13 de março de 2018

Capítulo 3

Fletcher fitou Didric, horrorizado. Subitamente, pequenos detalhes que tinha deixado passar ficaram claros. O pesado sinete no mindinho de Didric. Os uniformes dos guardas, de coloração tão específica e blindagem tão pesada; eles eram o exército particular de Didric, um privilégio que o rei concedia apenas à nobreza.
Havia até um brasão d’armas costurado no peito da jaqueta do rapaz, exibindo as barras de uma cadeia, com duas espadas cruzadas atrás, blasonadas no mesmo amarelo e negro ostentado pelos soldados. Um emblema apropriado.
Didric inclinou a cabeça, obviamente se deleitando com o horror de Fletcher. O garoto, por sua vez, tentou permanecer inexpressivo, embora fosse quase impossível. Estava tomado pela repulsa.
— Enquanto você apodrecia numa cela de prisão, frequentei Vocans, na minha própria suíte de luxo. Nada de alojamento de plebeus para mim — gabou-se Didric, alargando o sorriso torto. — Lorde Forsyth foi gentil em me conceder Rubens, um demônio que já está na família dele há gerações. Claro, não é meu único, mas me serviu bem no início. Aliás, acho que você gostaria de saber que o Torneio começará em poucos dias. Eu deveria estar treinando, mas não perderia esse momento por nada no mundo.
— Então vamos logo com isso — rosnou Fletcher, olhando em volta em busca do tribunal. — Você fala demais.
— Ah, muito bem. Estou surpreso que esteja com tanta pressa de voltar à sua cela. Se eu fosse você, aproveitaria bem as próximas horas de ar fresco e luz do sol, Fletcher. Porque serão as últimas. — Didric indicou o caminho e pressionou a pistola nas costas do conjurador.
O tribunal havia sido convertido a partir da velha prefeitura, uma grande construção oval, completa com campanário e uma grande porta de carvalho. As paredes tinham acabado de ser pintadas de branco, e o brasão dos Juízes fora montado acima da porta; martelo e bloco de juiz, ambos negros, se erguiam, agourentos, enquanto os dois atravessavam as largas portas abertas.
O interior lembrava a Fletcher de uma igreja, com bancos baixos cheios de gente de ambos os lados. No fim do corredor central, dois guardas aguardavam com correntes e grilhões. Atrás deles, um juiz de expressão severa, resplandecente em toga negra e peruca branca empoada, o encarava de uma mesa alta.
— Foi uma ideia de gênio converter este lugar num tribunal — sussurrou Didric pelo canto da boca. — Agora podemos levar os acusados direto da sentença à prisão. Claro, nunca fica assim tão cheio. Você atraiu uma bela plateia!
Fletcher tentou ignorar os rostos que o encaravam dos dois lados, esmagado pelo constrangimento no silêncio solene do salão. Percebeu que as roupas que pendiam do corpo eram pouco mais que trapos fedidos, pois havia pouco que ele pudera fazer para lavá-las com a água limitada que recebia na prisão. O cabelo pendia em mechas sebosas, e a barba e o bigode de adolescente se espalhavam em tufos ralos e esparsos pelo rosto. Imaginou que mal reconheceria o próprio reflexo.
Didric o levou pelo corredor, como se fosse parte de uma festa de casamento macabra, exibindo com orgulho seu prisioneiro. Fletcher lançou olhares rápidos para os lados na esperança de ver Berdon, mas, se ele estava lá, o garoto não o encontrou.
Finalmente chegaram ao púlpito.
— Acorrentem-no — ordenou o juiz, com uma voz aguda e esganiçada.
Fletcher permitiu que os guardas o acorrentassem ao chão, como se fosse um urso servindo de isca numa arena. Logo soltariam os cães. Ficou parado em silêncio, esperando pelo que aconteceria em seguida. Não tinha cartas na manga, nenhuma rota de fuga. A melhor aposta seria tentar escapar depois de sentenciado. As coisas poderiam se complicar se o próprio Didric o levasse de volta à cela, mas, mesmo assim, Fletcher tinha certeza de uma coisa: preferia morrer lutando a ser deixado para apodrecer naquela cela.
— Tragam a defesa. — O juiz fez um gesto para a esquerda.
Um guarda bateu duas vezes e, em seguida, abriu as portas com um floreio cerimonial. Um homem alto, com cicatrizes de batalha e vestindo um uniforme azul de oficial, entrou no recinto.
— Arcturo! — gritou Fletcher, esquecendo todo o senso de decoro.
Arcturo lhe lançou um sorriso severo e acenou de leve com a cabeça, como se mandasse o rapaz se calar.
— Silêncio! — ordenou o juiz, apontando um longo dedo ossudo para Fletcher. — Mais uma explosão dessas e vamos lhe colocar uma mordaça.
— Minhas desculpas, meritíssimo — disse Fletcher, enquanto Arcturo parava ao seu lado. — Não foi minha intenção desrespeitar o tribunal.
— Hum, muito bom — respondeu o juiz, erguendo os óculos e espiando Fletcher por trás de um longo nariz aquilino. Parecia surpreso com a civilidade do rapaz; talvez estivesse acostumado a tratamento muito menos cortês dos réus. — Seja como for, mas terei ordem no meu tribunal, está claro?
— Sim, meritíssimo — declarou Arcturo, cortando Fletcher antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa. A mensagem era clara: o garoto não deveria mais falar.
— Quem vai falar pela acusação? — indagou o juiz, arrumando alguns papéis na mesa.
— Eu falarei, meritíssimo — anunciou Didric, virando-se para encarar a multidão.
— Hum. Isso não é muito... ortodoxo — comentou o juiz, enquanto Didric desfilava até uma cadeira e mesa do lado esquerdo da sala. — Porém, não está fora do domínio da lei. Tenho que lhe lembrar de que você ficará impossibilitado de testemunhar para a acusação, caso decida se representar. Está entendido?
— O caso já está vencido, meritíssimo. O depoimento oficial das duas testemunhas será mais que suficiente para condenar este vilão, quer eu suba ao púlpito ou não — respondeu Didric, sorrindo confiante para a assembleia reunida.
— Muito bem — disse o juiz, balançando a cabeça em reprovação. — Acusação e defesa, sentem-se. Guardas, tragam a primeira testemunha!
Arcturo e Didric se sentaram nos respectivos lados do tribunal, deixando Fletcher acorrentado ao chão diante do juiz. O guarda esperou até que todos tivessem se sentado para abrir a porta lateral com uma mesura cerimoniosa. Por um momento, Fletcher não reconheceu a jovem que entrou pela passagem. Quando ela lhe lançou um olhar de desprezo, porém, o rapaz entendeu de quem se tratava.
Calista tinha mudado desde que o garoto a vira pela última vez, avançando contra ele na cripta. O cabelo, antes uma maçaroca mal cortada, tinha crescido e sido penteado numa elegante cabeleira negra. Ela escolhera um vestido azul-bebê, com bainha de renda e babados, que lhe dava uma aparência quase de boneca. O rosto continuava contraído e severo como sempre fora, mas ela — ou um profissional — tinha feito um grande esforço em pintá-lo e empoá-lo, suavizando suas feições e pele. Até a forma como andava havia mudado, o passo de cavaleiro de sempre aparentemente não existia conforme assumia o lugar no pódio ao lado do juiz.
Agora que estava à vista da multidão, Calista mordeu o lábio e se afastou de Fletcher, como se o temesse. Fletcher entendeu que estava encrencado. Eles tinham transformado a guarda irreverente numa vítima assustada e inocente. Como ele seria capaz de convencer o juiz de que na verdade fora Calista, acompanhada de Didric e Jakov, quem tentara o assassinar? Os espectadores já murmuravam entre si, fitando Fletcher com acusação no olhar.
— Lembrarei a todos vocês de que a decisão final está em minhas mãos, assim como todas as questões de lei criminal. Não haverá júri ou julgamento por pares; isso é reservado às cortes militares. Assim, não haverá discussões ou conversas paralelas entre os ouvintes. Se algum de vocês desejar agir assim, sugiro que deixe o meu tribunal. — O juiz lançou um olhar sério a todos antes de se virar para o pódio ao seu lado. — Agora, minha cara, está pronta para começar?
Calista concordou com a cabeça, torcendo as mãos no colo. Didric se levantou e foi até ela, encostando-se causalmente no pódio.
— Vou manter as coisas simples para não segurar Calista aqui mais tempo do que o estritamente necessário. É só se concentrar em mim, Calista, e ignorar todo o restante. Não há nada a temer. Basta dizer ao bom juiz o que aconteceu na noite em que fui atacado, e tudo logo acabará.
Calista baixou a cabeça numa afetação de modéstia, escondendo o rosto do restante do tribunal sob uma cortina de cabelos negros. Era uma performance magistral, que quase teria convencido o próprio Fletcher, se não fosse pelo sorriso sádico que ela lhe lançou por trás das madeixas.
— Didric, Jakov e eu estávamos de guarda nos portões da aldeia, naquela noite — começou Calista, com um leve tremor na voz. — Vimos Fletcher saindo da cabana dele, carregando um livro pesado. Um soldado estivera vendendo um igual na feira um dia antes, então presumimos que Fletcher o tinha roubado e estava prestes a esconder a prova do crime. Então o seguimos pela noite, até o cemitério, de todos os lugares possíveis. Quando o confrontamos, ele alegou ter comprado o livro...
Didric a interrompeu com a mão erguida.
— Por favor, tome nota de que a investigação encontrou uma quantia considerável de dinheiro no quarto do réu na noite do incidente. É improvável que ele tenha comprado o livro. Podemos acrescentar furto à lista de crimes.
— Uma... acusação... de furto... — rabiscou o juiz em sua escrivaninha com uma pena de cisne. — Mas que marginalzinho temos aqui.
— De fato, meritíssimo. Nós confiscamos os fundos, naturalmente — continuou Didric, piscando para Fletcher. — Peço desculpas pela interrupção, Calista. Por favor, continue.
— Muito obrigada, lorde Cavell — respondeu Calista, com um novo tremor teatral na voz. — Tolamente, nós decidimos acreditar na história de Fletcher. Ele então nos disse que usaria o livro para tentar conjurar um demônio, e perguntou se ficaríamos para assistir. Pensamos que seria engraçado, então topamos...
Ela tremia agora, lançando breves olhares de medo para Fletcher. Ele tinha que admitir, ela era uma ótima atriz.
— Eu não sei como, mas ele conseguiu. Houve tanto barulho e luz... Foi como se o mundo estivesse prestes a acabar! E, então, aconteceu.
Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto dela. O juiz lhe entregou um lenço do alto da mesa e murmurou:
— Continue. Diga-nos o que ele fez.
Calista engoliu em seco e apertou o maxilar enquanto enxugava a lágrima.
— Ele se virou contra nós, tentou nos matar! — gritou ela, levantando-se num salto. — Ele nos odiava, nos culpava por tudo de ruim que tinha acontecido em sua vida. Era como se tivesse enlouquecido! Lembro-me de como ele ria enquanto nos encurralava na capela, nossas espadas inúteis contra as chamas do demônio. E, quando comecei a chorar, ele se concentrou em mim, dizendo que eu seria a primeira a morrer.
Ela desceu do púlpito e avançou contra Fletcher, mantendo o dedo apontado como uma pistola.
— Primeiro as damas, não foi o que disse? — sibilou. — Seu monstro!
Calista se virou e enterrou o rosto no peito de Didric. O rapaz lhe dava tapinhas no ombro enquanto a jovem chacoalhava com acessos de soluços, cada um mais dramático que o anterior.
Fletcher não conseguiu evitar revirar os olhos de repulsa, o que atraiu um olhar zangado do juiz. Calista se afastou de Didric e fez um último discurso fervoroso.
— Foi só quando Didric, o corajoso Didric, entrou na minha frente que Fletcher me deixou em paz. Ele tentou argumentar com esse monstro, mas foi inútil. De repente, o demônio atacou o rosto de Didric com chamas. E, mesmo enquanto o próprio cabelo queimava, ele conseguiu afastar a criatura, assustando Fletcher para a passagem sob a capela. Foi então que Didric tombou, inconsciente, e rachou a cabeça. Nós o carregamos de volta à casa do pai. E o restante vocês já sabem.
O juiz juntou as pontas dos dedos, contemplando Calista. Apesar dos soluços, seu rosto estava seco como osso, e as bochechas, infladas de empolgação, bem coradas. Por um momento, Fletcher acreditou que o juiz tivesse captado a falsidade, mas então o velho sorriu gentilmente para ela e lhe agradeceu pelo testemunho. Calista fez uma profunda mesura para Didric e partiu do salão sem olhar para trás.
— Tragam a próxima testemunha! — ordenou o juiz.

5 comentários:

  1. Era como se tivesse enlouquecido! Lembro-me de como ele ria enquanto nos encurralava na capela, nossas espadas inúteis contra as chamas do demônio. E, quando comecei a chorar, ele se concentrou em mim, dizendo que eu seria a primeira a morrer.


    Mais que comédia! kkk...

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  2. Meus deuses, quando a gente pensa q já encontrou personagens repulsivos antes, a gente vê q sempre tem mais um

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  3. Ela poderia ser uma atriz de primeira.

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!