13 de março de 2018

Capítulo 40

Eles fitaram a parede que Jeffrey apontava, incapazes de acreditar nos próprios olhos. Malik apagou os fogos-fátuos mais próximos e os substituiu por uma bola de fogo, para que as cores desbotadas não fossem tingidas em tons de azul.
Um orc de branco estava pintado ali, a imagem perfeita de Khan. Havia guerreiros atrás dele, pintados no vermelho e amarelo da guarda real que se postava naquele momento do lado de fora. Porém,  o mais incrível de tudo eram os humanos na outra extremidade da pintura. Tinham sido desenhados grosseiramente, mas os traços faciais e corpos eram inconfundíveis. Uma figura os liderava, espelhando a posição do orc albino.
— A cada mil anos — murmurou Fletcher. — Aposto que é isso que dizem os hieróglifos. Um messias marcado, enviado para derrotar a humanidade. Foi isso que me disse certa vez um velho soldado, pelo menos.
— Mais provável que seja uma mutação natural que acontece em todas as espécies... — comentou Malik em voz baixa. — É possível que os orcs albinos sejam maiores e tenham um nível de conjuração mais elevado que os outros, o que faria deles líderes naturais. O resto é superstição, nada mais.
— De qualquer maneira, essa não é a parte estranha — observou Sylva, fitando os outros como se fossem todos cegos. — São os humanos. Eles não deveriam estar representados aqui.
— Por que não? — indagou Cress.
— Porque os humanos chegaram nesse pedaço do continente há dois mil anos, quando seus ancestrais cruzaram o deserto Akhadiano — explicou Sylva. — Esta pirâmide foi construída muito antes dos humanos terem posto os pés nesta região. Escrituras élficas de até cinco mil anos atrás mencionam este lugar.
— Tem outra coisa — disse Jeffrey, limpando uma camada de poeira com a manga.
O contorno de um demônio apareceu entre os orcs e os humanos, um desenho cuja tinta que um dia o colorira descascara eras antes.
— Uma Salamandra — exclamou Fletcher. Ignácio trilou de empolgação e arranhou o rodapé da parede logo abaixo.
Acima da imagem havia duas cenas separadas. Uma na qual os orcs pisavam vitoriosos sobre os cadáveres ensanguentados dos humanos; outra em que eram os humanos os conquistadores.
Fletcher pensou naquele primeiro sonho de infusão que tivera. Sabia, pelo sonho, que o pergaminho de conjuração de Ignácio fora originalmente criado para um orc albino, mais de mil anos antes. Talvez os orcs que haviam desenhado as imagens ali estivessem tentando recriar a profecia.
Agora ficava óbvio para ele que, de acordo com os entalhes e o sonho de infusão, os orcs acreditavam que uma Salamandra era a chave para a vitória... ou para a ruína.
— Temos que copiar tudo isso — afirmou o rapaz, apontando para a parede. — Talvez dê para traduzir mais tarde.
— Já está feito — respondeu Jeffrey, mostrando o caderno ao rapaz.
— Pessoal — interrompeu Sylva, erguendo a tabuleta. — Temos que andar agora. Os sacrifícios acabaram, e Kahn se aproxima da porta dos fundos. Ele está com um bando de xamãs consigo, além de um grupo de jovens orcs. Devem ser adeptos.
— Droga — rosnou Malik. — Não tem onde se esconder aqui; temos de seguir em frente. Acompanhem-me.
Ele apagou a bola de fogo e correu para o outro extremo da antecâmara, onde a passagem continuava. Fletcher e os outros não tiveram opção além de seguir em seu encalço.
— Parece que esperamos tempo suficiente — sussurrou Otelo, tentando sem sucesso esconder um sorriso. — A equipe de Isadora perdeu a janela de oportunidade.
Eles correram até que a passagem se bifurcou mais uma vez. Não havia tempo para decidir quem iria para onde; na pressa, Fletcher acabou escolhendo o corredor direito com Otelo, Sylva e Lisandro. Dessa vez, o piso subia íngreme. Eles pareciam rumar para o ponto central da pirâmide.
— Ei! — exclamou Fletcher, enquanto os pés deles trovejavam pelo corredor. — Deixamos Cress e Jeffrey.
— Encontramos com eles mais tarde — retrucou Sylva, seguindo na frente com uma ponta de dedo incandescente. — Os orcs estarão aqui a qualquer min...
Sylva parou de falar quando o corredor terminou de repente, abrindo-se num salão imenso. O teto era curvo, sustentando por grandes vigas de metal enferrujado; uma rede de canos fluía do teto e entrava nas paredes.
Um abismo mergulhava para as trevas em volta da plataforma, tão profundo e cavernoso que não dava para ver o fim. Havia um pedestal largo no centro do recinto, com um pentagrama fortemente entalhado.
No centro do entalhe havia um buraco cuja espessura Fletcher não conseguia avaliar. O único jeito de chegar ao pedestal eram quatro pontes de pedra que se cruzavam vindo das quatro entradas do aposento.
— Onde diabos nós vamos nos esconder? — indagou Otelo, examinando o salão. — Não tem nada aqui!
— Olhem! Escadas — anunciou Sylva, apontando para o pedestal, que era sustentado por um pilar largo com sua mesma espessura. A coluna exibia uma escadaria grosseira escavada numa espiral, e a pedra era de um branco recente, como se tivesse sido cortada recentemente.
Fletcher jogou um fogo-fátuo, que desceu girando profundeza abaixo. A coluna era alta, quase da metade da altura da pirâmide. Porém, no fundo, Fletcher percebeu um túnel que seguia terra adentro. O mais estranho de tudo eram as centenas de ovos empilhados numa trincheira em volta da base do pilar. Eram verde-garrafa e perfeitamente esféricos, com o tamanho e aparência de laranjas ainda imaturas.
— Devem ser ovos de gremlin — observou Fletcher, reconhecendo-os do Viveiro. — Ovos de goblin seriam muito maiores, pois Mason disse que eles saíam dos ovos como adultos completamente formados.
— Não quero saber o que esses estão fazendo aqui — comentou Otelo. — Mas acho que vamos descobrir num minuto; aquele túnel é o nosso esconderijo. Pode até mesmo nos levar às cavernas.
— Quem sabe aonde levam? — respondeu Fletcher, espiando as profundezas. — Aposto que é para lá que vão Kahn e seus xamãs, descendo essas escadas. Se for um beco sem saída, seremos nós três presos lá embaixo contra... quantos orcs?
— Dez — disse Sylva, contando os xamãs e adeptos na tabuleta de Verity. — Mas eles estão com os demônios infundidos. É melhor nos apressarmos;  estão entrando pela porta dos fundos neste exato instante.
Fletcher fez um esforço intenso para decidir. Eles poderiam tomar uma das três outras passagens que saíam do salão, mas não havia garantias de que os xamãs não viriam por elas. Não poderiam descer.
Uma ideia se formou em sua mente.
— Lisandro, você consegue nos carregar voando até aquelas vigas? — perguntou ao grifo, fitando o teto abobadado. — São largas o bastante para nos esconder.
Lisandro grasnou em concordância, depois piscou um olho para Fletcher, confirmando que a capitã Lovett estava no controle. Ele sorriu de volta, pois a aprovação dela reforçou sua determinação.
— Tem certeza? — indagou Otelo, fitando as vigas. — Elas parecem mais enferrujadas que um balde de pescador.
— É isso ou nos arriscarmos nas cavernas — respondeu Fletcher, colocando Ignácio no ombro e montando em Lisandro. Otelo e Sylva se espremeram atrás dele, e Fletcher sentiu as mãos da elfa envolvendo sua cintura. O rapaz, por sua vez, se agarrou ao pescoço de Lisandro. Sem uma sela, o assento era feito dos músculos movediços das costas da poderosa fera, e as penas do Grifo se mostraram escorregadias sob suas calças.
Fletcher abriu a boca para dar a ordem, mas, antes que tivesse uma chance, Lisandro os lançou da ponte com um forte movimento das asas. Por um instante de parar o coração, eles caíram como pedras, para em seguida seu estômago mergulhar quando todos dispararam para cima num arco que os atirou em direção às vigas.
Com um guinchar metálico, Lisandro derrapou com as garras por uma das largas estruturas até parar. Por um momento, Fletcher respirou fundo para se acalmar, o rosto enterrado nas penas reluzentes do pescoço de Lisandro. Então ele sentiu que os outros desmontaram e seguiu o exemplo, tomando o cuidado de se plantar bem no meio da viga.
Daquele ponto de vista, ele pôde discernir com bastante clareza os ovos na base do poço, assim como a plataforma abaixo. O maior dos canos estava logo ao lado de sua cabeça, e o som do líquido que corria no interior soava claramente. Ele estremeceu e apagou os fogos-fátuos, lançando o recinto na treva absoluta. Foi bem a tempo, pois já dava para ver o reluzir das luzes que vinham da entrada pela qual tinham chegado.
Então, com uma tocha crepitante na mão, Khan entrou no aposento. Assim de perto, a diferença de seu tamanho para o dos xamãs que o seguiam ficou ainda mais clara. Seu cenho era menos definido, e as presas, um tanto menores que as da maioria dos orcs.
Só que não era nada disso que o destacava aos olhos de Fletcher. Era o demônio que trazia empoleirado no ombro, espiando a câmara com olhos ambarinos.
Khan levava uma Salamandra consigo.


5 comentários:

  1. eita, ignacia? já shippo. kkkkkkkkkk

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    1. kskskskkssksk mereço ksksksksk

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  2. Primeiro eu pensei que Ignácio tinha sido a salamandra de um orc há dois mil anos antes, naquele sonho de Fletcher com o confronto entre elfos e orcs, agora eu tô só confusa

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Boa leitura, E SEM SPOILER!