13 de março de 2018

Capítulo 37

A noite caiu rápida e densa, e mal havia luar que iluminasse a passagem. Eles não ousavam produzir fogos-fátuos, pois o riacho se alargara ao tamanho de um afluente e o grande rio que eles teriam de cruzar fluía adiante, anunciado pelo som da correnteza. A pirâmide se erguia do outro lado, seu contorno sombrio contrastando com o céu estrelado. Era pelo menos dez vezes maior do que Fletcher havia imaginado, maior até que os picos do Dente do Urso. Ele se forçou a engolir um praguejar incrédulo, temendo inimigos à espreita.
Para manter os botes juntos, Azul jogou a ponta de um arpão para cada e então as cravaram nas beiradas dos barcos. Lisandro e Atena já tinham voado adiante para fazer o reconhecimento da área de desembarque do outro lado do rio. Até mesmo Sariel fora infundida por Sylva, pois o barco afundava muito com seu peso. Agora continha quatro gremlins, que manobraram habilmente o bote até o centro da frota.
— Rema, forte e rápido — instruiu Azul num sussurro áspero. — Se corrente tá levando você e você não acompanha, nós não pode salvar você. Vai cortar corda.
Fletcher ouviu o som de água, e os botes começaram a balançar. Sentiu o espirro do rio ao entrar nas corredeiras e, em seguida, quando o barco corcoveou com a correnteza acelerada, começou a remar desesperadamente para impelir o barco adiante. Logo se viu cercado por grunhidos de esforço conforme o grupo lutava para avançar, e o mundo se tornou uma repetição aparentemente sem fim de mergulhar, puxar, levantar; mergulhar, puxar, levantar.
A escuridão ocultava aqueles ao redor. Tudo que seus olhos viam era a silhueta da pirâmide recortada contra o céu. Abaixo dela, milhares de ovos de goblin esperavam para chocar, e uma alma torturada aguardava resgate. Eles estavam tão perto que dava para sentir o gosto.
Conforme os segundos se passavam, Fletcher se desesperou ao ver a grande silhueta deslizando da direita para a esquerda, a correnteza os empurrando cada vez mais rio abaixo. Seus braços doíam, mas ele não ousava parar. Em frente ele remou, rosnando entre dentes com cada golpe de remo. Até Ignácio ajudava, usando as patinhas em concha para retirar a água que se acumulava no fundo do bote e encharcava as calças do rapaz.
Então, inesperadamente, ele sentiu o arranhar da areia abaixo. Os dedos ágeis de Azul seguraram os de Fletcher e o puxaram para a água rasa da margem. O gremlin arrastou o bote atrás deles, até que os dois se viram cambaleando até a beira da selva.
— Cava agora — sibilou Azul, soltando o arpão com um puxão e empurrando as mãos de Fletcher para o chão. — Nós vai escondendo os bote.
Fletcher escavou cegamente com as mãos. Apesar da exaustão, foi surpreendente fácil empurrar a terra para o lado, pois estava solta e seca. Atena desceu esvoaçando e o ajudou, assim como Ignácio. Eles jogaram o barro com as patas por entre as pernas de trás até que o buraco ficou grande o bastante para conter o raso barco. Eles o colocaram de cabeça para baixo, para que ficasse fácil de recuperar depois, caso fosse necessário. Conseguia escutar os outros na escuridão, enterrando os próprios botes. Assim que terminaram, Azul reapareceu.
— Seus amigos tá pronto — sussurrou o gremlin, empurrão o arpão e o rolo de corda nas mãos do rapaz. — Segue. Nossos olho vê melhor.
Fletcher segurou o arpão e caminhou para as trevas, com a água guinchando nas botas. De vez em quando, sentia um puxão na corda do arpão e ajustava a direção. Duas vezes ele tropeçou, engolindo xingamentos ao ralar os joelhos nas pedrinhas que forravam o chão daquelas margens. Ele não foi o único a cair, a julgar pelos baques e exclamações ocasionais de dor que vinham de trás.
Fletcher se arrependeu de não ter pensado em se equipar com o cristal de visão, pois tanto Atena quanto Ignácio tinham visão noturna muito melhor que a dele. Guardara o monóculo na mochila, porém, a fim de evitar que caísse no rio, e agora estava ocupado demais para procurá-lo na bolsa. Até mesmo o feitiço de olho de gato estava fora de questão; a luz amarela revelaria sua presença, tão expostos assim à margem do rio.
Apesar da dor latejando nos joelhos, ele estava feliz que os gremlins estivessem ali para ajudar. Fletcher não conseguia imaginar como as outras equipes atravessariam o rio, não sem serem arrastadas por 800 metros correnteza abaixo antes de alcançarem o outro lado. Ele esperava que todas chegassem a tempo.
— Para aqui — sibilou Azul.
Eles estavam na base da pirâmide, onde a floresta fora derrubada para deixar um caminho aberto até a base de pedra da imensa estrutura. A edificação se erguia sobre eles, como um gigante adormecido, e Fletcher sentiu o terror se assomando perante o colosso. Balançou a cabeça com determinação e estreitou os olhos nas trevas. Conseguiu divisar vagamente a entrada, escancarada como uma caverna.
— Aqui a gente se separa — declarou Azul, com a voz baixa e urgente. — A gente se esconde entre irmãos e ataca amanhã.
— Boa sorte — sussurrou Fletcher.
— Tô pensando que é vocês que precisa disso — respondeu Azul — Os gremlins vive mais rio abaixo.
Ele fez uma pausa e colocou os dedos sobre a palma do rapaz.
— Que nossos caminhos se cruzem de novo, Fletcher.
Com isso, o arpão foi arrancado da mão do rapaz, seguido pelo som de passos se afastando. O garoto contemplou a escuridão, na esperança de captar outro vislumbre das corajosas criaturinhas, mas eles desapareceram na noite. A equipe de Fletcher tivera muita sorte em encontrar aliados tão formidáveis.
Depois de uma rápida pausa, Fletcher posicionou Atena no ombro e tirou a pedra de visualização da mochila. Passou a lente na ponta da asa da Griforuja para iniciar a conexão, e a colocou diante do olho, como um monóculo, para observar a cena.
Os outros estavam agachados na terra ao redor, com olhos arregalados e cegos, enquanto espiavam em volta, assustados. Até Lisandro parecia nervoso, cavando um sulco com as garras conforme esperava pela manobra seguinte.
— Não acredito que conseguimos — afirmou Fletcher, avaliando a posição da lua no céu. — É quase meia-noite. Vamos ver quem mais chegou.
— Não podemos ser os únicos — sussurrou Cress.
Fletcher se agachou e avançou na direção da pirâmide enquanto Ignácio corria à frente com o focinho no chão e Atena vigiava do alto.
Conforme se aproximaram, Fletcher contemplou novamente a enorme construção. Apesar da ameaçadora linha de árvores dos dois lados, ele não pôde deixar de se concentrar na visão que Atena tinha da estrutura.
Era maior do que qualquer coisa que ele já vira, maior até que a própria Vocans. Era feita de uma série de níveis quadrados que se estreitavam no topo. A visão noturna de Atena revelava que as lajes de pedra que compunham a pirâmide eram de um amarelo sem graça, e os exteriores estavam cobertos de cipós e heras emaranhados.
Então eles estavam sob a sombra da própria edificação e, subitamente, não estavam mais sozinhos.
— É você, Fletcher? — chamou a voz de Serafim, vinda da entrada, acompanhada pelo clique da pistola sendo engatilhada.
— Guarde esse negócio — sibilou Malik, e se ouviu o estardalhaço da arma sendo derrubada ao chão.
Os dois líderes se encontravam agachados na entrada. Ambos estavam completamente encharcados, os fartos cabelos negros colados na testa, e pareciam infelizes, aterrorizados e exaustos.
— Somos nós; não me vá metralhar tudo por aqui — afirmou Otelo, pegando a arma do chão e a entregando a Serafim. — Essa coisa não teria disparado de qualquer maneira; parece que a pólvora está molhada.
— Bem, é isso que quase se afogar no rio faz com você — resmungou Serafim, espremendo os cabelos entre os dedos. — Os outros estão se secando na câmara de entrada. Não se preocupem; não dá para ver a fogueira daqui de fora.
— Pode haver demônios guardando o lugar — observou Cress, espiando a entrada. Era um corredor vazio que se estendia para as trevas, com uma pequena câmara à esquerda. Fletcher notou o brilho da chama que vinha de lá, mas não se preocupou demais. Quaisquer demônios de guarda provavelmente estariam mais para dentro, se é que haveria algum. Mesmo assim, Serafim estremeceu e se afastou da entrada.
— Por que vocês estão molhados? — perguntou Fletcher a Malik, lembrando-se da rota que a equipe do colega deveria ter tomado.
— Nós mudamos de ideia — murmurou Malik. — Quando a equipe de Isadora trocou para o seu lado do rio, achamos que eles poderiam saber alguma coisa que não sabíamos e os seguimos. Encontramos a turma de Serafim logo antes de atravessar.
Fletcher ficou paralisado. Então a equipe de Malik também estivera do seu lado do rio. Seria possível que tivesse sido um deles a tentar matá-lo?
— Por falar nisso, você viu a tropa de Isadora? — indagou Serafim, interrompendo seus pensamentos. — Nossa janela para o ataque se fecha em oito horas.
— Eles ainda não chegaram? — exclamou Cress. — Mas nós precisamos deles!
— O que vamos fazer? — perguntou Fletcher, com o coração acelerado. Não tinha realmente considerado o que fariam caso uma das equipes seatrasasse.
— Eu prefiro esperar por Isadora e os outros. — Malik bocejou. — Se atacarmos agora, as chances do resgate serão muito menores.
Sylva fungou, como se Malik tivesse feito uma piada.
— Mas não seria uma pena? — murmurou ela para si mesma.
— Sugiro que nos abriguemos aqui e torçamos para que eles apareçam — continuou Malik, já se dirigindo à câmara iluminada. — Os orcs não estarão esperando nada.
— O Corpo Celeste está de prontidão agora mesmo — avisou Serafim, fitando o céu noturno. — Cada minuto que perdemos é um minuto em que os céus de Hominum estão desprotegidos.
— Mesmo assim, estamos todos exaustos — respondeu Malik. — Seria muito melhor esperar até o amanhecer.
Fletcher estava absolutamente cansado também... mas eles só tinham oito horas para completar a missão. Quem poderia saber quanto tempo levariam para encontrar o objetivo no labirinto de túneis adiante?
— Talvez fosse melhor atacarmos agora — argumentou Fletcher. — Estamos prestes a nos deitar para dormir no lugar mais sagrado de todo o mundo órquico enquanto a única defesa aérea de Hominum nos aguarda em solo. Isso não parece maluquice para vocês?
Só que de um lugar muito inesperado surgiu apoio a Malik: Serafim tinha mudado de ideia.
— Olha, nós temos uma equipe a menos agora — suspirou o rapaz. — Sei que você tem problemas com a trupe de Isadora... Raios, eu também tenho... mas, quer você queira ou não, temos uma chance de sucesso melhor com eles lutando ao nosso lado. Nossas duas equipes, a minha e a de Malik, tiveram que gastar muito mana cruzando aquele rio; fomos obrigados a lançar feitiços telecinéticos para nos ajudar a atravessar a correnteza. Temos que descansar.
Malik contribuiu:
— Podemos atacar agora despreparados ou esperar algumas horas e fazer o trabalho direito. Lembrem-se, só temos uma chance de executar a missão. Vamos fazer algo decente.
— É fácil para você dizer isso — rosnou Rufus de dentro da Pirâmide. — Minha mãe pode não durar mais uma noite.
Malik estremeceu, mas ignorou a explosão e fez um gesto para que a equipe de Fletcher o seguisse para dentro.
— Eles não usam isso aqui para nada além de rituais, certo? — disse Malik, olhando para trás. — Mason diz que só os xamãs têm permissão de entrar na pirâmide. Ficaremos mais seguros nos escondendo aqui que parados na selva.
Enquanto saudações eram sussurradas, Fletcher avaliou a própria equipe com a lente de visão, aproveitando os olhos penetrantes de Atena. Estavam todos molhados e exauridos pela jornada no rio, e a maioria mal dormira desde a noite em que encontraram Isadora e seus capangas, a não ser que inconsciência induzida por toxinas contasse. Otelo e Átila já estavam adormecendo, com os braços um sobre os ombros do outro. Uma noite de descanso de fato faria bem a todos eles, mas seria aquela a decisão mais acertada? Centenas, senão milhares de pessoas poderiam morrer se as Serpes atacassem Hominum aquela noite.
— Muito bem, equipe; infundam seus demônios e apaguem por algum tempo — ordenou Fletcher, desmoronando ao chão, derrotado. — Tenho a sensação de que vamos precisar.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!