22 de março de 2018

Capítulo 39

As ruínas da antiga mansão estavam mais destruídas que o restante da cidade. Pedaços de pedra da casa, provenientes da explosão durante a última batalha travada por seus pais, estavam espalhadas pelo que antes costumava ser o jardim e agora era um emaranhado de mato. Metade da fachada da mansão se fora, deixando à mostra o piso de pedra do segundo andar.
— Vi esse lugar uma vez — confessou Fletcher, enquanto ambos caminhavam para o buraco. — Um sonho de infusão da memória de Atena.
Sir Caulder não disse nada, sentando-se pesadamente na entrada. Ele observou as ruínas calado, os olhos parecendo pousar nos escombros de uma escadaria que subia até a metade do segundo andar.
— Como você conseguiu sobreviver? — perguntou Fletcher, sentando-se ao lado do homem. — Dizem que todos os corpos foram levados pelos orcs e... — Ele deixou a frase incompleta, lembrando o destino que havia esperado o corpo do pai.
— Um orc me salvou — respondeu Sir Caulder, então percebeu a expressão de Fletcher e balançou a cabeça. — Bem, seu corpo me salvou. Era um sujeito enorme e me cobriu completamente. Quando o Corpo Celeste chegou, algumas horas mais tarde, os oficiais me encontraram e me levaram antes que os orcs voltassem. Era tarde demais para meu braço e perna, mas me salvaram a vida.
Sir Caulder suspirou.
— Eu queria ter tido a chance de ver sua mãe, Fletcher — murmurou Sir Caulder, tão baixinho que ele teve de se esforçar para conseguir ouvir. — Preciso me desculpar com ela. Eu não os impedi. Não consegui salvar Edmund.
Fletcher balançou a cabeça e deu um tapinha no ombro do velho.
— Não há nada do que se desculpar. Eles foram traídos, e não havia nada que ninguém pudesse ter feito para impedir o que aconteceu.
Diante da menção do nome do pai, Fletcher tentou imaginar o homem de cabelos escuros que ele vira tão brevemente naquele sonho. Então percebeu que não precisava se lembrar. Havia um quadro intacto acima da antiga lareira no canto esquerdo da sala.
Fletcher correu até lá, impressionado com o estado da pintura. Lá estava seu pai, Edmund, o queixo levemente barbado, os cabelos rebeldes, os braços fortes ao redor de Alice. Ela sorria, feliz, segurando um recém-nascido nos braços. Fletcher.
— Meu Deus. Como isso ainda pode estar aqui? — indagou Sir Caulder, surpreso. — Eles mandaram pintar esse quadro no dia em que você nasceu.
Fletcher estendeu a mão para tocar a testa do bebê. Uma barreira escorregadia encontrou seu dedo antes que tocasse a pintura. Então ele percebeu. Cristais de coríndon posicionados ao redor do retrato. Todos esses anos, eles formaram uma barreira que protegera a obra contra as intempéries.
O gasto com aquilo devia ter sido imenso. Aquela devia ter sido a posse mais preciosa dos pais.
Então ele sentiu. O peso da perda. Ter crescido sem o amor dos pais. Sem conhecer a terra natal. Como teria sido sua vida se lorde Forsyth não os tivesse traído? Seus pensamentos se voltaram à mãe, uma simples casca da mulher que fora um dia. Ela parecia tão feliz naquele quadro.
Ele sentiu seus olhos úmidos e lutou contra as lágrimas.
— Parece você — disse uma voz vinda de trás deles. Berdon.
Berdon observava o quadro, com o rosto triste.
— Exatamente como você. Me lembro de quando o segurei no colo pela primeira vez... como eu estava feliz — disse ele. — E pensar... que você havia acabado de perder sua família. Sinto muito, filho.
— Eu perdi uma família — disse Fletcher, sorrindo e chorando, abraçando o ferreiro. — Mas ganhei outra, graças a você. Não precisa se desculpar por nada. Eu não seria o homem que sou hoje se não fosse por você.
Eles se abraçaram por um momento, e Sir Caulder se afastou, enxugando os olhos quando achou que eles não o notavam.
Depois de alguns instantes, Berdon o soltou.
— Os soldados voltaram — disse ele. — Encontramos um lugar para acampar.
Era uma igreja. Os vitrais se foram, mas o teto e o telhado eram feitos de pedra abaulada, resistindo ao tempo e provendo uma cobertura segura para que passassem a noite. Os bancos permaneceram secos e longe do vento, de modo que estavam em boas condições. Além de algumas ervas daninhas aqui e ali, e restos de folhas que entraram pelas janelas, nada impedia que os colonos acampassem no local.
Sir Caulder havia mostrado um velho poço no caminho de volta, que seria útil depois que os restos de animais e plantas que se acumularam durante os anos fossem retirados.
A principal preocupação era comida — o que parecera bastante para Fletcher mal era suficiente para durar por mais algumas refeições, pois 135 pessoas consumiam facilmente dois barris de carne salgada de porco e veado que os anões haviam trazido consigo.
Entretanto, naquele momento, a prioridade de Fletcher era arrumar o abrigo e resolver outros assuntos mais importantes. Ele requisitou mais pedaços de tecido para serem colocados sobre os buracos das janelas. A poeira foi limpa com vassouras velhas encontradas em casas ali perto, e travesseiros e lençóis foram dispostos para os exaustos colonos.
Os javalis e cabras foram amarrados nos estábulos, pois o campo tinha muitos predadores para que pudessem pastar livremente à noite — hienas, chacais e felinos haviam sido vistos por ali. Aldeões foram enviados para cortar forragem nos campos ao redor do acampamento, enquanto nozes e raízes foram coletadas e usadas para alimentar os javalis famintos. As galinhas permaneceram em suas gaiolas, alimentadas com sementes que puderam ser colhidas nos arredores.
Era necessário preparar comida para todos, e três caldeirões cozinhavam uma sopa simples de carne salgada e pedaços de tubérculos para aplacar a fome. Sentinelas foram designadas para manter a vigília contra predadores. Enxadas e marretas foram limpas após os trabalhos noturnos. As camas foram divididas, e as pessoas se apresentaram rapidamente, esquecendo-se dos nomes com a mesma rapidez.
Muitas perguntas foram feitas, e Fletcher não tinha respostas para muitas delas. Apenas o apoio constante de Sir Caulder e a presença calma de Berdon o impediam de perder a paciência.
A tarde já findava quando finalmente eles conseguiram esvaziar as carroças, organizar seu conteúdo e terminar as atividades mais importantes.
E, então, quando o sol começou seu trajeto de descida no horizonte, os colonos finalmente adormeceram.

4 comentários:

  1. Gente tá tudo muito calmo sei não hein
    Partiu próximo capítulo

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    1. Exatamente. Sempre dá algum problema. Já são muitos capítulos sem alguma surpresa negativa.

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  2. E pensar em quanto os pais do Fletcher o amaram, da mais vontade ainda de matar o lorde Forsyth, o bom que ele encontrou o Berdon que amou muito ele tbm.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!