2 de março de 2018

Capítulo 36

A Hidra avançou contra Fletcher, sibilando com as línguas bifurcadas. As cabeças ondulavam hipnoticamente, balançando de um lado para o outro como serpentes prestes a dar o bote.
— Salomão! — gritou Otelo, materializando o Golem.
O demônio de pedra se plantou diante da Hidra e a encarou. Ignácio logo o seguiu, rosnando furiosamente. Juntos os dois se postaram, desafiando a Hidra a tentar passar.
— Eis que o anão decide botar suas cartas na mesa. Não estou surpreso. Os fracos frequentemente se unem — zombou Tarquin.
— Eu vou lhe mostrar quem é fraco aqui. Venha só para ver — grunhiu Otelo. Ele deu a volta para ficar ao lado de Fletcher.
— Não temos tempo para isso! Vocês não estão vendo que a capitã Lovett está morrendo? — berrou Fletcher, furioso com os dois.
A respiração da professora estava ficando cada vez mais sofrida, sorvendo goles engasgados de ar como se cada segundo fosse uma luta.
— Deixe o meio-homem lutar, se quiser — retrucou Tarquin, causando espanto em todos diante do termo preconceituoso. Até mesmo Fletcher sabia que “meio-homem” era algo incrivelmente ofensivo para os anões.
Otelo cerrou os punhos, mas não mordeu a isca.
— Cale a sua boca! Não ouse falar assim com ele! — rugiu Fletcher, com a raiva inundando suas veias como fogo líquido.
— O anão acha que só porque um de seus superiores foi forçado a lhe conceder um demônio valioso, ele agora está no nosso nível — continuou Tarquin, inabalado. — Vou mostrar a ele como está errado. Então matarei esse seu diabretezinho ridículo, Fletcher. Seus truques com fogo não assustam Trébio. — Ao som do próprio nome, a Hidra sibilou e raspou a pata no chão.
— Caríssimo irmão, não seja egoísta. Também quero duelar! — Isadora entrou no círculo de luz.
Ela fez uma mesura, raspando o pé na beira do pentagrama mais próximo com o movimento. Filamentos delicados de luz branca voaram do couro e criaram forma, retorcendo-se e enroscando-se até que o demônio dela surgiu no meio do pentagrama.
Tinha uma aparência muito próxima a de um grande felino, porém parecia ser quase bípede, andando num agachamento curvado, como um chimpanzé da selva. Seu pelo espesso era listrado de laranja e preto como um tigre, com músculos poderosos que ondulavam sob a pele. Os caninos enormes de um dentes-de-sabre estendiam-se dos dois lados da boca, ambos com mais de dez centímetros de comprimento e terminando numa ponta afiada como agulha. Assim como um Canídeo, este demônio tinha um par extra de olhos atrás do primeiro.
— Nunca viu um Felídeo antes? — perguntou Isadora, percebendo a expressão de assombro de Fletcher. — Meu Tamil é um belíssimo espécime. Você não verá outro assim em toda a sua vida. Minha caríssima mãe foi gentil o bastante para me dar de presente. Foi o mínimo que ela poderia ter feito, depois que Tarquin recebeu o orgulho e a alegria de papai.
O Felídeo uivou de empolgação, com o rabo balançando de um lado para o outro. Ele voltou os olhos incandescentes para Ignácio, estendendo um conjunto de garras mortais com experiência.
Fletcher engoliu em seco quando os dois demônios avançaram, sua raiva se esvaindo conforme ele percebia a realidade da situação. Ambas as criaturas provavelmente haviam sido os demônios primários dos pais, o que significava que deviam ser extremamente poderosos. Mesmo com o suporte de Salomão, Fletcher tinha certeza de que Ignácio estava em forte desvantagem. O menino fez o diabrete cuspir uma rajada de fogo alaranjado no ar, mas os demônios dos nobres mal estremeceram quando as chamas irromperam acima deles.
— Agora, Trébio! — gritou Tarquin, fazendo a Hidra investir contra eles com um sibilo, seguida por um Tamil saltitante. Salomão separou as pernas e soltou um rugido gutural, erguendo os punhos de pedra. Ignácio se ergueu sobre as patas traseiras e inspirou fundo, pronto para soltar mais uma bola de fogo.
Subitamente, um clarão de pelos dourados surgiu entre os quatro demônios; Sariel tinha chegado à cena. Sua juba áurea estava eriçada, e todos os quatro olhos ardiam de fúria. O focinho geralmente elegante do Canídeo estava enrugado num rosnado apavorante que era todo dentes e saliva. Ela arrastou a pata dianteira no chão, deixando quatro rasgos no couro. Desta vez, a Hidra hesitou.
— Parem com isso! — exclamou Sylva. — Vocês já esqueceram quem é o inimigo? Nós estamos todos do mesmo lado!
— Não oficialmente; ou os elfos já se renderam? — respondeu Tarquin, com malícia. — Você é só uma refém de luxo, nada mais.
Sylva se indignou com essas palavras e Sariel latiu, sentindo sua raiva.
— Ora ora, Tarquin, não perca o controle — interveio Isadora, pousando a mão no ombro do irmão num gesto apaziguador. — Os elfos podem muito bem ser nossos aliados em breve. Os Forsyth e os chefes dos clãs élficos poderão se beneficiar muito uns com os outros... não se lembra?
Fletcher viu a menina apertar o braço do irmão, cravando as unhas em sua carne. Tarquin pausou e então curvou a cabeça, fazendo Trébio recuar alguns passos.
— Peço desculpas, eu me deixei levar pelo momento. Febre de batalha, vocês entendem — murmurou Tarquin, mas o rosto ainda estava vermelho de raiva. Ele lançou um olhar ameaçador a Fletcher.
— Então, Sylva, como vai ser? O anão e o pé de chinelo... ou nós? — indagou Isadora. Mas ela jamais ouviria a resposta da elfa.
A porta se abriu violentamente e Arcturo entrou num rompante, seguido por Genevieve e dois criados com uma maca.
— O que está acontecendo aqui? — rugiu ele.
Sacarissa entrou correndo e parou ao lado de Sariel, postando-se uma cabeça mais alta que o demônio da elfa. Com um estalar de mandíbula, ela mandou o outro Canídeo de volta à Sylva.
— Levem-na à enfermaria imediatamente — murmurou Arcturo, pegando Lovett e a deitando gentilmente na maca. Ele afastou um cacho de cabelo de sua testa e lhe fechou os olhos, que ainda fitavam cegamente o teto. Os criados partiram de imediato, tropeçando devido à pressa. — Agora... alguém vai me contar o que está acontecendo aqui? — inquiriu ele, com raiva mal contida.
— Estávamos espantando um Picanço que veio pelo portal — mentiu Tarquin sem hesitação. — Ele já se foi.
Arcturo voltou os olhos a Fletcher, mas o menino não gostava de dedurar os outros. Ficou de boca fechada, mas se mexeu, culpado. Arcturo estreitou os olhos e avançou, jogando fogos-fátuos azuis por toda câmara. Enquanto os novatos estreitavam os olhos sob a súbita a luz elétrica, o capitão falou em voz alta:
— Espero que vocês não estivessem pensando em duelar. Os elfos gostavam de duelar. Eles perderam demônios e mais demônios, até que não tinham mais nenhum. Vocês sabem o que acontece quando os demônios acabam? Não há mais mana para se abrir um portal. Nenhum meio de se conseguir mais criaturas. É isso, o éter perde-se para sempre. Você, Sylva, mais que todos os outros, seria uma completa tola se duelasse. Só de pensar nas concessões que seu povo teve de fazer para que você estivesse aqui... Foi escolhida para ser a fundadora de uma nova geração de elfos adeptos, e será sua missão presenteá-los com seus primeiros demônios. Você é a primeira elfa conjuradora em mil anos. Não leve isso de forma leviana. Se perder seu Canídeo, não lhe daremos outro.
Sylva baixou a cabeça, envergonhada, e Sariel choramingou com o rabo entre as pernas. Fletcher ficou grato que a elfa corresse tal risco por ele, e silenciosamente agradeceu do outro lado do aposento. Eles poderiam ter sido flagrados no meio de um duelo e até sido expulsos, se não fosse pela intervenção dela.
— Qualquer ocorrência de duelos será retribuída com expulsão sumária. Plebeus terão de se juntar às fileiras de soldados rasos sem treinamento posterior. Talvez, com sorte, poderão chegar a sargento. Quanto aos nobres, terão o direito de comprar uma comissão de oficial, obrigando sua casa nobre a passar a vergonha de precisar de suborno para colocá-los no exército. Mesmo assim, terão de estudar com tutores particulares.
Tarquin fungou em escárnio ante as palavras de Arcturo, e sussurrou alguma coisa para a irmã.
— É isso que você quer, Tarquin? Que o grande Zacarias Forsyth seja forçado a comprar uma patente de oficial para o filho? — A voz mordaz de Arcturo estava carregada com várias camadas de sarcasmo.
Tarquin empalideceu com a ideia, mas se recompôs ao sentir os olhos de todos em si.
— Seria um trocadinho. — Tarquin deu de ombros, em seguida retrucou, com tom sinistro: — E os meio-nobres? O que acontece com eles? Quer dizer, você é a pessoa certa a quem perguntar sobre esse assunto... ou eu estou enganado, Arcturo?
Tarquin sorriu como se tivesse vencido a discussão, e o capitão não respondeu, abalado. Em seguida seu rosto se tornou vermelho de raiva, e Sacarissa rosnou com ameaça profunda, tão alto que o som reverberou no peito de Fletcher. Tarquin deu um passo para trás, percebendo que talvez tivesse ido longe demais. Felizmente para ele, Cipião chegou correndo à câmara, o rosto de morsa vermelho pelo esforço.
— Eu vim assim que fiquei sabendo — ofegou ele, recuperando o fôlego. — Está tudo bem com ela?
Arcturo respirou fundo para se acalmar e se virou para o reitor.
— Não senhor, não está. É choque etéreo, estou certo disso. Vamos ter que esperar até que ela se recupere, mas não há como saber quando estará de pé novamente. Eu assumirei as aulas dela nesse ínterim.
Cipião fechou os olhos e suspirou de frustração. Em seguida se virou para os aprendizes e falou:
— Atentem bem, cadetes. Agora vocês entendem os perigos do éter, os riscos que seus pais e doadores correram para lhes dar seus demônios. Sejam gratos e trabalhem arduamente para fazer com que seus presentes valham o custo. — Ele deu alguns passos em direção à porta, então parou e falou de novo: — Tarquin Forsyth, você vem comigo. Não fique pensando que escapou impune depois de falar de forma tão desrespeitosa a um oficial superior. Haverá consequências para sua insolência.
A expressão de Tarquin desmoronou e o menino fitou o chão, mas o bater de pé impaciente de Cipião o fez caminhar até a porta. Fletcher não pôde deixar de sorrir. O metidinho mimado bem que merecia.
Sua felicidade durou pouco, porém. Alguns momentos depois, a voz de Arcturo interrompeu seus pensamentos.
— Tire esse sorriso da cara, Fletcher. Como seu patrocinador, seu comportamento é refletido em mim. Vá direto para o meu gabinete e me espere lá. Vamos ter uma conversinha.


6 comentários:

  1. Jkkkkk eu também ia sorrir que nem um louca, bem que esse Tarquin mereceu

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  2. O tarquin me lembra o draco malfoy

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  3. Me arrepiei todo pois minha mae falava vamos ter uma conversinha quando fazia algo de errado em publico so de lembrar ja doi as pernas

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  4. Af, eu adorei Arcturo. Ele parece ser um cara bem justo. E Fletcher tem muita sorte pra encontrar umas pessoas pra tomar conta dele, mas fico magoada com ele ainda não ter mandado nenhuma carta para o pai pra avisar que tá bem, ele deve tá super preocupado

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Boa leitura, E SEM SPOILER!