22 de março de 2018

Capítulo 37

As despedidas foram rápidas. Otelo, Cress e Átila haviam recebido ordens do rei naquela manhã, convocando os três para servir como oficiais do batalhão dos anões. Cress chorou ao se despedir de Fletcher, e tanto Fletcher quanto Otelo precisaram, discretamente, enxugar uma lágrima após um abraço apertado. Os três anões partiram antes do comboio, ansiosos por liderar seus homens. Fletcher não os invejava — enquanto ele tinha de liderar apenas 32 soldados, eles liderariam centenas.
Sylva voou para encontrar o exército de elfos em seu caminho para o norte, e seu suave beijo de despedida no rosto de Fletcher perdurou até bem depois que ela e Lisandro desapareceram no céu. Fletcher a flagrou olhando para trás enquanto voava. Uma lembrança dolorida do que ele sabia que jamais poderia acontecer.
Na pressa de se aprontar para a expedição, ele havia se esquecido de que precisaria se separar de seus mais queridos amigos, sentindo sua falta antes mesmo que fossem embora. O pior seria sua mãe, a quem não tinha tido tempo de visitar. Era apenas por saber que poderia voar de volta com Ignácio que ele se permitia partir. Até lá, Harold havia prometido que ela receberia os melhores cuidados que os médicos de Corcillum podiam oferecer.
Uma boa surpresa foi saber que Thaissa se juntaria aos colonos. Ela timidamente apresentou o marido antes de embarcar na carroça — um jovem ferreiro anão chamado Milo, que havia aprendido o ofício com Uhtred antes de abrir a própria ferraria.
Houve uma breve confusão enquanto Uhtred bloqueou o tráfego matinal para que o comboio pudesse partir, e então lá se foram eles, um agrupamento de carroções s e cascos soando contra as ruas de paralelepípedos. Anões acenavam com lenços quando eles passavam, alguns correndo e entregando comida ou presentes de última hora. Após cerca de uma hora, estavam fora da cidade percorrendo a estrada empoeirada que levava ao sul, cercados por plantações e pequenas vilas.
Inicialmente, Fletcher viajou na frente com Sir Caulder e Berdon, mas logo eles ficaram cansados, pois já estavam exaustos devido à viagem que haviam empreendido. Assim, enquanto eles dormiam, Fletcher subiu ao teto do carroção, sentando-se ao lado do anão que os conduzia, para discutir a rota.
Mas o velho anão parecia estar com medo, sempre olhando por sobre os ombros. Fletcher perguntou o que ele temia.
— Ladrões — respondeu o condutor, olhando para a paisagem deserta.
Foi só então que Fletcher percebeu realmente o quão valioso seu comboio de fato era. Deixando de lado sua parte do prêmio em dinheiro, mantida em sua sacola, o conteúdo dos vagões poderia ser vendido por muito dinheiro no mercado negro. Eles eram um alvo perfeito para qualquer um dos grupos de salteadores que agiam nos arredores de Hominum, e seu pequeno exército estava longe de poder enfrentá-los.
Alguém precisava fazer o reconhecimento dos arredores. Assim, ele pulou do carroção e entrou numa plantação de milho ali perto. Ele observou o comboio passar, e ficou satisfeito ao ver que Sir Caulder havia posicionado seus soldados em três lugares, na frente, no meio e no final, deixando o comboio preparado para um ataque vindo de qualquer direção. Havia vinte veículos ao todo, cada um puxado por dois javalis, enormes como burros e duas vezes mais gordos. Ele observou os estranhos animais enquanto esperava que eles passassem, fascinado pela coloração de sua pelagem e pelas presas que saíam de seus maxilares.
Então, quando os carroções estavam fora de vista, ele conjurou Ignácio e Atena e voou. Era revigorante, como tinha sido da primeira vez, cortar o céu e observar a estrada se tornar uma fina linha marrom ao longo da colcha de retalhos verde e amarela que eram os campos daquela região. Mas, dessa vez, a experiência era ainda melhor — não havia nenhum demônio a temer, nenhum orc de quem escapar. O céu estava vazio, com poucas nuvens e, ao longe, um grupo de gansos voando em formação.
As asas de Atena ainda estavam imobilizadas, mas quase prontas para serem utilizadas novamente, por isso ela voava sentada nas costas de Ignácio, observando a paisagem. A leste, Fletcher podia ver a silhueta distante da Vocans, parcialmente oculta pela névoa da manhã. Ele se sentiu momentaneamente tentado a sobrevoar a área, talvez roubar uma olhadela dos estudantes através da claraboia de vidro em domo da construção. Só a segurança do comboio o manteve onde estava.
A princípio Fletcher desejara ter a visão sensível ao calor de Pria, mas não precisou se preocupar; os olhos atentos de Atena não deixavam nada escapar.
Assim, o restante do dia foi passado voando, recebendo a brisa e varrendo as áreas ao redor do comboio à procura de algum movimento suspeito. Mas, se havia algum bandido, ele não se revelou. Apenas um ou outro pastor e seu rebanho de cabras quebrava a calmaria daquelas planícies — isso e algumas poucas chaminés fumegantes dos vilarejos que pontuavam a paisagem.
À medida que seguiam viagem, a paisagem se tornava cada vez menos povoada. Plantações se transformaram, e morros rochosos e as ruínas de lares havia muito abandonados aparentavam ser amontoados de pedras e tijolos.
Fletcher sabia que as linhas de frente estavam logo além do horizonte, e a terra sob ele tinha sido destruída por intermináveis conflitos entre orcs e homens: da revolta dos orcs nos séculos que antecederam a guerra às batalhas sangrentas desde então. Não havia nenhum humano naquela área, nenhum escudo entre a civilização e a selvageria.
A estrada à frente se bifurcava, um dos lados seguindo para o fronte, ao sul, o outro se curvando para oeste, em direção ao mar Vesaniano. O comboio seguiu pelo caminho oeste, agora desacelerando o ritmo. Fletcher sobrevoou o comboio para ter uma visão melhor, e viu que a estrada estava mal conservada. Ervas daninhas e raízes protuberantes invadiam a estrada de terra, obrigando Sir Caulder a parar de vez em quando para ordenar que os recrutas liberassem a passagem. Outras vezes, poças de lama bloqueavam o caminho, e os passageiros eram forçados a descer e caminhar, para que os carroções não atolassem.
E assim eles seguiram. O entardecer se transformou em noite, até que o sol poente sentasse no horizonte, gordo e amarelo. Ainda assim, a estrada se estendia para além do horizonte, e Fletcher foi obrigado a enviar fogos-fátuos para iluminar o caminho: grandes bolas de pura mana que consumiam suas reservas, mas sobrevoavam o comboio, iluminando o caminho como luazinhas azuis.
Foi por volta da meia-noite que eles chegaram ao rio. No breu noturno, a água parecia preta, correndo silenciosa sob uma grande ponte de pedra que parecia estar ali desde o começo dos tempos. Era o marcador que indicava o início de Raleighshire: a terra atrás deles era de propriedade do rei, e a terra adiante... de Fletcher.
À medida que o comboio cruzou a ponte, ele escutou o ronco temeroso dos javalis, amedrontados pelo som de água em movimento abaixo. A mente de Fletcher se perdeu em pensamentos acerca da história do lugar. Uma grande batalha havia sido travada ali uma vez, nomeada em homenagem à própria ponte: Ponte Watford.
Agora eles estavam em área de savana; o que antes fora um mar de verde agora estava tingido de amarelo, sem vida e entrecortado por cadáveres de árvores e arbustos. A estrada era quase inexistente, coberta de grama alta e salpicada por pedras e plantas. Diante da savana selvagem, sem cuidado por quase duas décadas, os recrutas de Fletcher foram forçados a usar suas alabardas para abrir caminho, começando a trabalhar ao amanhecer e terminando ao pôr do sol. Os anões e os aldeões ajudaram, levando os detritos à medida que os soldados iam cortando.
E então, enquanto os primeiros raios de sol enchiam o céu, ele a viu.
Raleightown.

6 comentários:

  1. Thaissa é a irmã de Otelo e Átila, né??
    Em uma parte da história Otelo conta para Fletcher que perdeu uma irmã quando tinha 3 anos de idade, dois anos antes de sua mãe engravidar novamente(logo, a diferença de idade deles é de 5 anos).Se Otelo tem 17 anos(a mesma idade que Fletcher), Thaissa teria 12, certo? Casar com 12 anos não é errado para os anões?

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    1. Vdd algo errado não está certo

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    2. Se for crer em outras histórias e tal, o tempo de vida dos anões, é muito superior à raça dos humanos.
      Mesmo se Thaissa tiver 12 anos, seria considerada "Adulta" pro padrão de sua raça.
      não digo desse livro, mas se for comparar com Senhor dos anéis, alguns anões viviam até 400 anos. ou mais

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    3. Hã na verdade seria o contrario, né? Se eles vivem até os 400, em comparação, 12 seria um bebê

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    4. EXAATO kkkkkkkkkkk

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  2. Pera, normalmente os conjuradores se casam assim que saem de Vocans sendo assim provavelmente não há nenhuma lei que impeça qualquer um de se casar cedo, sem falar de que como a tradição aña diz que as mulheres usam véu para que quem se apaixone por ela não se importe com sua beleza, creio eu que eles se amam e que a unica coisa que pode impedir é a desaprovação dos pais

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Boa leitura, E SEM SPOILER!