22 de março de 2018

Capítulo 34

Eles pareciam mendigos. As roupas mal passavam de trapos, seus pertences vinham empurrados em carrinhos de mão caindo aos pedaços e trenós improvisados que chacoalhavam pelas ruas de paralelepípedos de Corcillum. Fletcher mal reconhecia os homens e as mulheres caídos de exaustão ao lado da taverna.
Então ele o viu. Berdon. A cabeça e os ombros se sobressaíam na multidão, bem como seus longos cabelos vermelhos e a barba emaranhada. Ele vinha carregando duas crianças nas costas, arrastando o maior dos carrinhos atrás de si, mas ainda conservava o porte altivo e orgulhoso.
Ele mal teve tempo de colocar as crianças no chão antes que os braços de Fletcher o envolvessem e o rapaz enterrasse o rosto em seu ombro. Sob a camisa, Fletcher conseguiu sentir as costelas do ferreiro. A viagem não tinha sido fácil para seu pai adotivo.
— Calma aí, filho — pediu Berdon, segurando o rosto de Fletcher em suas mãos grandes e sorrindo para ele. — Bom te ver.
— Eu pensei que eu é que tinha sofrido com as guerras — disse Fletcher, sorrindo por entre as lágrimas. — Mas parece que foi pior para você.
— Ah, não sei, não — disse Berdon, limpando os próprios olhos. — Observamos cada minuto dessa sua missão. Aqueles orcs e goblins fizeram os salteadores das estradas parecerem uns fracotes.
— Salteadores? — perguntou Fletcher, olhando para o grupo e subitamente se dando conta de que seus números estavam muito mais baixos do que ele se recordava. — Alguém se machucou?
— Não com Sir Caulder por perto. — Berdon deu uma piscadela, apontando por sobre o ombro com as sobrancelhas espessas.
Fletcher olhou naquela direção e viu o velho mal-humorado andando até eles, ainda magro como um ancinho, mas aparentemente inteiro. As crianças imitavam seu andar inclinado, e ele fingiu que lhes dava um golpe com o gancho, fazendo com que saíssem aos gritinhos em busca dos pais. Ele sorriu e deu um tapinha nas costas de Fletcher com a mão boa.
— Olá, rapaz; que bom ver que está inteiro. Mais que eu, se poderia dizer, da última vez que lutei contra eles, não é, garoto? — Ele bateu de leve na perna de pau com o gancho.
— Tenho certeza de que há alguns orcs por aí sem um braço ou uma perna graças a você — respondeu Fletcher, com um sorriso.
O povo de Pelego já estava sendo recebido na taverna, onde a família Thorsager os esperava com comida quente e roupas limpas. Fletcher vislumbrou Janet, a curtidora de couro que fora porta-voz de Pelego na época que eles foram expulsos pelos homens de Didric. Ela ignorou a saudação de Thaissa e entrou na taverna sem olhar duas vezes. Fletcher fez cara feia ao observar esse comportamento, mas atribuiu aquilo ao cansaço da longa jornada.
— Certo. Onde estão esses recrutas de que Harold me contou? — grunhiu Sir Caulder, apertando os olhos. — Sua mensagem dizia que haveria uma bela quantidade deles para eu colocar em forma. Eles deviam estar aqui, ajudando a gente a ordenar esta bagagem!
— Ainda não fomos buscá-los — respondeu Fletcher. — Eles estão no quartel, a poucas ruas de distância. Embora, com toda honestidade, não tenho certeza se algum vai dar as caras.
— A gente descobre — disse rispidamente Sir Caulder. — Poderíamos usar alguns rapazes para ajudar a dar um jeito nessa bagunça. Bem, vamos lá, deixem de enrolação.
Berdon riu com a expressão de incredulidade de Fletcher e deu-lhe um suave empurrão.
— Pode ir, filho. Já estive nesta taverna antes, e tenha certeza de que vou garantir que todo mundo fique bem acomodado.
Fletcher olhou fixamente para Berdon.
— O que foi, você não sabia? — O ferreiro riu. — Enquanto você estava na prisão, os Thorsager e eu estávamos ocupados peticionando seu julgamento para o rei, esqueceu? Uhtred e eu passamos muitas noites aqui, chorando as pitangas sobre canecas de cerveja. Claro, isso foi antes dos ataques dos Bigornas e da taverna fechar.
Fletcher sentiu uma pontada de vergonha. Ele sabia muito pouco da vida de Berdon agora.
— Tudo bem — aquiesceu, enfim, balançando a cabeça com uma leve descrença. — Mas diga a Uhtred que vou precisar dos transportes e de nossos anões voluntários prontos para partir assim que amanhecer.
— Voluntários? — perguntou Berdon.
— Uhtred vai lhe explicar — murmurou Fletcher, sem vontade de falar mais nada.
Não importava como ele contasse a novidade: era improvável que as pessoas de Pelego ficassem felizes por compartilhar seu novo lar com estranhos, especialmente com pessoas que, até pouco tempo atrás, tinham sido caluniadas como anarquistas e assassinos. Ele adiaria dar a notícia o quanto fosse possível.
— Tudo bem — disse Berdon, com as sobrancelhas franzidas. — É melhor você continuar antes de Janet vir acossar você. Ela está duvidando da decisão desde que deixamos aquelas malditas montanhas.
Fletcher deu a Berdon outro abraço rápido e depois se apressou a ir embora, com Sir Caulder a reboque.
Os quartéis ficavam a cinco minutos a pé da taverna da Bigorna. No caminho, Sir Caulder foi presenteando Fletcher com histórias da jornada a partir de Pelego; de lobos montanheses famintos que rondavam o grupo, a brigadas de saqueadores que subestimavam a preparação daquele intrépido bando.
Seus números haviam diminuído de cerca de oitenta para sessenta pessoas; quem tinha debandado era principalmente famílias com crianças pequenas, que iam buscar trabalho nas cidades pelas quais passavam. Mas a confiança de Berdon no filho tinha mantido a maior parte do grupo unida.
Ao ouvir cada história, o coração de Fletcher se desesperançava cada vez mais. Ele só esperava poder fazer jus àquela confiança.
O quartel era um complexo que ocupava uma rua inteira, com uma paliçada em torno. Por cima das estacas de madeira, dava para avistar as fortificações militares com aberturas para disparos e sentinelas vigiando nas torres a cada canto. Era uma fortaleza dentro da cidade, e Fletcher se sentiu deslocado quando eles passaram por batalhões de soldados pelos portões abertos.
Viram-se na beira de um pátio, com mais fortificações em cada um dos lados. Havia um único ocupante no centro — um homem idoso com um nariz longo e adunco, sobre o qual estava apoiado um par de óculos dourados. Estava sentado diante de uma ampla mesa atulhada de livros de contabilidade, muito ocupado rabiscando qualquer coisa com uma pena.
— Adiantem-se! — vociferou ele, sem levantar os olhos dos livros.
Assustado, Fletcher obedeceu, parando diante da mesa do homem, como um aluno malcriado. Sir Caulder foi atrás com passos pesados e um ar de perplexidade no rosto.
— Lorde Raleigh, eu presumo — falou o homem com voz guinchada, ainda rabiscando com a pena.
— Isso mesmo — respondeu Fletcher. Estavam esperando por ele? Talvez Harold tivesse enviado um mensageiro.
O homem suspirou.
— Squeems! — gritou ele, fazendo Fletcher se sobressaltar.
Uma porta se abriu na construção atrás deles, e um jovem rapaz de uniforme vermelho e quepe saiu apressado.
— Traga os voluntários para o jovem lorde aqui, vamos, rápido — ordenou o homem de óculos.
— É para já, Secretário Administrativo Murray! — respondeu Squeems, tirando brevemente o quepe para Fletcher antes de voltar correndo por tinha vindo.
— Secretários administrativos — murmurou Sir Caulder, desdenhoso.
Murray fez uma pausa e desviou os olhos do que escrevia.
— A administração das forças armadas é muitas vezes desprezada pelos menos dotados de inteligência — respondeu, irritado, a Sir Caulder. — Qualquer tolo pode carregar e disparar um mosquete.
— E qualquer covarde pode se esconder atrás das muralhas com seus livros enquanto os verdadeiros soldados lutam na guerra — respondeu Sir Caulder.
Murray não respondeu, apenas sorriu quando Squeems surgiu na porta atrás de si. Uma tropa de rapazes não mais velhos que Fletcher o seguia em uma fila desconjuntada. Assim que entraram no pátio, Squeems desapareceu de novo na fortificação militar.
— Uma das melhores partes de ser secretário administrativo é decidir quais voluntários enviar para treinamento, e quais manter para os serviços domésticos e afazeres externos — explicou Murray, com o sorriso aumentando. — Reservei para vocês alguns dos melhores. Delinquentes recém-saídos da prisão, esses aí, que se ofereceram para escapar da viagem até o presídio de Pelego.
Fletcher tentou não demonstrar desapontamento ao olhar mais de perto seus novos soldados. Eram quinze ao todo, com camisas e calças de lona fiadas em casa — provavelmente roupas que tinham recebido na prisão. Eles tinham aparência rude, com cabelos ensebados e barba por fazer. Os que não estavam olhando para os próprios pés o encaravam carrancudos, ressentidos da própria situação.
— Melhor ficar de olho neles — aconselhou Murray em um sussurro exagerado, bem alto. — Já houve algumas tentativas de fuga.
— Isso é tudo? — perguntou Sir Caulder, num tom de voz de quem aparentemente não se importava com o cacife daqueles novos recrutas. — Quinze rapazes para defender um condado inteiro?
— Ah, estes são apenas os do xilindró — murmurou Murray. — Tem alguns malucos livres que se ofereceram para ir com vocês. Dizem que conhecem nosso jovem lorde aqui.
— Que me conhecem? — perguntou Fletcher em voz alta. Quem poderiam ser?
Squeems já estava trazendo mais alguns rapazes até lá, todos eles desconhecidos aos olhos de Fletcher. Eram mais para magros que gordos, e totalizavam seis, menos do que ele havia esperado, mas fora isso não pareciam nem um pouco fora do normal.
— Ainda não chega nem perto do suficiente — disse Sir Caulder.
— Squeems, traga os convidados que chegaram na semana passada — ordenou Murray. — Creio que encontrei o lugar ideal para eles.
— O senhor está falando dos...
— Agora, rapaz! — ordenou Murray.
Squeems saiu em disparada, com um olhar de apreensão em seu rosto.
— Lorde Raleigh — disse um menino de pele escura do grupo dos recém-chegados, dando um passo à frente. — Viemos assim que ouvimos falar que o senhor estava recrutando.
— Desculpe, mas eu... — começou a dizer Fletcher. Então entendeu.
Parecia ter sido muito tempo antes, mas ele vira aquele rapaz havia meras duas semanas, acorrentado num paredão e rodeado por uma horda de goblins adormecidos. Aqueles garotos eram alguns dos escravos que ele libertara na pirâmide.
— ... quase não o reconheci — disse Fletcher, apertando a mão do jovem.
— Qual seu nome?
— Kobe, meu senhor — respondeu o rapaz.
— Imaginei que, depois da provação pela qual passaram, vocês iriam querer manter o máximo de distância possível dos orcs — disse aos escravos fugidos.
Kobe sorriu, e seus dentes brilharam contra a pele escura.
— Nós temos algumas contas a acertar antes disso.
Mas Fletcher mal ouviu a resposta do jovem, porque Squeems apareceu com o próximo grupo de recém-chegados.
Elfos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!