2 de março de 2018

Capítulo 4

Uma pequena multidão se reuniu em volta do soldado. Era composta principalmente de crianças, mas também se viam alguns guardas que não tinham nada para trocar nem dinheiro para gastar.
— Venham ver, todos vocês! Tudo que se encontra aqui são artigos genuínos, coisa séria. Cada item tem uma história de congelar o sangue, que fará você agradecer à sua estrela-guia por viver no norte — gritou ele com os floreios de um vendedor de frutas, jogando uma ponta de lança ao ar e a pegando habilidosamente entre os dedos. — Talvez vocês se interessem pela tanga de um gremlin ou um arganel de nariz de orc? Você, meu senhor, o que me diz? — indagou ele a um menininho com um dedo firmemente cravado no nariz, que certamente não se qualificava a ser chamado de “meu senhor”.
— Que que é um gremlin? — perguntou o menino, arregalando os olhos.
— Os gremlins são escravos dos orcs. Poderiam ser comparados ao escudeiro de um dos cavaleiros dos velhos tempos, cuidando de todas as necessidades do mestre. Não são grandes guerreiros; foram criados para serem servos. E também pelo fato de que mal chegam à altura do joelho de um homem — explicou ele, demonstrando com a mão.
Fletcher espiou o gesto com interesse renovado. A maioria das pessoas tinha alguma noção do que era um gremlin, mesmo tão ao norte. Eles eram bípedes, como os orcs, mas não vestiam nada além de trapos e retalhos ao redor da cintura. As grandes orelhas de morcego e compridos narizes tortos eram muito característicos, assim como os dedos longos e ágeis, ótimos para tirar lesmas das cascas e insetos de troncos podres. Gremlins tinham pele cinzenta, assim como os orcs, e seus olhos eram grandes e esbugalhados, com pupilas consideráveis.
— Onde você arranjou essas coisas todas? — questionou o menino, ajoelhando-se para ver melhor o que havia disponível.
— Eu as tirei dos mortos, meu menino. Eles não precisam mais delas, não no lugar aonde estão indo. É o meu jeito de trazer um gostinho da guerra aqui para o norte.
— Você está a caminho da frente élfica? — perguntou um guarda.
Fletcher viu que era Jakov, e se escondeu atrás da barraca. Se ele o notasse, poderia cobrar o preço do drinque que Fletcher tinha lhe prometido. O rapaz precisava de todo o dinheiro que tinha para comprar a jaqueta.
— Estou, realmente, mas não por ser um saco de ossos inúteis, não, senhor. Eu fui o único sobrevivente do meu esquadrão. Fomos pegos num ataque noturno durante uma missão de reconhecimento. Não tivemos chance. — Sua voz trazia um indício de tristeza, porém Fletcher não conseguiu detectar se era genuíno.
— O que aconteceu? — insistiu Jakov, com um tom carregado de descrença enquanto media o velho de cima abaixo.
— Prefiro não dizer. Não é uma memória feliz — murmurou o soldado, evitando o olhar de Jakov. Ele baixou a cabeça com tristeza aparente. A multidão vaiou e começou a se dispersar, tomando-o por mentiroso.
— Tudo bem, tudo bem! — gritou o soldado ao ver os clientes escapando. Aquela provavelmente seria sua última parada antes de alcançar a frente élfica, e ele teria dificuldades em vender os produtos aos soldados; muitos deles já seriam muito familiares com os itens que teria a oferecer. — Tínhamos ordens de fazer o reconhecimento da próxima linha de frente — começou ele, conforme a multidão se virava de volta. — As linhas estavam avançando de novo. Vejam bem, a mata atrás de nós tinha sido toda esvaziada, e precisávamos mover as trincheiras adiante.
O soldado passou a falar com mais confiança, e Fletcher pôde ver que ele era um contador de histórias nato.
— Estava mais escuro que um saco cheio de gatos pretos naquela noite, mal tinha uma lasca de lua para iluminar nosso caminho. Vou te falar, fizemos mais barulho que um rinoceronte nervoso ao abrirmos caminho pela mata fechada. Foi um milagre ter levado mais de dez minutos para sermos notados — continuou ele, com olhos nublados como se ele estivesse lá de novo.
— Vamos logo com isso! — gritou um dos meninos no fundo, mas seu comentário foi recebido com olhares feios e sussurros de “shhh” da multidão que escutava, atenta.
— Nosso mago de batalha ia na frente. O demônio dele tinha boa visão noturna, o que ajudava um pouco; mas, mesmo assim, a gente tinha que dar duro para não disparar os mosquetes sem querer, e ainda mais para não tropeçar e cair. Uma missão suicida como nunca vi. Um desperdício de bons homens, com toda certeza — prosseguiu o soldado, girando a ponta de lança entre os dedos.
— Eles mandaram um conjurador com vocês? Isso sim é um desperdício. Achei que a gente só tinha algumas centenas deles? — indagou Jakov, cujo ceticismo fora substituído por fascinação.
— A missão era importante, mesmo que fosse equivocada. Eu não o conhecia muito bem, mas com certeza era um camarada bem agradável, mesmo que definitivamente não fosse um conjurador muito poderoso. Era fascinado pelos xamãs orcs, sempre perguntando aos soldados o que a gente sabia sobre eles e seus demônios. Estava constantemente rabiscando e desenhando em seu livro, investigando os resquícios das aldeias órquicas pelas quais a gente passava, copiando as runas pintadas nas paredes das cabanas.
O soldado deve ter percebido as expressões que começavam a se dispersar conforme ele saía do assunto principal, então se apressou:
— De qualquer maneira, não demorou muito até que nos perdêssemos, pois as poucas estrelas que tínhamos usado para nos orientar foram cobertas pelas nuvens de chuva. Nosso destino foi selado quando a garoa começou. Você já tentou disparar um mosquete com pólvora molhada? Era um desastre atrás do outro.
O soldado largou a ponta de lança no pano e cerrou os punhos unidos com emoção.
— A arma favorita do orc é a lança de arremesso. Quando uma delas te atinge, te joga longe como uma bala de canhão, te prendendo no chão; isso se ela não te atravessar completamente e se cravar no homem detrás. Elas assoviaram por entre as árvores e nos arrancaram da terra como se o mundo tivesse tombado de lado. Nem chegamos a ver quem estava atirando, mas metade dos homens tinha morrido depois da primeira saraivada, e eu não quis ficar por perto para ver a segunda. O conjurador saiu correndo, e eu o segui. Se tinha alguém capaz de escapar no meio daquela confusão dos diabos, era ele. Disparamos em pânico, seguindo os chilreios do demônio dele.
— Que tipo de demônio era? — perguntou Jakov, com as mãos unidas em atenção total.
— Eu nunca tive uma boa chance de olhar o bicho no escuro. Parecia um besouro voador e era feio como o diabo, mas eu lhe sou grato; sem ele, eu seria um homem morto. No fim, o conjurador tropeçou e caiu, e vi que uma lança o tinha atingido num lado do corpo. O sujeito estava sangrando como um porco abatido. Não havia muito que eu pudesse fazer por ele, mas o maldito demônio não fugiria sem o mestre, então tive que pegá-lo e carregá-lo comigo. O pobre coitado deve ter morrido antes que a gente alcançasse as trincheiras, mas o demônio me guiou de volta mesmo assim. O vermezinho não saiu de perto do mago quando eu trouxe o corpo de volta. Fui julgado por deserção, mas eu disse a eles que estava carregando o ferido e que o resto da tropa ficou para trás e se perdeu. Eles não sabiam o que fazer comigo, com meu esquadrão morto e a minha idade avançada, então, no fim, me mandaram pro norte. Meu único consolo foi a bolsa do conjurador, cheia de alguns dos tesouros que vocês veem diante de si. Mas isso não foi o melhor de tudo... — Ele vasculhou os alforjes aos seus pés e, de repente, Fletcher percebeu que aquele era o clímax da cena toda. Talvez fosse isso que o soldado fizesse em todas as cidades, fisgando-os com a história, depois exibindo o item mais caro.
Porém, o que o soldado removeu com um floreio não foi a cabeça encolhida do demônio ou o corpo empalhado que o menino esperava. Era um livro, encapado em couro castanho pesado e com páginas grossas de pergaminho. Era o livro do conjurador!


4 comentários:

  1. Filha de apolo....4 de maio de 2018 09:20

    Reserva ele pra mim...............

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  2. Eu acho que os gremlins, pela descricao, lembram os elfos domesticos de H.Potter

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Boa leitura, E SEM SPOILER!