no fato de que agora têm o monopólio da produção de mosquetes.
— Não posso acreditar nisso. Otelo está tão determinado a promover a paz entre nossos povos, ele jamais arriscaria tudo isso! — sibilou Fletcher, furioso com a insinuação da elfa.
— Você está disposto a arriscar uma guerra civil com base nisso? — perguntou Sylva.
Fletcher fez uma pausa, em seguida socou a terra molhada.
— Tudo bem. Mas não tem como segui-lo. Ele tem uma escolta armada. Avisar os Pinkertons também não é uma boa ideia; eles invadiriam a caverna e começariam a guerra civil esta noite — ponderou Fletcher, explorando as opções. — O que você sugere?
— Nós somos conjuradores, Fletcher, vamos mandar Ignácio se esgueirar pelos guardas e espiar o que está acontecendo. Você terá que me contar o que estão dizendo. Eu não poderei escutar.
— Por que não enviar Sariel? — discutiu Fletcher.
— Porque ela mal cabe naquela caverna e jamais passaria despercebida pelos guardas. Além disso, precisamos de alguém para nos proteger aqui. — Sylva soava exasperada.
— Você só está fazendo isto para descobrir se há alguma tramoia e usar essa informação para conquistar a boa vontade do rei — acusou Fletcher.
— Não é a única razão, Fletcher. Se uma guerra civil irromper no meio da guerra atual contra os orcs, quem sabe o que pode acontecer? Nós dois sabemos que precisamos ver o que está acontecendo nesse conselho de guerra. Agora pare de perder tempo e use minha pedra de visão com Ignácio. Se usarmos sua lasca, não vamos ver nada que preste.
Sylva removeu um fragmento de cristal do bolso do uniforme. Era oval e cerca de quatro vezes maior que a pedrinha do tamanho de uma moeda que Fletcher recebera.
— Rápido, provavelmente já perdemos o começo da reunião — urgiu ela.
Fletcher tocou a pedra de visão na cabeça de Ignácio, acordando o diabrete de seu sono profundo.
— Vamos lá, parceiro. Hora de colocar todo aquele treino em prática. Pelo menos alguma coisa boa vai sair do fato de Rook não deixar que fizéssemos nada além de treinar visualização.
Ignácio bocejou em protesto, mas acordou imediatamente ao sentir o humor de Fletcher. O demônio saltou-lhe do ombro e correu até a beirada do penhasco. Cravando as garras na rocha, Ignácio se arrastou verticalmente até a boca da caverna. Então, como se fosse a coisa mais fácil do mundo, o diabrete continuou correndo de cabeça para baixo no teto da caverna, aventurando-se nas profundezas da terra.
— Uau, não sabia que ele podia fazer isso — sussurrou Sylva, virando a pedra de visão de cabeça para baixo nas mãos de Fletcher a fim de que a imagem invertida fizesse mais sentido.
— Nem eu. Ignácio ainda consegue me surpreender — respondeu Fletcher, cheio de orgulho.
Controlar Ignácio era fácil. A conexão mental deles tinha sido afiada pelas muitas horas de treino nas aulas de Rook, e precisava pouco mais do que uma sugestão de pensamento para ajustar a trajetória do demônio explorador para um lado ou outro. A caverna era escura, mas a visão noturna do diabrete era muito melhor que a de um humano. Dava para discernir a longa e sinuosa passagem com facilidade.
Passados apenas alguns minutos, o túnel se alargou e o brilho tremeluzente de tochas surgiu adiante. Fletcher incitou Ignácio a reduzir a velocidade, pois conseguia ouvir o clique das garras do demônio através da conexão. Seria melhor não dar aos guardas um motivo para olhar para cima.
Os dois anões montados que escoltaram Otelo esperavam na boca do túnel acompanhados de mais de duas dúzias deles. Estavam enfileirados, vigiando o túnel adiante como falcões. Felizmente para Ignácio, a luz das tochas não alcançava o teto da caverna. Ele seguiu rastejando na penumbra, passando despercebido pelos guardas atentos.
O teto do túnel subia cada vez mais. Agora Ignácio estava a quase 25 metros de altura. Qualquer passo em falso poderia lançá-lo à morte, mas o demônio continuou escalando, escolhendo uma trilha por entre as estalactites de gelo. Finalmente, o túnel se abriu numa caverna com forma de domo, iluminada por centenas de tochas.
A caverna era o nexo central de uma rede de túneis similares, como o eixo e os raios de uma roda. O luzir de tochas no fim de cada túnel indicava que eles também estavam guardados por anões montados.
— Qualquer que seja o assunto desta reunião, eles não estão dando a menor chance ao azar, né? — sussurrou Sylva.
Fletcher indicou que a elfa se calasse, pois Ignácio estava olhando para baixo. Dezenas de anões estavam reunidos ali, sentados em bancos feitos de pedra lavrada grosseiramente. No meio, havia uma plataforma rochosa elevada, ocupada por um anão. Fletcher mal podia ouvir sua voz trovejante.
— Precisamos chegar mais perto. Não consigo ouvir o que ele está dizendo — murmurou Fletcher, orientando Ignácio a olhar em volta pela caverna. As paredes eram iluminadas pela luz irregular das tochas, e não havia como o demônio descer por elas sem ser visto.
— Mande Ignácio descer por aquilo ali — sugeriu Sylva, apontando para a grande estalactite que descia um terço da distância até o piso da caverna.
Fletcher ordenou que o demônio usasse a rocha pontuda para descer, urgindo-o a ser cauteloso.
Em seguida, fechou os olhos e começou a sussurrar as palavras que estava ouvindo.
— … Eu lhes digo novamente, este é o momento perfeito para rebelião! Não houve uma situação melhor em dois mil anos. O exército de Hominum está atolado entre duas guerras, os elfos ao norte e os orcs ao sul. Eles não podem enfrentar uma terceira. De um ponto de vista tático, estamos bem posicionados para invadir o palácio e manter o rei e seu pai como reféns.
O orador era um anão grande e corpulento com uma atitude autoritária. Ele encarou, por sobre o nariz, os ouvintes sentados, e enfim desceu os degraus da plataforma. Outro anão esperava abaixo, este mais velho, com mechas grisalhas na barba. Ele apertou a mão do mais jovem e assumiu seu lugar no púlpito.
— Obrigado, Ulfr, pelas palavras instigantes. Você fala a verdade, mas temos ainda mais uma carta em nossas mangas. Como todos vocês sabem, somos os únicos fabricantes de armas de fogo. Neste momento, nove em cada dez soldados no exército de Hominum foram treinados apenas na arte de carregar e disparar um mosquete, sem armadura alguma, e nada além de uma baioneta para combate corpo a corpo. Se cortássemos o fornecimento de armas, eles se tornariam nada além de uma milícia mal equipada e sem treinamento. Outra vantagem que não pode ser ignorada…
As palavras dele provocaram brados de vivas dos anões, e logo eles começaram a entoar seu nome.
— Hakon! Hakon!
Porém, muitos permaneceram calados, encarando-o com braços cruzados. Claramente, a multidão estava dividida.
— Uma vantagem adicional, talvez a maior de todas, é a munição. As minas de Pasha são controladas pelos nossos aliados e empregam mineiros anões. É nosso povo que produz a pólvora e as balas de chumbo. Sem esses dois recursos, os mosquetes que Hominum já tem se tornarão inúteis. Uma vez que eles esgotarem seus estoques de munição… nós venceremos esta guerra!
Mais vivas se seguiram, mas desta vez houve vaias também. Um anão saltou de seu assento e correu até o palco. Ele apertou a mão de Hakon e sussurrou em seu ouvido.
— É Otelo! — exclamou Sylva.
Fletcher balançou a cabeça.
— Não é, não. Eu sei por causa da forma como o cabelo foi trançado. Otelo tem um gêmeo. Seu nome é Átila e ele odeia a humanidade com fervor.
— Traidores e covardes! — urrou Átila quando Fletcher sintonizou de novo. — Vocês são anões de verdade… ou meio-homens?
Vários deles, furiosos, levantaram-se num salto, gritando tão alto que Fletcher quase podia ouvir os ecos da caverna abaixo de onde ele e Sylva estavam sentados.
— Nenhum de vocês sentiu o peso dos cassetetes dos Pinkertons? Quantos aqui não tiveram seu dinheiro, conquistado com trabalho e suor, extorquido de suas mãos? Quem aqui não teve um filho ou irmão jogado na cadeia por um juiz com ódio dos anões? Vocês gostam de terem de rastejar diante do rei para conseguir a permissão de ter mais de um filho?
Os berros quase dobraram em volume conforme os anões se levantavam e gritavam de raiva. Subitamente, um rugido gutural trovejou pela caverna, silenciando o alvoroço.
— Basta! — gritou uma voz familiar. Otelo abriu caminho em meio à multidão e subiu as escadas dois degraus de cada vez. Salomão, a origem do rugido, o seguiu. — Sou Otelo Thorsager, primeiro oficial anão em Hominum, e o primeiro conjurador do nosso povo. Reivindico o direito de falar.
— Vamos logo com isso, então, adorador de humanos — bradou Átila.
— Não podemos guerrear contra Hominum — afirmou Otelo numa voz alta e clara. — Rei Harold está nos oferecendo uma chance de igualdade, vocês não percebem? Se iniciarmos uma guerra, perderemos, sem sombra de dúvida. O exército de Hominum sozinho já supera a população enânica em dez para um. A maioria dos anões em idade de lutar está a caminho do treinamento na frente élfica, cercados por soldados veteranos e tão longe de Corcillum quanto é possível. Vocês acham que podem invadir o palácio com a centena de anões que sobrou?
— Se for necessário! — gritou Hakon, gerando gritos de concordância dos seus partidários.
— E o que vai acontecer em seguida? As notícias do nosso ataque chegarão aos generais no norte em questão de dias, transportadas por demônios voadores. Esses generais vão massacrar nossos jovens guerreiros sem hesitação. Mesmo se planejássemos com eles, e daí? Como mil anões inexperientes poderiam tomar toda a frente élfica? Mesmo sem mosquetes, os magos de batalha poderão despedaçar nossos guerreiros em minutos. O próprio rei é um dos evocadores mais poderosos a pisar nesta terra, e vocês supõem que poderíamos fazer dele um refém? Não teríamos a menor chance!
— E daí? Prefiro morrer lutando contra eles a fazê-lo ao lado deles. Aposto que pensam que você é uma piada, passeando por aí com esse seu demoniozinho — acusou Átila.
— Era isso que eu também pensava, quando cheguei a Vocans. Mas estava enganado. Há boas pessoas por lá. Diabos, no primeiro dia em que pisei na academia, um deles me mostrou um cartão dos Bigornas!
— Os Bigornas? Eles não passam de humanos que sentem pena de nós, nada mais. Não é nada além de um hobby para eles. Os anciãos nem confiam nesse grupo o suficiente para chamá-los para esta reunião — retrucou Átila.
— E eu também não chamaria, já que o assunto discutido aqui é guerra franca contra o povo deles. Estamos conquistando aliados lentamente; primeiro os Pashas, e agora os Bigornas, que estão iniciando um movimento para nos apoiar. Até mesmo o rei afirmou que está disposto a rever as leis e refrear os Pinkertons, uma vez que provarmos que somos de confiança. Mas o que fazemos? Exatamente o contrário; discutimos uma rebelião. — Otelo, furioso, cuspiu nas botas do gêmeo.
— Você não é um anão de verdade! Não merece o signo enânico estampado nas suas costas. Tenho vergonha de chamar você de irmão! — gritou Átila.
Ele arrancou a camisa de Otelo para revelar a tatuagem nas suas costas. Com um rugido, o irmão agarrou Átila pelo pescoço e os dois giraram pelo palco, um tentando estrangular o outro. Salomão avançou para ajudar, mas logo parou, como se o evocador tivesse mandado o demônio se deter.
Uhtred irrompeu na plataforma, separando os dois gêmeos à força. Atrás dele, uma procissão de anões de cabelos brancos subiu no palco. Eram idosos e veneráveis, com longas barbas prateadas enfiadas nos cintos.
— Eles devem ser o Conselho Enânico — sussurrou Sylva para Fletcher. O menino concordou com a cabeça e urgiu Ignácio para escutar mais atentamente, pois aqueles anões não pareciam ser do tipo que gritava e berrava.
O salão caiu num silêncio profundo e respeitoso. Até Átila se acalmou, baixando a cabeça em reverência. O mais velho dos anciãos deu um passo à frente e abriu bem os braços.
— Todos aqui desejam liberdade para nossos filhos, não é? Se não formos capazes de enfrentar as adversidades unidos, então já estamos derrotados.
Os anões começaram a se sentar, muitos olhando para os pés, envergonhados.
— Já ouvimos tudo que precisávamos ouvir. Há muitas cabeças quentes aqui esta noite, mas a decisão que estamos prestes a tomar será levada muito a sério. Eu lhes pergunto o seguinte: que bem nos fará morrer corajosamente na busca pela liberdade? Quatorze vezes os anões se rebelaram, e quatorze vezes fomos levados à beira da extinção. Vocês, jovens anões, não se lembram do massacre que sofremos na última revolta. Todas as vezes em que perdemos, mais liberdades nos são tomadas, mais sangue enânico é derramado.
Vários anões acenaram com a cabeça, indicando concordância.
— Vejo dois caminhos à nossa frente. Um já foi bem trilhado, porém, toda vez que o seguimos, acabamos de volta onde começamos, derrotados e ensanguentados. Só que há um segundo caminho. Não sei aonde leva, ou quais são os perigos que nos aguardam nessa trilha, mas sei no fundo do meu coração que é melhor seguir o destino incerto do que aquele da gloriosa porém garantida derrota. Não haverá guerra, meus amigos. Vamos honrar nosso acordo com o rei.
Fletcher foi tomado pelo alívio. Otelo tinha se esgueirado para argumentar contra a rebelião, não para apoiá-la. Além disso, ele tinha conseguido conquistar a opinião dos anciãos. Não queria pensar no que seu amigo teria feito se a decisão tivesse seguido na outra direção, mas não valia a pena pensar nisso. Tudo ia ficar bem.
— Fletcher, o que foi aquilo? — indagou Sylva, puxando o braço do rapaz.
Havia tochas adiante, movendo-se velozmente por entre as árvores. Os dois se abaixaram atrás do penhasco e observaram, com o coração na boca.
Viram dez homens, cada um armado com um mosquete e uma espada. O líder resfolegava com o esforço; mesmo nas trevas, Fletcher percebeu que se tratava de um homem extraordinariamente gordo.
— Você tem certeza de que é esta caverna? — indagou um deles, erguendo uma tocha para iluminar a área. Fletcher gelou quando a luz revelou os rostos dos recém-chegados.
— Certeza absoluta — afirmou Grindle.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!