22 de março de 2018

Capítulo 40

O principal problema era lenha. Ervas daninhas podiam ser arrancadas, a vegetação aparada, os destroços limpos. Mas muitos telhados haviam caído ou estavam tão podres que logo iriam desabar; os pisos de madeira entre os andares estavam ainda piores.
Então, havia o problema da comida. Muitas casas tinham restos de hortas, que haviam sido tomadas pelo mato. Eles recolheram o que foi possível e juntaram tudo a seu estoque, mas metade da carne já tinha sido comida depois do café da manhã. A menos que eles quisessem subsistir de um punhado de raízes e frutas, teriam de caçar em breve.
Havia três carpinteiros de Pelego — marido, mulher e filho, que haviam feito móveis e tábuas com a madeira dos pinheiros nas montanhas. Quatro anões, dois homens e duas mulheres, também tinham alguma experiência no trabalho com madeira, embora se limitassem a fazer arcos e flechas. Mesmo assim, era mais que o suficiente para começar a restaurar as casas e ensinar os fundamentos aos colonos. Precisavam apenas da matéria-prima.
Quando o meio-dia se aproximou, Fletcher finalmente terminou de dividir as atividades, separando os colonos em grupos que iriam se concentrar em cuidar dos animais, limpar o poço, replantar as hortas e fazer o trabalho pesado de limpar a cidade das ervas daninhas e destroços. Berdon e Milo foram tentar salvar as ferramentas que pudessem da ferraria e carpintaria, tirando a ferrugem com a ajuda de suco de limões silvestres e palha de aço conseguidos nos suprimentos.
Fletcher reuniu seu exército no dia seguinte, agora alimentado e descansado, e os guiou rumo à savana amarelada. Àquela altura no sul o clima era quente, mesmo durante a primavera. O sol estava quente enquanto eles caminhavam pela grama alta em direção às planícies de Raleighshire.
Estavam bem armados, a munição, presa ao peito, e os mosquetes e alabardas, cruzadas às costas.
— Quero que tragam os mosquetes prontos — ordenou Fletcher. — Mantenham os olhos abertos para qualquer coisa que possa parar em nosso caldeirão essa noite.
Sir Caulder se posicionou a seu lado.
— Os mosquetes ainda não estão carregados. Eles não sabem como fazê-lo.
— Então ensine-os — disse Fletcher.
— Sou um soldado velho — explicou ele, olhando por sobre os ombros, para os soldados. — As armas de fogo vieram depois de minha época.
— Kobe — chamou Fletcher.
O rapaz correu, enxugando o suor da testa.
— O que posso fazer pelo senhor, lorde Raleigh? — perguntou Kobe.
— Você foi soldado, certo? Sabe carregar um mosquete?
— Já faz alguns anos, mas... mais ou menos.
— Mostre a eles como fazê-lo — ordenou Fletcher.
— Sim, senhor.
Fletcher observou Kobe retornar à companhia dos demais e pegar seu mosquete. O rapaz hesitou, mas seus procedimentos pareceram corretos para Fletcher se carregar um mosquete fosse o mesmo que carregar uma pistola.
— Precisamos ensinar a ele as técnicas apropriadas — disse Fletcher, franzindo a testa no sol quente. — Formação, carregamento de armas, mira, tiro. No exército, todos passam pelo treinamento básico, mas esses soldados...
— Eles não o ensinaram isso em Vocans? — perguntou Sir Caulder.
— Não. Eu não fiz o segundo ano — disse Fletcher, lembrando os livros de estratégia e tática que ficaram parados nas prateleiras da biblioteca enquanto ele estudava demonologia e feitiçaria. — Kobe provavelmente sabe mais sobre o mosquete que eu.
— Infelizmente não posso ajudar nisso. Mas me dê algumas semanas com eles e vou deixá-los melhores com uma alabarda que qualquer guerreiro.
— Espero que sim.
Fletcher suspirou e olhou para a savana. Havia um bosque ali perto, os troncos das árvores longos e retos, as copas largas e cheias de galhos. Sombra.
— Logo precisaremos de lenha — comentou Fletcher, indicando as árvores com o queixo. — Você conhece muito sobre árvores?
— Somente o que seu avô me ensinou — respondeu Sir Caulder, olhando o bosque com um sorriso. — Ele plantou essas árvores quando tinha a sua idade... queria que seus descendentes tivessem uma floresta onde brincar. Isso faz com que eu sinta o peso da idade. Lembro-me de quando essas árvores eram plantinhas pequenas.
Fletcher começou a ter uma ideia. Ele se virou.
— Homens, me sigam — chamou em voz alta.
Um elfo assustado disparou seu mosquete, o dedo apertando involuntariamente o gatilho. A arma explodiu com um tiro, exalando um cheiro de enxofre, e a vareta voou pelos ares, caindo na grama 4 metros à frente dos soldados. Fletcher balançou a cabeça, decepcionado.
— Vamos procurar uma sombra — disse ele, virando de costas para eles e caminhando até as árvores.
Todos o seguiram em fileira, suados e frustrados. Sem esperar a ordem de descansar, a maioria dos soldados caiu na grama para relaxar no frescor da sombra. Fletcher teve pena de repreendê-los. Ou teria sido o medo que o fez hesitar?
Havia mais ou menos umas cem árvores no bosque, todas da altura de três homens. Muitas tinham casas de cupim na base, embora as árvores parecessem intactas de ataque dos insetos. Frutas forravam o chão, caídas dos galhos acima. Pareciam limões com uma casca amarelo-esverdeada. Sir Caulder pegou uma e a abriu com a espada.
— Frutos de musolveira — disse ele, enquanto o odor cítrico enchia o ar. — Experimente. Ainda não estão perfeitamente maduros, mas você vai ter dificuldade para encontrar alguma que chegou a ficar roxa: os animais as alcançam antes de nós. Especialmente os chacais.
Fletcher mordeu a fruta, os sucos explodindo em sua boca, como suco de limão adoçado. Era delicioso e lhe lembrava caqui.
— Bem, essas frutas vão se juntar a nossos parcos suprimentos, mesmo se não caçarmos nada essa noite — disse Fletcher de boca cheia. Ele olhou para a planície. Havia uma manada de antílopes ao longe, mas a miragem tornava difícil calcular a distância com exatidão.
— Você pode fazer farinha dessas frutas depois de secas, além de uma aguardente bem gostosa — disse Sir Caulder animado, mordendo uma fruta também. — E não cuspa as sementes; elas são comestíveis.
Surpreso, Fletcher mastigou as sementes que estivera segurando entre os dentes e descobriu que elas eram gostosas, lembrando um pouco amêndoas.
— E quanto à madeira da árvore? — perguntou Fletcher, espetando uma fruta com a espada e a dando a um dos soldados. O homem a abriu e rosnou satisfeito ao mordê-la, causando uma reação em cadeia enquanto os demais recrutas pegavam suas próprias frutas do chão.
— Bem, essa é a melhor parte — disse Sir Caulder, sorrindo. — Seu avô escolheu essas árvores por causa dos frutos, mas elas têm algo mais que as torna especiais. São à prova de cupim.
Ele apontou para as casas de cupim na base das árvores.
— Os cupins têm uma relação especial com essas árvores. As raízes da planta protegem suas casas, e, em troca, os cupins não as atacam. Mesmo quando você corta a árvore, os cupins não tocam na madeira.
Fletcher sorriu e correu a mão ao longo do tronco da árvore mais próxima. Ele havia encontrado uma fonte de madeira.
— Então esse é o nome dessas árvores, musolveiras? Nunca ouvi falar.
— Não. Elas têm outro nome — disse Sir Caulder, sorrindo. — A maioria das pessoas as chamam de árvores de ébano.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!