13 de março de 2018

Capítulo 34

Azul não respondeu. Em vez disso, disparou uma sequência de ordens, toda cliques e assovios. Num instante, os gremlins os cercaram de novo, surgindo como que do nada. Muitos tinham manchado a pele com verde e ocre para se misturar à folhagem. Outros cavalgavam os próprios maras, com zarabatanas firmemente apontadas contra Fletcher e os outros. Esses eram ainda mais bélicos, com arpões de osso atados às costas e mais daquelas facas mortíferas que quase haviam cortado o pescoço de Fletcher.
— Nós te leva pra o Viveiro pra encontra líder — trilou Azul, enquanto os gremlins mais próximos marchavam para os túneis. — Eu avisa, nós dardo faz dormir, congelar ou morrer. Se nós atira agora, nós usa que faz morrer. Não deixa gremlin nervoso. Eles querem te matar, eles odeiam vocês que nem esse aqui.
Meia-orelha grunhiu e se levantou quando Azul o cutucou com a zarabatana. O olhar de fúria do gremlin mutilado nunca deixou o rosto de Fletcher, mas ele recuou com as mãos abertas e vazias. Fletcher não o culpava. Se tivesse passado pela crueldade que ele vira naquela tenda havia só três noites, ele se sentiria do mesmo jeito.
Otelo ainda estava adormecido, então, com relutância, eles o deixaram com Salomão e também Atena, que ficou de guarda nas árvores acima. Lisandro continuava de olhos fechados, então também ficou, enquanto Sariel era grande demais para caber nos túneis.
Azul desceu pelo túnel de onde viera, o maior de todos. A abertura se escancarava sombria e tenebrosa, porém, mais no fundo, Fletcher viu os mesmos cogumelos luminosos que cresciam na Grande Floresta.
Apesar do tamanho maior desse túnel, Fletcher e os outros tiveram que engatinhar para caber, com Ignácio e Tosk correndo adiante, sempre atentos a possíveis emboscadas. Foi um grande alívio quando o corredor se abriu numa grande câmara, espaçosa o bastante para todos eles, caso ficassem curvados e se espremessem. O líquen luminoso era ainda mais denso ali, e todos foram iluminados por um luzir fantasmagórico.
— Tem certeza de que isso é uma boa ideia? — sussurrou Sylva.
— Se eles nos quisessem mortos, já estaríamos debaixo da terra — respondeu Cress. Ela deu uma olhada em volta e riu. — Vocês entenderam.
— A anã fala verdade. Nós não machuca você se você não dá motivo — afirmou Azul, guiando o mara a um corredor que descia ainda mais. — Por aqui. Mãe espera lá embaixo.
Eles seguiram adiante, as roupas já imundas se manchando ainda mais com o solo escuro e úmido. A temperatura parecia aumentar conforme eles se aprofundavam. Passaram por câmaras dos dois lados do caminho. Nelas, os montinhos peludos dos filhotes de mara mamavam nas barrigas das mães, tão jovens que ainda tinham os olhos fechados. Havia pilhas de frutas, legumes e capim recém-cortado junto a eles, e os maras adultos os mordiscavam ao passar.
A sala seguinte continha ovos esféricos verdes, tratados por matronas gremlins que se esparramaram de forma protetora sobre os objetos do tamanho de toranjas quando os forasteiros passaram. Sibilaram quando Fletcher olhou para dentro, e ele seguiu apressadamente adiante, sussurrando para Sylva:
— Ovos de gremlin.
Ainda mais ao fundo, Fletcher espiou outra câmara, onde o farfalhar de insetos o distraiu do caminho. Um redemoinho de grilos, gafanhotos e larvas enxameavam as paredes, quicando pela cavidade com uma energia ensandecida. Cascas e bagaços de frutas se empilhavam no centro do aposento enquanto os gremlins cuidadosamente catavam os maiores espécimes com os dedos ágeis, colocando-os em cestos de trama bem fina que carregavam na cintura. Foi só quando um dos gremlins tacou um dos bichos na boca e o mastigou que o rapaz entendeu o propósito da sala.
Estremeceu e continuou andando, apesar de Ignácio ter lambido os beiços e precisar ser arrastado.
— Eles vivem como coelhos, num tipo de grande viveiro — sussurrou Jeffrey na retaguarda. — Os ovos são mantidos a salvo dos predadores no subsolo, e eles criam insetos para se alimentar. Desenvolveram até uma relação simbiótica com os maras. Vejam como as tangas são feitas de pelo de mara, e eles os cavalgam como fazemos com cavalos, só que os animais são protegidos e alimentados com as frutas e capins que lhes trazem.
Fletcher estava fascinado, mas não podia deixar de se sentir confinado no túnel apertado. Levava-o de volta ao ano que passara na cela, e ele estremeceu com a memória. Ignácio miou de solidariedade e reduziu o passo, para poder se esfregar contra o braço de Fletcher.
— Obrigado, maninho — sussurrou o rapaz.
Eles avançaram e avançaram, até que as câmaras laterais acabaram e o túnel se inclinou num declive tão acentuado que eles passaram mais a escorregar que a engatinhar. A terra pareceu ficar ainda mais quente, e o suor escorria pelo rosto de Fletcher até os olhos. Até o líquen franjado ficou mais escasso, até que Fletcher passou a se sentir engolido por uma garganta negra em direção à barriga de um monstro gigante.
Finalmente, um luzir alaranjado disse a Fletcher que estavam chegando ao fim da jornada. Azul, que aguardava junto à entrada da câmara iluminada, os puxou para dentro, um de cada vez, como bebês recém-nascidos.
— Mãe tá aqui — anunciou ele, reverente, depois que todos chegaram. — Vocês tudo conhece Mãe.
Fletcher piscou na luz forte, o calor tão feroz que fazia a pele quase doer. Uma torrente brilhante de líquido derretido fluía à frente, colorida do tom laranja de metal aquecido. A lava escorria de uma fenda na parede da caverna, seguindo por um canal profundo até um túnel que se estendia sem fim ao longe. Bolhas irrompiam na superfície, espalhando gotas vermelhas incandescentes com “plops” gosmentos. Ele sentiu uma vontade em Ignácio de se aproximar da lava, mas a sufocou com um pensamento; agora não era hora para ser curioso.
Estalactites e estalagmites decoravam o teto e o chão, como dentes tortos, enquanto colunas daquelas que tinham se encontrado sustentavam a caverna. Lembravam a Fletcher de uma grande catedral.
— Os gremlins selvagens construíram seu Viveiro aqui por causa da lava — ecoou uma voz no fundo da caverna, onde a luz do magma não alcançava. — Ela mantinha o solo quente para eles.
Era uma voz distorcida, como se falada por uma boca cheia de bolinhas de gude. Soava feminina, de alguma forma, apesar da entonação gutural. Quem falava tinha que ser velha, também, pois as palavras tremiam e rachavam na garganta. Fletcher sabia uma coisa com certeza. Não era um gremlin.
— Eles precisam de calor para os ovos, entendem? — continuou a voz, ficando mais alta. — Assim como os goblins. Esse é o nome que vocês deram para eles, não é? Goblins? Meus espiões ouviram vocês usando esse nome.
Houve um toque gentil de uma bengala no chão, e uma presença surgiu no limiar da penumbra. Fletcher estreitou os olhos, mas não viu mais que uma silhueta envolta pelas sombras.
— Mostre-se — exigiu Sylva, parando ao lado de Fletcher.
— Só se vocês me derem a palavra de que manterão a paz — retrucou a sombra. — Não quero ver mais morte esta noite.
— Eu prometo — respondeu Sylva, olhando em volta para ver os amigos assentindo. — Assim como meus amigos.
— Muito bem.
O vulto saiu das sombras, com um longo cajado de abrunheiro agarrado nas mãos retorcidas. Ela se encurvava como um abutre, com o fardo da óbvia idade pesando muito sobre os ombros. Cabelos negros emaranhados escorriam pelos ombros até a cintura, cobrindo a nudez, pois ela só vestia uma saia de penas e um largo colar feito com pequenos ossos de uma dúzia de animais azarados.
O rosto dela era pintado, como se coberto por um esqueleto, o contorno de um crânio deixando os olhos como buracos negros, contrastando com a brancura de giz. Só que havia algo que se destacava mais que qualquer outra coisa, projetando-se do lábio inferior como as estalagmites que a cercavam.
Presas.
Mãe era uma orquisa.


2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!