22 de março de 2018

Capítulo 33

Eram seis na taverna, em torno de uma mesa ao lado das brasas cintilantes do fogo moribundo: Fletcher, Sylva e Harold sentados em frente a Otelo e seus pais. Até mesmo os guardas reais tinham sido mandados para fora, formando uma barreira ao redor da entrada.
— Tenho notícias para dar — disse Harold —, e sinto muito por dizer que não são boas.
— Bem, desembuche logo, então — interrompeu Uhtred, segurando com força a mesa com as mãos grandes. Ele obviamente estava com muita raiva dos Pinkertons, de como estavam ali tão perto, mesmo depois de tudo aquilo.
— É sobre lorde Forsyth e o inquisidor Rook. A prisão fica em Pelego.
Uhtred soltou um profundo suspiro e fechou os olhos.
— Não entendo — disse Fletcher — Pelego se transformou em um lugar terrível, disso eu sei.
— Não para eles — grunhiu Uhtred. — Certo, Harold?
Harold assentiu, relutante.
— Meu pai acertou tudo com Didric no início do dia de hoje. Eles estão neste exato momento em seu castelinho novo, com quartos luxuosos e servos por todos os lados. Nós ferimos sua posição, tirando-lhes a liberdade, mas não haverá nenhum julgamento público nem execução. Os dois devem ser soltos daqui a um ou dois anos, depois que a poeira baixar.
O coração de Fletcher se entristeceu ao ouvir aquela notícia. Mesmo apanhados com a boca na botija, a dupla conseguia escapar da punição. Não havia justiça para os ricos e poderosos?
— Você não tem nenhum poder de decisão nisso? — perguntou Briss, desafiadoramente.
— Não o suficiente para ir contra meu pai — disse Harold, passando uma das mãos pelo cabelo. — Ele ainda pensa que estamos do mesmo lado e não percebe que eu estou sabendo sobre seu envolvimento nos bombardeios. Por sorte ele entende que estou com raiva de Forsyth e Rook, assim como os plebeus, então não me pressionou para perdoá-los. Mas ele nunca deixaria seus aliados mais próximos apodrecerem em uma cela.
Agora, foi a vez de Briss suspirar.
— Bem, pelo menos isso já é alguma coisa.
Houve silêncio por um momento, quebrado apenas pelo estalar das chamas na lareira. Então Uhtred falou.
— Nós não podemos viver na ponta da faca, sempre a um passo de distância da extinção. Esses dois vão conspirar nas sombras, esperando apenas a próxima chance. E quanto a seu pai...
Ele hesitou.
— Já pensou em... removê-lo da jogada?
Harold soltou uma risada amarga.
— Você quer dizer matá-lo? Por mais que me doa admitir, essa ideia já me ocorreu. Infelizmente, meu pai tomou precauções contra ataques súbitos. Você está familiarizado com o feitiço de barreira?
— Sim, vocês usam isso durante os torneios da Vocans, certo? — respondeu Uhtred.
— Isso mesmo. Bem, esse mesmo feitiço é companheiro constante de meu pai, uma barreira invisível que o protege em todos os momentos.
Ele apontou para fora, onde Fletcher viu os contornos das lanças dos homens de Harold pelas janelas.
— Enquanto meus guarda-costas são apenas homens bem treinados, os de meu pai são todos magos de batalha da Inquisição, que mantêm o feitiço atuante noite e dia. Claro que um ataque suficientemente poderoso poderia rompê-lo, e um demônio conseguiria penetrá-lo com relativa facilidade, tal como faria com um feitiço de escudo, mas isso dificulta que alguém que não seja um conjurador consiga matá-lo. Nem bala nem espada conseguiriam chegar perto.
— Mas nós poderíamos — disse Fletcher, as palavras saindo de sua boca sem ele pensar.
Ele sentiu uma súbita pontada de culpa. Eles estavam discutindo um assassinato a sangue-frio... do pai de Harold, nada menos. Era o tipo de coisa que seus inimigos fariam.
— Lamento, mas não acredito que possam — retrucou Harold, balançando a cabeça. — Quatro jovens magos de batalha contra dez Inquisidores treinados e o conjurador mais poderoso de toda Hominum? Isso nunca daria certo.
— Perdão, mas por que você mesmo não o mata? — perguntou Sylva. — Vocês dois têm níveis altos de conjuração bastante parecidos, se é que os rumores são verdadeiros.
— Pode imaginar a turbulência em que o império seria atirado depois disso? Se as pessoas descobrirem que eu cometi parricídio sem nenhuma razão aparente? — criticou Harold, irritado, como se estivesse afirmando o óbvio. — Com os Inquisidores protegendo-o noite e dia... Não seria uma batalha silenciosa, ainda que eu pudesse vencer. E desconfio que depois dela o palácio teria sido reduzido a uma pilha de ruínas fumegantes.
Então, ele respirou fundo e seus olhos voltaram-se para seu colo.
— E, para falar a verdade, eu não acho que seria capaz de fazê-lo.
O silêncio caiu sobre eles mais uma vez, e Fletcher sentiu uma sensação de alívio. Alfric era um monstro, mas de alguma forma conspirar seu assassinato lhe dava calafrios.
— Isso não pode continuar — disse Sylva, quebrando o silêncio. — O povo anão não está seguro em Corcillum. Tudo o que fizemos foi ganhar tempo, até o próximo estratagema.
— Se existe uma hora ideal para tentar um movimento ousado, é agora — disse Thaissa.
Harold assentiu, sombriamente. De repente ele se levantou e se aproximou do fogo. Por um momento, ficou olhando para as chamas, a testa enrugada em concentração.
— Sim... — falou para si mesmo. — Pode funcionar!
Ele se virou e olhou para Fletcher, com as bordas de seus olhos contraídas numa expressão que Fletcher pensou que pudesse ser de divertimento.
— Acho que tenho uma ideia — avisou Harold, voltando para a mesa e sentando-se depressa por causa da empolgação. — Uma que nunca foi viável antes. Agora, com Fletcher aqui... não é perfeita nem resolve todos os nossos problemas, mas é a única coisa em que consigo pensar.
— E o que é? — perguntou Fletcher, confuso.
Harold se inclinou para a frente e entrelaçou os dedos em um V para cima.
— Raleighshire. Os anões poderiam se reassentar lá.
Então, a compreensão se espalhou pelo rosto de Fletcher. Claro. Nenhum nobre permitiria que os anões vivessem em suas terras, e as terras de Serafim no deserto eram compostas de areias quentes que se deslocavam continuamente, um lugar quase impossível para se construir lares anões.
Mas Raleighshire pertencia a ele — o rei o doara para que servisse como uma herança de seus pais, e ele podia fazer o que bem entendesse com as terras. Ele já estava reassentando o povo de Pelego ali... por que não os anões?
Enquanto ele abria a boca para concordar, Uhtred balançou a cabeça e o interrompeu.
— Nossos negócios estão aqui. Nossas oficinas, nossos amigos, nossos lares. Tudo. Você quer que deixemos tudo para trás a fim de viver na região selvagem?
— Sem querer ofender, Fletcher — disse Briss depressa, apertando o braço do marido em reprimenda.
Fletcher levantou as mãos e deu um sorriso forçado.
— Ofensa nenhuma.
O medo repentino de tentar transferir os cidadãos de Pelego para aquele lugar desconhecido borbulhou quando ele ouviu as palavras de Uhtred, mas Fletcher obrigou-se a deixá-lo de lado. Aquela discussão era mais importante.
— Não me refiro a todos os anões — disse Harold. — Estou pensando em uma colônia. De jovens homens e mulheres, aqueles que ainda não criaram raízes.
— Que bem isso faria? — perguntou Otelo.
— Desse modo, sua espécie inteira não estaria limitada a um só lugar — explicou Harold. — Isso diminuiria o risco. Alguns de vocês ficariam bem longe dos Pinkertons e do exército.
— Você fala como se isso fosse uma equação matemática — disse Uhtred. — Estas pessoas são reais, Harold. Mães, pais, filhos.
— Há outro motivo — interveio Harold, ignorando a recriminação de Uhtred. — Se algo assim acontecesse novamente, vocês teriam onde se refugiar ao primeiro sinal de problemas. Vocês poderiam desaparecer pelos túneis sem Alfric saber, e ir até Raleighshire, que fica a apenas um dia, mais ou menos, a pé, e ainda mais rápido se forem com seus javalis e carroças. Vocês poderiam chegar antes mesmo de alguém perceber que saíram.
Uhtred alisou a barba, recostando-se e fechando os olhos ao fazê-lo.
— Fletcher estaria aberto a essa sugestão? — perguntou Briss, voltando o seu rosto velado para o rapaz. — Ele pode não querer a gente lá: é a terra dele. E as pessoas de Pelego talvez não gostem da ideia de compartilhar seu novo lar com um monte de anões. O povo de Corcillum nos aceitou, mas os humanos de uma aldeia rural como Pelego podem ser mais... resistentes.
— Se eles forem parecidos com Fletcher — disse Otelo, sorrindo — não devemos ter nenhum problema.
— E se eles forem como Didric, Calista ou Jakov? — perguntou Fletcher, com o coração pesado.
A ideia de um possível conflito entre os anões e o povo de Pelego não lhe passara pela cabeça até então. Lidar com o pequeno grupo de refugiados já seria uma tarefa bastante difícil sem anões no pacote.
— Fletcher, você precisará de mais que os restos empobrecidos da população de Pelego para reviver Raleighshire — lembrou-lhe Harold, afastando as preocupações de Briss.
— Ninguém ainda concordou com nada disso — disse Uhtred, ainda de olhos fechados.
Harold levantou as mãos, frustrado, e ficou de pé mais uma vez. Caminhou até a lareira para controlar a irritação.
Finalmente, Uhtred suspirou e se inclinou para a frente antes de espalhar suas grandes mãos sobre a mesa.
— Se aceitarmos, não vou obrigar ninguém. Só irão voluntários — disse ele, olhando nos olhos de Fletcher. — E faremos tudo de forma justa. Fletcher será devidamente compensado por permitir que nos instalemos em suas terras.
— Isso é entre você e ele — disse Harold, levantando as mãos.
A atitude de Uhtred mudara. Ele estava empertigado, e sua voz tinha agora um tom de negócios.
— Você vai precisar de suprimentos para reconstruir Raleighshire — disse o anão. — Dinheiro, mão de obra, materiais. Nesse momento, você tem muito pouco dessas três coisas. Sabendo disso, podemos fornecer-lhe a última: alimentos, ferramentas, gado, transporte, tudo de que precisa para começar uma nova vida. Mas, em troca, precisaremos de mais que o simples arrendamento das terras.
— Pai... — Otelo começou a dizer.
Uhtred ergueu a mão, silenciando o filho.
— Serafim foi o primeiro a sugerir isso quando você estava na prisão, Fletcher. Trazer um terceiro sócio para nossa empreitada. Um sócio com terras, terras de verdade, não as dunas estéreis do pai. Onde existem bens a que nós, anões, e os Pasha não temos acesso, como madeira, ferro, lã. No momento, pagamos um preço exorbitante por essas matérias-primas. Isso está acabando com nossos negócios.
— Mas ninguém se arriscaria a ir contra o Triunvirato — interveio Briss. — Até a família da capitã Lovett se recusou a nos apoiar nisso.
— Bem, o que você está sugerindo? — perguntou Fletcher, a mente em disparada. Como tinham chegado a isso? Em um momento estavam comemorando seu sucesso, no seguinte ele estava negociando um acordo comercial.
— Uma parceria igualitária entre os anões, os Pasha e você — disse Uhtred. — Nosso próprio Triunvirato, por assim dizer.
Fletcher sentiu o suor escorrer pela testa. Não era assim que ele havia imaginado o fim da noite.
— E como isso funcionaria? — perguntou Fletcher. — Como seria igualitário, se estamos entrando com coisas diferentes?
— Os detalhes podem ser definidos mais tarde — disse Uhtred. — Mas garantiremos que ninguém esteja fornecendo mais que a sua justa parte. Pode confiar em nós.
Era tudo tão abstrato. Explorar uma terra que ele nunca vira antes, com um negócio que ele mal entendia. Entretanto, ele precisava de toda a ajuda que pudesse obter. Lembrou-se das choupanas em que as pessoas de Pelego tinham vivido antes. Por acaso o assentamento em Raleighshire seria melhor, sem a ajuda dos anões?
Fletcher se virou para Otelo.
— O que acha? — perguntou. Se alguém sabia os prós e os contras da proposta de Uhtred, esse alguém era o amigo.
Porém, Otelo parecia em pânico, dividido entre a família e a amizade.
— Acho que... você é quem sabe — respondeu ele, cheio de dedos. — É uma grande decisão. Só posso prometer que seremos fiéis a nossa palavra.
Fletcher sentiu medo. De alguma forma, a pressão daquela decisão era muito maior que a de quando arriscara a vida no éter. Ele queria que Berdon estivesse lá, para aconselhá-lo, mas aquele era um fardo que ele devia carregar sozinho.
— Cinquenta anões, no máximo — disse Fletcher, depois de refletir por um instante. — Pelo menos para começar. Para que eles não superem meu próprio povo em número.
— De acordo — concordou Uhtred.
— Meu povo vai precisar de acomodações quando chegar a Corcillum, antes de fazer a viagem até Raleighshire, e de suprimentos preparados para eles. Vocês poderiam providenciar isso?
— Sim — respondeu Uhtred, apontando para a escada atrás de si. — Esta taverna tem quinze quartos, e o resto das pessoas pode usar a área deste bar e o porão. Vou mandar Athol providenciar roupa de cama extra.
— E eles chegarão amanhã — disse Harold, afastando-se do fogo. — Sir Caulder mandou avisar. Tomei a liberdade de pedir que nos encontrassem em frente à taverna, já que é onde vocês estão hospedados.
Fletcher não conteve um sorriso ao ouvir as notícias. O curto período de tempo que ele e Berdon passaram juntos depois de ele ter sido solto fora fugaz; ele não se dera conta do quanto sentira saudades do rústico ferreiro até aquele momento. Por um segundo, Fletcher sentiu um nó na garganta, e lágrimas fizeram arder seus olhos. Ele as reprimiu e se levantou.
— Certo, então — disse ele, estendendo a mão. — Parceiros igualitários.
O rosto barbudo de Uhtred abriu-se em um sorriso. Ele ignorou a mão de Fletcher e o enlaçou em um apertado abraço de urso. Fletcher deu-lhe tapinhas nas costas freneticamente, sem fôlego.
— Você é da família agora — comentou Thaissa, com um sorriso, quando Uhtred o soltou.
— Como se ele não já não fosse! — rebateu Otelo, rindo. Ele segurou a mão de Fletcher, que estremeceu de dor com o poderoso aperto do anão.
— Parabéns — felicitou Sylva, sorrindo. E lhe deu um beijo rápido na bochecha.
— Bem, essa parte está resolvida então — disse Thaissa. — Harold, você tem mais notícias ruins ou podemos relaxar agora?
— Agora eu tenho boas notícias, na verdade — disse Harold, e a sugestão de um sorriso apareceu de repente em seus lábios. — Para três de vocês, pelo menos, e Cress, quando ela retornar. Acreditem ou não, eu trouxe um presente.
O rei trazia consigo um alforje de couro, deixado por um dos guarda-costas antes de ele sair. Agora, Harold a levantou com um estremecimento — o alforje era mais pesado do que parecia. Ele tilintou quando Harold o colocou sobre a mesa.
— Seus ganhos pela missão. Mil e quinhentos soberanos de ouro, por destruir os ovos dos goblins e resgatar lady Cav... ou melhor, lady Raleigh.
— Eu tinha me esquecido disso — disse Sylva, olhando para a bolsa com assombro.
O topo estava aberto, e pesadas moedas de ouro brilhavam ali dentro.
— É o bastante para cada um de vocês contratar um pequeno exército — disse Harold, com um sorriso. — Falando nisso, é outra coisa que eu vim aqui discutir.
Ele se virou para Fletcher, e o sorriso em seu rosto diminuiu um pouco.
— Fletcher, você é agora um nobre, com terras próprias. Legalmente, você tem a responsabilidade de proteger tais terras. Até pouco tempo, lorde Forsyth era o dono de Raleighshire e defendeu suas fronteiras dos orcs com os próprios homens, um grupo de guerreiros acampados no antigo desfiladeiro da montanha. Em breve, você terá de os substituir.
— Em breve quando? — perguntou Fletcher, sentindo o peso da responsabilidade descer subitamente sobre os seus ombros mais uma vez.
— Eu não sei — disse Harold. — Mas será daqui a no máximo alguns meses, antes que lorde Forsyth os chame de volta. Agora você tem recursos para isso, pelo menos. Enviei esta manhã para os quartéis principais de Corcillum a mensagem de que você precisará de homens. Devem aparecer alguns voluntários amanhã. Dependerá de você contratá-los, treiná-los e equipá-los.
Fletcher tentou não pensar nas muitas tarefas que teria pela frente. Ele nem sabia por onde começar.
Harold lhe deu um tapinha no ombro e um sorriso de desculpas. Fletcher se obrigou a sorrir de volta. O rei tinha um dom de virar sua vida de cabeça para baixo sempre que aparecia.
— Agora, vocês devem descansar um pouco — aconselhou Harold, unindo as mãos em palma. — Amanhã será um novo dia.

2 comentários:

  1. Meu Deus,tô lendo sem parar desde de ontem 🤣😅😍 esse livro é maravilhoso. Mas a Sylvia e ele tem que ficar junto ligo!

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  2. Eu pensava nesse plano de levar os anões pra terras do fletcher desde que ele as obteve

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Boa leitura! E SEM SPOILER!