2 de março de 2018

Capítulo 37

O gabinete de Arcturo era tão frio quanto o de Cipião era quente. Não possuía lareira e tinha uma daquelas seteiras sem vidro na parede. O ambiente era surpreendentemente despido de objetos, porém, pensando bem, tanto ele quanto Fletcher tinham chegado apenas algumas semanas antes, por mais difícil que fosse de acreditar. O rapaz sentia de que já estava em Vocans havia anos.
Os minutos se passaram, e logo Fletcher ficou entediado. Ignácio dormia no pescoço dele, exausto depois de toda aquela ação mais cedo. Atento a qualquer barulho de passos vindo do corredor, o menino contornou a grande escrivaninha de carvalho que parecia ser a única mobília no aposento, além de duas cadeiras e uma grande almofada para Sacarissa no canto. Papéis estavam espalhados pela mesa, porém um deles chamou-lhe a atenção.
Era uma lista de nomes, todos começando com “Fletcher”. Confuso, o rapaz olhou abaixo dela e, para seu horror, encontrou outra lista, desta vez de nomes terminados em “Wulf”. Não era uma boa notícia. Se Arcturo investigasse mais profundamente, poderia descobrir o crime de Fletcher. Pior, talvez deixasse uma trilha que permitisse a Caspar rastreá-lo. O rapaz vasculhou a memória, tentando se lembrar se tinha mencionado Pelego.
Passos soaram no corredor, fazendo Fletcher voltar correndo ao outro lado da escrivaninha. Momentos depois, Arcturo entrou a passos largos, seguido por uma Sacarissa saltitante. O rapaz percebeu, com base na sua linguagem corporal, que o professor estava bem agitado, por mais que a expressão não demonstrasse nada. O capitão se sentou à escrivaninha e organizou os papéis, sem dar nenhum sinal de que eles tinham algo a ver com Fletcher. Enfim ergueu o olhar e uniu as pontas dos dedos.
— Você sabe por que patrocinei você, Fletcher? — perguntou, olhando o aluno nos olhos.
— Foi porque eu já tinha um demônio, de modo que você não precisaria capturar um para mim? — sugeriu Fletcher.
— Não, eu não me incomodaria com isso. Sacarissa é muito boa em caçar, apesar daquele Cascanho ter se feito de difícil. Não foi, Sacha? — questionou Arcturo, afagando a cabeça do Canídeo. — Tente de novo — ordenou o capitão, reclinando-se na cadeira.
— Hummm... minha rara Salamandra? — perguntou Fletcher.
— Isso foi um bônus, mas não foi o motivo — respondeu o professor, com os olhos brilhando, entretidos.
— Minha bravura perante a morte certa? — brincou Fletcher, notando a expressão de Arcturo e tentando deixar o clima mais leve.
— Não, isso não! — retrucou Arcturo com uma curta risada. — Algumas pessoas diriam que você tomou a decisão errada naquele momento. Um oficial precisa aprender a sacrificar bons homens para que o resto do seu comando possa sobreviver. Assim, você também poderia ter desistido do seu dinheiro em troca da própria vida. Mas tenho que admitir que fiquei impressionado. Você ficou frio sob pressão e correu um risco calculado. Bons oficiais são pragmáticos e se mantêm calmos em combate. Mas os homens e mulheres que ascendem à grandeza são os ousados, os que buscam o risco. Aqueles que só aceitam tudo ou nada. Talvez você também se elevará ao nível deles, se jogar direito. — Fletcher sorriu com as palavras de Arcturo, mas elas tomaram um rumo mais sombrio em seguida: — Hoje você jogou mal, Fletcher. Muito mal. Um duelo com Tarquin poderia ter resultado em expulsão instantânea.
— Desculpe-me, senhor, eu estava só me defendendo. Se eu soubesse como erguer um escudo, eu teria usado um deles — murmurou Fletcher, baixando a cabeça.
— Um escudo não seria muito útil contra um demônio, mas essa não é a questão. Você precisa entender que os nobres farão qualquer coisa a seu alcance para se livrar de vocês. Melhor levar uma surra do que morder a isca. Acredite em mim, eu sei. — Arcturo soava amargurado. Pareceu prestes a continuar, mas pensou melhor e balançou a cabeça. Levantou-se subitamente e chamou Fletcher para mais perto da escrivaninha. Então prosseguiu: — Precisamos de conjuradores, Fletcher, mas eles não precisam ser oficiais magos de batalha. Um conjurador nas fileiras de soldados rasos é tão bom quanto um no refeitório dos oficiais, no âmbito geral. Treinar plebeus ao lado dos nobres não é uma prática popular. Muitos acreditam que vocês deveriam ter uma academia separada. Não dê a Cipião motivos para rebaixar você.
Fletcher assentiu sombriamente. Ele não conseguiu deixar de olhar de relance para os papéis na mesa. Arcturo não fez nenhuma menção de escondê-los.
— Quer saber por que fui seu patrocinador, Fletcher? Foi porque você me lembra de mim mesmo. Mais importante, foi porque eu sei quem você é. Ou o que você é, pelo menos.
Ele girou os papéis para que Fletcher pudesse lê-los e correu o dedo por eles.
— Há alguns Fletchers da sua idade listados em Hominum, e nenhum deles tem o sobrenome Wulf. Você não consta em nenhum censo oficial que eu tenha encontrado. Estaria certo ao afirmar que é um órfão não registrado?
O rapaz assentiu, sem entender.
Arcturo se reclinou, concordando com a cabeça para si mesmo como se Fletcher tivesse confirmado suas suspeitas. Apontou a cadeira do lado oposto da escrivaninha. O aprendiz se sentou e observou enquanto o professor o fitava.
— Você se lembra de quando Tarquin insinuou que sou meio nobre? — indagou o capitão, ajeitando o cabelo para trás e reajustando a fita que o mantinha no lugar à nuca. Fletcher fez que sim com a cabeça e, depois de uma longa pausa, Arcturo continuou: — Dez anos atrás, um jovem nobre estava a caminho da Cidadela, vindo de seu lar nos territórios setentrionais que fazem fronteira com as terras dos elfos. Ele estava passando a primeira noite em Boreas, que, como você sabe, não fica muito muito longe das suas montanhas do Dente de Urso. — Fletcher não sabia se ficava feliz ou ansioso pelo fato de Arcturo ter mencionado Dente de Urso em vez de Pelego. Havia centenas de vilas por lá, mas as notícias viajavam rápido. Arcturo somaria dois mais dois se descobrisse que um jovem fugitivo tinha escapado de lá. — Este rapaz nobre tinha sido presenteado com um Canídeo pelo pai, lorde Faversham — continuou Arcturo. — Mas ele não quis ler o pergaminho de invocação antes de chegar na academia, onde um professor poderia supervisionar a transferência. Assim, deixou o pergaminho nos alforjes da sela e foi dormir.
Arcturo parou por um instante, coçando as orelhas de Sacarissa. O demônio rumorejou com prazer e se esfregou nas mãos dele.
— Naquela noite, um cavalariço decidiu roubar tudo que o nobre estivesse carregando. Não tinha absolutamente nada no mundo; era um órfão que crescera num asilo de pobres e fora vendido para o mestre de estábulo por vinte xelins. Não era dono nem das roupas do corpo. O roubo era uma última tentativa desesperada de conseguir dinheiro suficiente para escapar e começar uma nova vida. Mas o destino tinha um plano diferente para ele.
Fletcher franziu o cenho. A história soava familiar, mas ele não conseguia lembrar onde a tinha ouvido antes.
— O menino sabia ler um pouco. Ele tinha estudado sozinho para que pudesse aprender sobre o mundo, devorando cada livro abandonado pelos viajantes na taverna à qual o estábulo pertencia. Então, quando o cavalariço encontrou o pergaminho e o couro de conjuração que o acompanhava, ele os abriu e os leu, mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa. Felizmente para o menino, ele ainda tinha dificuldades com a leitura, então pronunciava cada palavra em voz baixa. Ninguém ficou mais surpreso do que ele quando uma filhotinha de Canídeo foi conjurada, com pelo negro e olhos brilhantes. Era a coisa mais linda que ele jamais vira.
Fletcher olhou para Sacarissa e depois para Arcturo, e finalmente a ficha caiu.
— Você foi o primeiro plebeu a ter um demônio desde... bem, desde sempre! — exclamou Fletcher. — Se não fosse por você, nenhum de nós estaria aqui! Sua descoberta triplicou o número de magos de batalha!
Arcturo assentiu com seriedade.
— Mas, peraí — continuou Fletcher, confuso. — O que isso tem a ver comigo? Ou com o fato de você ser meio nobre?
— Essa foi a história que você já conhecia, com um pouco mais de detalhes. Mas há uma segunda metade, que só é conhecida pela nobreza e alguns raros outros. Veja bem, alguns anos depois de eu ter sido descoberto, houve uma grande conferência entre as casas nobres, os generais de Hominum e o rei Harold. A guerra corria mal em seu primeiro ano: os xamãs orcs estavam se unindo sob o estandarte do orc albino, e seus números superavam várias vezes a nossa quantidade de magos de batalha. Os nobres odiavam colocar seus filhos e filhas primogênitos em risco, considerando que, com a morte de cada herdeiro, suas linhagens corriam o risco de se extinguir. Estavam sendo forçados a ter vários filhos, de modo que, se o primogênito morresse, poderia haver outro herdeiro com a habilidade de conjurar. Depois do primogênito, há apenas uma chance em três de que um filho de nobre seja adepto. Muitas casas nobres têm três ou quatro filhos no caso de uma morte, para que o adepto seguinte possa se tornar o herdeiro. Além disso, muitos jovens nobres eram forçados a se casar e ter filhos assim que se formavam na Cidadela, de modo que, se morressem lutando, deixariam um filho primogênito em seu lugar.
Fletcher nunca tinha passado muito tempo pensando nas questões de sucessão e linhagens nobres. Podia imaginar as famílias nobres, desesperadamente cientes de que, com uma única morte, a casa inteira poderia desaparecer em uma geração. Por um momento, ele sentiu pena de Tarquin e Isadora, com toda a pressão que o sangue nobre lhes trazia. Mas só por um momento.
— Acredite se quiser, foi o avô de Tarquin, Obediah Forsyth, o nobre que liderou o movimento pela introdução dos plebeus nas fileiras de magos de batalha, usando sua própria fortuna para financiar a grande Inquisição, trazendo crianças de todas as partes e buscando sinais de mana nelas. Ele era o nobre mais rico e poderoso naquela época, e continua sendo. Seu filho, Zacarias, se casou com a primogênita de outra grande casa, Josephine Queensouth, unindo as terras vizinhas sob o brasão dos Forsyth. Isso efetivamente dissolveu a casa dos Queensouth. Geralmente herdeiros se casam com o segundo ou terceiro filho de outra casa nobre, de modo a manter seu legado, mas a família Queensouth estava à beira da falência, quase chegando ao ponto de vender a própria terra. O casamento foi a única solução que eles encontraram na época. Eu lhe explico essas coisas, Fletcher, porque nobreza, casamento e sucessão são as chaves para entender quem você é.
Fletcher concordou com a cabeça prudentemente, tentando acompanhar a história toda. As maquinações políticas da nobreza eram interessantes, mas o rapaz ainda não compreendia o que elas tinham a ver com ele. Ou com Arcturo, para ser sincero.
— De qualquer maneira, a busca de Obediah rendeu frutos e os plebeus foram recebidos em Vocans, eu inclusive. Os Inquisidores do velho rei assumiram a busca e perceberam uma tendência curiosa, algo que Obediah não tinha notado. Havia estranhos agrupamentos de adeptos, mais notavelmente nos orfanatos de cidades do norte. Agora, por que você acha que isso acontecia, Fletcher? — perguntou Arcturo, o orbe branco de seu olho ruim fitando cegamente a cabeça do aprendiz.
Mas a mente de Fletcher estava vazia. O que havia de tão especial nos órfãos?
— O que diferencia os órfãos do resto das pessoas? — insistiu Arcturo, ecoando os pensamentos de Fletcher.
— Ninguém os quer? — sugeriu o rapaz.
— Exatamente, Fletcher. E diga-me: quem é que não quer os próprios filhos? — perguntou num murmúrio Arcturo, guiando o aluno.
— Pessoas que não têm dinheiro para cuidar deles. — A memória de Fletcher repassou as longas e solitárias noites que passara se perguntando exatamente isso.
— De fato, Fletcher, há quem abandone os filhos por esse motivo. Também há aqueles órfãos cujos pais morreram. Mas há outro grupo que abandona os filhos regularmente. A Inquisição descobriu que esse era o ponto em comum entre quase todos os adeptos órfãos. — O capitão respirou fundo. — Quase todas as mães deles eram cortesãs. Incluindo a minha.
Sacarissa ganiu, e Arcturo a calou gentilmente. Fletcher percebeu que o capitão estava tocando num assunto que lhe causava grande sofrimento.
— Veja bem, lorde Faversham era... digamos assim... um homem insaciável. A mulher dele não conseguiu lhe gerar filhos por um longo tempo. Lady Faversham acabou se tornando fria e distante, rejeitando a presença do marido em sua cama. Então ele procurou outras que não o rejeitariam.
Fletcher afundou na cadeira, finalmente compreendendo.
— Então os filhos primogênitos das cortesãs com quem ele dormiu se tornaram adeptos? É assim que funciona? — indagou Fletcher, tentando não pensar no que aquilo significaria quanto à sua própria ascendência.
— Sim, além do fato de que ele tinha várias amantes também. Um homem pode ter filhos adeptos com várias mulheres diferentes, desde que seja o primeiro filho da mulher também. Assim como uma mulher pode ter vários filhos primogênitos com pais diferentes, se o homem nunca gerou filhos antes. Foi pura coincidência que um pequeno número de plebeus também tivesse nascido com o dom. Eu fui a causa para o início da busca, mas não nasci com o poder independentemente, como os outros plebeus. Eu sou um adepto porque fui um dos filhos primogênitos de lorde Faversham.
A mente de Fletcher se pôs a trabalhar, pensando nas circunstâncias de seu abandono. Nem mesmo um cobertor para protegê-lo do frio. Parecia uma explicação adequada. Arcturo interrompeu seus pensamentos sombrios:
— É claro que a descoberta provocou um escândalo. A prova de infidelidade lançou vergonha sobre várias casas nobres, especialmente os Faversham. Mulheres nobres iniciaram uma greve e se recusaram a ir à guerra a não ser que fosse aprovada uma lei proibindo que os órfãos fossem testados pela Inquisição. Elas não aguentavam a humilhação de ver os outros rebentos de seus maridos lutando ao lado dos filhos e filhas legítimos — sussurrou o professor, com a voz carregada de emoções conflituosas. — Ouvi dizer que lady Faversham ficou ofendida ao saber que o demônio destinado ao seu filho acabou sendo passado para mim. Ela me odeia ainda mais que as outras aristocratas. Só deu à luz um filho, o que significa que, se o herdeiro morrer, eu serei o próximo na fila para me tornar lorde Faversham, de acordo com a lei de Hominum. Ela foi obrigada a requisitar permissão especial do velho rei para tirar o filho das linhas de frente, para evitar que eu tentasse matá-lo e tomar seu lugar na linhagem. Você não ficará surpreso ao ouvir que foi ela quem organizou a greve.
Fletcher se impressionou ao ver como Arcturo se mantinha calmo ao falar das suspeitas que sofria. Ele se perguntou se o professor seria capaz de tal crime. Lorde Faversham era dono da maioria das terras ao redor do Dente de Urso, um homem rico e poderoso.
— Obviamente, a maioria dos órfãos já tinha sido identificada e treinada quando isso tudo foi descoberto, portanto, foi feita a concessão de permitir que aqueles que já tivessem sido descobertos permanecessem — continuou Arcturo. — A única condição era que nós não poderíamos ser chamados por nossos sobrenomes aristocráticos, e é por isso que sou conhecido como capitão Arcturo, meu primeiro nome. Tenho mais três meio-irmãos mais ou menos da minha idade, também lutando no exército. Provavelmente há mais deles por aí, completamente ignorantes de suas verdadeiras identidades. Não tenho permissão de testar crianças nos orfanatos, por mais que eu queira. Porém, de alguma forma, o destino trouxe você até mim.
Fletcher mal compreendeu estas últimas palavras. Estava imerso demais nos próprios pensamentos. Será que o pai dele poderia ser o lorde Faversham? Poderia isso significar que a mãe dele esteve viva em Boreas durante toda a sua vida?
— Fletcher, eu posso estar errado — disse a voz de Arcturo, flutuando ao seu redor. — Você pode ser só mais um órfão, pois é muitos anos mais novo que eu, afinal. Nem sequer sei se Faversham continuou sendo infiel depois de ter o primeiro filho com lady Faversham. Mas quais são as chances de um órfão adepto abandonado perto de Boreas ser um dos poucos que não descendeu da nobreza?
— Então você está dizendo que sou filho bastardo de lorde Faversham e que minha mãe é uma amante, na melhor das hipóteses, e uma cortesã na pior? — retrucou Fletcher amargurado, desperto do devaneio.
— E meu meio-irmão... — completou Arcturo Faversham.

10 comentários:

  1. mmds...será q ele é meio irmao do arcturo msm

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    1. acho q não, o rumo da historia ia mudar mt

      -toxic-

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  2. lol..... acho que ele é irmão do Didric ;D

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    1. Didric é filho de um agiota, não tem nada de nobre... Se tivesse, ele provavelmente seria um conjurador também.

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  3. Acredito que ele seja decedende da antiga casa que foi assassinado pelos orcs
    Que foi citado pelo professor que lutou com ele no começo do livro

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  4. Será?

    Ainda acho que ele é herdeiro daquela familia que morreram todos e.e

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  5. Eu acho que isso é a maior suruba. Tá parecendo Game of Thrones. Ou uma novela mexicana!

    Gostei

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  6. È como Mistbourn, plebeus que tem poderes os tem porcausa da ascendencia nobre.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!