13 de março de 2018

Capítulo 38

Fletcher acordou ao soar dos tambores. Eles retumbavam num ritmo profundo e incessante,  trovejando grave e intensamente pela pirâmide.
Ele não foi o único a acordar. Mason, o escravo fugido, o observava por entre olhos semicerrados. O rapaz se manteve calado, mas cutucou Malik com o pé até o jovem nobre grunhir. Momentos depois, ele estava tão acordado quanto Fletcher, a pulsação dos tambores afastando os últimos vestígios do sono.
O aposento era um cubo escuro e vazio, com corpos adormecidos que cercavam os resquícios de uma fogueira reduzida a cinzas frias. A luz da alvorada entrava pelo corredor que vinha de fora.
Eles tinham dormido a noite inteira.
Olhou para o lado e viu que Malik segurava um relógio de bolso. Fletcher espiou e viu que restavam duas horas... Seria tempo suficiente?
— O que diabos é esse barulho? — resmungou Jeffrey atrás de Fletcher.
Fletcher se virou e viu que a maior parte de sua equipe também já estava acordada, assim como Lisandro, Sacarissa e Calibã, que tinham passado a noite de vigia, de modo a despertar os jovens a tempo e avisá-los quando a equipe de Isadora chegasse.
Obviamente, eles não haviam chegado.
— Temos que descobrir o que é isso — afirmou Sylva, espiando furtivamente para fora da câmara. Ela voltou para dentro imediatamente, com os olhos arregalados em choque.
— Tem orcs lá fora — sussurrou ela. — Pegando água no rio. Não podemos nos arriscar a sair.
— Esse não é o plano, de qualquer maneira — comentou Malik, sem dar muita importância. — Este é o lugar mais seguro onde poderíamos estar. Mas, sim, temos que descobrir o que é esse som. Pode ser algum tipo de cerimônia envolvendo a pirâmide.
— Não dou a mínima para o que seja — retrucou Fletcher. — Já esperamos tempo demais; os patrocinadores deveriam ter nos acordado mais cedo. Temos que começar o ataque. Agora.
— Eu sei o que é isso. — Mason falou pela primeira vez. As mãos tremiam de leve, e ele tinha os olhos fechados. — É o fim do treinamento dos orcs — continuou, respirando longa e tremulamente. — Agora eles separam os fracos dos fortes. Acontece todo ano. É um azar terrível nosso; a região vai ficar cheia de orcs.
— Eles vão entrar na pirâmide? — perguntou Fletcher.
— Talvez — respondeu Mason, de olhos ainda fechados. — Os xamãs vão testar os jovenzinhos hoje, para ver se conseguem conjurar, igual fazem os inquisidores de Hominum. Se tiver algum adepto, vai ser trazido pra dentro da pirâmide. Eles vêm por esta entrada dos fundos e saem pela frente. É tudo que eu sei.
— E será tudo que nós saberemos se não sairmos para olhar.
Foi Verity quem disse isso. Ela estava sentada num canto, observando o Caruncho perambular por sua mão. Era negro e pequeno para um Caruncho, tal como Apófis.
— Ninguém vai notar a Ébano aqui, se ela voar lá fora e der uma olhada.
Enquanto ela falava, remexeu na mochila até puxar um cristal plano retangular com uns 30 por 20 centímetros. As bordas eram reforçadas com uma faixa de aço para evitar que se estilhaçasse, mas, mesmo assim, uma das beiras estava começando a rachar.
— Um presente da minha avó — explicou Verity, erguendo o cristal para que todos vissem. Ébano pousou no objeto, e Fletcher ficou espantado com a clareza da imagem conforme a visão do Caruncho se focalizou. Até o Oculus em Vocans não parecia ter uma imagem tão definida e cristalina.
— Que bom que será útil — continuou Verity,  jogando o cabelo. — Carreguei esse troço a viagem inteira sem usá-lo uma única vez. Preferia ter um igual ao seu, Fletcher.
Ela virou os grandes olhos castanhos para ele, e Fletcher sorriu com o elogio. Sylva revirou os olhos.
Ébano deu um rasante diante da cabeça do rapaz e esticou uma perninha fina para tocar o monóculo. A imagem sobreposta da visão de Ébano apareceu, e ele ficou tonto conforme o Caruncho esvoaçou pelo aposento. A visão de Atena era muito mais estável e menos dada a guinadas.
— Alguma objeção? — indagou Verity.
— Nenhuma — respondeu Malik, admirando a pedra de visão de Verity.
O rapaz se virou para Fletcher, já que Serafim ainda dormia ao lado de Átila e Otelo no chão, somando os próprios roncos ao coro dos baixos.
Todos os outros estavam acordados.
— Deixem eles dormir — comentou Malik, sorrindo. — Fletcher, o que me diz você?
Fletcher fez uma pausa e escutou o latejar agourento dos tambores.
— Temos que saber quando a área estiver livre, a fim de encontrarmos um lugar melhor para nos escondermos na pirâmide — afirmou Fletcher, tocando o queixo. — Somos presas fáceis aqui. Um pouco de investigação não vai fazer mal.
Antes que ele pudesse terminar de falar, Ébano já havia disparado para fora da Câmara em direção à luz, fazendo a imagem se borrar com suas guinadas para a esquerda e a direita. Mais e mais ela subia, e a imagem sobreposta de Fletcher se encheu com céu azul cristalino e o fulgor do sol. Então, bem quando os outros começaram a ficar inquietos, Ébano se virou e olhou para baixo.
Além da pirâmide, uma metrópole fervilhante se estendia abaixo. Não eram as cabanas de capim que Fletcher tinha imaginado, mas prédios atarracados e pesados de arenito cortado, com pequenos zigurates e monólitos cercando uma praça central. Tudo fora construído em volta da grande pirâmide, exceto por uma estreita faixa de praia entre os fundos do imenso edifício e o rio, por onde eles tinham passado na noite anterior.
— Pelos infernos — sussurrou Cress. — Há tantos deles.
Milhares de orcs perambulavam na praça, abanando estandartes e faixas de pano esticado, penas de aves e peles de animais. Tinta corporal colorida dividia a multidão em uma colcha de retalhos de tribos diferentes. Até os penteados e cortes de cabelo eram distintos, uma estranha mistura de áreas raspadas, coques e cortes em cuia.
Só que eles não estavam sozinhos. Orcs menores se encolhiam ao lado de cada grupo, vestindo pesadas cangas de madeira nos pescoços, como bois. Tinham sido pintados de azul da cabeça aos pés, e o chão de pedra estava manchado com suas pegadas.
— Os fracos, escolhido dentre os cativos depois dum ano de dotrinaçãos — afirmou Mason, tocando as áreas azuis na tabuleta de visão. — Eles vão tudo participar dos jogo, atrás dum lugar na elite guerreira.
Havia uma grande escadaria na lateral da pirâmide descendo até a praça, e Fletcher notou que os corrimãos dos dois lados eram entalhados para se parecer com serpentes entrelaçadas. Havia também um bloco retangular atarracado no zênite plano, com uma bacia rasa escavada na rocha com um buraco negro no centro.
Mason se inclinou mais para perto e estreitou os olhos.
— Ali — disse ele, indicando a direita. — Vai ali.
A imagem se ampliou quando Ébano chegou mais perto, tremendo com o vento que a chicoteava. No fim, pousou no topo de um alto obelisco para assistir aos procedimentos abaixo.
— O jogo de bola das arenas — murmurou Jeffrey. — Já ouvi falar nisso.
Assim como Fletcher, pois o diário de Baker discorrera longamente sobre o tema.
Entre duas arquibancadas de pedra lotadas com uma plateia animada, dois times de orcs azuis saltavam e mergulhavam num longo campo de areia. Nos dois extremos, havia um aro de pedra embutido na parede, quase 4 metros acima do chão. O aro era virado de lado, como uma orelha perfeitamente vertical, e Fletcher sabia que a meta de cada time era fazer a bola passar pelo aro do time adversário para vencer o jogo.
Tinha visto vários esboços dessas quadras nos estudos que Baker fizera das aldeias órquicas, mas jamais imaginara como o jogo em si era jogado, nem que haveria mais de cinquenta jogadores batalhando por todas as partes da arena.
O mais fascinante era a própria bola: uma pesada esfera de borracha, o mesmo material que os gremlins usavam para as armas de arpão. Ela quicava de orc em orc conforme eles a rebatiam com tacos de madeira, que também serviam para afastar os oponentes. Tinta azul e sangue vermelho marcavam a areia, as duas cores se misturando como no pescoço de um casuar.
— É brutal — sussurrou Sylva, quando a presa de um dos orcs voou da boca deste num espirro carmesim. A multidão se levantou num salto, soltando um urro que chegou até o interior da câmara.
— Nem — retrucou Mason, apontando a borda da arena ao lado. — Tem coisa muito pior que o jogo de bola. Olha. O venatio.
Os olhos de Ébano se voltaram à próxima quadra, onde o vermelho cobria muito mais da areia que o azul, e a plateia era muito mais densa. Três orcs estavam acorrentados uns aos outros pelos tornozelos, cercados por uma matilha de hienas. Um quarto era destroçado no chão, não muito longe. Armados com nada além de lanças, os orcs estocavam e giravam para afastar os animais que latiam.
Num canto do campo, uma pilha de corpos azuis fora deixada para os abutres. Dentre eles, havia também cadáveres de animais, incluindo grandes felinos, como jaguares, tigres e leões. Hienas e cães selvagens pareciam ser os mais comuns, com aparições ocasionais de crocodilos e até babuínos aqui e ali.
— O jogo de bola honra o deus do vento. O venatio honra os deuses animais. E aí tem o ranca-pele, para o deus da luz e fogo. — Ele apontou para o campo seguinte, e a visão de Ébano girou outra vez.
Poderia ter havido cem orcs azuis na quadra seguinte, mas não se via sangue ali. Em vez disso, uma grande fogueira ardia numa depressão no centro, dividindo o campo ao meio. Uma grande corda de couros animais atados se esticava acima das chamas enquanto dois times de orcs faziam força, escorregavam e cambaleavam nas areias num cabo de guerra desesperado.
— Não pode ser... — sussurrou Jeffrey, quando a linha de frente de um dos lados tropeçou, tentando freneticamente fincar os pés contra a beira do poço.
— É pros deuses — comentou Mason lentamente, afastando o olhar. Um atrás do outro, os orcs derrotados foram arrastados para as chamas, caindo e caindo até que tudo que saiu do outro lado do fogo foi uma corda enegrecida de pele.
Mais quadras se espalhavam ao longe, onde outros jogos eram disputados. A mais próxima era uma piscina onde orcs em canoas se espancavam uns aos outros com remos. Tinham pesos de pedra atados aos tornozelos, de modo que os perdedores se afogariam caso caíssem. Como se a situação já não fosse suficientemente ruim, os corpos negros de crocodilos enchiam a piscina, e a água já estava tingida de vermelho ao redor dos restos de uma canoa virada.
— Isso se chama naumachia. É pra honrar o deus da água — sussurrou Mason.
— Quem precisa matar orcs? — observou Sylva, balançando a cabeça com um misto de espanto e repulsa. — Eles já estão fazendo isso por nós.
Uma comemoração se infiltrou pelas paredes da câmara, e os olhos de Ébano dardejaram de volta ao jogo de bola. Um dos times conseguira marcar o ponto. Os orcs vencedores caíram de joelhos em gratidão, arfando com exaustão. Muitos se abraçaram, enquanto outros simplesmente caíram de costas no chão com lágrimas escorrendo pelo rosto.
Os perdedores logo foram reunidos pela multidão e conduzidos até a praça. Orcs que assistiam ao cortejo os acossavam com hienas encoleiradas, até que os animais quase se mataram enforcados com as tentativas de atacar.
— Parece até que eles perderam mais que um simples jogo, do jeito que alguns desses rapazes estão se lamentando — comentou Verity, pois os orcs derrotados choravam com amargor enquanto eram empurrados à base da escadaria. — Não são tão durões assim.
— Mas eles perderam mais — murmurou Mason, meneando a cabeça. — Você vai ver. É aqui que a gente descobre se tem algum adepto este ano. Vamos torcer que...
Ele parou. Os gritos e tambores tinham se calado.
Na pedra de visão, as multidões não perambulavam mais. Começaram a se abrir como uma cortina multicolorida conforme um cortejo entrava na praça vindo de um zigurate do lado oposto à pirâmide.
— Lá vêm eles — anunciou Mason.
Uma grande liteira era carregada no alto por uma manada de rinocerontes, os animais abanando as cabeças com o esforço que faziam para sustentar aquele peso. Era como uma carruagem sem rodas, esculpida na forma de uma imensa caveira de orc. O exterior era pintado de ouro para que reluzisse ferozmente sob o sol fulgurante. Era quase tão alta quanto o monólito em que Ébano se encarapitara, mas não dava para ver nada além das trevas no interior.
Uma escolta de orcs a cercava, espécimes maiores do que Fletcher jamais vira. Estavam pintados com tinta de guerra vermelha combinada com listras amarelas no peito e no rosto. Cada um estava armado com uma clava e trazia uma aljava de lanças de arremesso nas costas. Placas de jade lhes cobriam o peito, cotovelos e joelhos, formando uma armadura cerimonial que reluzia verde à luz do sol.
— Devem ser os guarda-costas do orc albino — sussurrou Fletcher. — Ele tem que estar dentro da carruagem.
— Se Lovett mandasse Lisandro para acabar com ele... — comentou Cress, segurando o braço de Fletcher.
— Nem pense nisso — murmurou Mason. — Se as legiões de orcs em volta da gente não fazem você mudar de ideia, veja só o que tem atrás deles.
Havia outro grupo de orcs na retaguarda do cortejo, vestindo enormes cocares de penas coloridas. Estes não vestiam nada além de enfeites feitos com ossos, e um mero cinturão de crânios humanos para ocultar as partes íntimas. A maioria deles tinha cicatrizes rituais no corpo e no rosto, enquanto outros traziam enormes alargadores nos narizes e orelhas.
Apesar da aparência intimidadora, não era isso que os marcava como diferentes dos demais.
— São xamãs! — exclamou Sylva.
Demônios caminhavam ao lado desses orcs, criaturas monstruosas de todos os tipos. Algumas delas Fletcher reconheceu sem dificuldade: Felídeos, Licans e até mesmo um Minotauro. Porém, outras ele conhecia apenas de suas aulas em Vocans ou pelas ilustrações no diário de Baker.
Os dois Nanauês eram os mais assustadores. Como os Felídeos, eles bamboleavam com a postura de um gorila, mas essa era a única semelhança entre os dois. A espécie estava tão próxima dos tubarões quanto os Minotauros estavam dos touros, com bocarras enormes lotadas de dentes afiados feito navalhas e grandes barbatanas nos topos das espinhas, além de caudas balouçantes com forma de remo.
— Nível nove — sussurrou Jeffrey, traçando o contorno dos monstros com o dedo. — Não seria nada mau dissecar um deles.
Três Onis avançavam pesadamente ao lado dos xamãs, com formas e tamanhos iguais aos dos mestres. Fletcher poderia tê-los confundido com orcs, não fosse o chifre que lhes brotava da testa e a postura encurvada. A pele era de um gritante vermelho carmesim, e eles ameaçavam ferozmente as multidões com caninos exagerados. Ainda que parecessem humanoides, Fletcher sabia que eles eram menos inteligentes que Carunchos.
O maior demônio de todos era um Fantauro, um enorme elefante de duas patas com quase 3 metros de altura, enormes orelhas de abano, uma tromba preênsil e presas serrilhadas tão longas quanto os braços musculosos. Demônios menores saltitavam e esvoaçavam aos seus pés, porém distantes demais para serem identificados.
— Acabou aquela história dos demônios órquicos serem mais fracos — estremeceu Rory, segurando Malaqui para que o Caruncho pudesse ver. — Eles devem manter os demônios mais fortes na reserva, mandando só os espécimes de nível baixo para nos enfrentar. Pensem nisso; metade de Hominum está assistindo a isso. Ninguém mais vai se alistar no exército depois de ver esses bichos!
— Por falar nisso, a gente tem que cair fora daqui antes que eles cheguem — sibilou Mason, esgueirando-se até a porta e colocando a cabeça para fora. — A área tá limpa, por enquanto.
— Faça Ébano recuar antes que ela seja reconhecida por um xamã — ordenou Malik a Verity, enquanto pegava a mochila. — Temos que achar algum esconderijo, mais para dentro da pirâmide. As selvas não são seguras, e esta câmara também não.
Otelo se espreguiçou e bocejou, para então ficar paralisado ao ver a tabuleta de Verity estampada com o cortejo.
— O que eu perdi? — grunhiu.

7 comentários:

  1. Respostas
    1. Eles vão invadir e muito provavelmente vai dar muitoooooooooo ruim...

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  2. Parece que tem gente com ciúmes do *Fletcher*

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  3. Otelo só dorme kkkkkkkkk😅😅😅

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  4. Kkkkk acho que foram 3 capítulos com ele dormindo

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  5. Fletcher e Sylva me lembram por algum motivo Percy e Annabeth.
    Bem, pelo menos essa parte em que Sylva ficou com um ciumezinho da outra menina.

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  6. Vamos as considerações...
    1. Mason observando Fletcher dormindo, um pouco estranho, não acham?🤨
    2. Será que a equipe de Isadora esta aprontando? Talvez uma emboscada pros Orcs descobrirem as outra equipes...🤔
    3. Verity com esse cristal enorme, senti uma certa desconfiança dela, principalmente por ela esta jogando charme pro Fletcher.
    4. Sylva com ciúmes, previsível, agora quando eles decidirem ficar juntos, vão sofrer preconceito por serem de espécies diferentes.
    5. Que os Orcs estavam escondendo as melhores armas/demônios/xamãs eu sempre soube, isso não é novidade.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!