22 de março de 2018

Capítulo 38

Já amanhecia quando o comboio chegou. Os fogos-fátuos estavam se apagando, tendo se reduzido a nada à medida que o mana acabava, de modo que a cidade era coberta de uma leve coloração alaranjada enquanto os carroções paravam e Ignácio aterrissou ao lado da primeira carroça.
Não havia movimento algum. Eles tinham chegado ao centro da cidade arruinada, as rodas trepidando nas ruas de paralelepípedo mesmo com a grama que crescia por entre as rachaduras nas pedras. Eles estavam em uma pequena praça, um espaço onde mal cabiam todos os veículos.
Restos de prédios em ruína os cercavam por todos os lados, as paredes de pedra ainda de pé mesmo após duas décadas de abandono. Os telhados desabaram havia muito pela negligência, e os espaços onde antes existiam janelas nada mais eram que buracos vazios. Tudo estava coberto por uma camada verde, limo nas pedras úmidas e um emaranhado de hera nas casas e pelas ruas, como uma cachoeira iridescente. Tudo estava tingido pela luz do amanhecer, amornando o ar frio da noite.
Fletcher desmontou, absorvendo os sons de seu novo lar. Havia o chiado constante de insetos, entremeados pelo canto de pássaros dando as boas-vindas a mais uma manhã. Esses eram os ruídos das terras que eles tinham vindo conquistar. A música de sua terra natal.
Sir Caulder chutou as laterais dos carroções, chamando a atenção dos soldados exaustos e alinhando-os. Fletcher sentia pena dos pobres recrutas, muitos cambaleando de cansaço, as cabeças balançando de sono enquanto a manhã começava a esquentar. Os passageiros apareceram na retaguarda, bocejando e se espreguiçando.
— Prestem atenção às ordens de lorde Raleigh — bradou Sir Caulder.
O velho cavaleiro ergueu as sobrancelhas para Fletcher e fez sinal com os olhos. Era a hora de o rapaz assumir o controle. Mas o problema era que ele não havia planejado dar ordem alguma.
— Sei que foi uma noite muito longa — disse ele, tentando controlar o tremor na voz. — Todos vocês me deixaram orgulhoso ajudando a trazer nosso povo até aqui. Agora temos uma última tarefa antes de podermos descansar e nos acostumar com a nova casa.
Os recrutas permaneceram em silêncio, carrancudos. Apenas a elfa, a mesma que havia olhado feio para Fletcher no quartel, demonstrava algum vigor. Ela chutou uma pedra, mas não disse nada. O rosto era anguloso e feroz, os cabelos castanho-claros trançados nos lados da cabeça com uma pena que lhe pendia pelas costas. O mais impressionante de tudo eram seus olhos, cor de âmbar escuro, que lembravam Fletcher olhos de gato selvagens.
Sir Caulder pigarreou educadamente, trazendo o rapaz de volta ao que fazia: dando sua primeira ordem. Havia milhares de coisas ainda a organizar.
Mas, se ele aprendera alguma coisa sobre sobrevivência, era que providenciar um abrigo era a prioridade número um. Pelo menos, enquanto os barris de água que trouxeram nas carroças durassem.
— Essas casas permaneceram abandonadas por quase duas décadas. Os pisos de madeira estarão podres se é que ainda existem. Todo tipo de animais poder ter feito sua toca dentro dos prédios: cobras, hienas, javalis... Preciso de dois grupos para fazer o reconhecimento e liberar cada edifício, além de procurar um local seguro onde possamos acampar.
Ele parou, contemplando quem deveria escolher. Seria útil conhecer mais de um soldado pelo nome.
— Kobe, leve quinze recrutas e faça o reconhecimento da parte leste da cidade — ordenou Fletcher, dividindo o grupo em dois com o movimento de seu braço. — Se encontrar um local apropriado, deixe seus homens limpando o local e retorne para se apresentar.
Kobe sorriu, claramente encarando a incumbência como um elogio.
— Quanto aos demais... qual seu nome? — perguntou ele, apontando a elfa carrancuda.
— Dália — respondeu ela, erguendo o queixo.
— Dália, guie os demais para oeste — disse Fletcher, apontando para a rua dilapidada. — Quero os líderes dos dois times de volta em vinte minutos.
Dália e Kobe permaneceram de pé, momentaneamente incertos quanto ao protocolo.
— Muito bem, vocês ouviram. Vão agora! — ordenou Sir Caulder.
Os times obedeceram imediatamente, mas seus rostos ainda demonstravam descontentamento enquanto caminhavam pelas ruas negligenciadas. Fletcher imaginou o que eles tinham esperado quando se ofereceram no quartel. Ele tinha certeza de que nunca haviam imaginado acabar ali, fundando uma colônia no meio do nada. Estariam desapontados? Aliviados? Ele não sabia o que pensar e suspeitava de que eles também não.
— Bom trabalho, rapaz — disse Sir Caulder, caminhando até ele. — Agora os colonos. Você é o responsável por guiá-los também, sabia?
Fletcher se virou para encarar o grupo de aldeões e anões. Muitos perambulavam sem rumo, outros estavam parados, com olhos impressionados. Até Berdon havia caminhado até um dos prédios e observava através do buraco feito por uma porta apodrecida. Eles precisavam de um rumo, e, como seu lorde, era Fletcher quem deveria direcioná-los.
Era muito estranho olhar em volta e saber que isso tudo era seu, mesmo que fossem ruínas. E as terras, até onde os olhos alcançavam e mais além. Era tudo seu. Parecia errado possuir tanta coisa.
— Preciso que todos permaneçam perto do comboio. — ordenou Fletcher. — Berdon, Thaissa, Janet, Milo, posso conversar com vocês?
Enquanto eles corriam até ele, Fletcher tentou assimilar o fato de que não apenas os soldados, mas todos naquele comboio respondiam a ele agora. Até seu próprio pai.
— Tenho 32 soldados, se incluirmos Sir Caulder. Somando os cinquenta anões, teremos 82. Janet, quantos aldeões temos no total? — perguntou Fletcher.
— Temos 52 — respondeu ela, após pensar um pouco.
— Então ao todo temos 135 almas — contabilizou Fletcher, impressionado com os números de sua colônia. Era quase a mesma população que Pelego tivera antes de Didric transformar a cidade em prisão.
— Então, qual o plano? — perguntou Thaissa, alisando ansiosamente o véu.
— Vamos acampar em algum lugar para descansar e retomar os trabalhos amanhã — disse Fletcher, observando o bocejo de um aldeão ali perto e tentando não fazer o mesmo. — Mas vou precisar de um relatório completo de nossas rações, ferramentas e suprimentos antes do fim do dia. Thaissa, Milo, vocês terão uma ideia melhor do que foi trazido, portanto deixarei essa tarefa a cargo de vocês. Janet, Berdon, preciso que identifiquem as habilidades dos colonos. Sabemos que existem ao menos dois ferreiros, mas precisaremos também de carpinteiros, pedreiros, fazendeiros, lenhadores, ceramistas e por aí vai. Podem fazer isso por mim?
— Sim, podemos — respondeu Berdon em nome dos dois, sorrindo para o filho, orgulhoso.
Os quatro seguiram para cumprir suas tarefas, reunindo alguns colonos para ajudar.
— E quanto a nós? — perguntou Sir Caulder.
— Vamos explorar um pouco — disse Fletcher, começando a se animar. — Você pode começar me mostrando onde as coisas costumavam ficar.
Os dois caminharam pelas ruas, seguindo para o sul da cidade. Sir Caulder observou as ruínas que um dia chamou de lar, e Fletcher tentou imaginar como deveria ser voltar depois de todos esses anos. Como ele deveria se sentir vendo as ruínas de outra vida.
— A ferraria ficava ali — indicou Sir Caulder, apontando um prédio baixo com portas duplas apodrecidas havia muito. No interior, Fletcher viu o bloco de uma bigorna e ferramentas enferrujadas espalhadas pelo chão. Uma pilha de lingotes de metal estava arrumada no canto.
— Podemos tirar a ferrugem de alguns e torná-los úteis novamente — sugeriu Sir Caulder.
Conforme continuaram a caminhar, Fletcher começou a ter uma ideia melhor acerca do tamanho da cidade. Era menor do que ele havia imaginado inicialmente; muitos dos prédios tinham dois ou três andares, abrigando uma população numerosa em um espaço que caberia facilmente no círculo do fosso de Vocans. Ele conseguia caminhar pelos arredores da cidade em menos de dez minutos.
— Estábulos e canis aqui — indicou Sir Caulder, apontando outra estrutura baixa, dividida em baias. — Carpintaria, boticário, padaria, prefeitura...
Ele parou de repente em frente à prefeitura: um prédio grande e murado com um buraco no telhado podre. Seus olhos observaram um buraco no chão, no centro de um espaço vazio do outro lado da entrada principal. Havia entulho ao redor.
— Eles entraram por aqui — disse ele, o olhar duro ao se agachar ao lado do buraco e percorrer os dedos pela areia e pedras que o preenchiam.
— Os orcs? — perguntou Fletcher.
— Sim — respondeu Sir Caulder, chutando uma pedra. — Aqui costumava ficar uma estátua de seu avô. O túnel para o outro lado das montanhas era aqui debaixo. Veja.
Eles estavam quase nos limites da cidade, e a savana podia ser vista entre as construções. E além dela, havia as montanhas, erguendo-se até o céu.
— Essa cordilheira se estende do rio ao mar — disse Sir Caulder, percorrendo os dedos pela planície. — Protege Raleighshire das florestas dos orcs, exceto pelo desfiladeiro, que fica a uns quarenta minutos de distância a pé.
Mas Fletcher não olhava mais as montanhas. Ele tinha acabado de notar uma estrutura além da fronteira da cidade. Os restos de uma mansão que ele reconhecia, mesmo após dezessete anos de abandono.
A casa de sua família.

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