13 de março de 2018

Capítulo 36

Quando eles emergiram do Viveiro, Fletcher não conseguiu deixar de desabar no chão e olhar para o céu, desfrutando do ar fresco e da luz do dia. O sol já se punha, mergulhando a clareira num brilho cálido e alaranjado. Ele não fazia ideia de onde estavam ou da distância até a pirâmide. Tinham que partir em breve, mas o rapaz mal conseguia reunir energia para se sentar.
Os gremlins continuaram dentro do Viveiro, exceto por Azul, que os vigiava atento da entrada principal. Outros espiavam com curiosidade, os olhos esbugalhados visíveis acima da borda dos respectivos túneis.
Até os bebês gremlins estavam presentes. Um deles deu um passo adiante para ver melhor, apenas para ser logo em seguida arrastado para dentro pela mãe, agora zangada. Os ganidos de protesto indicaram a Fletcher que o filhote estava recebendo uma bela surra.
O rapaz deixou a cabeça cair para o lado e viu que Otelo ainda estava desmaiado no chão, as narinas vibrando a cada ronco. O anão estalou os lábios e rolou, abraçando a garra de Lisandro, como um bichinho de pelúcia.
— Certo, já chega — rosnou Cress, limpando a terra e o visgo do uniforme. — Acabou a soneca.
Ela sentou no peito de Otelo e lhe deu um puxão nos bigodes.
— Blargh! — exclamou ele, estapeando as mãos da anã.
— Isso mesmo, hora de acordar — sorriu Cress. — Basta de sono de beleza por hoje.
Otelo a empurrou para longe e se sentou, esfregando os olhos.
— É como se tivessem me arrebentado a cabeça com uma pedra. — grunhiu o anão. Ele percebeu onde estava e ficou paralisado.  — Humm... o que está acontecendo?
Otelo olhou em volta e percebeu os olhos de gremlin vigiando-os.
— Vamos lá — disse Cress, enquanto o ajudava a se levantar. — Eu explico no caminho.
— No caminho? — resmungou Fletcher. O solo estava fresco nas suas costas, e o rapaz não tinha a menor intenção de se levantar naquele momento.
— Parece que estamos de partida — observou Sylva, dando um tapinha de atenção na testa do amigo e apontando Azul, que se afastava. O gremlin e seu mara entravam na selva, seguindo uma trilha tênue, quase indistinguível.
— Peguem suas mochilas — grunhiu Fletcher, levantando-se. — Azul está nos guiando.
Voltar à selva foi como ser envolvido numa teia de aranha, com o zumbido e formigar constante de insetos e com gravetos, folhas e espinhos se emaranhando nas roupas e cabelos de Fletcher.
A trilha obviamente fora aberta para gremlins e suas montarias, nada maior que isso. Fletcher estendeu a mão para sacar o khopesh e cortar um caminho mais largo, mas se deparou com a bainha vazia.
— Ei, quando vamos receber nossas armas de volta? — indagou ele, erguendo a voz para ser ouvido pelo gremlin. Azul não havia reduzido o passo, e Fletcher o teria perdido de vista se não fosse pela listra desbotada de tinta azul nas costas do gremlin subindo e descendo adiante.
— Eles tá espera no rio — disse Azul, sua vozinha melodiosa penetrando a folhagem. — Paciência.
O grupo labutou adiante, com Fletcher enfrentando as maiores dificuldades. Lisandro e Atena saltavam pelos galhos mais livres do alto, enquanto Sariel deslizava de barriga pela vegetação rasteira com surpreendente facilidade. Ignácio e Tosk corriam à frente, alertas para emboscadas. Os dois trabalhavam bem em conjunto, coordenando um avanço trançado que vasculhava uma área vasta.  Então Fletcher teve uma ideia.
— Salomão, vá na frente — chamou ele. O golem destroçou os arbustos no rastro de Azul, o corpo de pedra imune aos espinhos. Ele caminhava na dianteira, abrindo uma larga trilha com o vulto volumoso.
Apesar dos esforços de Salomão, quando eles finalmente saíram no outro extremo, os antebraços de Fletcher estavam cobertos de finos arranhões vermelhos. Ignácio os lambeu, selando os ferimentos, mas Fletcher mal percebeu. Tinha avistado a correnteza.
O riacho era quase um rio em si, tão largo quanto o fosso que cercava Vocans. As águas avançavam de forma tão lenta e plácida que pareciam nem se mover. Só a ocasional folha flutuando indicava o contrário.
Meia-dúzia de gremlins emergia da água. Peixes de barriga prateada tinham sido enfileirados pelas guelras e carregados em fieiras de corda sobre os ombros das criaturas. Os gremlins estavam armados com simples armas de lança que disparavam arpões atados a rolos de barbante bem apertados. As armas não eram muito diferentes da besta de Cress, mas eram feitas de uma única vara, um gatilho simples e uma faixa esticada que era puxada para trás manualmente. Não era poderosa como uma corda de arco, mas parecia mais resistente; de toda forma, obviamente empregável debaixo d’água.
— Azul, você tem que me contar mais sobre essas faixas nas suas armas de arpão — comentou Jeffrey, maravilhado com as armas ao ver a tropa de gremlins pescadores passar, evitando os olhos deles. — Presumo que sejam feitas com a seiva da seringueira; um material realmente fascinante.
— Azul? — O gremlin girou o mara e cruzou os braços.
— Desculpa... foi assim que Fletcher se referiu a você mais cedo — comentou Jeffrey, envergonhado.
— Qual é o seu nome de verdade? — indagou Fletcher, depressa.
Azul pausou por um instante, uma expressão pensativa no semblante. Então, ele inclinou a cabeça para trás e soltou um tumulto de trinados, cliques e sopros flautados. Sorriu para os humanos enquanto o encaravam, espantados.
— Eu... eu acho que não vou conseguir pronunciar isso — gaguejou Jeffrey.
Azul sorriu e desmontou do mara.
— Azul está sendo bem. — Riu o gremlin. Deu um tapa no quarto traseiro da montaria, e o mara saltou para as árvores. Por um momento, Azul ficou ali, observando o cenário, inspirando fundo. Então, abriu a boca e emitiu um longo assovio ondulante. Soava como uma mistura de um grito de águia e o prelúdio matinal de uma ave canora.
Ao sinal, vinte gremlins se balançaram das árvores que cobriam o riacho e pousaram agachados em meio à equipe de Fletcher. Estavam armados com uma estranha mistura de lançadores, zarabatanas e facas, e o rapaz os reconheceu como sendo os gremlins que os cercaram antes, os corpos pintados para se misturar à folhagem. Nem mesmo Sariel havia sentido a presença deles.
— Nós vai com você, vai pirâmide — disse Azul,  indicando o riacho. — Quando você ataca, nós saqueia orc e liberta muitos gremlin.
— Uau! — comentou Fletcher. — Isso é... muito generoso da sua parte.
— Está ajuda nossas duas causas — explicou Azul simplesmente. — Quando alarme toca, nós sabendo que você descobrido. Aí nós ataca.
Fletcher não saberia dizer se aquilo se tratava de oportunismo cego ou uma aliança amistosa. De qualquer maneira, um pequeno exército de gremlins para guiá-los não era uma vantagem da qual ele abriria mão.
— Por mim, tudo bem — concordou Fletcher. Ele estendeu a mão, e Azul retribuiu. Os dedos do gremlin eram ásperos e finos, como segurar um maço de gravetos ressecados, mas ele apertou a mão de Fletcher de forma amistosa.
— Pega armas.
Era Meia-orelha; ele era um dos gremlins a aterrissar ali. Os guerreiros que o flanqueavam atiraram duas cestas no chão. O tinir do metal revelou o conteúdo, e a equipe de Fletcher não desperdiçou um instante sequer em se armar. Sylva pegou a besta de Cress, tentando alcançar o falx que estava no fundo da cesta. Houve um instante tenso quando Cress estendeu a mão para pegar a arma. Então, com relutância, Sylva repassou o equipamento.
Foi um alívio sentir o peso do khopesh na cintura mais uma vez; Fletcher percebeu como se sentia nu sem ele.
Assim que estavam prontos, os gremlins os empurraram em direção ao riacho, impacientes para seguir adiante.
— Então, nós boia — disse Azul, quando eles chegaram à margem, e apontou a beira.
O que Fletcher originalmente pensara serem enormes vitórias-régias na verdade eram estranhos barquinhos com forma de tigela que flutuavam na água. Os guerreiros já saltavam para eles, quatro em cada nau até que estavam todos a bordo. Ainda restavam alguns barcos, incluindo um especialmente grande.
— Essas coisas vão aguentar nosso peso? — resmungou Otelo. — Nós, anões, não somos exatamente conhecidos por nossa habilidade em natação.
Cress assentiu em concordância, cutucando um barco com o dedão.
— Vão sim — retrucou Jeffrey com entusiasmo, pulando no bote mais próximo. A embarcação balançou perigosamente enquanto o rapaz se firmava, e água transbordou para dentro pela lateral.
Os gremlins chilrearam entre si conforme Jeffrey se debatia, tentando evitar que o bote girasse com o pequeno remo amarrado à lateral. Felizmente, o barco flutuava bem, e o rapaz se sentou alegremente na poça de água no fundo.
— São botes de pesca — explicou Jeffrey, dando tapinhas na lateral. — Do tipo usado pelos povos ribeirinhos no oeste de Hominum. Varas de salgueiro trançadas formam a estrutura, e couro animal tratado com piche garante a impermeabilidade. Os fundos chatos garantem que eles mal perturbem a água e, dessa forma, os peixes. Às vezes, as ideias mais simples por acaso são as melhores.
— Desde que eles nos levem até lá antes da meia-noite, tudo ótimo para mim — observou Fletcher, entrando no próprio barco e se baixando até o piso. Era confortável, como sentar num grande cesto.
Os outros seguiram o exemplo, ainda que Lisandro e Atena tenham ficado nas copas das árvores, preferindo esticar as asas. Houve um momento de confusão quando Sariel nadou até o bote maior e desabou no interior. Pelo cheiro, aquele barco maior era onde os gremlins costumavam guardar e transportar o pescado. Ela não pareceu se incomodar, farejando o fundo e lambendo os restos com alegria, acabando com a língua coberta de escamas faiscantes.
Sylva estremeceu e depois gargalhou.
— Vocês não fazem ideia de como isso é gostoso para ela. — A elfa riu e bagunçou o pelo das orelhas do Canídeo. — Eu provavelmente deveria infundi-la, mas... ela parece bem satisfeita.
Houve uma pausa enquanto a equipe manobrava as embarcações correnteza abaixo, então os gremlins puseram os remos na água.
— Adiante — flauteou Azul, formando espuma branca na água ao se propelir para longe da margem.
Eles remaram até o centro do rio, onde a leve corrente os carregou. Os botes foram puxados numa velocidade maior do que Fletcher teria esperado; de fato, eles nem precisavam remar. Tinham apenas que mergulhar o remo ocasionalmente para impedir o bote de girar.
— Tem como irmos mais rápido? — gritou Fletcher para se fazer ouvir sobre a correnteza. — Temos que chegar lá antes da meia-noite. Quanto tempo vamos levar?
— Tem tempo de sobra — respondeu Azul. — Preocupa não.
Fletcher grunhiu e afastou a ansiedade à força, odiando o fato de o destino da missão depender da palavra de um gremlin. Ele notou Sylva; a elfa trazia uma flecha preparada no arco. Claramente confiava muito menos nos gremlins que ele.
O rapaz deu de ombros e se reclinou, apoiando a coluna na curva rasa do bote. Os gremlins trinavam entre si enquanto o resto da equipe olhava a floresta passar, com olhos semicerrados. Tinha sido um longo dia, e o sol poente já os embalava em sono.
Ignácio cutucou a perna de Fletcher, que viu que o demônio espiava as águas abaixo. Estavam claras e plácidas como um painel de vidro; dava para ver as frondes verdes que recobriam o fundo, balançando com a corrente. Enquanto Fletcher olhava, uma enorme arraia passou, tão grande quanto o bote onde eles estavam. Seus flancos ondulantes a propeliam mais rápido que a correnteza, e logo ela desapareceu de vista.
— Boa carne — declarou Azul, assistindo da própria embarcação. Passou o dedo na ponta de um dos arpões que tinha amarrado nas costas e no qual agora Fletcher reparava, era farpado como um ferrão de arraia. — Rabos úteis.
Mesmo enquanto ele falava, mais arraias emergiram das algas no fundo, passando sob eles em fila. Peixes de barbatanas largas e dorsos verdes se juntaram à procissão, avançando com o suave bater das caudas.
Algo passou em disparada, espalhando os peixes.  Pegou um deles na boca e espiralou numa hélice de bolhas, revelando ser aquilo que tinha perturbado o grupo que se deslocava nas sombras da mata subaquática.
Um boto, rosado como uma dália, nadava debaixo deles. Sua presa foi engolida pelo longo bico do animal, que em seguida deu um impulso com a nadadeira da cauda e rompeu a superfície, caindo de volta num espirro de água.
Por toda volta, mais botos rosados saltavam e mergulhavam, assoviando e estalando como se rissem. Os gremlins bateram palmas de alegria, alguns até jogando petiscos das bolsas que levavam à cintura para os botos pegarem. Muitos responderam, igualando os sons das criaturas. Era algo estranhamente belo de se ver, como se eles cantassem uns para os outros.
— Os velhos do rio abençoa a jornada! — Azul riu, chapinhando a água junto ao bote para chamar um deles à superfície. — É vai ser bom presságio!
O boto esfregou a barbatana rosada nos dedos de Azul, o mais perto de um aperto de mão que as duas espécies chegavam a ter. Então, como se algum sinal silencioso tivesse passado por eles, os botos saíram em disparada correnteza acima, deixando as embarcações solitárias em sua jornada.
— Isso foi lindo — comentou Sylva, contemplando os botos. Ela se virou para Azul. — Vocês conseguiram entender o que diziam?
— Nós tá falando muitas palavra enquanto eles falando pouca — respondeu Azul, sorrindo de orelha a orelha. — Diz que, muito tempo, nós aprendeu a falar com ele. Não é mesma coisa, mas nós entendendo significado deles.
Enquanto Azul falava, sua expressão ficou sombria. Fletcher seguiu o olhar dele, espiando sob a luz mortiça do pôr do sol.
Uma estátua desmoronada jazia de lado à beira do riacho, semicoberta de cipós e musgo. A cabeça estava parcialmente submersa na água, mas não havia dúvida quanto à qual criatura ela reproduzia, com as presas partidas e a testa projetada. Eles estavam em território órquico.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!