2 de março de 2018

Capítulo 40

Os tambores de guerra rufavam com um fervor insano, martelando o ar noturno com intensidade pulsante. Fileiras e mais fileiras de orcs batiam palmas e pisoteavam no ritmo, pontuando o fim de cada ciclo com uma ululação gutural.
A Salamandra se enrolou no pescoço de um xamã orc, observando os procedimentos. A plataforma elevada onde eles se encontravam era o epicentro ao redor do qual todos os orcs se reuniam, iluminada por enormes fogueiras vorazes em cada quina. Escravos gremlins corriam de um lado para o outro, arrastando madeira da selva para manter as chamas bem altas.
Subitamente, os tambores cessaram. O diabrete se espantou com o silêncio abrupto e bocejou ruidosamente. O xamã o acalmou e lhe colocou uma isca de carne na boca, acariciando a cabeça da Salamandra afetuosamente.
Um grunhido cortou o silêncio atrás deles. Um elfo estava atado a um travessão, mãos e pés cruelmente amarrados à madeira. Seu rosto estava inchado e coberto de sangue seco, mas o pior ferimento era o grande quadrado em carne viva nas costas, de onde um pedaço de pele fora removido. Atrás dele, outro orc estava raspando a pele com uma rocha serrilhada, removendo qualquer traço residual de gordura, carne ou tendão.
O elfo grasnou desesperado, mas sua garganta estava seca demais para formar quaisquer palavras com sentido. O xamã orc lhe acertou um pontapé, chutando-o no estômago. O elfo sufocou e ficou pendurado contra as amarras, ofegando como um peixe fora d’água.
Um burburinho se iniciou na massa de orcs abaixo. As multidões abriram caminho, revelando uma procissão que adentrava o acampamento. Havia dez orcs; espécimes grandes, musculosos, cuja pele cinzenta estava pintada com ocres vermelhos e amarelos. Seu armamento era tão primitivo quanto atemorizante; pesadas clavas de guerra cravejadas de pedras pontudas.
Porém, eles não estavam sozinhos. Outro orc os acompanhava, e fazia com que parecessem minúsculos. Sua pele era de um branco pálido, e seus olhos rubros ardiam sob a luz das chamas. Ele caminhava com confiança genuína, aceitando os olhares de reverência dos orcs como um justo tributo.
Conforme o grupo se aproximava da plataforma, o elfo começou a gritar, lutando contra as amarras. Desta vez, o xamã não fez nenhuma menção de silenciá-lo. Em vez disso, simplesmente se ajoelhou, curvando a cabeça profundamente enquanto o orc albino subia na plataforma, deixando os guarda-costas para trás.
O orc branco ergueu o xamã, colocou-o de pé e o abraçou. Ao fazê-lo, a multidão rugiu seu apoio, batendo os pés até a plataforma tremer. Mesmo com todo aquele barulho, os gritos desesperados do elfo ainda podiam ser ouvidos enquanto ele puxava as tiras de couro que o atavam no lugar.
As exclamações de apoio morreram quando o orc albino se aproximou do elfo cativo. Ergueu o rosto do prisioneiro e o encarou, segurando a cabeça com tanta facilidade quanto se fosse uma laranja. Finalmente, o soltou com um grunhido desinteressado.
O elfo estava quieto agora, como se resignado com seu destino. A multidão observava com ansiedade enquanto o orc branco recebia o pedaço de pele, agora esticado numa prancheta de madeira. Ele ergueu o objeto à luz, exibindo assim o pentagrama que trazia tatuado na mão, a tinta negra contrastando drasticamente com a pele pálida. Os dedos também eram tatuados, a ponta de cada um marcada com um símbolo diferente.
O diabrete foi baixado ao chão pelo mestre, que se afastou e se curvou novamente. O orc albino estendeu a mão, virando a palma tatuada para o céu. Enfim, com uma voz grave e retumbante, o orc começou a ler a pele.
— Di rah go mai lo fa lo go rah lo…
O pentagrama na palma do orc começou a brilhar num roxo incandescente e cegante. Filamentos de luz branca se materializaram, um cordão umbilical retorcido entre o xamã e a Salamandra. O laço invisível que unia os dois se desenrolou, então se rompeu com um estalo audível.
— Fai lo so nei di roh…
Porém, aquelas foram as últimas palavras do orc branco.
Uma flecha élfica silvou pelo ar e se cravou em sua garganta, espirrando sangue quente pela plataforma. Mais projéteis choveram nas fileiras; longas hastes pesadas, ornadas com penas de ganso. O orc xamã rugiu, mas, sem seu demônio, estava impotente. Em vez de lutar, ele correu para o lado do orc branco caído, tentando estancar o sangue que esguichava do pescoço de seu líder.
Outra saraivada de flechas foi disparada, lançando os orcs no caos, correndo sem propósito, brandindo clavas de guerra e feixes de dardos. Então, com um toar metálico, o som de trompetes soou da floresta e uma grande multidão investiu vinda das árvores, urrando seus gritos de batalha.
Mas não foram os elfos que vieram marchando das trevas... eram homens.
Homens vestindo pesadas armaduras de placas, armados com espadas largas e escudos, lançando-se destemidamente ao coração do acampamento. Eles não ofereceram misericórdia, cortando e estocando os orcs num tornado de aço. O acampamento foi transformado num abatedouro, o solo recoberto por uma espessa camada de entranhas, corpos e sangue. Atrás dos guerreiros, ondas e mais ondas de flechas voavam acima, bombardeando os orcs com precisão letal.
Os orcs não eram covardes. Eles investiram contra os atacantes, esmagando elmos e peitorais com golpes de clava como se fossem feitos de alumínio. Era um corpo a corpo desesperado e cruel. Não havia habilidade ou tática ali; a morte era decidida pela sorte, força e números.
Orcs rugiram em desafio conforme as lâminas dos homens subiam e desciam. A cada golpe de suas clavas, lançavam homens pelos ares, esmigalhando-lhes os ossos e os deixando aleijados onde caíam. Os orcs continuaram lutando sob a tempestade de flechas, arrancando as hastes dos próprios corpos e as atirando de volta nos rostos dos inimigos, o desafio em seus olhos.
A guarda pessoal do orc branco talhou uma larga trilha de destruição, lançando dezenas de oponentes às suas mortes. Sua força era inigualável conforme eles se esquivavam e giravam à luz do fogo, usando as clavas tachadas com efeito letal. Os outros orcs se organizaram na retaguarda, gritando ordens enquanto levavam a luta de volta ao inimigo. De alguma forma, os orcs agora estavam em vantagem.
Algo se agitou na selva, uma massa escura que se mantivera fora de vista. O que antes parecia ser um monte de galhos de árvore se tornou chifres que sacudiam e empurravam ao investir contra a clareira. Eram os elfos, montados em alces imensos, feras de peito largo com pernas fortes e galhadas afiadas. Eles não vestiam armadura, mas brandiam os arcos que tinham enegrecido o céu com flechas havia pouco. O elfo que liderava a carga erguia uma grande flâmula que esvoaçava às suas costas, feita de pano verde com fios dourados. A flecha partida ilustrada no estandarte ondulava conforme os alces pisoteavam os corpos despedaçados no solo.
Eles atingiram os orcs como um aríete, empalando as primeiras fileiras com os chifres e os atirando para trás. Flechas silvaram, cravando-se em crânios e olhos, disparadas agilmente pelos elfos de suas montarias. Os homens comemoraram e os seguiram, executando os orcs que tinham sido atropelados pela investida.
A situação começou a se reverter de novo, mas a batalha estava longe de terminar. Os orcs cercaram a plataforma, um último núcleo de resistência que não se renderia. Eles lançaram seus dardos contra os inimigos, grandes hastes de madeira com pontas afiadas que massacravam alce e elfo igualmente.
Os homens ergueram seus escudos, uma fileira ajoelhada e a outra de pé para criar uma parede entrelaçada com duas linhas de altura. Os elfos mandaram seus alces de volta às árvores e dispararam flechas de trás da linha da floresta, arqueando os disparos sobre a proteção para castigar habilmente os inimigos. Era uma luta mortal de atrito conforme os projéteis dos dois lados cobravam seu preço. Mas só poderia haver um resultado.
Foram necessárias dúzias de flechas para extinguir cada orc, mas eles não escaparam. Caíram, um por um, estrebuchando e sangrando na terra. Por fim, a guarda do orc branco empreendeu um ato final irremediável, investindo contra os inimigos. Eles mal deram dez passos.
Na plataforma, o orc xamã tocava a Salamandra perdida, desesperado pelo mana que poderia lhe dar uma chance de sobrevivência. Percebendo a inutilidade do gesto, ele sacou a faca e se arrastou até o elfo cativo, talvez na esperança de obter um refém.
Ao erguer a faca ao pescoço do elfo, os arcos foram erguidos novamente.
As flechas silvaram uma última vez.
Fletcher acordou num susto, com o corpo encharcado de suor frio.
— O que diabos foi isso?

5 comentários:

  1. Gente, ele acabou de testemunhar a primeira batalha entre os orcs e os outros seres?!!!
    Sera q ele é descendente do primeiro rei de hominun (é assim q se escreve?)??
    To bege. 😱

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  2. Talvez seja a memória de alguma invocação passada de ingnácio!

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  3. Quando penso que tenho a mínima ideia de onde esse garoto veio. Vem esse capítulo e muda tudo . Pqp.

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    Respostas
    1. Mas o sonho foi uma lembrança do Ignacio. Nada a ver com a origem do Fletcher

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Boa leitura, E SEM SPOILER!