2 de março de 2018

Capítulo 38

Fletcher saiu correndo do gabinete de Arcturo cheio de raiva; mas para quem era direcionado o sentimento, ele não sabia dizer. Ignácio passou boa parte da noite sibilando, soltando pequenos anéis de fumaça pelas narinas enquanto os outros riam e brincavam durante o jantar.
— Posso não ter certeza de quem me aborreceu, mas você definitivamente não faz a menor ideia, faz? — murmurou Fletcher, coçando o queixo de Ignácio. Era muito engraçado ver a agitação confusa do diabrete, e isso animou um pouco o rapaz.
Fletcher tinha conseguido despistar os colegas quanto ao teor da reunião com Arcturo com uma risada, afirmando que só tinha levado uma bronca por ser um estudante malcriado. Dentre todos os seus novos amigos, só Otelo tinha percebido seu desalento, batendo à porta de Fletcher depois que todos foram dormir. O rapaz decidiu lhe contar tudo; afinal de contas, precisava retribuir o nível de confiança que Otelo e sua família tinham depositado nele. Mas o anão não ficou impressionado com a história de Arcturo.
— A mim parece que Arcturo está procurando chifre em cavalo, se quer saber — comentou Otelo, coçando a barba. — Deve estar desesperado para encontrar mais parentes, e ignorou várias coisas para fazer sua história se encaixar na dele. Já ouvi falar de lady Faversham, por motivos completamente diferentes. Ela é prima do velho rei e era famosa por sua beleza nos tempos de outrora. Sinceramente duvido que, após o comportamento de lorde Faversham ter se tornado público, o velho rei Alfric teria permitido que sua prima real continuasse sendo humilhada dessa forma. O filho dele, rei Harold, também não teria deixado isso.
— Mas e se lorde Faversham continuou? E se ele teve um momento de fraqueza, anos depois que tudo veio à tona? — indagou Fletcher.
— Mesmo presumindo que ele seria tão tolo, por que você foi abandonado logo diante de Pelego? Certamente a mulher desesperada em questão deixaria você num orfanato ou à porta de alguma casa em Boreas, não num lugar tão obscuro e distante da cidade quanto Pelego. Quer dizer, é quase na fronteira élfica! — exclamou Otelo.
— Talvez ela não quisesse que eu acabasse num asilo de pobres como Arcturo — retrucou Fletcher, igualmente teimoso, por mais que não soubesse por que estava defendendo o lado de Arcturo na discussão.
— Se ela se importava tanto com você a ponto de fazer isso, então por que te largou para congelar na neve, sem nem um paninho, roupa ou cobertor? Não, Fletcher, a sua história vai muito além. Não se deixe desanimar pela teoria de Arcturo. Fique feliz por ele estar ao seu lado, e pelo encontro fortuito entre vocês dois em Corcillum.
Com essas palavras, Otelo foi dormir e deixou Fletcher se sentindo bem melhor, mas também muito mais confuso.
— Quem diabos eu sou? — sussurrou ele para as trevas. Ignácio miou em solidariedade e enterrou a cabeça no peito do menino.
Apesar dos eventos do dia, o sono de Fletcher naquela noite foi o sono tranquilo e sem sonhos dos exaustos.
Os novatos aguardavam na câmara de conjuração a próxima aula de prática etérea. Fletcher estava torcendo para ver Lovett, mas sabia que era muito mais provável que Arcturo ministrasse a lição.
Suas tentativas de visitar a enfermaria foram em vão; a dama Fairhaven tinha cuidado disso. Ela informou Fletcher de que tinha certeza de que a capitã Lovett não gostaria de ser incomodada pelos alunos enquanto estivesse no seu estado de paralisia, e que as leituras que ela mesma fazia para a professora eram mais que suficientes para manter a capitã entretida. A descoberta de que Lovett estava completamente paralisada, mas ciente de tudo ao seu redor, apenas aumentou a vontade de Fletcher de vê-la, mas a porta foi fechada firmemente na sua cara.
— Belo traje — comentou Genevieve, mostrando o polegar erguido.
Fletcher sorriu e ajeitou o colarinho da jaqueta nova.
Uhtred tinha cumprido a promessa, mandando a Fletcher um belo uniforme azul-marinho, além da espada, com as entregas matinais. Os botões dourados da jaqueta e da calça tinham até sido decorados com uma sinuosa silhueta de Salamandra em alto relevo, para o deleite de Fletcher. A bainha era da mais alta qualidade, feita de couro negro firme e aço escovado. Fletcher notou que a espada também tinha sido afiada e estava acompanhada de um pano oleado, com um bilhete que mandava o rapaz cuidar bem da arma, pois era fruto de um trabalho de altíssima habilidade. Ele ficou feliz em recebê-la de volta, pois tinha sido forçado a usar um bastão de madeira enquanto Sir Caulder ensinava a ele e aos outros plebeus o básico sobre o combate armado. Os filhos dos nobres haviam tido aulas nesta área desde a mais tenra idade e não os acompanhavam, apesar de Malik e Penélope terem assistido brevemente do lado de fora antes de se entediarem e irem embora.
Quando Fletcher perguntou por que eles estavam aprendendo a enfrentar uns aos outros depois do que Sir Caulder lhe dissera sobre combater orcs, o velho guerreiro ralhou:
— O torneio, garoto. Eles vão botar vocês para esgrimir e Deus sabe mais o quê. Não quero ver todos vocês plebeus perdendo na primeira rodada porque só aprenderam a enfrentar selvagens de 2,15 metros em vez de um nobre com um florete.
A lembrança do torneio encheu Fletcher de temor e o fez correr para a biblioteca, onde se enterrou nos livros. Não estava sozinho; a maioria dos outros plebeus também estava lá. Como os calouros nobres tinham crescido com pais magos de batalha inteiramente qualificados, eles tinham uma grande vantagem sobre seus correspondentes plebeus, dando respostas corretas às perguntas dos professores sem dificuldade alguma.
Havia milhares de demônios cujos nomes precisavam ser memorizados, além de suas medidas, qualidades e defeitos, mesmo que a maioria deles não pudesse ser encontrada na parte do éter a que os evocadores de Hominum tinham acesso. As dezoito raças de Canídeo por si só tinham exigido de Fletcher quase um fim de semana para memorizar.
O som da porta sendo batida atrás dele interrompeu os pensamentos do menino. Um homem alto e magro entrou na câmara de invocação. Inicialmente, Fletcher pensou que se tratava de Arcturo, mas, quando o sujeito entrou na área iluminada por fogo-fátuo, o rapaz notou que o uniforme era diferente, negro com detalhes prateados. Seu rosto era pálido e barbado, com olhinhos negros que brilhavam enquanto ele avaliava os estudantes.
— Meu título completo é Inquisidor Damian Rook, mas vocês podem me chamar de senhor. Vou lhes instruir na arte da prática etérea até que a capitã Lovett tenha se recuperado de seu... acidente. Felizmente para vocês, Cipião decidiu contratar um professor mais competente desta vez.
Tais palavras conquistaram um sorrisinho de Tarquin e uma risadinha discreta de Isadora, para desgosto de Fletcher. Rook os ignorou e se virou para os plebeus, estudando-os com olhos encobertos.
— Ora, ora, parece que foi apenas ontem que eu testei vocês — disse Rook com uma voz que comandava obediência absoluta. — Genevieve, Rory, Serafim, Atlas, além do anão e da elfa, farão uma fila daquele lado.
Os amigos de Fletcher se moveram rapidamente, alinhando-se diante da parede distante. Rook os ignorou e escrutinizou Fletcher e os nobres como se fossem cavalos à venda.
— Uma bela turma, este ano. Tarquin e Isadora, presumo que seu pai esteja bem? — inquiriu ele.
— Sim, senhor, mesmo que faça vários meses desde a última vez que eu estive com ele — respondeu Tarquin, com polidez surpreendente.
Fletcher se perguntou que tipo de homem inspiraria tamanho respeito num nobre como Tarquin. Como eles se conheciam?
— Você é claramente um Saladin, se não me engano — continuou Rook, parando diante do menino de pele escura.
— Sou Malik Saladin, filho de Baybars Saladin, oriundo das terras de Antióquia — respondeu Malik, projetando o queixo orgulhosamente.
— É claro. O Anubídeo de seu pai lutou bem ao lado do meu Minotauro na ponte de Watford. Você foi afortunado o bastante para recebê-lo?
— Não, senhor. Meu pai precisa mais dele do que eu. Mas fui presenteado com um Anubídeo juvenil, capturado antes que eu viesse para cá.
— Ótimo. Você logo precisará dele. — Rook passou à nobre seguinte, Penélope. — E você é?
— Penelope Colt... de Coltshire. — Ela fez uma mesura nervosa. Isso lhe rendeu um grunhido neutro de Rook, que passou ao último nobre, o menino pequeno de cabelo castanho que Fletcher tinha visto seguindo Tarquin como um cachorrinho.
— Eu sou... Meu nome é Rufus Cavendish, das colinas de Cavendish — gaguejou o garoto.
— Colinas de Cavendish. Nunca ouvi falar. Quem são seus pais? — inquiriu Rook, os olhos negros se cravando no rosto de Rufus com a intensidade de um falcão.
— Minha mãe morreu quando eu era novo. Ela era a capitã Cavendish. Meu pai não é de sangue nobre.
— Entendo — comentou Rook, desinteressado, virando-se em seguida. Claramente os Cavendish não eram uma família nobre importante ou de status significante.
O professor voltou seu olhar sinistro a Fletcher, os olhinhos dardejando da espada aos botões dourados do uniforme.
— E você? De onde veio?
Fletcher hesitou, em seguida arriscando:
— Sou do norte, senhor, de perto de Boreas. Meu nome é Fletcher.
— Um Faversham, então? Não sabia que eles tinham um filho em idade escolar. Como você escapou da minha atenção?
A voz de Tarquin soou antes que Fletcher pudesse responder.
— Ele não é nobre, senhor, é só um plebeu.
— Ridículo. Eu sou um Inquisidor. Conheço os nomes de cada adepto vulgar. Quem é você, garoto?
— Eu... fui patrocinado, senhor. Li um pergaminho de conjuração que eu... encontrei... e invoquei um demônio. Arcturo me descobriu e me trouxe para cá.
— E seus pais não pensaram em mandá-lo à Inquisição assim que descobriram que você era adepto? Foi Arcturo quem o descobriu? Ele não tem permissão de ir ao norte de Corcillum, como foi que encontrou você?
— Eu sou órfão, senh...
— Um ÓRFÃO! — sibilou Rook, interrompendo-o.
— Sim, mas não é como o senhor está pensando! — exclamou Fletcher, percebendo o que deveria estar passando pela cabeça do Inquisidor.
— Ele quebrou as regras! O arrogante filho de uma meretriz acha que pode desrespeitar o acordo que fez com o velho rei, mandando pergaminhos de conjuração para órfãos de Boreas em segredo! Ah, desta vez eu o peguei! — vociferou Rook com alegria.
— Ele não fez nada disso! — gritou Fletcher.
— Cale a boca, seu bastardinho! Nós achávamos que tínhamos visto o último da sua laia há muito tempo. Lady Faversham vai saber de tudo isso — sibilou o Inquisidor, cutucando o peito de Fletcher com força.
— Você está errado! Pergunte ao reitor! — bradou o menino.
— Ah, eu vou perguntar, não se preocupe. Mas isso pode esperar. Temos que medir os níveis de realização de vocês antes. Sigam-me, todos!
Eles caminharam atrás de Rook em fila indiana. Saíram da câmara de conjuração e subiram as escadas da ala oeste até o topo, depois pegaram o corredor até a torre sudoeste. Somente Otelo compreendeu o que tinha se passado, e pôs a mão reconfortante no ombro de Fletcher.
— Não se preocupe, vai ser tudo esclarecido — sussurrou o anão para o amigo.
Os outros lhe olhavam de relance com uma mistura de suspeita e confusão, mas o silêncio que pesava sobre os corredores impedia que lhe fizessem perguntas. Tarquin e Isadora estavam, com certeza, saltitantes, mas não dava para saber se era por causa da humilhação pública de Fletcher ou por conta da aula que estava por vir.
A torre não continha nenhuma escada em espiral. Em seu lugar, havia um imenso tubo de espaço vazio, com pisos vazados em cada andar. Um enorme pilar se erguia no centro do aposento, composto de vários segmentos cravejados de cristais multicoloridos de Corundum. Estendia-se até o topo da torre, cintilando com os raios de luz que penetravam pelas seteiras nas paredes da velha torre.
— Este é um realizômetro, o maior que existe. Cada segmento representa um nível de realização. Ao tocar a base, um conjurador ou demônio descobrirá em que nível se encontra. Agora, quem vai primeiro? — perguntou-se o professor, o olhar voltado apenas para os nobres. — Malik, se tiver puxado a seu pai, vai nos impressionar. Pouse as mãos na pedra base. Vamos ver que calibre de conjuradores temos aqui hoje.
Malik avançou sem hesitação, ajoelhando-se diante do primeiro segmento e pressionando a mão na base. Por um momento, nada aconteceu; em seguida, subitamente, os cristais no primeiro segmento se acenderam com intensidade furiosa, iluminando o aposento com raios caleidoscópicos de luz. Um pulso abafado de som ecoou na câmara, seguido por outro conforme o próximo segmento ganhava vida como uma labareda. O fenômeno se repetiu até que quatorze segmentos brilhassem. Malik manteve a mão ali por mais um minuto até que Rook o ergueu do chão, extinguindo as luzes quando o contato foi quebrado.
— Muito bem, rapaz. A média inicial para um filho de nobres é oito. Logo você será um nível vinte, como seu pai. Próximo!
Isadora jogou a juba de cachinhos e se adiantou, pressionando a mão no realizômetro. Novamente o som abafado ecoou, seguido pelas luzes dispersas. Doze, desta vez.
— O sangue Forsyth é forte. Zacarias ficará orgulhoso — afirmou Rook, ajudando Isadora a se levantar.
Tarquin a seguiu; outro doze.
— Gêmeos geralmente têm o mesmo nível de realização, mas é sempre bom conferir — murmurou, meio para si mesmo, enquanto apertava a mão de Tarquin. O coração de Fletcher parecia uma pedra dentro do peito quando o jovem nobre o empurrou ao passar. Eles eram todos tão poderosos... Lovett era só nível onze!
Penélope era nível sete, mas parecia satisfeita, sorrindo e assentindo ao se levantar. Rufus era nível nove, um resultado que lhe rendeu um tapinha nas costas da parte de Tarquin e um grunhido de aprovação de Rook.
— Agora, os plebeus. Você primeiro, anão. Um nível oito, pelo menos, de acordo com o que ouvi, considerando que você é capaz de evocar um Golem. A média dos plebeus é cinco, é claro, mas você é um caso especial.
— Por que os plebeus têm níveis de realização mais baixos, senhor? — indagou Rory, arrastando os pés.
— Eu digo que é criação deficiente — começou Rook. — Porém, a resposta oficial é que os nobres crescem em meio a demônios e recebem suas próprias criaturas muito antes de entrar para a academia, permitindo assim que aumentem seu nível de realização ao longo dos anos através da prática de feitiçaria básica e infusão. Já vocês começam com o nível com o qual nasceram, considerando que não tiveram tempo para exercitá-lo. É por esse motivo também que vocês plebeus geralmente começam com Carunchos Escaravelhos. Não adianta capturar um demônio que você talvez nem seja capaz de controlar... não que vocês mereçam coisa melhor, em todo caso. Mas parece que alguns de vocês foram particularmente sortudos este ano.
Otelo tinha tocado o realizômetro àquela altura, interrompendo a resposta de Rory com o brilho do aparelho. Os segmentos se acenderam um de cada vez, vibrando com dez palpitações abafadas.
— Dez! Parece que os anões podem ter um dom para a conjuração! Devo informar o rei imediatamente. Muito interessante, de fato... — comentou Rook, indicando com gestos que Sylva deveria tomar o lugar de Otelo.
Fletcher percebeu a expressão preocupada do anão. Por que contar ao rei? Será que o resultado de Otelo significaria que os anões eram aliados ainda melhores do que o rei tinha pensado... ou uma ameaça ainda maior?
— Os elfos geralmente começam no nível sete, ou ao menos assim costumava ser. Vá em frente, de qualquer maneira. Você já está com seu Canídeo há alguns meses. — Sylva era de fato um sete, porém o oitavo segmento piscou por um breve segundo.
— Ótimo; você já está prestes a subir de nível. Com mais dedicação, logo poderá capturar um Caruncho para somar ao seu Canídeo.
Genevieve estava exatamente no cinco. Serafim surpreendeu a todos com um sete, e Atlas conseguiu um quatro, para seu desgosto.
— Espero que você se saia melhor que eu — resmungou ele quando Rory, completamente pálido, passou apressado.
Desta vez, o realizômetro engasgou, então dois segmentos ganharam vida. Depois de trinta segundos, um terceiro se acendeu com hesitação.
Rook agarrou o braço do menino e começou a puxá-lo.
— Não! — berrou Rory. — Me dê mais um tempinho, tem mais!
— Não há mais nada, garoto. Essa é toda a energia demoníaca que você é capaz de absorver. Você é um conjurador de nível três. Fique feliz por não ser menos. — Ele arrancou Rory do pilar e o empurrou de volta ao grupo de plebeus. — Agora, o bastardo. Vejamos o que temos aqui.
Rook colocou Fletcher de joelhos com um empurrão. O rapaz fechou os olhos e pressionou a mão contra o realizômetro. As gemas estavam frias contra sua palma, como gelo polido. Ele sentiu a pressão do mana que era sugado, pulsando em suas veias e saindo pelos seus dedos. Em seguida, algo mais foi empurrado de volta para dentro dele. Não era mana, pois era como um fogo que lhe fervia o sangue e formigava na pele.
Fletcher não queria olhar para cima, mas a vibração abafada lhe informava exatamente quantos segmentos se acendiam. Cinco até então. Depois seis. No sétimo, ele sentiu o fluxo enfraquecer, mas ainda invadi-lo. Oito... o jorro se reduziu a um escorrer. Finalmente, quando o menino pensava que não restava nada mais, um nono zumbido ecoou pelo aposento. Seu alívio foi imenso, mas ele sentiu pena de Rory ao mesmo tempo. James Baker tinha sido um conjurador de nível três.
— Ora, ora, que surpresa. Quem poderia imaginar? Mas não importa. Fletcher só ficará aqui pelo tempo que eu levar para conseguir provas de que Arcturo lhe enviou um pergaminho de conjuração. Filhos bastardos não têm permissão de frequentar a Cidadela desde o decreto do velho rei Alfric, a pedido de lady Faversham. Assim como nenhum dos bastardos antigos tem permissão para buscar novos. Isso inclui Arcturo. — As palavras de Rook provocaram espanto nos plebeus. O segredo do capitão fora revelado. — Sem dúvida vocês terão um segundo professor novo, depois que eu tiver me livrado dele — comentou Rook com um sorriso cruel.
— Pela última vez, ele não me mandou nenhum pergaminho. Se quer saber, foi um pergaminho de xamã orc que eu ganhei de um mercador ambulante — retrucou Fletcher entre dentes cerrados.
O Inquisidor lhe encarou por um instante, em seguida soltou um cilindro de couro do cinto. Tirou um rolo marrom de dentro e o abriu no chão de pedra. Era um couro de conjuração.
— Mostre-me — comandou, apontando para o couro.
Ignácio se materializou assim que Fletcher o libertou, como se estivesse ansioso para sair. O diabrete fez menção de morder a mão de Rook, fazendo o homem recuar com uma careta.
— Ora, vejam, se não é uma descoberta — murmurou o Inquisidor, esfregando o queixo sombriamente com os dedos longos e finos. — Muito bem, vamos descobrir qual é o nível de realização dele. O major Goodwin vai querer saber. Nunca testamos uma Salamandra antes.
Fletcher ergueu Ignácio nos braços e tocou a cauda do diabrete no realizômetro. O aparelho ganhou vida. Os primeiros quatro segmentos se iluminaram em rápida sucessão. Mas então, para a surpresa de Fletcher, o quinto estágio acendeu tremeluzente, quase hesitante. Tarquin irrompeu em gargalhadas.
— Hah! Salamandras mal chegam ao nível cinco. E você pensou que poderia derrotar uma Hidra de nível oito e um Felídeo de nível sete só com a ajuda de um Golem! É uma diferença de dois níveis, seu bastardo pobretão idiota.
— Pelo que me lembro, você tinha dito que nossos demônios só estavam lá para espantar o Picanço — retrucou Fletcher, esforçando-se para manter a raiva sob controle. Ninguém, nem mesmo Didric, jamais falara assim com ele. — Você gostaria de mudar sua versão da história?
Tarquin gaguejou, mas foi interrompido por Rook.
— Silêncio! Vamos voltar à câmara de conjuração imediatamente. A aula ainda não acabou.
A jornada de volta à câmara foi ainda mais tensa que a vinda. Otelo estava perdido em pensamentos, enquanto o rosto de Rory era um retrato da infelicidade absoluta conforme ele marchava penosamente no fim da fila. Genevieve se esforçou para consolá-lo, mas o garoto simplesmente encarava o vazio à sua frente, como se não pudesse ouvir o que lhe era dito.
O menino falador e brincalhão tinha desaparecido.
Quando eles chegaram, Rook já tinha instruído alguns criados a trazerem uma coluna pesada, que eles tiveram dificuldade em erguer ereta. Era parecida com o realizômetro, só que, em vez das várias gemas, cada segmento era feito de uma única gema vermelha do tamanho do punho de um homem.
Rook a tocou casualmente, acendendo uma das pedras com cada toque do dedo.
— Sua professora preferia fazer as coisas à moda antiga, energizando o portal pessoalmente. Mas eu avalio os riscos de se entrar no éter de forma diferente. Esta é uma pedra de recarga. Ela pode ser preenchida com mana para ser usada posteriormente. É uma das ferramentas que usamos para alimentar os enormes escudos sobre as linhas de frente, carregando-a durante o dia para que não seja necessário energizá-los a noite toda. Mas nós vamos empregá-la para outro propósito. Juntos, vamos mantê-la numa carga total constante e atá-la aos portais que usaremos para entrar no éter. Assim, se alguém vacilar e se desconcentrar, o portal não se fechará prematuramente. Afinal, não podemos arcar com a perda de uma Hidra, podemos? Elas não existem mais na nossa região do éter.
Tarquin deu um sorrisinho e cutucou Isadora. Serafim levantou a mão.
— Por que elas estão extintas nesta parte do éter? Certamente nós não capturamos todas elas?
Rook suspirou dramaticamente e assentiu, como se tivesse decidido generosamente responder a uma pergunta idiota.
— Está vendo estas chaves na beira do pentagrama? São coordenadas aproximadas para o mesmo setor de terreno no éter. Todos os conjuradores nos últimos dois mil anos caçaram na mesma área, capturando incontáveis demônios. Obviamente, nesse meio-tempo, entramos em guerra contra os orcs. Depois aconteceram as rebeliões enânicas. Muitos dos nossos demônios morreram em batalha, e fomos precisando de mais para substituí-los. Logo os demônios selvagens aprenderam a ficar longe da nossa parte do éter, ou talvez tenhamos esgotado todos os mais raros. O que quer que tenha acontecido, só restam algumas poucas espécies. De vez em quando, um demônio raro, como um Grifo, perambula pela nossa área. Geralmente, está ferido ou doente. Outras vezes, criaturas migram através da nossa região, como os Picanços.
— Então é por isso que precisamos das chaves dos orcs — suspirou Genevieve, quando a ficha caiu.
— Não precisamos de chave de orc nenhuma! — vociferou Rook. — Os demônios fracos e comuns são para os plebeus. Os nobres herdam os demônios mais raros e antigos de seus pais. Assim, todos ficam em seu lugar de direito. Os orcs não mandam nada além demônios de nível baixo para nos enfrentar, de qualquer maneira, o que só prova que as coordenadas deles não são nada melhores que as nossas. É um desperdício de tempo e recursos tentar descobrir as chaves deles.
Genevieve mordeu o lábio e deu um passo atrás, intimidada pela língua afiada. Fletcher não entendeu por que Rook se opunha tão fortemente à busca pelas chaves. Não era claro que elas poderiam beneficiar Hominum? A única coisa que parecia interessar o Inquisidor, entretanto, era o desequilíbrio mesquinho de poder e status entre adeptos plebeus e nobres.
— Agora, a pedra de recarga só terá energia suficiente para funcionar com cinco estudantes por semana. Assim sendo, até que o torneio acabe, os nobres serão os únicos com permissão para entrar no éter. Depois disso, vamos considerar a possibilidade de permitir que vocês plebeus a usem.
Enquanto Rory soltava um soluço de desespero e os outros começavam a protestar em voz alta, Fletcher só podia pensar numa coisa.
Queria que a capitã Lovett estivesse aqui.

12 comentários:

  1. Meu Deus, que raaaaiva desse homem. Sério, eu acabei de conhecê-lo e estou com muito mais ódio dele do que do Didrik

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  2. e dois, o cara é chato pra caralho

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  3. Que raiva!!!!😬😬😬😡😡😣😣😬😬

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  4. Se você encontrou um personagem bem desagradável no começo do livro, se prepare porque um pior ainda está por vir, isso é fato

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  5. Nossa que professor chato, e mimado. Como se a pessoa pudesse escolher nascer plebeu ou nobre. Ele devia se pôr no lugar deles! -.-

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  6. Cara, bem q o realizometro do fletcher poderia dar uns bons 20.
    Assim calava a boca desse babacas mimados e esnobes.
    Que raiva desse professor filho da.....

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  7. Que professor idiota

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  8. Ai, eu odeio professores que incitam e praticam bullying, ainda mais na posição de aluna de licenciatura.
    Parece que eles não superaram o ensino médio quando eram os valentões, af, que ranço enorme

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Boa leitura, E SEM SPOILER!