2 de março de 2018

Capítulo 35

O grupo fitou a pedra negra aterrorizado, prendendo a respiração. Lovett agarrava a tira de couro, os nós dos dedos brancos de tanta força, enquanto o pentagrama cuspia fagulhas violeta, chamuscando e fumegando no couro ao seu redor com o fedor de cabelos queimados.
O Oculus piscou e se acendeu novamente. A imagem estava nebulosa e fora de foco, mas girou lentamente enquanto Valens olhava para as copas iridescentes das árvores acima. O demoninho estava vivo!
— Era isso que eu temia — murmurou Lovett. — É nesta época do ano que os Picanços migram através dos nossos campos de caça. Nos anos anteriores, eu teria esperado pelo menos mais um mês antes de começar as lições no éter, mas tive de adiantar tudo graças a essa história de vocês, calouros, participarem do torneio. Maldito seja Cipião e sua pressa de botar vocês no campo de batalha! No tempo dele, eram cinco anos de estudo antes da formatura. Ele deveria saber o que está fazendo!
A professora praguejou longa e intensamente, uma tirada mais profana que uma conversa de marinheiros vesanianos. As orelhas de Fletcher ficaram vermelhas com a explosão de palavrões, mas ele sorriu consigo mesmo. Lovett sabia xingar como ninguém!
O menino tentou visualizar um Picanço com base no que tinha estudado, mas só conseguia lembrar que se tratava de criaturas perigosas, com aspecto de aves, que visitavam a parte de Hominum do éter.
— O Picanço vai voltar, mas Valens machucou uma das asas. Ele vai ter que disparar até o portal. Não existe a menor possibilidade de ele enfrentar um Picanço; o bicho está três classes acima dele. Talvez cinco, se for a matriarca da revoada.
A última frase não dizia nada a Fletcher, mas ele se perguntou a que classe Ignácio pertencia. Quando o Caruncho voltou a zumbir e se ergueu no ar, desajeitado, os pensamentos do rapaz voltaram ao presente.
O pobre demônio voava lentamente, atrasado pela asa ferida. Ele fazia um rasante sobre o deserto vazio, fustigado pelos ventos baixos que lançavam poeira em sua visão. Conforme os minutos se passavam com lentidão excruciante, Fletcher percebeu algo à frente. Era uma sombra, mas o rapaz não sabia bem do quê.
— Tem alguma coisa acima de nós — afirmou ele, apontando a forma negra na pedra.
— Eu sei. Esteve conosco desde a floresta. Picanços gostam de machucar a vítima com um ataque surpresa, depois segui-la do alto até que ela desabe por conta dos ferimentos. É uma técnica eficaz, mas será uma vantagem para nós hoje. Demônios selvagens têm um medo quase instintivo de portais, então é raro que um deles atravesse, a não ser que o arrastemos. Se pudermos fazer Valens vir pelo portal, então o Picanço o deixará em paz. Em seguida eu poderei infundi-lo, e aí ele vai sarar normalmente. Só espero que consiga voltar — respondeu Lovett, empurrando uma mecha de cabelo suado para longe dos olhos.
Finalmente, o portal apareceu no horizonte. Já não era sem tempo, pois o voo de Valens estava cada vez mais instável, e a imagem no Oculus escurecia com frequência preocupante.
— Só mais um pouco — sibilou Lovett, com a testa franzida de concentração.
Mas o Caruncho tinha vindo até onde podia. Valens desabou ao chão a poucos metros do portal, aterrissando numa baforada de poeira. Ele ficou caído, imóvel, e o único sinal de que ainda vivia era o brilho da pedra, exibindo as nuvens de poeira que giravam com o vento.
— Rápido, me tragam o equipamento etéreo, agora! Está no último armário da parede oposta. Não sei quanto tempo temos!
Serafim foi o primeiro a agir, disparando até o fundo da câmara e puxando para fora do armário um enorme volume.
— Eu preciso de ajuda, é pesado! — gritou ele. Otelo se adiantou para assisti-lo e juntos os dois carregaram o aparato até Lovett.
Fletcher continuou fitando a gema. A sombra tinha dado outro rasante.
— Não dá para eu mandar Ignácio buscá-lo? — perguntou Fletcher.
— Não, nossos manas se fundiriam se o seu demônio entrasse pelo meu portal. A mistura de manas é algo difícil de se dominar. Se você fracassar na primeira tentativa, o portal se fechará e eu perderei Valens de vez.
Lovett estava lutando para entrar no que parecia ser um traje inteiriço. Era feito de couro pesado com botas de biqueira de aço na metade de baixo e um anel metálico em volta do pescoço no topo.
Depois de encaixar os pés, Lovett prendeu a longa tira de couro que energizava o pentagrama a outra que se estendia nas costas do traje, esta com vários metros de comprimento. Havia uma mangueira longa e vazia conectada a um capacete no chão, enrolada em várias voltas.
— Estenda meu tubo de ar, Serafim. Preciso de uma via aérea livre — comandou Lovett, erguendo o capacete, que tinha um anel de metal na base.
Assim que Serafim terminou de desenrolar a mangueira, a capitã encaixou o capacete sobre o pescoço.
— Precisa estar hermeticamente fechado — gritou ela com voz abafada. — O ar do éter é venenoso para nós. Se o meu traje for furado, puxem-me de volta imediatamente usando o cabo, quer eu tenha recolhido Valens ou não!
— É só um Caruncho. Por que arriscar sua vida por algo que você poderia substituir com outro igual amanhã? — indagou Tarquin, com a voz carregada de ceticismo.
Lovett se virou para ele, o rosto semivisível. O capacete era feito de cobre, com um painel redondo de vidro grosso na frente. Havia uma grade na viseira para impedir que se estilhaçasse.
— Um demônio não é uma coisa que se joga fora como uma camisa velha — vociferou ela. — Quando você tiver batalhado com o seu, lado a lado, talvez você entenda.
Com essas palavras de despedida, a capitã entrou no portal.
Eles viram Lovett emergir na imagem da gema, um vulto marrom nebuloso surgindo na visão de Valens. Era tão estranho ver a professora sair da penumbra azulada do salão de evocação para o céu calcinado do éter em meros segundos. Porém, lá estava ela, pisoteando a poeira na direção do Caruncho com passos lentos e cuidadosos.
Logo a mão enluvada alcançou e ergueu Valens, levando-o até diante do capacete. Os alunos viram os olhos cinzentos de Lovett pelo vidro, carregados com iguais quantidades de medo e preocupação, antes que ela se virasse e se arrastasse de volta na direção do portal.
— Por que ela se move tão devagar? — sussurrou Genevieve.
— Ela está vestindo um traje pesado num deserto calcinante enquanto mantém aberto um portal para outro mundo e controla um demônio moribundo. É um milagre que ela consiga ficar de pé — respondeu Tarquin num tom soberbo. — Se o portal se fechar, ela ficará presa até o veneno a matar depois que a sua mangueira de ar for cortada ao meio. Mulher insensata.
— Ela vai conseguir — murmurou Fletcher, torcendo intensamente enquanto ela dava um passo cambaleante depois do outro.
Foi Otelo quem viu primeiro, um pequeno ponto negro no céu, crescendo a cada segundo. Ele apontou com curiosidade e depois com olhos arregalados de terror, enquanto o demônio emplumado crescia ao se aproximar. Lovett pareceu notá-lo também, pois apressou o passo; o pentagrama crepitou perigosamente conforme a concentração dela se prejudicava.
O Picanço era uma ave gigante com longas penas negras. A envergadura das asas era tão larga quanto a altura de Fletcher, e as penas nas extremidades tinham pontas alvejadas de branco. Seu bico letal tinha uma curvatura cruel, com uma barbela em vermelho brilhante na garganta e uma crista vermelha no alto da cabeça, como um galo. Ele lembrava a Fletcher um enorme e feio abutre.
O pássaro demônio mergulhou contra Lovett com as garras laranja brilhantes estendidas. A capitã se abaixou, mas tarde demais; as garras riscaram o capacete com precisão brutal. As unhas se prenderam na grade do aparato, arrastando-a para trás e derrubando-a de costas. O bico curvado atacou repetidamente, só conseguindo fazer mossas no capacete de cobre.
— Puxem-na de volta! — gritou Fletcher. — Ela está com Valens nas mãos!
O menino agarrou o cabo e o puxou, esticando o couro grosso até que rangesse sob a tensão. Os demais logo seguiram seu exemplo; até mesmo Isadora delicadamente segurou e fez força com os outros. Eles progrediram rápido, extraindo vários metros de couro pelo portal crepitante. Fletcher olhou para trás, para a pedra de visualização, mas só conseguiu captar flashes de penas contra o céu de bronze enquanto o demônio continuava a bicar violentamente.
A tensão no couro diminui quando Lovett conseguiu cambalear e ficar de pé, então ela caiu pelo portal num emaranhado de braços e pernas. No entanto, logo que o grupo começou a comemorar, suas vozes ficaram entaladas ao perceberem: a capitã não voltara sozinha.
O Picanço emitiu um crocitar áspero, depois abriu bem as asas e pisou no chão, ficando quase tão alto quanto um homem. Ele estreitou os ferozes olhos amarelos na luz fraca e então avançou num estranho saltitar, como se estivesse fazendo uma brincadeira macabra de amarelinha. Lovett jazia imóvel no chão; alguma coisa estava terrivelmente errada.
— Para trás! — gritou Tarquin, colocando-se no caminho do Picanço.
Fletcher podia até não gostar do rapaz, mas ficou impressionado. Ele era corajoso.
O jovem nobre se ajoelhou rapidamente e pôs as mãos no chão, energizando o pentagrama mais próximo. Em instantes, um demônio se formou acima dele e investiu contra o Picanço sem hesitação.
O demônio de Tarquin era uma Hidra, com três cabeças reptilianas em pescoços longos e flexíveis, como um trio de cobras conectado ao corpo de um lagarto monitor. As cabeças oscilavam e tentavam abocanhar o Picanço, dardejando para um lado e para o outro conforme o demônio invasor era conduzido de volta ao portal. Eles estavam bem equiparados, já que a criatura de Tarquin era grande o bastante para ser montada, mesmo que boa parte de sua altura fosse formada pelos pescoços. As pernas da Hidra eram curtas, mas cada pata estava equipada com grossas garras negras que se cravavam no couro a cada passo.
— Nada consegue resistir contra Trébio! — bradou Tarquin quando o Picanço grasnou, confuso com o ataque em três frentes.
Fletcher ignorou a luta e contornou os dois monstros até Lovett. Ela deveria estar consciente, pois o portal ainda estava aberto, mas seu corpo estava imóvel como um cadáver. Valens se remexia na mão aberta dela, zumbindo enquanto o Picanço combatia o demônio de Tarquin. O pequeno Caruncho queria ajudar, mas não era forte o bastante.
— Vou buscar um professor! — afirmou Genevieve, saindo pela porta.
Fletcher se ajoelhou ao lado de Lovett e a arrastou para longe do perigo, depois tirou seu capacete com cuidado. Os olhos dele se arregalaram ao ver o que havia dentro. A boca da professora espumava e os olhos estavam tão revirados que ele só conseguia ver branco. A cabeça da pobre mulher quicava dolorosamente no couro conforme seu corpo era assolado por convulsões. Fletcher não fazia ideia de como ela ainda mantinha o portal aberto.
— O veneno! — exclamou Fletcher horrorizado, tentando proteger a parte de trás da cabeça de Lovett com as mãos.
Seus olhos pousaram no capacete e viram uma rachadura profunda no vidro. As garras do Picanço provavelmente o tinham danificado no primeiro ataque.
Fletcher se virou furioso para a ave-demônio, notando que ela tinha parado a um ou dois metros do portal. Ao ficar tão próximo, o medo do portal pareceu sobrepujar o medo que sentia da Hidra. O Picanço deu um passo hesitante à frente e atacou a cabeça mais próxima do inimigo com uma bicada, tirando sangue da Hidra e um grito de espanto de Tarquin. Mas o nobre não precisava lutar sozinho.
— Ignácio! — gritou Fletcher, energizando o pentagrama mais próximo de si e conjurando seu demônio com uma explosão raivosa de mana.
A Salamandra se formou num mero instante, jogando-se ao combate com um guincho. Apesar do fato do Picanço ser muito maior que ele, Ignácio mordeu a perna da ave-demônio, estocando-a repetidamente com o esporão de cauda. O Picanço crocitou com dor e alarme, perdendo o equilíbrio e caindo para trás na direção do pentagrama. A Hidra aproveitou a oportunidade sem hesitação, avançando pesadamente e cravando todos os três conjuntos de presas no pescoço do Picanço. O impulso do ataque levou os demônios, numa confusão de garras e dentes agitados, à beira do portal, gritando e uivando como banshees.
— Agora, Ignácio! — berrou Fletcher, preocupado que os demônios caíssem pelo portal instável e fossem todos perdidos para sempre.
O diabrete rolou para longe do combate corpo a corpo e disparou uma rajada de chamas, calcinando o ar acima da Hidra e do Picanço. Essa foi a gota d’água. O Picanço fez um último ataque contra a Hidra com os gadanhos, então saltou de volta para o portal com um grasnido decepcionado, deixando as serpentes sibilando contra o ar. Momentos depois o portal se fechou, desparecendo no nada. Os fogos-fátuos logo fizeram o mesmo, dissipando-se em filamentos de luz azul, até que o salão caiu em absoluta escuridão. Lovett soltou um longo suspiro, então seu corpo relaxou. Fletcher ficou feliz ao notar que sua respiração se mantinha, mesmo que irregular.
Os novatos rugiram em triunfo, mas a alegria durou pouco, pois logo ouviram Lovett engasgar na escuridão. Enquanto Fletcher a colocava sentada e esfregava suas costas, a voz de Tarquin ecoou ao seu lado.
— Fletcher, seu idiota! Aquele Picanço ia ser meu próximo demônio!
Um fogo-fátuo trêmulo iluminou o aposento a partir da mão de Tarquin, que lhe apontou o dedo com raiva.
— Você está tão preocupado com nossa professora idiota. Não fique assim, eu vou lhe ensinar uma lição que você jamais esquecerá!

2 comentários:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!