22 de março de 2018

Capítulo 35

Elfos silvestres, para ser exato. Eram dez, tanto homens quanto mulheres, todos trajando as vestimentas tradicionais de seu povo. Fletcher adivinhou a casta pela cor âmbar dos olhos e o tom dos cabelos — uma mistura de castanho-avermelhados, castanhos e ruivos, em vez do tom dourado-claro dos altos elfos.
— Você parece surpreso — disse Murray, com um tom divertido na voz guinchante. — Os elfos enviaram alguns voluntários a fim de aprender como se dispara um mosquete. Chegaram na semana passada. Nós os mantivemos ocupados varrendo o chão. Para dar um pouco de disciplina, sabe como é. Para nossa sorte, vocês chegaram bem na hora de tirar esse bando de nossas mãos.
Ele riu, como se tivesse acabado de ganhar de Fletcher, mas logo parou quando viu a expressão satisfeita do outro. Os elfos silvestres eram caçadores experientes e seriam um ótimo acréscimo a seu pequeno grupo de soldados. Seu único problema era a atitude; estavam parados ali, carrancudos e de braços cruzados, encarando-o. Uma elfa em particular parecia completamente hostil, olhando feio para Fletcher com a testa franzida.
— Vamos ter de levá-los — disse Sir Caulder, menos animado que seu jovem lorde com a perspectiva de treinar um grupo de elfos.
— Ah, sim, com certeza terão — avisou Murray, irritado pela falta de decepção da parte de Fletcher. — Agora me deem licença; eles estão sob sua responsabilidade.
Fletcher hesitou, olhando os trinta rostos estranhos que o fitavam. Sir Caulder lhe percebeu a expressão e deu um passo à frente, encolhendo os ombros.
— Certo, seus vagabundos, animem-se, vocês estão no exército agora! Em formação, em formação! Três filas, agora mesmo!
Sua voz estalou feito um chicote no pátio, forçando os recrutas a se apressarem em uma improvisada fila de desfile.
— Vamos, não temos o dia todo! Você aí, endireite esse corpo: você é um soldado, não um cotovelo.
Fletcher não conteve o sorriso enquanto o velho veterano organizava o grupo em algo que se assemelhasse à formação de ordem-unida.
— Agora, pé esquerdo primeiro, olhos à frente. Marcha rápida!
A coluna era uma confusão, fora de ritmo, com as pessoas muito perto umas das outras, mas os recrutas, de um jeito ou de outro, logo saíram para a rua. Porém, antes que eles pudessem começar a tarefa de manobrá-los na direção da taverna, Athol apareceu correndo, com o rosto vermelho e inchado.
Por um momento, o coração de Fletcher parou de bater ao ver o anão agitado, a mente imaginando logo alguma terrível emergência, mas Athol sorriu como quem se desculpa enquanto dobrava o corpo em dois pare recuperar o fôlego.
— Quem bom que ainda estão aqui — ofegou, apontando para a rua abaixo. — Não vão para a taverna. Precisamos equipar seus homens.
Então ele viu os elfos.
— Hã... e também suas mulheres.
— Espere aí — bradou Sir Caulder, obrigando os recrutas a parar a marcha.
Athol respirou fundo mais algumas vezes, depois aprumou o corpo e apontou para uma loja mais à frente. Fletcher viu a flâmula com a espada e o escudo agitando-se acima e o brilho de armas na janela.
— Me sigam — chamou Athol, indo na frente.
— Virem à esquerda... marchem! — bradou Sir Caulder, chutando um dos homens para que entrasse na posição correta quando ele se virou para o outro lado.
Em frente à loja, os recrutas foram ordenados a ficar em estado de alerta, e Sir Caulder instruiu Kobe e os outros ex-escravos a ficar de olho nos recrutas condenados, para evitar qualquer deserção enquanto entravam ali.
— Quando estivermos em Raleighshire, a quilômetros de distância da cidade mais próxima, não teremos problemas com isso, mas, por enquanto, é melhor ficar de olho neles — murmurou Sir Caulder, entrando atrás de Athol.
O ferreiro que havia em Fletcher ficou impressionado com a quantidade de armas organizadas nas prateleiras. Cada uma estava disposta sobre um estojo de veludo, e a luz que entrava pelas janelas altas tinha sido inteligentemente disposta a fim de incidir sobre o metal cintilante.
Acima e à esquerda, havia todo tipo de espada imaginável, de cimitarras de lâmina larga a claymores, espadas com o mesmo comprimento de um homem. Embaixo delas estavam os machados, que eram mantidos a uma altura baixa para melhor conveniência dos clientes anões cuja preferência por esse tipo de arma era bastante conhecida.
À direita, ficavam guardadas as armas de fogo em armários com portas de vidro, pois seu valor era muito superior ao das lâminas. Pistolas entalhadas com prata e ouro eram as mais populares da categoria, projetadas para oficiais abastados a quem era permitido carregar armas adicionais.
— Vocês não vão querer nenhuma dessas — disse Athol, percebendo a expressão no rosto de Fletcher. — São bonitas demais para seu bando; pela cara dos recrutas, provavelmente as venderiam na primeira oportunidade. Venham, me sigam até o estoque.
Athol os levou por uma porta atrás do balcão, que ficava nos fundos da loja, até outra sala. Esta era bem menos glamorosa, mas o número de armas era impressionante — centenas de lâminas, armas de fogo e armaduras estavam empilhadas, como gravetos, nas prateleiras e em estantes nas paredes. Estranhamente, havia fardos de tecido ao lado das mesmas e manequins intercalados entre o arsenal. Athol acendeu uma lamparina a levantou bem alto, lançando sombras bruxuleantes pela sala.
— Dividimos o estoque com um alfaiate — explicou ele, enquanto Fletcher examinava um dos modelos de madeira. — Falando nisso, Briss já escolheu seus uniformes; a coitada passou metade da noite finalizando o protótipo. Mas, por enquanto, vamos começar armando seus homens, que tal?
— Posso escolher qualquer coisa? — perguntou Fletcher, resistindo ao impulso de perguntar mais sobre os novos uniformes de Briss.
— Claro. — Athol sorriu. — Queremos que a nova colônia seja bem protegida; é de nosso interesse.
Fletcher resistiu à tentação de abraçar o anão moreno e, em vez disso, virou-se para Sir Caulder.
— O que você acha? — perguntou Fletcher.
Sir Caulder fez uma pausa e avaliou a questão.
— O soldado comum geralmente recebe um mosquete com uma baioneta na ponta — refletiu ele, apanhando uma espada e sentindo seu peso para verificar se era equilibrado. — Pessoalmente, sempre detestei baionetas. Não passam de uma lâmina para perfurar: não têm versatilidade, não têm elegância. São baratas e fáceis de afiar, e é por isso que são usadas.
— Nesse ponto ele foi ponta firme — concordou Athol, apontando para um barril cheio de armas simples. — Se me permitem o trocadilho. Elas são o último recurso, e metade do tempo o mosquete fica estragado, principalmente quando você o usa para se defender de um porrete.
Athol fez uma pausa, correndo os olhos pela variedade de lâminas.
— Acho que a questão é, que tipo de combatentes você quer que seus soldados sejam? — perguntou ele.
— Mais do que gente que saiba carregar uma arma e apertar o gatilho — respondeu Fletcher. — Quero soldados que saibam se defender de cavaleiros de casuares e passar uma rasteira em um atacante orc. Soldados que saibam se dar bem em um combate, seja contra macaná, lança ou porrete, empunhados por orcs ou goblins.
Athol respirou fundo e sorriu.
— Só isso? — perguntou ele.
— Vamos querer mosquetes também. Nada muito chique, só armas robustas e confiáveis que não enferrujem com a primeira chuvinha que cair.
— Agora sim — disse Athol, dando alguns passos até uma prateleira de armas e tirando uma delas do gancho na parede.
Parecia bastante com um mosquete comum aos olhos de Fletcher, com um cano único e comprido, coronha de madeira, gatilho e pederneira.
— Estes são mais leves que o mosquete comum; usamos madeira de bordo em vez da de nogueira. São tão robustos quanto, porém mais resistentes à água e menos densos. Tanto o aço quanto a madeira foram tratados com óleo de linhaça para impedir oxidação e apodrecimento.
— Vamos levá-los. — Fletcher sorriu, apanhando a arma das mãos de Athol e sentindo seu peso. Pesava pouco mais que a própria espada.
— Agora, quanto a seu problema do combate corpo a corpo — disse Athol, recolocando o mosquete no lugar e correndo as mãos pelas armas. — Se precisar bloquear um ataque de cavalaria, ou um ataque de cavaleiros de casuares, como pode ser o caso, vão precisar de armas de fuste, não é mesmo, Sir Caulder?
— Isso mesmo — concordou Sir Caulder. — Algo que se pode usar a partir do chão e deixar que o cavaleiro venha a seu encontro. Além do mais, o comprimento extra ajuda no caso dos orcs; eles têm duas vezes o alcance de um homem.
Eles seguiram Athol até um lugar onde uma mescla de lanças, armas de fuste e outras armas longas parecidas estavam organizadas verticalmente por altura em uma estante comprida de madeira, das mais altas às mais baixas.
— Vocês vão precisar de um fuste com ponta de lança para perfurar e cortar — disse Athol. — E de um machado para desmembrar, quando eles se aproximarem demais e vocês tiverem de deslizar a mão para cima no cabo. Então imagino que a melhor arma para vocês seja a alabarda.
Athol apanhou uma alabarda da estante e a ergueu à luz fraca da lamparina óleo. Era uma arma amedrontadora, e Fletcher mal podia acreditar que era possível existir uma mistura de tantos implementos. Uma ponta afiada de lança se estendia da extremidade, e embaixo desta vinha uma lâmina ampla e curva de machado. Do outro lado do machado, ele viu o cubo quadrado de um martelo, com uma estranha ponta de lança em gancho emergindo do centro.
Então Fletcher reconheceu aquela ponta estranha: era a lâmina conhecida como bico de corvo, projetada para perfurar e prender os cavaleiros, puxando-os para fora de suas montarias, ou os combatentes a pé, fazendo-os caírem no chão. O martelo acrescentava peso extra para dar mais impulso na hora de brandir o machado e permitir que o bico de corvo tivesse força suficiente para perfurar uma armadura ou o crânio grosso de um orc.
Athol apontou para uma armação de metal ao longo da terça parte superior da alabarda, que cobria a madeira em uma ponta de metal.
— Vocês não vão encontrar arma mais versátil que essa — assegurou ele. — Vejam, colocamos aqui no cabo uma lanceta de aço para que seja possível bloquear um golpe com o punho do fuste sem despedaçar a madeira.
Fletcher sorriu e correu os dedos pela lâmina do machado, depois estremeceu ao sentir o quanto era afiada.
— Tem até uma lança na outra ponta para ajudar a pregar a alabarda no chão ou para dar um golpe de costas, se for o caso — continuou Athol, apontando para uma lança curta de metal no punho da arma. — Também tem uma trava de segurança para impedir que a lâmina deslize e corte fora seus dedos.
Ele deu um tapinha em um disquinho de metal perto da ponta do fuste, logo abaixo da lanceta, que se parecia com um cabo.
— Certo, não precisa adoçar demais senão a coisa desanda — disse Sir Caulder, dando um tapinha nas costas de Athol. — Fletcher, eu acho que é uma arma ótima. Se quiser levá-la, posso treinar os rapazes a usá-la como se deve. Sou tão bom com a lança quanto sou com a espada.
— Vamos levar essas também — disse Fletcher, impressionado por terem encontrado uma arma tão ideal com aquela rapidez.
— Ótimo! — exclamou Athol, com uma pontada de alívio. — Achei que ficaríamos o dia inteiro aqui se você não aceitasse. Agora, a grande revelação. Pena que Briss não está aqui para mostrar a vocês, mas ela está ocupada demais cuidando de todos os hóspedes.
Ele começou a andar para o meio da sala.
Fletcher mal conseguia resistir a não sair correndo na frente de Athol, mas não precisou esperar demais: o anão parou a apenas doze passos. Ergueu a lamparina e revelou um manequim, posicionado como se estivesse ali para chamar a atenção, vestido com um uniforme novinho em folha.
— Que lindo — disse Fletcher, sem voz.
O uniforme era feito de tecido verde-escuro, com botões pretos e botas de couro, também pretas, que iam até o joelho. A jaqueta era de abotoamento duplo e batia acima do joelho. As calças retas ficavam enfiadas nos coturnos.
O trabalho de Athol fornecia as partes mais bonitas do conjunto. O manequim usava duas armaduras de metal nos antebraços, para se defender de golpes que poderiam estilhaçar ou desmembrar, e ao redor do pescoço havia um manto de cota, que se usava para proteger o pescoço, os ombros e a parte superior do peito sem restringir os movimentos.
— Não queríamos que ficasse pesado demais, com muita armadura — disse Athol, meio envergonhado, arrastando os pés. — Então tivemos de chegar a um meio-termo. O uniforme foi feito com a mesma lã oleada que Briss usou nos uniformes de vocês para a missão do baile, portanto é quente, mas ao mesmo tempo respirável e impermeável.
— Caramba! — exclamou Sir Caulder, acariciando o tecido. — Você encontrou ouro, meu rapaz.
— Sim — sorriu Fletcher. — Com toda certeza.

4 comentários:

  1. Achei que seria vermelho por causa do Ignácio e o lance com o fogo...
    As. Renata

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  2. Pensei q fosse da cor da família dele e que tivesse o desenho de ignacio bordado ou algo parecido.

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  3. achei que seria algo como a cor e a estampa da atena ja que esta na familia a tempos,

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  4. Ninguém acertou kkk
    Vamos orar pra que Fletcher lembre daquela abertura no castelo dele onde os Orcs entraram e mataram todo mundo, não se pode errar duas vezes

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Boa leitura, E SEM SPOILER!