13 de março de 2018

Capítulo 33

Azul não lhes dirigiu uma palavra sequer. Em vez disso, ele se ajoelhou ao lado de Meia-orelha e sussurrou no ouvido do gremlin maior. Eles discutiram por um tempo, sem que Ignácio vacilasse nem por um segundo, observando atentamente os gremlins que os cercavam.
Depois do que parece uma eternidade, Meia-orelha pareceu admitir a derrota. Suspirou profundamente e deu algumas ordens aos guerreiros que o cercavam. Estes hesitaram, como se confusos, até que, lenta mas seguramente, baixaram as zarabatanas.
Em reação, Fletcher instruiu Ignácio a sair do peito de Meia-orelha, sem baixar a cauda. Eles todos ainda estavam à mercê dos gremlins, e o rapaz ainda não queria abrir mão da cartada que lhe restava.
— Obrigado — agradeceu Fletcher, curvando a cabeça para Azul.
Mais uma vez Azul os ignorou, passou pela multidão e entrou na selva. Estranhamente, os outros gremlins fizeram o mesmo, desaparecendo nos túneis. Só restou Meia-orelha, encarando os viajantes com ódio nos olhos.
O suor escorreu pelas costas de Fletcher enquanto ele esperava, tentando ignorar o olhar do gremlin. Percebendo que o sol estava quase se pondo, perguntou-se quanto tempo teriam ficado inconscientes. Se tivessem sido só algumas horas, não seria um grande problema. Mas se tivesse se passado mais de um dia, então seria possível que perdessem o encontro com as outras equipes.
— Então... o que fazemos agora? — murmurou Sylva atrás dele, a primeira a se recuperar dos dardos.
Ela se arrastou para mais perto e apoiou a cabeça no ombro dele. Fletcher não sabia se era por causa da paralisia, do cansaço ou alguma outra coisa, mas pouco lhe importava. Não ficava assim tão perto de outra pessoa havia muito tempo, e a sensação era boa.
— Nada — sussurrou Fletcher.
O rapaz apoiou a cabeça na dela e os dois ficaram sentados ali, observando o sol poente filtrado pelas folhas acima. Apesar da situação, seu coração acelerado se acalmou. Só o olhar implacável de Meia-orelha estragava o momento perfeito.
— Você está sangrando — constatou Sylva de repente.
Ela ergueu a cabeça, e Fletcher viu uma mancha vermelha na têmpora da elfa.
— Sua bochecha — murmurou Sylva, tocando-a gentilmente.
Era onde a lança do goblin o tinha cortado. O ferimento era fundo, mas, por algum motivo, não doía. Um efeito colateral da paralisia, talvez.
— Permita-me — disse ela, traçando um símbolo de coração no rosto dele. Formigou estranhamente conforme o mana se unia à pele. Então o pulso frio e reconfortante de energia curativa começou a fechar o ferimento.
— Obrigado — agradeceu ele.
Ela lhe observou o rosto, os lábios entreabertos em concentração. Os grandes olhos azuis da elfa se encontraram com os de Fletcher, que sentiu uma vontade súbita de se inclinar para mais perto.
Então Cress grunhiu atrás deles, meio se erguendo do chão. Os cotovelos vacilaram, e ela desabou, espirrando lama e plantando a cara no traseiro de Otelo.
— Uhh... uma ajudinha aqui — resmungou ela, a voz abafada pelas calças do anão.
O momento de Fletcher com Sylva havia se perdido, mas ele não teve como não rir em voz alta. Segurou as costas da jaqueta de Cress e a puxou.
— Maldição — ofegou ela, respirando o ar fresco. — Achei que ia sufocar do pior jeito possível.
Apesar da cabeçada no fundilho, Otelo roncou ainda mais alto, completamente alheio ao mundo.
— E quanto ao gremlin azul? — indagou Sylva, a expressão subitamente endurecida outra vez. — O que você não está nos contando?
— Então... eu posso ter resgatado um gremlin das rinhas na linha de frente... — admitiu Fletcher, evitando o olhar dela. Preferia a garota com quem estivera um minuto antes, mas o muro que ela mantinha entre eles havia se erguido de novo.
— Você o quê?! — exclamou Cress, tão alto que um gremlin espiou da entrada do túnel mais próximo. Ela jogou uma pedrinha contra ele, que voltou a se esconder.
— O que você quer dizer com “resgatado”? — perguntou Sylva, estreitando os olhos.
— Eu o soltei. De volta na selva — murmurou Fletcher, sentindo-se ficar vermelho com uma estranha mistura de constrangimento e vergonha.
— Você está brincando, né? — disse Cress, levantando-se com um grunhido. — Você é idiota?
Sylva estava ainda menos impressionada.
— Nós passamos os dois últimos dias tentando evitar detecção e você lhes envia um maldito mensageiro?
— Bem, ele acabou de salvar nossas vidas, então acho que foi bom o que eu fiz! — retrucou Fletcher, cruzando os braços com teimosia.
— Eles vieram nos procurar precisamente por que você o deixou escapar — argumentou Sylva, franzindo os lábios com raiva. — Eles provavelmente vêm nos rastreando há dias.
Fletcher engoliu uma resposta. O que ele tinha feito era errado, praticamente sob qualquer ponto de vista. Só que, depois de ver a criaturinha se recusar a desistir contra chances invencíveis... Ele não poderia tê-la deixado morrer. Jamais se perdoaria se o tivesse abandonado. Ao mesmo tempo, agora se perguntava se teria tomado a mesma decisão se soubesse que gremlins podiam falar.
— O que está feito, está feito — afirmou Fletcher,  balançando a cabeça. — Podemos discutir isso mais tarde. Agora temos que descobrir o que está acontecendo e como nós vamos...
Fletcher percebeu o olhar de Meia-orelha e baixou a voz a um sussurro:
— ... sair daqui.
Uma voz veio do túnel mais próximo antes que os outros pudessem responder.
— Vocês não precisam fazer isso — afirmou. Tinha os mesmos tons aflautados das vozes dos outros gremlins, porém a entonação era mais clara, ainda que um pouco rígida e formal. Um animal estranho surgiu da entrada do túnel, com Azul montado nas costas.
A criatura pareceria uma lebre das montanhas se não fosse pelo focinho um pouco estendido, orelhas mais curtas e longas e ágeis pernas. Lembrava a Fletcher de como uma lebre se pareceria se tivesse o esqueleto de um antílope e as patas traseiras de um canguru do deserto.
— Um mara! — exclamou Jeffrey. — Nunca vi um deles em carne e osso.
— É um demônio? — perguntou Cress, arregalando os olhos.
— Não, é um animal de verdade — respondeu Jeffrey, em voz baixa. — Mas um incomum.
Azul deteve o mara com um curto puxão do pelo no cangote.
— Como você fala nossa língua? — indagou Sylva, a voz carregada de desconfiança.
Azul desmontou e se agachou ao lado de Meia-orelha. Balançou a cabeça com tristeza.
— Muito gremlin está aprendendo com humanos, quando a gente somos capturado. Muito gremlin escapa das rinha. Meu amigo aqui, ele se fazeu de morrido depois de brigar cachorro. Ele é largo pra podrecer na cova com cadáver. Vocês entendão por que ele quer gremlins matar você, mesmo se é morto pelo seu demônio.
— Você aprendeu a falar com aquele sujeito grosseiro na rinha? — perguntou Fletcher, cético.
— Não. Eu aprende com outro. Com mulher nobre que vive na jaula. Escravo humano não podem falar com ela, então ela ensina eu escondido. Eu que tomou conta dela, levou comida e água, trocou a palha.
— Você conhece a capitã Cavendish?! — exclamou Sylva.
— Eu não sabe nome. Ela nunca confiou pra contar. Mas conta de terra de você. Como você odeia orc que nem nós. Eu não acreditou outros gremlins, que você mata nós como rato.
Ele deixou a voz morrer por um momento, com tristeza nos olhos enormes.
— Ela ficando maluca nos anos último. Então eu escapa e vem pra cá. Aí eu é capturado quando faz reconhecimento. Homem mau me bota em rinha. Aí você mim salva.
Era muito para processar. Mas uma pergunta seríssima continuava sem resposta.
— Onde diabos nós estamos? — indagou Fletcher.

3 comentários:

  1. Ela lhe observou o rosto, os lábios entreabertos em concentração. Os grandes olhos azuis da elfa se encontraram com os de Fletcher, que sentiu uma vontade súbita de se inclinar para mais perto.

    Tô sentindo um romance por aí...

    Ass: Mago de batalha

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu to shipando desde o primeiro livro

      Excluir
    2. Detector de Xeroque Rolmes8 de maio de 2018 12:48

      Ora, ora, ora, parece que temos dois Xeroques Rolmes aqui!

      Excluir

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!