2 de março de 2018

Capítulo 39

Fletcher sibilou de frustração conforme o símbolo que ele tinha entalhado tremeluzia no ar e então sumia.
— De novo, Fletcher. Concentre-se! — rosnou Arcturo. — Lembre-se dos passos.
O aprendiz ergueu o dedo luminoso e desenhou o glifo do feitiço de escudo novamente. O símbolo flutuou no ar diante da sua mão, enquanto ele o alimentava com um fluxo lento de mana.
— Ótimo. Agora fixe! — comandou Arcturo.
Fletcher se focou no glifo, segurando o dedo no centro exato. Manteve-o ali até que a luz pulsou brevemente, e ele sentiu que o símbolo estava travado naquela configuração. Fletcher moveu a mão e observou o glifo seguir seu dedo, como se estivesse afixado a uma moldura invisível. O suor escorria pelas costas do rapaz como um inseto rastejante, mas ele o ignorou. Precisava dar tudo de si para manter a concentração.
— Empurre o mana além com cuidado! Você precisa alimentar o glifo ao mesmo tempo.
Aquela era a parte mais difícil. Parecia que a sua mente estava prestes a se dividir em duas enquanto ele tentava equilibrar fluxos simultâneos de mana tanto através do glifo quanto para o próprio.
O símbolo estremeceu de novo, mas Fletcher cerrou os dentes e forçou um estreito filamento de substância opaca através dele até o outro lado.
— Isso! Você conseguiu. Agora, aproveitando o embalo, tente moldá-lo — incitou Arcturo.
Não havia muita energia de escudo com a qual trabalhar, mas Fletcher não queria empurrar mais mana, para não correr o risco de desestabilizar a conexão. Então, assim como tinha feito com o fogo-fátuo na primeira lição, ele o enrolou numa bola.
— Muito bem! Só que isso não é um fogo-fátuo. No caso dos escudos, você precisa esticá-los. Vá em frente, você provavelmente não terá outra chance de tentar na aula de hoje.
Mas Fletcher não conseguia mais manter o glifo estável. Ele chamejou rapidamente e se dissolveu no nada. Momentos depois, o escudo-bola fez o mesmo.
— Certo. Tentaremos de novo na aula que vem. Vá descansar, Fletcher — murmurou Arcturo, a voz marcada pela decepção.
Fletcher cerrou as mãos, furioso consigo mesmo. Por todos os lados do átrio, os outros estudantes exibiam um sucesso significantemente maior. Os nobres eram os melhores, é claro, e praticavam variar a espessura e o formato de seus escudos, visto que já haviam sido treinados em casa. Malik era particularmente talentoso, produzindo um escudo curvo tão espesso que era difícil de ver através dele.
A maioria dos amigos de Fletcher já era capaz de criar um escudo em todas as tentativas, exceto por Rory e Atlas, que só conseguiam metade das vezes. Já ele só obtivera um único sucesso nas últimas três horas.
O rapaz se sentou num banco do lado mais distante do átrio e assistiu, deprimido. Desde a primeira aula com Rook tantas semanas antes, as coisas estavam indo de mal a pior. Primeiro foram as pedras de visão. Rook tinha passado pela fila de plebeus, permitindo que escolhessem pedras de uma caixa de sobras. Fletcher fora deixado por último de propósito, e só lhe restou um fragmento arroxeado do tamanho e formato de um xelim de prata. Para ver qualquer coisa, ele era forçado a levá-lo até o olho e espiar como um bisbilhoteiro por um buraco de fechadura. Além disso, os plebeus foram forçados a praticar com os cristais na câmara de conjuração, enquanto os nobres mandavam seus demônios para explorar as partes seguras do éter.
Além disso, é claro, houve a aula seguinte com Arcturo. O capitão não estava bravo com Fletcher, mas deu ao rapaz muito com que se preocupar.
— Jamais gostei de Inquisidores, e Rook é o pior deles. Três instituições foram criadas pelo velho rei Alfric: a Inquisição, os Pinkertons e os Juízes Magistrados; todas podres até a raiz. Rei Harold as herdou quando seu pai abdicou do trono, mas há rumores de que Sua Majestade não gosta do jeito como elas fazem as coisas. Se Rook tentar criar problemas, o rei Harold não dará atenção. Estou mais preocupado com a possibilidade do velho Alfric se envolver, mas ele raramente deixa o palácio, então, com sorte, não ficará sabendo de nada. Não se preocupe, Fletcher. Você não fez nada de errado. Só espero que Rook não mande Inquisidores a seu antigo lar para revirar o lugar do avesso.
Essas palavras tinham assombrado Fletcher por várias semanas e ele mudou de ideia quanto a mandar cartas a Berdon, pois elas poderiam ser rastreadas de volta até ele, ou até o pai. Se Rook descobrisse o seu crime...
Fletcher não queria nem pensar no que poderia acontecer.
É claro que essa não fora a única coisa a desanimar Fletcher. Goodwin os tinha carregado com toneladas de deveres de casa, exigindo redações infinitas sobre demonologia e lhes devastando com críticas caso errassem o menor dos detalhes.
Em compensação, Fletcher conquistou elogios relutantes de Goodwin na segunda aula de demonologia; seu estudo das raças de Canídeos e seus primos foi recompensado. Fletcher tinha identificado corretamente e discursado com eloquência sobre os demônios de Penélope e Malik. Penélope tinha um Vulpídeo, um demônio-raposa de três caudas, um pouco menor que um Canídeo comum, porém muito mais ágil. Seu focinho era elegante e pontudo, e a pelagem era de um vermelho suave que reluzia como cobre polido.
O Anubídeo de Malik era um dos primos mais raros dos Canídeos. Ele se acocorava sobre duas patas, semelhante a um Felídeo, com a cabeça de um chacal e pelagem lisa e negra. Era um parente próximo do demônio escolhido do major Goodwin, o Lupídeo, uma criatura semelhante com denso pelo cinzento e cabeça de lobo. O Anubídeo era um demônio popular entre os magos de batalha, oriundos do deserto de Akhad, apesar da espécie ter sido caçada até se tornar praticamente extinta na parte de Hominum do éter.
O demônio de Rufus era outro Lutra, para a decepção de Atlas. Extraordinariamente, o demônio do jovem nobre lhe fora presenteado da mesma forma que as criaturas dos plebeus, por meio da doação forçada de um pergaminho de conjuração. Isso ocorrera porque a mãe dele tinha morrido quando ele era pequeno, e seu pai não era um invocador.
A única coisa em que Fletcher acreditava ter talento natural era na esgrima. Sir Caulder o convidara para aulas extras, com técnicas específicas para o khopesh. Seu maior defeito era o controle da agressão. De acordo com Sir Caulder, a paciência era uma das virtudes mais importantes do espadachim.
— Muito bem, pessoal, todos juntos aqui, por favor — gritou Arcturo, tirando Fletcher de seu devaneio.
O grupo se reuniu ao redor do professor, os rostos brilhando com a euforia de finalmente aprender uma das lições mais práticas da feitiçaria. As últimas semanas tinham sido basicamente voltadas para a prática de fogo-fátuo, canalizando mana e controlando movimento, tamanho, forma e brilho. Arcturo argumentara que as técnicas aprendidas com fogos-fátuos os preparariam bem para o entalhe de glifos.
— Pois bem, muitos de vocês estão enfrentando dificuldades em completar um feitiço em todas as tentativas. Um número ainda maior tem problemas em fazê-lo com rapidez suficiente. Vou deixar uma coisa muito clara. Tanto velocidade quanto consistência são essenciais para um mago de batalha bem-sucedido — afirmou Arcturo numa voz grave, olhando cada um deles nos olhos. — Agora, quem pode me dizer quais são os quatro feitiços fundamentais de um mago de batalha?
Penelope levantou a mão.
— Os feitiços de escudo, de fogo e de relâmpago.
— Muito bem, mas esses são só três. Quem pode me dizer o quarto?
— Telecinese — sugeriu Serafim.
— Isso mesmo, a habilidade de mover objetos. Observem bem. — Arcturo sorriu.
O professor ergueu a mão e entalhou uma espiral no ar, como se estivesse agitando uma xícara de café. Subitamente, ele chicoteou a mão para fora e o chapéu que ele usava saltou para as vigas do teto, em seguida descendo com lentidão e pousando em sua cabeça novamente. Fletcher percebeu uma perturbação no ar abaixo do chapéu, como uma onda de calor num dia ensolarado.
— A arte de mover objetos é traiçoeira, pois, ao contrário dos feitiços de escudo, fogo ou relâmpago, a telecinese é praticamente invisível ao olho nu. É muito mais difícil laçar alguma coisa e manipulá-la quando não se pode ver a corda que você usa, por assim dizer. A maioria dos magos de batalha simplesmente lança um impacto súbito, jogando o oponente para longe, mas gastando muito mana.
Arcturo, parecendo um tanto culpado, olhou de relance para a pilha de rolos de pergaminho que Penélope tinha trazido consigo. Estavam cheios de outros símbolos que o capitão os instruíra a aprender.
— Obviamente, existem milhares de outros feitiços. O feitiço de cura, por exemplo; difícil, mas útil. Ele age lentamente, portanto não é muito prático no calor da batalha. — Arcturo entalhou o símbolo do coração no ar para demonstrar. — Há alguns símbolos que lhes serão necessários no próximo ano, mas que vocês não conseguirão executar agora, como o feitiço de barreira. Vocês verão este em ação durante o torneio. De qualquer maneira, concentrem-se nos quatro fundamentais e não se darão muito mal no desafio. Mas precisarão dos outros na prova escrita; portanto, aprendam todos! Turma dispensada!
Com essas palavras, Arcturo deu meia-volta e se dirigiu à porta. Os outros começaram um bate-papo animado, mas Fletcher não estava a fim de conversar. Em vez disso, foi atrás do professor e puxou de leve sua manga.
— Senhor, se importaria se eu perguntasse se a capitã Lovett está bem?
Arcturo se virou e olhou nos olhos de Fletcher, com o cenho franzido de preocupação.
— Ela está em choque etéreo. Pode ser que jamais se recupere, ou que se recupere amanhã. Tento ler para ela sempre que posso — respondeu Arcturo, tocando o livro que levava sob o braço. — Felizmente para a capitã, um dos demônios dela, Valens, não estava infundido quando o acidente aconteceu. Ela pode ser capaz de ver através dos olhos dele usando apenas a própria mente. Só os conjuradores extremamente talentosos conseguiram aprender essa habilidade, mas Lovett é uma das mais talentosas que eu já tive a honra de conhecer. Se existe alguém capaz de fazê-lo, é ela.
O professor deu um aperto encorajador no ombro de Fletcher e se obrigou a sorrir.
— Agora vá descansar; você trabalhou duro hoje.
Fletcher assentiu e se afastou, subindo lentamente as escadas da ala oeste. Desejava a solidão do próprio quarto e a companhia de Ignácio, que só podia ser conjurado durante algumas das aulas.
Com a capitã Lovett inconsciente, Fletcher se sentia mais solitário do que nunca. Por mais que seus amigos lhe apoiassem e fossem boa companhia, todos tinham seus próprios problemas com que lidar. Até mesmo Arcturo andava reservado recentemente, mas, se era por conta da presença de Rook, de um desapontamento com a performance de Fletcher, ou por causa da condição de Lovett, o rapaz não saberia dizer. A professora havia sido bela e destemida, completamente indiferente às distinções de raça e classe social de seus estudantes. Fletcher sabia que poderia procurá-la se tivesse algum problema. Agora... era como se ela houvesse partido.
Com a mente prejudicada pelo cansaço, Fletcher se dirigiu ao andar errado, onde os nobres mantinham seus aposentos privados. Enquanto resmungava e se virava de volta às escadas, algo lhe chamou a atenção. Era uma tapeçaria, ilustrada com pessoas de armadura em meio a uma batalha.
Fletcher foi até lá e admirou o trabalho intrincado que a tinha trazido à vida.
Os orcs investiam sobre uma ponte, cavalgando seus rinocerontes de guerra a toda velocidade contra um pequeno grupo de homens armados com piques. À frente deles se erguia uma figura dominadora, o braço estendido com o símbolo em espiral entalhado diante de si. Ao seu lado, um Felídeo leonino exibia as presas e parecia rugir contra as hordas atacantes.
Fletcher se inclinou para a frente e leu a placa abaixo da obra: O Herói da Ponte Watford.
— Incrível. Cipião rechaçou uma investida de rinocerontes órquicos — murmurou ele.
De repente, ouviu o som de passos. Ao perceber que estava no andar dos nobres, Fletcher disparou para dentro de um cômodo e se escondeu nas sombras. Ele não queria topar com Tarquin novamente, não em seu humor atual.
— Você viu a cara daquele palhaço quando o feitiço dele falhou? Eu poderia ter rido até chorar. O bastardo achava que era tão especial. Agora, olhe só para ele — declarou Tarquin, com pachorra.
A risadinha resultante revelou que ele estava com Isadora.
— Você é engraçado, Tarquin querido. — Riu a irmã. — Mas nós não tivemos tempo de conversar hoje, não com todas aquelas aulas inúteis. Conte-me, o que papai disse em sua carta?
— Sabe que ele não pode nos dizer muito, não em algo tão comprometedor quanto uma carta. Mas eu consigo ler nas entrelinhas. Vai acontecer esta noite. Amanhã pela manhã seremos os maiores fabricantes de armas em Hominum. Então, tudo que teremos de fazer será nos livrar do pai de Serafim e assumir o negócio de munições dele. Depois disso, tudo será nosso!
— Ótimo. Nossa herança estará assegurada novamente. Mas ele lhe disse se... — A voz de Isadora desvaneceu até sumir quando eles entraram em um dos quartos e fecharam a porta.
Fletcher percebeu que estava contendo a respiração, e a soltou num longo suspiro. O que quer que ele tivesse escutado naquela noite, não eram boas notícias de forma alguma.
Fletcher estava prestes a sair do esconderijo quando ouviu mais passos. Alguém se aproximou devagar até parar diante do quarto em que Tarquin e Isadora tinham entrado, em seguida soltou um longo suspiro.
— Vamos lá, Sylva, você consegue — disse a voz musical da elfa.
Fletcher ficou boquiaberto de surpresa. Por que Sylva teria vindo falar com os Forsyth tão tarde da noite?
— Consegue o quê? — indagou Fletcher, saindo das sombras.
Sylva se espantou e levou as mãos à boca.
— Fletcher! Achei que você estaria na cama.
— Consegue o quê? — repetiu o menino, franzindo o cenho.
— Eu estou aqui para... fazer as pazes com os Forsyth — murmurou ela, evitando os olhos de Fletcher.
— Por quê? Por que diabos você decidiria isso? Eles a abandonaram quando você mais precisava de ajuda! — exclamou Fletcher.
— Eu me esqueci do motivo da minha presença aqui, Fletcher. Sou uma elfa, a primeira conjuradora do meu povo em centenas de anos. Não só isso, mas uma embaixadora também. Você e Otelo foram bons para mim, e não lhes desejo mal algum. Mas não posso alienar a nobreza, não quando as relações entre nossos países estão em jogo. Zacarias Forsyth é um dos conselheiros mais antigos e mais próximos do rei Harold, e será o rei quem negociará uma aliança entre nossos povos. Minha amizade com os filhos de Zacarias poderá influenciá-lo em favor da nossa causa. — Sylva falava com firmeza, como se já tivesse ensaiado o discurso antes.
— Mas, Sylva, eles nem gostam de você. Só querem sua amizade para vantagem própria! — insistiu Fletcher.
— Eu também só quero a deles pelo mesmo motivo. Lamento, Fletcher, mas já tomei minha decisão. Isso não muda nada entre nós, mas é assim que as coisas têm que ser — afirmou ela.
— Ah, mas muda sim! Você acha que vou confiar em você enquanto for amiga daquelas duas víboras? — perguntou Fletcher, sem pensar, passando pela elfa.
— Fletcher, por favor! — implorou Sylva.
Mas era tarde demais. O rapaz foi embora pisando duro, a angústia substituída por uma fúria que fervia em seu interior.
Maldita seja a elfa e suas manobras políticas. Malditos sejam os nobres também! Tudo estava desmoronando: suas amizades, seus estudos. Fletcher não podia nem entrar em contato com Berdon enquanto estivesse sob o olhar vigilante de Rook.
No alto da escadaria, Rory, Serafim e Genevieve batiam papo, animados com os próprios sucessos. Fletcher afundou numa poltrona atrás deles, esperando não ser notado. Não estava nem um pouco a fim de conversa.
— Acho que talvez meu nível de realização esteja crescendo! — declarou Rory, cheio de alegria. — Eu fui muito bem! Talvez Malaqui também esteja subindo de nível!
— Acho que você não entendeu como os níveis de realização funcionam, Rory — afirmou Serafim, gentilmente. — Sua habilidade de executar feitiços não tem nada a ver com o seu nível. Realização só diz respeito a quanta energia demoníaca você é capaz de absorver. E Malaqui nunca vai subir de nível. Cada demônio permanece no mesmo nivelamento pelo resto da vida. Ainda que o seu demônio fique maior e mais forte, isso nunca mudará.
— Ah... — murmurou Rory. — Mas por que Tarquin estava se gabando com Fletcher sobre como Ignácio era de um nível mais baixo que Trébio, se isso não tem nada a ver com poder e força?
— Porque é normalmente uma boa estimativa. Um demônio de nível sete geralmente vai ser mais forte que um nível seis, numa regra empírica. Não é uma lei imutável. Por exemplo, um Felídeo vai derrotar um Canídeo numa luta nove em cada dez vezes, mesmo que ambos sejam nível sete. Ou, por exemplo, considere o Golem de Otelo. Quando ele estiver completamente crescido, será várias vezes mais poderoso que um Canídeo, mesmo que seja nível oito enquanto o Canídeo é sete.
— Certo... deixa para lá, então. — Rory estava com uma expressão chateada de novo.
— Não se preocupe, tenho certeza de que você subirá de nível — disse Serafim, notando a mudança de humor em Rory. — O major Goodwin me disse que é muito raro que um conjurador permaneça no mesmo nível sua vida inteira. Só aqueles que nunca capturam outros demônios ou que são muito azarados em seu crescimento natural de realização ficam estagnados.
— E como esperam que eu capture outros demônios se Rook não nos deixa caçar? — bradou Rory, levantando-se num salto.
— Rory, calma, é só por um ano! — tentou argumentar Genevieve, mas o garoto a ignorou e foi para o quarto, aborrecido. A menina lançou um olhar exasperado a Serafim e então seguiu Rory até o alojamento dos meninos.
Serafim mordeu o lábio e suspirou.
— Falei bobagem de novo. Estava só tentando controlar as expectativas dele, nada mais — murmurou ele.
A sala ficou em silêncio, e Serafim passou a escrever anotações para a próxima redação de demonologia. No fim, ele se cansou e apagou o fogo-fátuo, lançando o aposento nas sombras.
Levantou-se e fez menção de ir para o quarto.
— Espere — disse Fletcher, segurando-o pela mão. — Preciso lhe perguntar uma coisa.
— Claro, o que foi? — indagou Serafim com um bocejo.
— O que seu pai faz? Estou perguntando porque escutei Tarquin mencionar uma coisa... sobre derrubar o seu pai. Tem alguma coisa a ver com os negócios dele — murmurou Fletcher.
Serafim ficou paralisado. Fletcher percebeu que algum tipo de conflito interno estava ocorrendo. No final das contas, o rapaz relaxou e se sentou ao lado dele.
— Considerando que sei seus segredos, é apenas justo que lhe conte os meus. Só me prometa que não vai dizer uma única palavra do que for dito para mais ninguém.
Fletcher concordou com um aceno de cabeça, e Serafim continuou:
— Sou nascido e criado na Antioquia, a mesma cidade de Malik e sua família, os Saladin. A família dele não possui vastas propriedades rurais e florestas como os outros nobres, porém são donos de muitos negócios e imóveis na cidade. Isso ocorre porque Antioquia é cercada pelo deserto, onde nada cresce e há pouca água.
— Então os Saladin estão envolvidos? — perguntou Fletcher.
— Não exatamente. Meu pai correu um risco. Ele comprou áreas enormes do deserto. Era tudo terra barata, mas virtualmente inútil. Eu me lembro dos meus pais discutindo a noite inteira quando ele gastou todas as nossas economias nisso. Então certo dia, um anão veio nos visitar. Ele nos disse que os anões não têm o direito de possuir terras que não sejam aquelas onde foram alocados em Corcillum, mas que ele e seu povo precisavam daquilo. Os nobres não queriam saber de fazer negócios com os anões, mas, talvez, nós nos interessássemos.
— Eu sabia que os anões tinham alguma coisa a ver com isso! — exclamou Fletcher, percebendo em seguida que falava alto demais e levava um dedo aos lábios.
— Na verdade os anões precisavam de metais e de enxofre em grandes quantidades. Eles fizeram levantamentos geológicos nas nossas terras e encontraram veios sob a areia, bem fundos. Sem o conhecimento técnico deles, nós não conseguiríamos extraí-los e, por outro lado, sem a nossa terra, eles também não. Então fechamos um acordo: eles nos ajudariam a instalar as minas e nos emprestariam o dinheiro necessário para contratar homens e comprar o equipamento. Em troca, seríamos sócios exclusivamente dos anões e não venderíamos a mais ninguém. Eles fariam o processamento da matéria-prima e dividiríamos os lucros de forma justa.
— Mas por que enxofre? — indagou Fletcher. Tudo começava a fazer sentido.
— Ele é usado na produção de pólvora. A melhor parte é que, aparentemente, só o deserto de Akhad possui depósitos de pólvora em quantidades significativas, e nós somos donos de todas as terras que ficam suficientemente próximas da civilização para que a mineração seja viável. Cada bala de chumbo disparada e cada barril de pólvora usado são produzidos numa mina ou fábrica Pasha. Esse é meu sobrenome, aliás: Pasha.
— E por que os Forsyth se importariam com isso? — inquiriu Fletcher.
— Você não sabe nada sobre essas coisas? O maior negócio deles é a produção de armas. São o principal fornecedor de espadas, armaduras, elmos, até mesmo uniformes. Quando os anões desenvolveram os mosquetes... os negócios dos Forsyth começaram a minguar. O armamento enânico está se tornando gradualmente mais popular, e soldados que lutam com mosquetes não precisam mais vestir armadura, já que podem combater a distância. Não acho que os Forsyth saibam como nos derrubar ainda, mas não ficaria surpreso se estivessem planejando isso.
— Eles mencionaram algo sobre um evento importante hoje à noite, mas falaram em lidar com seu pai em seguida — avisou Fletcher, tentando se lembrar das palavras exatas de Tarquin.
— É tarde demais para fazer alguma coisa a respeito, mas meu pai está em segurança. Eu não me preocuparia muito. Tinha esperanças de que Tarquin e Isadora não soubessem da minha identidade, mas suspeito de como eles descobriram. — Serafim sorria enquanto falava, como se estivesse esperando alguma desculpa para revelar seu segredo. — Primeiro perdemos uma família nobre, os Raleigh, depois os Queensouth e os Forsyth se uniram numa só casa. O rei Harold subitamente perdeu duas de suas famílias nobres mais antigas. Ele queria criar novas casas aristocráticas, usando os poucos segundos e terceiros filhos nobres que também nasceram adeptos e lhes dando seus próprios títulos. Mas os nobres odiaram a ideia; em geral casam esses filhos com os primogênitos de outras casas. Então o rei procurou outra solução. Meu pai tem um bom relacionamento com os anões, é dono de muita terra e agora está quase tão rico quanto um aristocrata por si só. Entretanto, isso não basta. Para se tornar um nobre, você precisa ser um adepto. Até que, certo dia, os Inquisidores apareceram para me testar...
— E descobriram que você é um adepto — concluiu Fletcher, finalmente compreendendo a situação. — Você pode começar uma nova linhagem aristocrática, já que seus filhos primogênitos serão adeptos também.
— Exatamente. O rei fará o anúncio publicamente no próximo ano, mas os nobres já ficaram sabendo. Não acho que eu seja muito popular junto aos gêmeos agora, ou mesmo com Malik.
Fletcher ficou sentado em silêncio, tentando processar tudo que tinha acabado de ouvir.
— Boa noite, Fletcher — disse Serafim, saindo da sala pé ante pé. — Lembre-se... é o nosso segredinho.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!