22 de março de 2018

Capítulo 41

Eles não caçaram nada naquele dia. Os homens começaram a trabalhar, usando as alabardas para cortar as primeiras árvores a serem utilizadas na reconstrução de Raleightown. As carroças foram preparadas e levadas para a savana a fim de transportarem os primeiros galhos, cortados dos troncos para que os carpinteiros construíssem itens, como pratos e móveis de madeira. Apesar de haver homens o suficiente, Fletcher se juntou a eles, ficando só de camisa e cortando a base da própria árvore com um machado que veio no comboio.
A cada hora, o grito de “Madeira!” precedia o estalar de galhos caindo e o tremor do tronco despencando no chão. Então os homens se juntavam sobre ela, como cupins, cortando os galhos e deixando o tronco para ser transformado em tábuas, tarugos e lenha.
Quando o sol começou a se pôr, os soldados finalmente puderam descansar. Seus braços estavam exaustos, mas após meia hora, apesar do cansaço do trabalho, Fletcher pediu que cordas e colonos fossem trazidos da cidade.
As toras de madeira eram pesadas demais para que eles as colocassem nas charretes, então os troncos foram amarrados com cordas e arrastados até onde estavam os carpinteiros, que já tinham as ferramentas de prontidão para uma noite de trabalho. Se os javalis não tivessem ajudado, eles provavelmente não teriam conseguido.
Então foi a vez dos carpinteiros começarem os trabalhos com a ajuda de um grupo de colonos. Os soldados foram levados à igreja, onde receberam leite de cabra quente e raízes enânicas fritas para aplacar a fome. Mas Fletcher não se juntou a eles, pois os primeiros troncos estavam sendo transformados em algo que devolveria à cidade sua antiga glória.
Enquanto caminhava da igreja à carpintaria, ele ficou impressionado com a diferença que apenas um dia havia feito. Os destroços que estiveram espalhados pelas ruas foram limpos. Arbustos foram aparados, cipós cortados e musgos arrancados das rochas.
Os carpinteiros estavam extasiados quando Fletcher chegou, pois havia mais de uma dúzia de toras de madeira a serem trabalhadas. Eles mostraram como a metade de cada tronco era formada por um círculo mais claro de cortiça, que cercava um miolo tão escuro que a cor mais se aproximava do preto. Era ébano da melhor qualidade, foi o que os carpinteiros disseram a ele: refinado e denso.
Eles não trabalhavam sozinhos. Berdon e Milo já derretiam o ferro enferrujado que não podia ser limpo, e o moldavam em novas ferramentas que seriam utilizadas para reconstruir a cidade — pregos, martelos, furadores e os arames que seriam necessários para segurar as vigas de madeira.
Thaissa forneceu a Fletcher as medidas das janelas das casas da cidade, assim como o nome de um anão que trabalhava com vidro e que cobraria um preço justo. Janet o ajudou a enumerar os demais equipamentos e utensílios de que precisariam: agulhas, temperos, sal e comida seca. Então, havia os extras que Fletcher queria. Eles precisariam de lingotes de aço para suplementar aqueles que haviam sido encontrados na ferraria. Havia poucas cabras e galinhas, nenhuma ovelha que pudesse fornecer lã nem mulas para ajudar a carregar os materiais para a construção.
Tendo isso em mente, Fletcher fez uma lista detalhada de pedidos e escolheu dez colonos para levar um comboio até Corcillum e reabastecer. Pela primeira vez, ele pegou ouro em sua bolsa para pagar por tudo, sacrificando uma parte das moedas. Era um investimento.
A caravana deixou a cidade ao cair da tarde, na esperança de chegar a Corcillum pela manhã e voltar na noite do dia seguinte — a viagem seria mais rápida com menos carroças, sem mencionar que estavam mais leves e a estrada estava mais limpa que em sua chegada. Fletcher deu a eles os mosquetes sobressalentes para se defenderem, mas esperava que não fosse necessário. Então, incitado por Ignácio, ele chamou o Drake para tomar conta do grupo durante sua viagem. Durante as horas seguintes, sua mente ficou cheia da alegria do demônio de poder voar livremente pelo céu noturno.
Mas ainda havia muito a fazer. Sob o brilho ululante de tochas, os carpinteiros trabalharam noite adentro, talhando as tábuas escuras, lisas e duras como ônix sob o céu estrelado. Os barris de água tinham de ser reabastecidos no poço, a carne precisava ser racionada e cozida. Frutos silvestres tinham deixado dois colonos doentes, e alguém tinha de cuidar deles. Então eles seguiram pela noite até que, finalmente, quando os primeiros raios de sol se fizeram ver sobre as planícies, Fletcher caiu em um sono profundo e sem sonhos.
— Hora de acordar, dorminhoco!
O rosto de Berdon estava sobre ele. Fletcher se sentou, coçando a nuca.
— Coma alguma coisa — disse o ferreiro, dando a ele um pedaço de carne de porco fria.
Fletcher cortou a carne com os dentes e a devorou, saboreando. Ele estava faminto e lembrou que não havia comido nada na noite passada. Estivera ocupado demais.
— Que horas são? — perguntou Fletcher.
Ele e Berdon estavam sozinhos na igreja, e o sol brilhava forte lá fora.
— Logo será noite.
Fletcher grunhiu e fez menção de se levantar, mas Berdon pousou uma das mãos em seu ombro.
— Calma. Sir Caulder começou a treinar seus soldados hoje de manhã, e os outros colonos estiveram bem ocupados. Você não precisa colocar a mão na massa, sabia?
— Precisamos de mais madeira — disse Fletcher, sentando-se novamente.
— Alguns colonos estão fazendo exatamente isso enquanto conversamos — respondeu Berdon, entregando a ele um copo d’água. — Algumas toras de madeira já estão a caminho. Provavelmente o suficiente com o que trabalhar pelos próximos dias.
— E a comida? — perguntou Fletcher, dando um gole.
— Bem, foi por isso que te acordei. O comboio voltou com o suficiente para mais um dia. Mas não foi só isso que eles trouxeram.
— Como assim?
— Digamos que temos hóspedes, além de alguns velhos amigos que não víamos fazia muito tempo. Eles estão na praça.
Fletcher levantou e gemeu baixinho. Seu corpo estava dolorido devido ao trabalho do dia anterior.
— Melhor ir vê-los — disse ele, caminhando em direção à porta. Um relance da consciência de Ignácio disse a ele que o demônio dormia em algum lugar. Ele não lhe daria nenhuma pista nesse estado.
Enquanto caminhavam pelas ruas em direção à praça, Fletcher viu que os reparos nas primeiras casas já estavam sendo feitos. Colunas haviam sido carregadas, e escadas de corda pendiam ao lado das casas onde os colonos trabalhavam nos telhados. Até a padaria fora usada para queimar as telhas de argila, tornando-as à prova d’água.
Fletcher estava tão enamorado com o progresso que via por todo lado — e  pelo fato de os hóspedes estarem usando a mesma roupa que seus soldados — que não os percebeu até quase trombar com eles.
Anões. Havia sete no total, remexendo-se nervosamente enquanto ele os encarava sem acreditar. Então, uma voz conhecida soou detrás da carroça.
— Espero que não esteja bravo — disse Athol, as mãos erguidas em sinal de rendição. — Otelo e Cress souberam que você tinha apenas uns trinta e poucos soldados. Esses bravos jovens acabaram de se alistar, mas não são inexperientes a ponto de não se adequar aos recrutas que passaram por um ano de treinamento. Assim, nossos amigos acharam que você poderia precisar da ajuda.
Fletcher sorriu, feliz de ver o velho amigo.
— Por que eu ficaria bravo? — perguntou ele, dando um tapinha nas costas do anão. — Eles são muito bem-vindos aqui.
Virou-se para os anões.
— Bem-vindos a Raleightown, rapazes. As coisas estão meio confusas no momento, mas ficamos feliz em tê-los aqui.
Os anões sorriram, e foi estranho ver os rapazes barbudos tão preocupados com sua opinião.
— Berdon, onde estão os demais soldados? — perguntou Fletcher.
— Perto da antiga mansão — respondeu ele, mostrando o caminho para os novos recrutas.
— Por favor, agradeça a Otelo, Cress e Átila em meu nome.
— Bem, Uhtred temeu que você pudesse achar que estávamos tentando esgueirar mais alguns anões para a colônia — explicou Athol, o rosto corando de vergonha.
— Agora que nos livramos dos encrenqueiros, acho que não será nenhum problema acolher mais alguns colonos anões — comentou Fletcher, coçando a nuca. — Mas, para ser sincero, levando em conta nosso estoque de comida, acho que não estamos prontos para aceitar muitos mais no momento.
Enquanto falava, Fletcher podia sentir o estômago roncar. Ele mandaria Ignácio caçar; pelo menos até que descobrissem alguma maneira mais sustentável de encontrar comida. Estava preocupado com a pouca quantidade que haviam conseguido coletar até aquele momento. Mas, pensando bem, não havia sido organizada nenhuma expedição de caça ainda, portanto seu sucesso ainda tinha de ser testado.
— Bem, acho que tenho a coisa certa para você. Algo novo no qual estivemos trabalhando. Dê só uma olhada.
Ele levou Fletcher até um das carroças. Ali dentro, havia nove armas em um cobertor de flanela.
— Nós os chamamos de rifles. Você se lembra de sua pistola, Chama? Como tem aquelas ranhuras para fazer as balas rodarem? Bem, essas são iguais.
Fletcher pegou uma. Era mais longa e mais pesada que os mosquetes e tinha entalhado um descanso para o queixo, para ajudar na mira.
— Esses protótipos têm a mira duas vezes mais precisa que o mosquete, e o tiro alcança o dobro da distância — explicou Athol. — As balas vêm pré-embaladas dentro do cartucho com um pedaço de couro para segurar o rifle no momento que o tiro sai pela câmara. O problema é que essas ranhuras dificultam o processo de colocar pólvora e a bala dentro do cano, por isso demoram o dobro de tempo para serem recarregadas. Não é muito bom para tiros sucessivos, mas tenho certeza de que será útil quando estiver caçando. Só precisa se certificar de usar a munição com moderação... há apenas cerca de cem tiros.
— Com certeza iremos usá-las — assegurou Fletcher, pousando a arma. — É muito bom vê-lo. Quer dar um passeio pelas terras antes de ir embora?
— Não exatamente — disse Athol, hesitante. Ele parou, um pouco envergonhado. — Ouvimos falar sobre seu ébano — continuou ele.
— Sim. Foi uma bênção — comentou Fletcher. — Jamais conseguiríamos reconstruir sem ele.
Ele apontou para uma das casas ali perto, onde a estrutura de madeira do telhado já estava visível acima da carcaça de pedra.
— Bem, nós esperávamos poder levar um pouco conosco — disse Athol. — Essa madeira é resistente a cupim e mofo, e é linda, escura e densa. Seria perfeita para fazer coronhas para armas, punhos para espadas e facas, especialmente para oficiais e nobres.
Então era por isso que ele estava ali.
— De quanto você precisa? — perguntou Fletcher.
— Um tronco seria o suficiente para começar. Nós lhe daremos uma parte justa dos lucros de cada venda, conforme o combinado.
Fletcher não precisou pensar muito. Era a primeira troca em uma relação que ele esperava ser longa e próspera.
— Vá até a carpintaria no final da rua e pegue um tronco de lá — instruiu Fletcher, apertando a mão de Athol. — Leve alguns dos galhos também.
— Sim, isso será o suficiente. — disse o anão, sorrindo com alívio. — Obrigado, Fletcher. Nos veremos em breve e te diremos como as coisas estão indo.
Fletcher não conseguia conter a animação ao ver o anão assentir em respeito a Berdon e caminhar pela estrada. Toda vila precisava produzir alguma coisa. Pelego tinha ficado conhecida por suas peles e trabalhos em couro. Talvez Raleighshire ficasse conhecida por seu ébano. Embora ele também tivesse planos para as ovelhas que haviam chegado e estavam nos estábulos.
— Sabe, você não precisava ter sido tão misterioso ao falar sobre reencontrar velhos amigos — disse Fletcher, se virando para Berdon. — Eu vi Athol há poucos dias.
— Na verdade, eu não falava dele — disse o ferreiro, atendo a mão no ombro de Fletcher e guiando-o em direção à saída sul da praça. — Eles devem estar com os soldados.
— Me diga de quem está falando — grunhiu Fletcher, cansado do suspense.
Então ele os avistou, de pé onde a cidade terminava e a savana começava.
Eles estavam observando as planícies, onde os soldados podiam ser vistos se exercitando; assim ele não podia ver seus rostos. Mas ele reconheceria em qualquer lugar aqueles cabelos loiros e os cachos ruivos a seu lado.
Rory e Genevieve tinham vindo a Raleighshire!
Ele saiu correndo, animado ao ver os amigos. Sir Caulder estava de pé no meio dos dois, observando os soldados se exercitando na frente deles.
— Ei! — gritou Fletcher.
Eles se viraram ao ouvir sua voz. Foi então que Fletcher percebeu que não era Sir Caulder. Era um rosto que ele não via havia mais de dois anos. Um homem que havia chegado e ido embora como uma ventania, virando sua vida de cabeça para baixo no processo.
Rotherham.

3 comentários:

  1. Agora que eu me toquei que foi o sobrenome dele que ele usou pra entrar de penetra no baile...

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  2. já tava na hora de aparecer. achei que não ia falar dele mais.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!