13 de março de 2018

Capítulo 39

Eles desceram para a penumbra assim que terminaram de arrumar as mochilas, os passos ecoando de leve em volta. O estreito retângulo de luz da entrada dos fundos foi encolhendo conforme eles se aprofundavam nas entranhas da pirâmide, diminuindo até não passar de um leve luzir. Ignácio e Tosk iam na frente, enquanto Atena se empoleirava no ombro de Fletcher, fornecendo a visão de que ele precisava nas trevas. Enquanto isso, Calibã, Lisandro e Sacarissa seguiam na retaguarda, vigiando a entrada dos fundos em busca de movimentos inesperados.
Houve um baque e um grunhido à frente.
— Ai! — exclamou Serafim, e Fletcher viu que ele havia desabado no chão adiante. — Tem uma parede aqui.
Ignácio lambeu o rosto de Serafim em solidariedade, provocando assim outro grunhido.
— Ah, dane-se. — Verity acendeu um fogo-fátuo. — Se houver demônios guardando esta pirâmide, eles vão nos ouvir, com ou sem luz. Pelo menos assim nós veremos a aproximação deles.
Mais fogos-fátuos surgiram, iluminando o ambiente até as paredes ficarem cobertas com etérea luz azul. Conforme a penumbra fugia, Fletcher percebeu que Serafim tinha dado de cara com a parede no fim do corredor. Dois caminhos idênticos seguiam em direções opostas cada um, mais estreitos e empoeirados.
— Vamos precisar nos dividir — afirmou Malik, mandando um par de fogos-fátuos por cada passagem. O caminho se curvava de volta em direção ao centro da pirâmide, fora de vista.
— Verity, Mason e eu vamos pela esquerda com você, Fletcher — murmurou Malik, entrando no corredor esquerdo. — Penélope e Rufus, vocês seguem com a equipe de Serafim pela direita.
— Quem disse que você manda aqui? — rosnou Átila, passando o braço pelo ombro de Otelo. — Eu acho melhor ficarmos juntos.
— Sendo realista, é bem pouco provável que a gente consiga achar um esconderijo para todos num lugar só — argumentou Malik, levantando as palmas num gesto apaziguador. — Nos separarmos é inevitável.
— Malik tem razão — disse Fletcher. — O mapa diz que tem uma passagem para as cavernas em algum lugar por aqui; não é, Mason? Você sabe onde?
— É só o que ouvi falar — respondeu Mason, coçando a cabeça. — Nunca me deixaram vir aqui; eu só ficava nas cavernas. Só vi uma vez uma passagem das cavernas pra pirâmide, mas não sei onde sai.
— Teremos uma chance melhor de encontrá-la se nos espalharmos — argumentou Serafim, empurrando Átila em direção ao corredor da direita. — Lembrem-se: nosso alvo não é a pirâmide, mas as cavernas embaixo dela.
— Nos vemos do outro lado — disse Genevieve, jogando Azura no ar para fazer o reconhecimento adiante. — Vamos, Rory.
Sacarissa choramingou e cutucou o braço de Fletcher, que iria com o grupo de Serafim.
— Conseguimos, Arcturo — sussurrou o rapaz.
O Canídeo deu uma cabeçada brincalhona no peito dele antes de seguir atrás de sua equipe.
Rufus fez uma pausa ao lado de Fletcher enquanto seguia Penélope pela outra passagem.
— Fletcher — disse o nobre, segurando o pulso do outro rapaz. — Se você alcançar as cavernas primeiro, salve minha mãe. Por favor.
— Farei o possível — respondeu ele, ainda que tenha evitado o olhar de Rufus ao prometer.
Solidarizava-se com lady Cavendish, mas, em sua opinião, os ovos de goblin eram a verdadeira ameaça. Cada ovo destruído era menos um goblin a ser mandado lutar contra Hominum.
— Obrigado — sussurrou Rufus. — Terei com você uma dívida eterna.
Então ele se foi, correndo atrás dos outros.
Assim que começou a andar, Fletcher foi jogado contra a parede. Calibã o tinha empurrado para o lado, curvando-se para que os chifres não arranhassem o teto.
— Parece que Rook não sente a sua falta. — Otelo piscou um olho e seguiu.
O corredor seguinte era tão longo quanto o anterior, mas terminava de forma muito menos abrupta. Após alguns minutos de caminhada, a passagem se abriu, revelando uma antecâmara tão grande quanto o salão de conjuração em Vocans.
Mais estranho ainda era o fato do lugar estar cheio de sacos, alguns dos quais tinham estourado, espalhando de qualquer jeito pelo chão pétalas de flores amarelas recém-colhidas. Elas jaziam sobre uma grossa camada de poeira que recobria o salão, desfeita apenas nas beiras, por onde passaram aqueles que haviam trazido os sacos.
— Que lugar é este? — indagou Otelo. O anão lançou fogos-fátuos, que dardejaram para os cantos da câmara até que o lugar inteiro se iluminou. Eles revelaram hieróglifos e cenas entalhadas nas paredes, todos pintados com pigmentos desbotados.
— Você consegue lê-los? — perguntou Fletcher a Jeffrey, que já estava ocupado copiando-os para o caderno.
— Não — murmurou o guia, traçando os símbolos com os dedos. — Acho que nem os orcs conseguiriam. Essas coisas aqui são bem antigas. Uma cultura que antecedeu a deles em milênios.
— Você está dizendo que os orcs não construíram este lugar? — comentou Verity, sem tirar os olhos da tabuleta.
— Não faço ideia — admitiu Jeffrey, enquanto o lápis escrevinhava pelas páginas. — Há imagens de orcs nas paredes, então eu pensaria que construíram sim. Porém, os hieróglifos são uma língua completamente diferente. Qualquer que tenha sido a civilização que construiu o lugar, morreu há muito tempo. Isso explicaria a diferença em tamanho e arquitetura dos zigurates que cercam a pirâmide. Não é de espantar que seja tão importante para os orcs; aposto que acham que isto aqui foi construído por seus ancestrais-deuses.
Fletcher examinou os hieróglifos mais próximos. Os símbolos ilustravam os animais e plantas da selva, um tipo de alfabeto baseado na natureza. Não tinham semelhança alguma com as runas órquicas que ele vira no pergaminho de conjuração de Ignácio, por sua vez formadas por linhas serrilhadas e pontos. Era impossível decifrar o significado, então o rapaz voltou a atenção aos sacos de pétalas aos seus pés.
Depois das advertências de Jeffrey sobre as plantas da selva, ele tinha evitado tocá-las, mas, quando inspirou mais fundo, notou que tinham cheiro semelhante ao tabaco, com um toque alcoólico. O que as pétalas de uma planta assim faziam na pirâmide era um mistério.
— Pessoal, acho melhor vocês darem uma olhada aqui — chamou Verity, erguendo um olhar arregalado do cristal de visão. — Eles chegaram à pirâmide.
Era verdade. A tabuleta mostrava a liteira em forma de caveira sendo baixada e os rinocerontes se ajoelhando diante das grandes escadarias. Fletcher também notou que os tambores começaram a soar outra vez; mesmo nas profundezas da pirâmide, os baques surdos podiam ser ouvidos, como se a construção ancestral tivesse pulsação própria.
Foi então que Fletcher o viu. O orc albino, saltando da caveira de modo a pousar nos degraus. O corpo formava a simetria perfeita de poder e agilidade. Aquela aparição provocou rugidos e bater de pés na multidão, intensificando-se até o puro fervor fazer tremer o chão.
De fato, o orc albino era mais alto que seus colegas, chegando a quase 2,50 metros de altura. Vestia pouco mais que uma simples saia, a pele branca untada para reluzir como marfim polido. Em contraste aos inúmeros estilos e adereços dos orcs ao redor, uma juba simples de cabelos cinzentos caía-lhe sobre os ombros, tão longos e cheios quanto os de Sylva. Ele era menos volumoso que os outros ao redor, com músculos mais adequados a velocidade do que força bruta.
O albino ergueu os braços, aceitando a adoração dos espectadores. Acenava com a cabeça e sorria por trás das presas selvagens enquanto subia os degraus, como um dançarino, com passos fluidos e controlados. Dois xamãs o flanqueavam, seus Nanauês subindo e descendo as escadas com empolgação.
Antes que alcançassem o topo, o rugido da multidão se tornara um cântico, uma única palavra repetida vezes sem conta, abafada pelas paredes da pirâmide. Os percussionistas pontuavam o mantra com o ritmo dos tambores, redobrando esforços para acompanhar a batida da massa.
— O que eles estão dizendo, Verity? — perguntou Fletcher, tentando discernir a palavra.
— Khan — respondeu Verity, olhos fechados em concentração. — Parece Khan.
— É o nome dele — explicou Mason, estremecendo. — Chamam ele assim.
Os três orcs já tinham alcançado o topo das escadarias àquela altura, e, sob as vistas de Fletcher, Khan sacou uma faca serrilhada de obsidiana de uma bainha na cintura.
A multidão enlouqueceu, uivando e gritando num fervor fanático. Só a vintena de orcs azuis que tinha perdido o jogo de bola continuava calada, os orcs ajoelhados à base dos degraus. Então, um por um, eles foram empurrados escada acima e fizeram a longa caminhada até o topo.
— Isso é muito estranho — observou Cress. — Não tem nada lá em cima. O que eles estão fazendo?
— Vocês vão ver — disse Mason, soturno,  afastando-se dos outros. — Mas eu prefiro não, caso não se incomodem.
O primeiro orc azul chegou ao topo plano da pirâmide. Mesmo que Ébano voasse bem alto,  Fletcher via que as mãos do orc tremiam. Ele avançou arrastando os pés até que Khan lhe deu um puxão até o altar, onde o perdedor da partida ficou esparramado, com braços e pernas abertos, enquanto o albino erguia a faca. Fletcher virou o rosto bem a tempo.
Sentindo uma ânsia súbita, Verity entregou a tabuleta a Sylva e correu para vomitar no canto. Os outros assistiram, horrorizados. Apenas Jeffrey fora poupado da cena, por demais fascinado com os entalhes nos painéis para dar atenção à tabuleta.
— Sacrifícios aos velhos deuses, aos deuses esquecidos — murmurou Mason. — Os orcs têm medo deles, acreditam que estão dentro deste templo aqui. Então dão pra eles o máximo de sangue; mais do que dão para qualquer outro.
O corpo do orc azul foi atirado escada abaixo, para despencar além das vítimas seguintes até a multidão abaixo. Os espectadores gritaram de novo, agarrando o cadáver, erguendo-o sobre as cabeças e o passando para trás numa celebração macabra.
Outro sacrifício jazia no altar, o peito arfando de medo. A faca subiu e desceu mais uma vez. Khan ergueu pelo tornozelo a carcaça ainda convulsionando, um jato escarlate brotando do ferimento e colorindo o altar.
O grupo na pirâmide ficou ali por um tempo, observando o sangue escorrer com uma sinistra fascinação. Até que Jeffrey falou:
— Pessoal, vocês não vão acreditar nisso.

5 comentários:

  1. N confio nesse Jeffrey...
    Acho q ele q ta traindo e tentou matar o Fletcher

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  2. Eu não confio em ninguém fora do grupo do Fletcher.

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  3. Malik pode ainda esta com raiva da derrota para Fletcher.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!