2 de março de 2018

Capítulo 34

Fletcher tinha esperado poder ver quais eram os demônios dos nobres quando Lovett finalmente decidiu que todos os plebeus tinham dominado a infusão. Infelizmente, ela sempre mandava que eles os infundissem antes de abrir a cortina.
O menino ficara surpreso ao ver que Rory e Genevieve tiveram facilidade com a infusão, enquanto Serafim, Otelo e Atlas precisaram de várias tentativas para dominar a arte. Fazia muito sentido pois, quanto mais poderoso o demônio, mais difícil era infundi-lo.
Conforme as lições progrediam, Fletcher começou a avaliar seus colegas. Os nobres eram versados, mas preguiçosos, satisfeitos com os níveis atuais de habilidade e complacentes no aprendizado. Em contrapartida, os plebeus aprendiam num ritmo feroz, absorvendo cada migalha de informação que encontravam. Infelizmente, a prática era o melhor professor tanto na feitiçaria quanto na infusão, e, portanto, o progresso era lento.
Ainda assim, havia vários alunos se destacando dentre os amigos de Fletcher. Sylva e Otelo eram naturalmente talentosos, recebendo comentários positivos dos professores em quase todas as lições. O mesmo acontecia nas aulas de demonologia, mais teóricas. O par praticamente vivia na biblioteca, buscando conhecimento oculto em tomos antigos. Fletcher aprendia quase tanto com eles quanto com o major Goodwin.
Quanto aos plebeus humanos, Fletcher e Serafim lideravam o grupo, mais por puro esforço do que por um dom natural. Os outros tinham criado o costume de tirar os fins de semana de folga em Corcillum, comprando presentes e necessidades e mandando-os às famílias. A família de Serafim parecia já ser abastada e ele visitara a capital no passado, então preferia passar seu tempo estudando com Fletcher.
Era um jovem de bom caráter com um senso de humor desavergonhado que lhe rendia muitos olhares desaprovadores de Sylva e Otelo enquanto estes liam no silêncio poeirento da biblioteca.
— Todos juntos aqui no meio, pessoal — gritou Lovett, tirando Fletcher de seus devaneios.
Quatro criados tinham levado uma mesa redonda de pedra ao centro do aposento. Estava coberta com um lençol branco, mas Fletcher via uma grande elevação convexa no meio. Todos conseguiram lugar em volta da mesa, apesar de ter ficado apertado. Isadora fez uma careta quando Atlas, todo suado, espremeu-se ao seu lado. A menina, com um gesto nítido, levou um lenço rendado ao nariz.
— Desculpa — murmurou Atlas, envergonhado.
Lovett deixou seu lugar à mesa e se ajoelhou ao lado do maior pentagrama no centro da sala. Ao contrário dos couros de conjuração que eles vinham usando, esta estrela de cinco pontas estava cercada pelas estranhas chaves que tinham sido gravadas na capa do livro de James Baker.
— Jamais usem um pentagrama chaveado sem a presença de um professor, entenderam? — grunhiu ela, apontando para a estrela diante de si. — Quebrar essa regra é motivo para expulsão imediata. Vocês foram avisados!
Os estudantes assentiram calados enquanto ela energizava o pentagrama, cujas linhas crepitavam com poder e cuspiam fagulhas para todos os lados. Desta vez, Lovett permaneceu de cabeça baixa por vários minutos, seu rosto contorcido de concentração. O pentagrama pulsava com um zumbido volátil, tremeluzindo como o cantarolar incessante de um louco.
— Caramba, se Lovett demora tanto tempo, não acho que eu conseguiria usar um pentagrama chaveado nem se quisesse — sussurrou Serafim ao lado de Fletcher. — Eu mal consigo infundir Farpa sem quase desmaiar.
— Não se preocupe. Tenho certeza de que, com a prática, nós vamos conseguir — murmurou Fletcher de volta.
Finalmente, uma esfera se expandiu no centro da estrela e se manteve pairando no ar como um fraco sol azul. Lovett ofegou e então passou de joelhos para o próximo pentagrama. Com um toque suave, ela libertou um demônio acima dele.
— Um Caruncho! — sussurrou Genevieve a Rory.
Lovett ouviu e se virou com um sorriso cansado.
— Isso mesmo. Eles são os melhores batedores, sempre necessários quando caçamos no éter. Valens é o primeiro demônio que eu tive. Sem ele, não teria conseguido capturar Lisandro, nem qualquer um dos demônios que eu tive antes dele, na verdade. — Ela voltou à mesa e pousou a mão sobre o pano branco que a cobria. Na outra mão, segurava uma longa tira de couro que se conectava à base do pentagrama chaveado. Fletcher suspeitava que servia para manter o mana fluindo. — Estou prestes a lhes mostrar o equipamento mais caro da academia inteira. Não toquem. Nem sequer respirem nele. Apenas observem — sibilou Lovett, olhando nos olhos de cada um até que todos estivessem assentindo. Com esse aviso final, ela arrancou o lençol e revelou o que havia abaixo.
Uma enorme gema estava montada numa superfície de mármore branco. O cristal era límpido como uma nascente e sua cor era do roxo profundo da urze selvagem.
— Esta gema é um tipo muito raro de cristal chamado Corundum — explicou Lovett. — Ele se forma em quase todas as cores, mas uma peça tão grande e transparente assim é incrivelmente difícil de se encontrar. Nós as chamamos de pedras de visão, porém esta gema em particular é conhecida como o Oculus. Vamos fornecer-lhes uma peça se vocês não tiverem meios de comprar uma para si, apesar de que vocês poderão notar que a qualidade e o tamanho das gemas da academia são bem... limitadas.
Lovett chamou Valens com um gesto, e a criaturinha esvoaçou sobre as cabeças dos alunos, pousando na gema. Diferentemente de Malaqui e Azura, a carapaça desse Caruncho era de um marrom-escuro sem graça. Como se ela pudesse ler a mente de Fletcher, Lovett sorriu astutamente e acariciou a carapaça do besouro demônio.
— Valens é muito apropriado para suas funções. Ele não fica bonito no meu ombro, mas será mais difícil de se detectar se acabar topando com um demônio faminto lá no éter.
Fletcher teve uma rápida lembrança de Ignácio comendo um besouro marrom quando ele o conjurou pela primeira vez, mas aquele era muito menor que qualquer um dos Carunchos que o rapaz vira. Talvez fosse de uma espécie diferente.
— Certo, vamos botar esse circo na estrada. Vocês precisam empurrar mana através do demônio para a pedra, assim — explicou ela, pousando a mão livre sobre Valens.
A gema se tornou negra. Quando a capitã afastou a mão, a cor mudou de novo. Inicialmente, Fletcher pensou que a gema tinha se tornado um espelho, pois se viu fitando a imagem do próprio rosto. Porém, logo a imagem se transformou na de Serafim.
— Vocês agora estão enxergando pelos olhos de Valens. É uma técnica que chamamos de cristalomancia, muito útil para fazer reconhecimento e controlar seu demônio a distância. Nós já podemos sentir os pensamentos de nossos demônios. Agora podemos ver o que eles estão vendo no cristal. É essencial verificar o que há do outro lado do portal através do seu demônio menos importante antes de entrar no éter. Se houver algo perigoso do lado de lá quando ele atravessar, será Valens correndo o risco em vez de Lisandro. Como um Caruncho é menor e mais ágil, é também menor a chance de ser notado e pode escapar com mais facilidade.
A imagem tremeu quando Valens zumbiu no ar e pairou logo em frente ao orbe azul que girava. Lovett estalou a língua e, com isso, o demônio disparou luz adentro como um tiro de mosquete.
A primeira coisa que Fletcher viu na pedra foi o chão tingido de vermelho. Grãos finos de poeira ferruginosa rodopiavam acima, transformados em pequenos torvelinhos por um vento feroz. O céu era do alaranjado da aurora, só que não continha nenhum calor, nem havia nele uma fonte de luz. Árvores atrofiadas pontilhavam a paisagem, seus galhos esparsos contorcidos em rigor mortis. Não existia vida ali, apenas a carcaça seca de uma terra morta havia muito.
— Perfeito — comentou Lovett. — Emergimos nas terras mortas.
— Terras mortas? — indagou Rory, numa voz de espanto.
— Entrar no éter não é uma ciência exata. Existe uma larga margem de erro de onde poderemos aparecer. As terras mortas têm seus pontos positivos e negativos, dependendo do seu propósito. Não haverá nada para lhe surpreender aqui, porém, se você estiver tentando capturar um demônio, terá que arrastá-lo por uma bela distância para voltar ao local de origem. Se eu estivesse caçando, fecharia este portal e abriria um novo, porém, para os fins deste exercício, este é o lugar ideal. As terras mortas se localizam entre o vazio e a orla exterior do éter habitado — declarou Lovett numa voz fatigada. Fletcher notou uma veia pulsando na testa da professora. Entrar no éter provavelmente exigia muito poder e concentração.
Valens se virou e voou para longe do portal, ganhando altitude constantemente. A sala permanecia em silêncio, exceto pela respiração de Lovett, conforme os minutos se passavam. A paisagem parecia ficar mais e mais desolada, com cada vez menos árvores, até que só se via terra plana e crua.
— Como você sabe para onde ir? — perguntou Tarquin. — Parece tudo igual para mim.
Fletcher percebeu que era uma boa pergunta. O jovem nobre poderia ser muitas coisas, mas não era burro.
— O portal está sempre voltado para o centro do éter quando o seu demônio sai dele, então você é orientado assim que chega. Além disso, todos os demônios são atraídos instintivamente ao centro, e têm uma bússola interna que lhes diz para que lado ele fica. Eu posso me guiar usando esses sentidos, mas exige prática e não é muito preciso. É por esse motivo que é sempre arriscado entrar no éter. Só consigo manter o portal aberto por um tempo limitado e, se eu fechá-lo antes que Valens passe de volta, nosso vínculo será rompido, e o perderei — explicou Lovett. Tarquin abriu a boca para fazer outra pergunta, mas Fletcher falou primeiro.
— O que você quer dizer com centro? Isso significa que o éter tem uma forma? — perguntou ele, tentando entender.
— Até onde sabemos, o éter tem forma de disco. Os demônios mais fracos tendem a permanecer nos anéis exteriores, enquanto as criaturas mais poderosas gravitam pelo centro. Parece haver uma cadeia alimentar rudimentar, com Carunchos de nível baixo na base, mais próximos às terras mortas.
Tarquin começou a falar de novo, mas Lovett ergueu a mão para silenciá-lo.
— Guardem suas perguntas para mais tarde. Já é difícil o suficiente manter o portal aberto e guiar Valens sem ter que pensar em respostas para vocês. — Mesmo enquanto ela falava, o pentagrama tremeluzia. A professora grunhiu e o símbolo brilhou num violeta constante novamente.
Apesar da intensidade da lição, Fletcher se sentiu relaxar, talvez pela primeira vez. Todos estavam aprendendo alguma coisa, até Tarquin. Tudo fazia sentido para Fletcher, como se ele estivesse se lembrando de algo havia muito esquecido. Ele nascera para aquilo.
O horizonte começou a cair, escurecendo dramaticamente. O brilho do céu desapareceu numa treva pura e sem estrelas, porém o pequeno Caruncho continuou subindo e subindo. Finalmente, ele parou e olhou para baixo novamente.
— Olhem de perto. Vocês os verão — instruiu Lovett, a voz tensa com o esforço.
A terra terminava numa linha regular, criando um perfeito precipício que mergulhava nas trevas turvas abaixo. Fletcher viu que a linha do penhasco se estendia bem ao longe, curvando-se quase imperceptivelmente ao desaparecer de vista. Percebeu que o disco devia ser enorme, maior que mil Hominums. Aquele não era um bom lugar para se perder, pensou sombriamente.
Seu raciocínio se perdeu quando ele viu algo se mexer no abismo. Conforme os olhos do demônio se ajustavam à escuridão, uma massa tempestuosa surgia. Ela se torcia e se retorcia tortuosamente, um caos emaranhado de tentáculos, olhos e dentes serrilhados.
— Ceteanos — sussurrou Sylva, em terror.
— Isso, Ceteanos. Você fez o dever de casa, Sylva — pronunciou Lovett, soturna, enxugando o suor da testa. — Alguns os chamam de Antigos. Eles passam fome lá embaixo, canibalizando uns aos outros enquanto esperam. Os Ceteanos agarram qualquer demônio que vaguear para longe o bastante, geralmente os doentes ou feridos, tentando encontrar algum lugar onde se recuperar. Por isso precisamos voar tão alto. Esta é a primeira e única vez em que me arriscarei a chegar perto deles, então aprendam bem a lição. Fiquem longe daqui.
Valens girou e voou de volta em direção ao lugar de onde tinham vindo. Desta vez não houve perguntas enquanto o grupo refletia sobre as criaturas horripilantes que tinham visto. Os monstros gigantes eram seres grotescos e torturados, disso Fletcher tinha certeza. Por mais que não pudesse ouvir nada, era capaz de imaginar seus gritos atormentados.
O orbe azul do portal surgiu novamente à vista, mas Valens passou direto por cima dele. Com sua altitude atual, eles podiam voar bem rápido, vendo o solo passando sob eles como folhas caídas num rio. Fletcher tentou imaginar como seria a sensação de Lovett, de montar um Grifo sobre o campo de batalha, então sentiu uma pontada de inveja ao se tocar de que jamais seria capaz de montar Ignácio.
— Eu lhes mostrarei rapidamente onde começam os campos de caça, então terei que voltar — disse Lovett, os dentes trincados. — Normalmente consigo durar muito mais, mas ainda não me recuperei da captura da Lutra de Atlas, alguns dias atrás. Tive sorte do reitor Cipião estar lá para atrelá-la.
— Atrelar? — indagou Rory.
Lovett o ignorou, limitando-se a apontar a gema.
O mundo tinha ficado verde. Valens contemplava uma floresta, mas a vegetação não era de nenhum tipo que Fletcher reconhecesse. Acima da mata, eles viram revoadas de demônios voando ao longe, mergulhando e girando como estorninhos. Um enxame de minúsculos Carunchos voava baixo sobre as árvores, até se dispersar quando um grande Caruncho não muito diferente de Valens agarrou um deles no ar. Bem ao longe, nuvens de cinzas manchavam o céu. Abaixo delas, vulcões com pontas de lava cuspiam pilares de fumaça que se erguiam no ar, como colunas sustentando os céus.
Algo atingiu Valens com força brutal, derrubando-o. Lovett gritou de dor conforme a imagem girava como um caleidoscópio, as árvores chegando cada vez mais perto.
A pedra se tornou negra como tinta.

4 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!