22 de março de 2018

Capítulo 3

O Zaratan continuou a nadar enquanto o céu escurecia, parando de vez em quando apenas para mascar um pouco das flutuantes algas do rio. Nadava com nova determinação, e, portanto, eles cobriram a distância rapidamente, apesar de o cenário não mudar muito. Todo minuto passado era uma bênção, pois significava que se afastavam cada vez mais da região do éter dominada pelos orcs, onde os xamãs orcs e as Serpes que eles cavalgavam sem dúvida já teriam se lançado na busca.
Enquanto esperavam alcançar o final dos pântanos, o frio tornou-se o maior inimigo; o ar úmido sugava o calor de seus corpos e os deixava trêmulos, aninhados contra o calor fraco do corpo peludo de Lisandro. Fletcher deixou Ignácio enrolado em volta dos ombros da mãe, enquanto Atena enrodilhava-se no colo. Alice retorcia os dedos distraidamente pela pelagem do demônio, um sorriso distante brincando nos lábios, enquanto a Griforuja ronronava e chilreava.
Uma letargia entorpecente começou a tomar conta do grupo com o passar do tempo — Fletcher mal conseguia reunir energias para se mover. Seria algum efeito colateral dos dardos de Jeffrey... ou apenas o veneno do éter dominando-os lentamente?
Quando a noite caiu, eles invocaram um pequeno fogo-fátuo e comeram o que restava dos suprimentos da missão — porco salgado da cozinha de Briss e bananas meio amassadas, colhidas na selva. Era uma refeição simples, mas Alice devorou a carne de porco com movimentos ferozes, como se não sentisse o gosto de carne havia anos. Fletcher cedeu a própria porção, sem saber se ria ou chorava quando ela se recostou para trás com um grunhido inconsciente, segurando a barriga estufada. Momentos depois Alice estava quase adormecida, a cabeça apoiada no ombro do filho.
A visão que tinha de sua mãe, pelo breve período que a conhecera como Alice Raleigh, era de uma mulher gentil, bela e cheia de amor pelo único filho. Agora ele se via cuidando de uma alma perdida, com a mente destruída e sem memória alguma de si mesma, quanto mais do filho. Apesar disso, enquanto limpava as manchas de gordura dos cantos da boca de Alice, descobriu que sentia um aperto no coração por ela. Como poderia se sentir desapontado com a mãe, depois de tudo o que ela havia suportado? Ele a amava mesmo assim.
Eles aproveitaram a última luz do crepúsculo — se é que dava para chamá-lo assim naquele mundo exótico — para checar os suprimentos. Ainda tinham algumas roupas extras secas, que trocaram disfarçadamente, usando o corpo de Lisandro como barreira improvisada entre garotos e garotas.
Para surpresa de Fletcher, descobriram que haviam conservado todas as suas armas, ainda que a maior parte da pólvora acabasse encharcada. Sylva perdera todas as flechas, mas Fletcher tinha algumas para dividir, e ainda sobrara a Cress sete setas. Porém, naquele ambiente, todos sabiam que seus demônios seriam as armas mais úteis, e Fletcher sentiu uma pontada de pena de Sylva. Ela não tinha mais demônio nem mana.
Enquanto embainhavam as armas a fim de se preparar para a noite, a mente de Fletcher se voltou para as pétalas. Havia mais ou menos cem no saco que Cress conseguira salvar, embora no escuro fosse difícil dizer ao certo. E, mesmo no momento que verificavam e contavam as remanescentes, Fletcher pôde sentir o efeito passar, a estranha letargia crescendo a cada minuto. Logo cada respiração se tornou um esforço, até ele ter a sensação de que acabara de subir a escada oeste de Vocans. Ficou alarmado com a rapidez com que o poder protetor das pétalas dava a impressão de estar no fim, e subitamente o suprimento reduzido do saco lhe parecia uma proteção ridícula contra o ar mortal do éter. Vendo que os outros cambaleavam de sono, Fletcher se deu conta de que dormir seria perigoso demais; ele poderia nunca mais despertar caso os efeitos das pétalas se extinguissem durante a noite.
— Preciso de outra pétala — ofegou.
— Eu não queria ser a primeira a dizer isso — suspirou Cress, abrindo os olhos e apanhando uma do saco.
Sylva e Otelo os imitaram, e até Alice permitiu que Fletcher colocasse uma pétala em sua boca sem reclamar, engolindo-a quando o rapaz lhe afagou delicadamente a garganta.
— Quanto tempo se passou, cinco horas? — perguntou Fletcher, sentindo no mesmo instante as forças retornarem.
— Mais ou menos — concordou Otelo. — São quase cinco pétalas por dia. Bem, pelo menos no tempo de nosso mundo: sei que os ciclos de dia e noite variam no éter.
— Sério? Eu devia ter prestado mais atenção às aulas — resmungou Cress.
— Relaxe, a gente aprendeu isso no segundo ano — continuou Otelo. — Os dias no éter duram mais ou menos dez horas no inverno, e quarenta horas no verão, mas os anos e as estações têm a mesma duração que os do nosso mundo. É assim que conseguimos prever as migrações que atravessam a região do Hominum no éter. Agora estamos no inverno, portanto... acho que seria melhor dormirmos um pouco; daqui a aproximadamente cinco horas já estará claro.
Fletcher ouviu com toda a atenção. Ele estava um ano atrás de Otelo e, como focara no torneio, tinha se esquecido de boa parte do que aprendera em suas aulas de demonologia e assuntos do éter.
— Você não está vendo o todo — argumentou Sylva, rispidamente. Sua voz atravessou a escuridão e assustou Fletcher. — Vamos consumir cinco pétalas a cada cinco horas. Quanto tempo até o suprimento acabar e a sermos lentamente envenenados até a morte? Não existem mais que cem pétalas naquele saco. Isso significa cem horas para cada um. Dez ciclos de dia e noite no éter.
Fletcher se pôs a pensar depressa. Isso significava pouco mais que quatro dias no tempo de Hominum. Quatro dias até que perdessem o controle de seus corpos e que acabassem... morrendo.
— Bem, com certeza por aqui devemos encontrar algumas dessas flores — sugeriu Fletcher, mas o coração já afundava no peito.
— Você está vendo alguma? — perguntou Sylva, apontando para os arbustos submersos ao redor. — Tenho certeza de que na parte órquica do éter, em algum lugar, deve haver flores... afinal, que outra explicação para o fato de existirem tantas delas? Mas não creio que seja aqui. Estas terras pantanosas devem estar nos limites do território dos orcs; provavelmente este é o único motivo pelo qual ainda não nos encontraram.
— Tá, mas isso tem importância? — murmurou Cress.
— Como assim, “tem importância”? Lógico que tem, merda! — retrucou Sylva.
Fletcher franziu o cenho. Xingar não era do feitio de Sylva.
— Gente, calma — pediu Otelo, nervoso.
— Não, eu quero saber — grunhiu Sylva, afastando a mão de Otelo enquanto este tentava acalmá-la. — Quero saber por que ela acha que a única coisa que nos impede de cair mortos, espumando pela boca e nos contorcendo no chão, não tem importância!
— Não tem importância porque vamos acabar morrendo aqui de um jeito ou de outro! — berrou Cress. E então, para espanto de Fletcher, caiu no choro. — Cem horas, duzentas horas. Que diferença faz! — soluçou, escondendo o rosto entre as mãos. — Não há volta.
Sylva congelou, seu comentário raivoso morrendo nos lábios.
— Ei — disse Sylva, aproximando-se. — É que... com Sariel morto, e agora as pétalas... eu perdi a linha. Foi mal.
Ela abraçou Cress e enterrou a cabeça no ombro da anã.
Apesar das circunstâncias, Fletcher e Otelo trocaram um sorriso. Depois de toda a desconfiança e suspeitas de Sylva, parecia que ela e Cress finalmente estavam abaixando as defesas e enxergando uma a outra como de fato eram.
Fletcher deixou que ficassem assim abraçadas por mais um tempinho, mas sabia que não podia demorar muito mais: eles precisavam de um plano, um pingo de esperança que fosse. Pigarreou.
— Não temos cem horas até morrer — disse ele, investindo a voz de uma confiança que não sentia.
Sylva se afastou de Cress, e ele viu que seu rosto também estava molhado de lágrimas.
— Como assim? — perguntou ela.
— Só precisamos encontrar mais algumas pétalas — continuou Fletcher. — Só isso. Pensem: deve existir flores no éter tanto na região do Hominum quanto na dos orcs; ou seja, deve ser uma planta comum. Aposto que o diário de Jeffrey tem todas as informações de que precisamos sobre sua aparência e onde crescem.
— Certo — disse Cress, a voz pouco mais alta que um sussurro. — Então vamos procurá-las. Mas... e nossa volta para casa?
— Não vamos conseguir criar um portal de volta a nosso mundo aqui, nem em qualquer outra parte do éter, não sem alguma espécie de nova chave — conjecturou Otelo rapidamente. — Isso já foi tentado antes.
— Que ótimo — respondeu Sylva, desapontada.
— Mas... podemos voltar por um portal já criado por alguém em nosso mundo.
— O que está sugerindo, então? — murmurou Cress. — Que a gente dê um jeito de fazer esse Zaratan dar meia-volta, retornar até o ponto inicial, evitar as Serpes e os xamãs, encontrar um portal que tenha sido recém-aberto, saltar para dentro, enfrentar os perigos que encontrarmos no lugar onde formos parar, e depois atravessar a selva até a fronteira de Hominum com metade dos orcs do continente em nosso encalço? Não, obrigada.
— Você tem razão — ponderou Fletcher, levantando as mãos em sinal de rendição. — Definitivamente não vamos fazer isso. Vamos nos afastar o máximo possível da região órquica do éter.
— E depois? — perguntou Otelo. Ele e Cress pareciam confusos, mas Fletcher pôde ver o início de um sorriso dançando no rosto de Sylva. Ele respirou fundo.
— Vamos sair desses pântanos e atravessar o éter, até encontrarmos a região de Hominum.

6 comentários:

  1. alguém além de mim está notando a relação éter-tártaro anabeth e percy-Sylva e flecher?

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    1. Pensei que só eu tinha notado
      Parece que faz referência a Harry Potter e Pokémon também. Eu associei bastante a escola de magia deles com Hogwarts

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    2. Sim.
      Eu também me lembrei

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Boa leitura, E SEM SPOILER!