31 de março de 2018

Capítulo 3

JAFIR

Limpei o sangue que escorria do meu nariz. Eu sabia que não deveria sacar minha faca — mas eu não seria uma cabeça mais baixo do que Steffan para sempre. Ele parecia saber isso também. Sua mão vinha com menos frequência esses dias.
— Você esteve fora o dia todo, e tem somente um saco de raízes? — ele gritou.
Piers soprou seu cachimbo, se regozijando com a exibição de Steffan.
— É mais do que eu vejo pendurado na sua mão.
Os outros riram, esperando que o insulto elevasse a ira de Steffan em uma briga, mas ele só replicou a observação de Piers com desgosto.
— Eu não posso trazer para casa um leitão todos os dias. Todos devemos contribuir com coisas que valham a pena.
— Você roubou o porco. Cinco minutos de esforço — Piers respondeu.
— Onde você quer chegar com isso, velhote? Encheu o seu estômago, não encheu?
Liam bufou.
— Não encheu o meu. Você deveria ter roubado dois.
Fergus jogou uma pedra, dizendo a todos eles que calassem a boca. Ele estava com fome.
E assim era todas as noites, nosso acampamento sempre à beira de palavras e punhos agressivos, mas a nossa força vinha uns dos outros. Nós éramos fortes. Ninguém cruzava nosso caminho por medo das consequências. Nós tínhamos cavalos. Tínhamos armas. Nós havíamos ganhado o direito de devastar os outros.
Laurida acenou para mim, e eu despejei o saco. Nós dois começamos a cortar os bulbos e descascar os tubérculos mais grossos. Eu sabia que ela ficaria satisfeita. Ela preferia os gomos verdes, os fritava em banha de porco, e passava os caules maiores em farinha. Pão era uma raridade para nós — a não ser que fosse roubado também.
— Onde você as encontrou? — Laurida perguntou.
Eu olhei para ela, sobressaltado.
— Encontrei o quê?
— Isto — ela disse, erguendo um punhado de raízes cortadas. — Qual o problema com você? O sol fritou o seu cérebro?
As raízes. É claro. Era a isso que ela estava se referindo.
— Em uma lagoa. Que diferença faz? — Eu respondi de volta.
Ela me bateu na lateral da cabeça, então se aproximou de mim, examinando meu nariz ensanguentado.
— Ele vai quebrá-lo qualquer dia desses — ela resmungou. — Melhor assim. Você é bonito demais de qualquer maneira.
A lagoa já estava esquecida. Eu não podia contar a eles que a garota havia me encontrado na lagoa hoje, me seguido e caído sobre mim sem nenhum aviso, e não o contrário. Eu sofreria mais do que um nariz ensanguentado. Era vergonhoso ser tomado de surpresa, especialmente por um deles. A espécie deles era estúpida. Lenta. A garota havia até mesmo revelado sua estupidez quando me mostrou como colher a comida dela.
No dia seguinte eu retornei à lagoa, mas desta vez me escondi em algumas pedras, esperando que ela viesse. Depois de uma hora, entrei na lagoa para colher os tubérculos, pensando que isso a atrairia de seu esconderijo. Não atraiu. Talvez ela não fosse tão estúpida quanto o resto. Talvez ela tivesse realmente escutado meu aviso. Sim, Jafir a havia assustado. Era minha lagoa agora. A lagoa de Jafir, para todo o sempre.
Enchi o saco com os caules e galopei mais para o sul, procurando o acampamento dela. Eles não tinham cavalos – nós nos certificamos disso. Ela não poderia estar tão longe da lagoa, mas não havia sinal dela.
— Morrighan — eu sussurrei, testando como isso soava na minha língua. — Mor-uh-gon.
Harik nem sabia o meu nome, me chamava de algo diferente cada vez que visitava. Mas ele sabia o dela. Porque o maior guerreiro da terra sabia o nome de uma garota magricela e fraca? Especialmente de um deles.
Quando eu a encontrasse, faria com que ela me contasse. E então eu seguraria minha faca em sua garganta até que ela chorasse e implorasse para que eu a soltasse. Assim como Fergus e Steffan faziam com os membros das tribos que escondiam comida de nós.
Do alto de uma colina, procurei através dos vales, vazios com exceção do vento movendo a grama.
A garota se escondia bem. Eu não a encontrei novamente por mais quatro anos.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!