13 de março de 2018

Capítulo 35

Ela ficou ali, parada em silêncio, com olhos inexpressivos. Sylva abria e fechava a boca, como um peixinho dourado, enquanto Fletcher só conseguia gaguejar. Apesar do tamanho de Mãe, ele não se sentia ameaçado por sua presença; ela era frágil como o cajado ressequido que tinha em mãos.
— Quem é você? — indagou Cress, quase educadamente. Ela parecia respeitosa à idade da orquisa, em vez de assustada, mesmo enquanto Jeffrey rastejava para trás da anã e tentava, sem sucesso, se esconder atrás dos ombros dela.
A venerável orquisa sorriu, revelando uma fileira de dentes pontiagudos.
— Vocês podem me chamar de Mãe — grasnou, chegando ainda mais perto. — Não conheci outro nome pelo último meio século. Nem tampouco vi a luz do dia com meus próprios olhos.
A mão de Sylva foi até as costas, como se a falx ainda estivesse atada ao ombro. Mãe percebeu o movimento, mas não fez nada além de estalar a língua em desaprovação.
— Com seus próprios olhos? — perguntou Fletcher. Teve as suspeitas confirmadas quando um Caruncho verde-amarronzado saiu zumbindo dos cabelos dela, pousou no cajado e os observou com seus olhinhos. O demônio era menor que a maioria dos Carunchos, quase do tamanho de um besouro normal. Foi então que Fletcher notou como os olhos de Mãe eram leitosos, nublados por catarata. A orquisa era cega.
— Meus Carunchos, Apófis e Rá, agem como meus olhos e ouvidos. Não há limites para o que posso ver. Tenho mais olhos agora do que quando eu nasci.
— Uma xamã, então — deduziu Sylva, após finalmente reencontrar a própria voz.
— Sou uma conjuradora, assim como você — respondeu a orquisa, simplesmente.
O demônio dela zumbiu pelo ar, pairando diante dos rostos da equipe conforme Mãe os examinava. Claramente, ela possuía a mesma habilidade de Lovett de visualizar com a mente em vez de com uma pedra.
— Não se incomodem com Apófis. Ele vem seguindo vocês desde que soube da sua chegada. Só mais um inseto nas árvores. Vocês deveriam ser mais vigilantes. — Ela riu consigo mesma, um som gutural.
— Eu te disse — resmungou Sylva, cutucando Fletcher com o cotovelo.
Fletcher a ignorou. As paredes escuras traziam de volta memórias de seu encarceramento, e o coração dele batia acelerado. Já estava farto daquele lugar.
— Onde estamos? — rosnou Fletcher. — Por que está brincando com a gente assim?
A orquisa exibiu os dentes, e o rapaz levou um momento para entender que ela sorria.
— Venham comigo — sibilou ela, voltando às sombras.
Mãe lançou fogos-fátuos para cima conforme avançava, arrastando os pés, fazendo que se esquivassem pelo labirinto de formações rochosas, lançando uma miríade de sombras que se deslocavam pelo chão.
Com relutância, os outros seguiram enquanto uma vanguarda de gremlins montados em maras mantinha a vigilância. Só Azul ficou por perto, com a cabeça balançando logo acima da altura da cintura de Fletcher enquanto sua montaria saltitava ao lado da equipe.
O espaço recém-iluminado era fundo e cavernoso, o teto dando lugar a uma área aberta. Os passos ecoavam, misturando-se ao ruído do movimento da lava e da água que pingava das estalactites. Havia sinais de habitação espalhados nos arredores. Esteiras de junco trançado cobriam o chão. Potes cheios de pós, tigelas de mistura, pilões e almofarizes estavam empilhados de qualquer jeito num canto, e um caldeirão fervia seu conteúdo de um estranho tom turquesa sobre as brasas de um fogo baixo. Ela era claramente um tipo de boticária, responsável por curar os ferimentos e doenças dos gremlins.
— Rápido; não temos muito tempo — avisou Mãe, da penumbra adiante. — Vocês demoraram mais tempo que o esperado para acordar.
— Mas para que a pressa? — resmungou Jeffrey, tropeçando num osso descartado de animal.
Mãe parou, e os fogos-fátuos dispararam adiante para flutuar acima dela, revelando o fundo da caverna. Era uma visão espantosa. Cristais brutos emergiam da rocha, como sincelos multicoloridos. Alguns tinham forma retangular, projetando-se como a proa de um navio. Outros pareciam se abrir como flores, pétalas afiadas que cintilavam num vermelho-rubi àquela luz. Mãe passou por entre eles sem hesitação, manobrando pelas protuberâncias só com a memória.
Mas nem o caleidoscópio de cores e formas era capaz de desviar os olhos de Fletcher da gema encrustada na parede bem no fim da caverna. Tinha forma oval e fora polida até formar uma curva delicada; não muito diferente do Oculus em Vocans, mas três vezes maior. Tinha no centro a imagem clara e definida de uma folha tremulando à brisa. Era uma imensa pedra de visão.
— É aqui que ensino os filhotinhos de gremlin sobre a selva, pois só os forrageiros, pescadores e caçadores têm permissão de sair do Viveiro — explicou Mãe, gesticulando cegamente em direção à pedra. — E, agora, eu lhes ensinarei também. Por favor, sentem-se.
Havia uma parte lisa na rocha, desgastada por gerações de traseiros de gremlins. Fletcher se perguntou quão velha seria aquela orquisa.
Eles se sentaram. Ignácio e Tosk permaneceram em guarda às costas do grupo, ficando de olho nos guerreiros gremlins. Ignácio estava particularmente agitado, andando de um lado ao outro e sibilando.
A imagem começou a vibrar quando o Caruncho no cristal, Rá, alçou voo. A folha se afastou, revelando o mundo ao redor com claridade espantosa. Naquela parte da selva, a vegetação parecia ser mais densa de alguma forma, com árvores mais velhas e mais retorcidas, e o solo recoberto por sombras mais profundas.
— Há muito tempo, eu era uma orquisa como qualquer outra. Vim de uma pequena tribo muito ao sul. Lá nem sabíamos da existência dos humanos.
A imagem virou de novo. Uma aldeia jazia além, diferente de qualquer uma que Fletcher já tivesse visto. Cabanas feitas de pau a pique espalhadas ao redor de uma clareira. Os vãos em meio à copa das árvores deixavam a aldeia iluminada por um pilar de luz do alto, maculada apenas pela fumaça de uma fogueira no centro. Vultos se reuniam ao redor das chamas, alguns balançando para a frente e para trás numa dança estranha, e outros sentados de pernas cruzadas num semicírculo.
Orcs. Não mais que vinte deles... diferentes,  porém, do que Fletcher esperava. Orquisas se penteavam com pentes de casca de tartaruga enquanto outras amamentavam bebês em faixas de tecido junto ao peito. Anciãos grisalhos baforavam longos cachimbos, revezando-se para colocar tabaco e ervas nos fornilhos. A maioria era banguela, muitos com as presas ausentes ou partidas, deixando apenas tocos. Havia apenas dois orcs homens dentre tais veneráveis idosos.
Deixavam carne embrulhada em folhas de banana para cozinhar no vapor junto à fogueira. Aqueles que ainda tinham dentes mastigavam para os que não tinham, cuspindo em tigelas de casca de coco para que os anciãos sorvessem com alegria. Longe de sentir nojo, Fletcher se flagrou sorrindo para o gesto. Eles cuidavam uns dos outros; uma característica que nunca esperara dos orcs. Parecia uma existência pacífica. Idílica. Inocente.
Jovens orcs de mãos dadas giravam ao redor do fogo, abrindo e fechando as bocas em uníssono; só poderiam estar cantando! Fletcher desejou poder ouvi-los, de tão hipnotizantes que eram o bater de pés e o balançar de ombros.
— Eu vivia numa aldeia bem como esta — sussurrou Mãe. — Algumas famílias, nada mais. Outrora fomos todos desse jeito, milhares de anos atrás. Antes da chegada deles.
Havia algo errado. Um dos velhos orcs vira alguma coisa. Ele se levantou e gritou, agitando os braços num frenesi. Os mais jovens se espalharam, enquanto as orquisas se encolheram, cobrindo as cabeças com as mãos.
Mãe virou a cabeça de repente, e Rá seguiu o movimento. Rinocerontes trovejaram aldeia adentro, os grossos chifres duplos rasgando passagem pela mata. Orcs enormes cavalgavam as feras, girando redes com pesos acima das cabeças. Outros lançavam laços, puxando os pés dos jovens e os arrastando, histéricos, em seu rastro.
Um velho saiu cambaleante da cabana, agarrando uma simples clava nas mãos. Antes que pudesse usá-la, uma lança lhe trespassou o peito, jogada quase casualmente por um cavaleiro próximo.
Para o horror de Fletcher, o resto dos aldeões estava emaranhado nas redes ou sendo conduzido de volta à fogueira, incluindo os mais jovens que tinham alcançado a beira da selva. Não levou mais que um minuto, tão bem orquestrado fora o ataque. Os cavaleiros tinham muita prática.
— Esta família é o que nós éramos. Esses saqueadores são o que nos tornamos — afirmou Mãe, com um rosnado gutural.
Os meninos orcs foram separados dos outros, deixando os idosos e as orquisas chorando e uivando junto ao fogo. Grandes varas foram tiradas dos lombos dos rinocerontes, com alças de corda distribuídas em intervalos pelo seu comprimento. Estas foram apertadas nos pescoços dos jovem orcs. Um era tão novo que teve que ficar na ponta dos pés para se manter na fila com os outros. As presas eram meros toquinhos, mas ele foi forçado à posição do mesmo jeito. As varas estavam atadas aos flancos dos rinocerontes. Então, quase sem dirigir a palavra aos sobreviventes, os cavaleiros fizeram os prisioneiros marchar, desaparecendo na penumbra na selva.
— Por quê? — indagou Sylva, simplesmente. Ela não conseguia esconder o tremor de tristeza na voz.
— Soldados para os exércitos. Eles levam os meninos bem novos. Espancam-nos até que suas mentes se partam, enchem-nos de ódio, ensinam-nos a matar. É assim que agem. — A fala de Mãe ficou engrolada, a boca cheia de saliva. Ela engoliu e continuou: — Eles começam com os gremlins. Fazem com que os cacem por esporte. Matam quase todos, escravizam e cruzam os outros. Então forçam os meninos a lutar uns contra os outros, para filtrar os mais fracos. No fim, só restam aqueles com sede de massacre e dominância. As consciências mortas, a inocência perdida.
Mãe se calou, as unhas negras das mãos retorcidas se cravando no cajado. Apófis zumbiu entristecido sobre o rosto da orquisa, enxugando uma lágrima com as patinhas da frente. Manchou o branco do crânio abaixo, uma fratura negra no osso pintado.
— Então... Como você se encaixa nisso tudo? — indagou Fletcher, torcendo as mãos sem jeito.
— Quando atacaram nossa aldeia, eu os segui. Não... Eu o segui. O menino que eu amava.
Ela falava em rajadas curtas, como se estivesse prestes a se debulhar em lágrimas. Piscou rapidamente os olhos e respirou fundo. Quando falou novamente, não havia tristeza em sua voz, mas raiva.
— Trabalhei como serva de um xamã na esperança de que ele me levasse aos guerreiros, um dia. Foi lá que eu aprendi a conjurar em segredo, roubando um dos pergaminhos do meu mestre. Esperava que um Caruncho fosse me ajudar a encontrar meu amor.
Ela acariciou a carapaça de Apófis e abriu um sorriso dentuço.
— Quando eu o encontrei, um ano depois, o menino que eu conhecera não existia mais. Só restava um bruto cruel. Eu o envergonhei, entrando no acampamento e tentando salvá-lo diante de seus colegas guerreiros. Ele me espancou até me deixar à beira da morte e me abandonou lá. Os gremlins me acharam e me trouxeram para cá.
Tudo começava a fazer sentido. A selvageria descontrolada dos orcs, o massacre impiedoso. Nem o diário de Baker havia mencionado essa estranha escravização do próprio povo.
Fletcher se perguntou o que ela estaria fazendo, escondida nas entranhas da terra. E quem eram aqueles gremlins, que viviam separados dos orcs? Ela respondeu antes que ele pudesse perguntar:
— Estes são gremlins selvagens, que nunca foram escravizados, mas ainda vivem com medo dos orcs. Há outros viveiros, espalhados pela selva, mas este é o maior de todos. Minha esperança é libertar todos os gremlins de seus mestres e um dia acabar com o círculo vicioso que o meu povo insiste em seguir.
— Eu ainda não entendo — murmurou Cress.
— O que disse? — indagou Mãe, com ouvidos afiados.
— Qual é o sentido disso tudo? Os soldados, os exércitos? Por que vocês querem destruir Hominum? — Cress deixou escapar.
— Eu não quero destruir nada. Eles seguem uma profecia, escrita nas paredes da pirâmide ancestral. Que um orc branco irá liderá-los na conquista de todo o mundo conhecido. Que um deles aparece a cada mil anos. Não sei mais nada. Só os xamãs sabem o que está escrito, pois só eles podem entrar na pirâmide em si.
— E também os goblins — acrescentou Sylva, erguendo as sobrancelhas. — Eles parecem ter permissão de entrar também, já que residem junto aos seus ovos na rede de cavernas sob a pirâmide.
— Os goblins são algo de que sei muito pouco — suspirou Mãe, enquanto erguia a ponta do dedo para que Apófis pousasse. — Na verdade, não ouso mandar meus Carunchos para espiar o interior da pirâmide, pois dizem que está protegida por demônios. Eles podem reconhecer meus Carunchos pelo que são.
— Bem, vamos descobrir quando chegarmos lá — afirmou Jeffrey, que então fez uma pausa e olhou para o próprio colo. — Se chegarmos lá.
— Ouvi sobre sua missão por meio de Apófis e vou ajudá-los. A mulher nobre mostrou grande bondade para com meu amigo aqui, assim como um de vocês. — Mãe apontou para Azul, que curvou a cabeça solenemente. — Este gremlin, por sua vez, me ensinou os rudimentos de sua língua, e o resto eu aprendi através da observação dos meus Carunchos nas tropas humanas das linhas de frente. Esse conhecimento salvou as vidas de muitos gremlins, e por isso eu sou grata.
— E os goblins? — perguntou Sylva. — E quanto a eles?
— Uma abominação a ser varrida da face de nosso mundo — rosnou Mãe.
Ela tossiu de repente, uma tosse seca e sibilante que a fez se sentar, as costas curvadas e encolhidas. A orquisa era menor do que tinha parecido inicialmente, encolhida e murcha com a idade. A pintura escondia as fundas rugas do rosto, mas, agora que ela estava na mesma altura que Fletcher, parecia frágil, sem substância.
— Estou cansada — disse Mãe, a voz pouco mais que um suspiro. — Não se esqueçam do que eu lhes contei... não somos todos monstros. Vão, com minha bênção. Meus gremlins os guiarão a partir daqui. Restam poucas horas.

3 comentários:

  1. Por que os besouros têm nomes da mitologia egípcia? Kkkk

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    Respostas
    1. Não sei... Mais eu amei xD

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    2. Besouros...escaravelhos. Pra mim faz sentido. Rá e Apófis, nome grego de Apep...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!