2 de março de 2018

Capítulo 41

O que Fletcher tinha acabado de ver... não fora um sonho, disso ele tinha certeza. Sentira o cheiro de sangue, ouvira os gritos. As imagens eram as memórias de Ignácio, um dos flashbacks de infusão sobre os quais Lovett tinha lhe avisado.
— Estou com um pouco de ciúmes — murmurou Fletcher ao diabrete. — Eu tinha quase me esquecido de que você um dia foi de um orc.
O demoniozinho rosnou suavemente e se enterrou ainda mais nos cobertores. O quarto estava gélido; Fletcher ainda não tinha encontrado um preenchimento adequado para a seteira da parede.
Com um clarão de repulsa, Fletcher percebeu que o pergaminho de conjuração que deixara com a dama Fairhaven tinha sido feito do elfo da memória. De alguma forma, ver a vítima tinha tornado a relíquia duplamente perturbadora.
Ele repassou a cena que acabara de presenciar. O que os elfos estavam fazendo no território dos orcs? Seria o orc branco que ele tinha visto o mesmo que liderava as tribos agora? Não poderia ser. James Baker havia escrito que o pergaminho fora encontrado em meio a ossos de muito tempo atrás. A batalha deve ter acontecido centenas de anos antes, talvez na Segunda Guerra Órquica; não havia mosquetes naquela época, afinal. Mas isso não explicava o que os elfos faziam ali, nem a presença do orc branco.
— Você provavelmente é centenas de anos mais velho que eu, é só o que sei — murmurou Fletcher, esquentando as mãos na barriga de Ignácio.
O rapaz se deitou de volta na cama, mas o sono não chegava. Ele ficou analisando os fatos mentalmente, repetidas vezes. Haveria alguma pista? Não tinha nenhum outro demônio presente além de Ignácio... será que isso significava alguma coisa? Certamente um exército humano teria empregado magos de batalha, especialmente num ataque tão crucial quanto aquele.
De repente ele teve a ideia. O estandarte que os elfos tinham usado: a flecha partida! Aquilo certamente revelaria a qual clã aqueles elfos tinham pertencido. Sylva saberia qual era; ninguém mais ali sabia tanto sobre a história dos povos élficos.
Fletcher se entristeceu ao lembrar a discussão que eles tiveram. Talvez ele tivesse sido muito duro com a amiga. Era fácil esquecer a posição em que ela estava e as responsabilidades dela para com seu povo. Droga, se a amizade dela significasse um fim à guerra na frente élfica, o que importava se ela fosse amistosa com os Forsyth? No mínimo, isso atrapalharia os planos de Didric.
Não haveria necessidade de enviar todos os prisioneiros para serem treinados no norte se a frente élfica não existisse mais.
O rapaz se levantou e se vestiu. Enrolando a Salamandra ainda adormecida no pescoço como um cachecol, Fletcher caminhou silenciosamente até o alojamento das meninas.
— Desta vez, eu certamente vou bater à porta — murmurou Fletcher consigo mesmo, sem querer outro encontro com Sariel.
Sylva atendeu imediatamente. O quarto dela era parecido com o de Fletcher, só que com o dobro do tamanho e equipado com um baú extra ao pé da cama. Sariel estava enrodilhada num tapete de pele de carneiro no centro do quarto, observando o rapaz cautelosamente. Sylva exibia a mesma expressão que seu demônio, e ele notou que ela ainda vestia o uniforme. Provavelmente tinha acabado de voltar de seu encontro com os Forsyth. Ele engoliu o aborrecimento gerado com tal pensamento e falou calmamente:
— Posso entrar?
— É claro. Só que, se você veio aqui para me fazer mudar de ideia, pode voltar para a cama. Tarquin e Isadora estavam dispostos a pôr nossas desavenças de lado, e espero que você seja capaz de fazer o mesmo comigo!
— Não vim aqui por causa disso — respondeu Fletcher, ignorando o próprio desejo de contradizê-la. — Tive um flashback, como Lovett tinha avisado. Preciso lhe perguntar sobre a última vez em que elfos e humanos lutaram juntos.
Sylva ouviu com atenção absoluta enquanto o rapaz contava sobre seu sonho. Ele tentou relatá-lo nos menores detalhes possíveis, na esperança de se lembrar de alguma outra pista.
— Fletcher... você tem certeza de que não era um sonho? — indagou a elfa quando ele terminou. — É só que... o que você me disse é impossível.
— Mas por quê? — perguntou Fletcher. — Estou lhe dizendo, era tudo real!
— Se o que você diz é verdade... Ignácio tem mais de dois mil anos de idade! — exclamou Sylva. Ela se apressou até o baú ao pé da cama e remexeu dentro dele. — Sei que está aqui em algum lugar — murmurou ela, empilhando livros empoeirados ao seu lado no chão de pedra. — Aqui! — anunciou, erguendo um tomo pesado até a cama.
Fletcher se sentou ao lado dela e a elfa folheou o livro até parar numa página ilustrada. A cena exibida deixou Fletcher estonteado: elfos cavalgando alces, investindo contra uma horda de orcs. A flâmula da flecha partida esvoaçava atrás deles. Homens a pé atacavam pelo outro lado, trajando a mesma armadura da visão de Fletcher. Até mesmo a guarda de honra do orc branco estava presente, com a inconfundível pintura de guerra vermelha e amarela.
— Você se lembra daquilo que lhe contei naquela noite nos milharais? Sobre como os elfos ensinaram o primeiro rei de Hominum a conjurar em troca de uma aliança contra os orcs? Essa foi a batalha final que eles empreenderam, a Batalha de Corcillum, assim chamada pela proximidade com a cidade enânica. O homônimo do seu demônio, Ignácio, teria liderado a investida naquela batalha. Aparentemente, não aconteceu muito longe daqui, mas o local exato da peleja foi perdido no tempo. O fato de que você pôde vê-la... é incrível! — Ela acariciou a página, traçando o contorno dos chifres de um alce.
— Mas eu não entendo. Por que havia um orc branco... e por que Ignácio era o único demônio lá?
— Só os chefes dos clãs élficos eram conjuradores, e o motivo principal de eles terem feito o acordo com o seu primeiro rei foi para que não tivessem de se arriscar em batalha. Os elfos não precisariam lutar de forma alguma depois do acordo, mas participaram da Batalha de Corcillum porque o filho de um dos chefes de clã fora sequestrado, então eles mandaram seus próprios soldados para ajudar. Também não tinham ensinado a arte da conjuração ao rei Corwin a essa altura, pois as condições do acordo determinavam claramente que os orcs precisavam ser completamente derrotados antes. Quanto ao orc branco, eu não faço ideia. Só sei que, depois da Batalha de Corcillum, os orcs recuaram para as selvas. Foi a vitória decisiva que marcou o início de uma era de paz que durou até a Segunda Guerra Órquica, trezentos anos atrás.
Fletcher estava feliz por ter ido falar com Sylva. Ela parecia ter aprendido tudo sobre relações humano-élficas na sua preparação para a vinda à Cidadela.
— Acho que precisamos ir à biblioteca pesquisar se já houve relatos de outro orc albino — comentou Fletcher. — Aparentemente, depois que este último foi morto, os orcs se desorganizaram de forma total. Talvez os orcs brancos não sejam apenas os líderes; pode haver algo mais por trás disso!
— Tem razão. Ignácio estava prestes a ser presenteado a ele, e parecia ser uma cerimônia importante. Temos de pesquisar tudo sobre os orcs e seus líderes antigos, talvez a gente descubra alguma coisa. — Sylva se levantou e foi até a porta.
— Aonde você vai? — indagou Fletcher enquanto Sariel saltava atrás da dona, quase o derrubando.
— À biblioteca, é claro. E digo mais: o quanto antes!
Fletcher não teve escolha além de segui-la.
Vocans era fria e úmida à noite, mas fogos-fátuos iluminavam o caminho suficientemente bem. O uso de feitiços não dava mais a Fletcher a alegria de outrora, pois ainda se aborrecia com seu desempenho recente nas aulas de Arcturo.
Ele tentou se manter positivo e se concentrar na tarefa do momento. Pelo menos teria a chance de se redimir, oferecendo informações úteis sobre os orcs.
Se ao menos ele tivesse acesso ao livro do conjurador... Fletcher adoraria ter a oportunidade de ler mais sobre o local onde o pergaminho de Ignácio fora encontrado.
Enquanto eles desciam a escadaria em espiral, Fletcher notou o brilho de outro fogo-fátuo atrás deles.
— Esconda-se! Pode ser Rook! — sibilou ele.
Eles apagaram as próprias luzes e se ocultaram num dos corredores do andar superior. Contendo a respiração, os dois se pressionaram contra uma porta. Sariel ganiu com a escuridão súbita, mas se calou com um toque de Sylva em seu focinho.
Passos apressados logo se seguiram, acompanhados de respiração ofegante. Quem quer que fosse, estava com pressa. Depois do que pareceu uma eternidade, os passos se foram, e os dois ficaram novamente envolvidos pelas trevas.
— Venha, vamos em frente — murmurou Fletcher quando teve certeza de que não poderia ser ouvido.
— Quem estaria vagueando pelos corredores a uma hora destas? — indagou Sylva.
— Acho que faço uma ideia — respondeu Fletcher, descendo as escadas à frente dela novamente, tomando cuidado para não tropeçar no escuro.
— Como assim? — perguntou Sylva.
— Na minha primeira noite aqui, vi alguém saindo da nossa sala comum e depois da Cidadela. Parecia estar com pressa, e não queria ser visto — explicou Fletcher, virando no corredor da biblioteca.
— Isso é tão suspeito, Fletcher. Por que você não contou a ninguém? — inquiriu Sylva, com desaprovação clara na voz.
— Porque não achei nada de mais. Poderia ser só alguém atrás de um pouco de ar fresco. Foi por isso que eu saí naquela noite. Agora, aconteceu de novo, porém... talvez eu devesse ter dito alguma coisa.
Fletcher empurrou a porta da biblioteca. Ela balançou nas dobradiças, mas permaneceu firmemente fechada.
— Bem, parece que desperdiçamos uma viagem aos andares de baixo. A dama Fairhaven deve ter trancado a porta depois que o último estudante foi embora dormir... O que deveríamos fazer também — concluiu o rapaz, chutando a porta de frustração. — A biblioteca pode esperar até depois da aula de Rook.
— Eu não vou dormir! Tem alguém se esgueirando pela escola à noite. Eu vou descobrir quem é. Se eu puder trazer um traidor à justiça, então todo mundo vai saber que os elfos são confiáveis.
Com isso, ela saiu pelo corredor e desceu a escadaria aos saltos.
— Sylva, não é seguro para você lá fora! Aqueles homens que lhe atacaram em Corcillum podem estar vigiando o castelo!
Mas era tarde demais. A elfa tinha partido.
Fletcher praguejou ao tropeçar na escuridão.
— Sylva! — sibilou ele, tentando chamar atenção e ser silencioso ao mesmo tempo.
Ele já seguia o rastro dela havia uma hora, apesar da fina lasca de lua no céu noturno mal lhe permitir que enxergasse a trilha da elfa. Havia um pouco de grama amassada aqui, um graveto quebrado ali. Num dado ponto ele achou que a tinha perdido, mas o solo tinha sido amolecido pela chuva recente, permitindo que o rapaz detectasse as leves depressões de pegadas, que lentamente se enchiam de água. Se não fosse um caçador experiente, Fletcher a teria perdido.
Ele poderia se arrepender de não tê-la seguido imediatamente após sua partida. Em vez disso, decidiu correr de volta escada acima e buscar o khopesh, para o caso de eles se meterem em encrencas. Quem poderia ter imaginado que Sylva correria tão rápido?
Fletcher alcançou a beirada de um bosque, com árvores altas se erguendo sobre colinas escarpadas a uns oitocentos metros de Vocans.
— Sylva, eu vou matar você!
— Pouco provável — sussurrou uma voz de trás dele. Fletcher sentiu aço frio sendo pressionado contra suas costas e ficou paralisado. — Estou perfeitamente ciente dos perigos que corro por conta de quem eu sou. Mas me recuso a viver com medo, ou mudar meu comportamento em consideração aos meus inimigos.
Sylva passou para diante de Fletcher e exibiu um longo e estreito punhal, não muito diferente daquele que ele tinha feito na forja de Uhtred.
— Eu vim preparada, é claro — explicou ela, sorrindo. — Mas Sariel é equivalente a uma guarda pessoal de dez homens e dois rastreadores de quebra.
Enquanto Fletcher sentia uma pontada em seu orgulho próprio por ter sido pego de surpresa, Sariel saiu de detrás de um afloramento rochoso adiante, farejando o solo.
— Sylva, vamos embora. Isto não é problema nosso! Poderia ser Genevieve visitando a família, nós sabemos que ela vive aqui perto — argumentou Fletcher, ansioso para voltar à Cidadela. Estava congelando ali fora, mesmo com a jaqueta.
— Não quando estamos tão perto — retrucou Sylva, teimosa. — Eles estão logo à frente, vamos!
Ela saiu correndo antes que Fletcher pudesse detê-la. Resmungando de exasperação, ele a seguiu.
O fogo-fátuo surgiu à vista quase imediatamente. A orbe de luz flutuava sobre um pequeno penhasco rochoso, que Sylva subiu abaixada antes de espiar. Seus olhos se arregalaram e ela chamou Fletcher com um gesto.
O menino olhou para o chão lamacento. O que Sylvia poderia ter visto lá embaixo para deixá-la nesse estado? A curiosidade enfim falou mais alto e ele se deitou na terra e se arrastou pelo aclive até estar ao lado da elfa. As frentes do uniforme e da jaqueta logo ficaram ensopadas com lama fria, que não era nada comparada ao arrepio que lhe desceu pela espinha quando Fletcher viu quem estava lá embaixo.
Otelo e Salomão estavam parados diante de uma caverna. Havia dois guardas vigiando a entrada sobre javalis, a montaria tradicional do povo anão. Os animais tinham pelos ásperos cor de ferrugem, com presas enormes que se projetavam perigosamente dos focinhos. Não eram nada parecidos com os porcos selvagens que Fletcher tinha caçado em Pelego; aqueles eram atacantes musculosos, com olhos vermelhos e sinistros que pareciam cheios de raiva e malícia.
Os anões vestiam armadura, usavam elmos de chifres e machados de batalha de duas mãos nos punhos. Portavam uma bandoleira de machados de arremesso pendurada na sela, projéteis mortais com uma lâmina adicional no topo e um cabo afiado.
De repente ouviram uma voz clara e trovejante anunciar:
— Otelo Thorsager se apresentando para o conselho de guerra. Estou sendo esperado.

5 comentários:

  1. Tô chocada não esperava por isso
    Muito top
    A história é envolvente
    Eu estou praticamente devorando o livro
    😍😘
    Ass:Yasmim

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  2. Karina amo seu blog já li quase todos os livros dele
    Ass:Yasmim

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  3. Gente, será..???
    Não quero acreditar que ele seja espião..

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Boa leitura, E SEM SPOILER!