2 de março de 2018

Capítulo 33

A lição seguinte foi dada pelo major Goodwin, um sujeito idoso, falastrão mas severo, com um nariz vermelho e um cavanhaque branco eriçado. Ele caminhava pela sala de aula, desafiando seu físico corpulento.
— A demonologia é essencial no suporte de sua feitiçaria e trabalho em éter. Diz respeito a identificação, compreensão e criação de todos os demônios, além do estudo da geografia e da diversidade do éter. Isso inclui o impacto demoníaco nos níveis de mana e na realização do conjurador. — Ele falava em explosões curtas que cobriam a primeira fila de nobres com cuspe.
Fletcher ficava feliz em ver que Tarquin estava diretamente na linha de fogo e que, julgando pela expressão de nojo em seu rosto, o rapaz não gostava de ser banhado em saliva. Infelizmente, o sorriso de Fletcher atraiu a atenção de Goodwin.
— Você, garoto, o que é a realização de um conjurador? — inquiriu ele, apontando para Fletcher.
— Hum... a satisfação dele? — sugeriu o rapaz. Não era óbvio?
— Uma resposta risível. A realização de um conjurador é relacionada a quantos demônios ele é capaz de controlar. Eu tinha esperança de que alguém afortunado o bastante para ser presenteado com um demônio raro investisse algum tempo pesquisando sobre o assunto antes da sua primeira lição. Obviamente, eu estava enganado. Uma pena — lamentou Goodwin, balançando a cabeça.
Fletcher sentiu o rosto arder de vergonha. Isadora se virou e lhe lançou um sorrisinho zombeteiro da fileira de baixo.
— Será que alguém que se preparou poderia explicar? Que tal você, Malik? — perguntou Goodwin.
— Senhor, todos os conjuradores nascem com capacidades variadas de absorção de energia demoníaca — respondeu um nobre alto, de pele escura. — Por exemplo, a capitã Lovett só tem capacidade para atrelar e controlar um Grifo e um Caruncho. Outro conjurador pode ser capaz de atrelar e controlar dois Grifos, caso tenha um nível de realização mais alto do que ela.
— Correto. O velho rei Alfric tem nível de uma centena, o mais alto jamais registrado desde que começamos a classificar demônios. Usando mais uma vez o exemplo da capitã Lovett, sabemos que ela tem um nível de realização de onze, dado que seu Grifo é um demônio classe dez, e seu Caruncho, classe um. O que mais?
— Os níveis de realização podem melhorar — acrescentou Malik depois de uma pausa.
— Como?
— Eu não sei, senhor.
Goodwin fungou longamente, com irritação.
— Insuficiente. A resposta é que os níveis crescem naturalmente em velocidades diferentes para cada conjurador com a passagem do tempo. Esse processo pode ser acelerado pelo trabalho duro do conjurador. Lovett não nasceu com um nível de realização suficiente para atrelar e controlar um Grifo. Ela teve que se esforçar muito para alcançá-lo pelo uso constante de feitiçaria, visitas ao éter e combate e atrelamento frequente de outros demônios. Alguns conjuradores passam suas vidas inteiras com um nível de realização de não mais que cinco, enquanto outros começam em cinco e se esforçam até chegar a vinte ou mais. Bem, por que vocês não estão anotando tudo isso? — gritou Goodwin, lançando perdigotos sobre a turma.
Os outros pegaram pergaminhos nas bolsas e começaram a escrever furiosamente. Fletcher fitou as mãos, infeliz, percebendo que não tinha onde anotar. Todos os outros ficaram sabendo que viriam a Vocans semanas antes e trouxeram os materiais necessários, mas Fletcher tinha se esquecido de comprar algumas coisas nos poucos dias em que estivera lá.
Goodwin se irritou ao notar a inatividade de Fletcher.
— Fletcher, não é? — rosnou ele.
— Sim, senhor — respondeu o rapaz, baixando a cabeça envergonhado.
— Enquanto os outros estão ocupados aprendendo, talvez você possa me dizer o que acontece a um demônio depois que seu conjurador morre?
Fletcher contemplou a questão, ansioso para se redimir, mesmo que fosse por deduções. Ele sabia que demônios mortos eram frequentemente preservados em jarros e vendidos como curiosidades. Mas certamente alguma coisa tinha que acontecer quando o conjurador morria e deixava o demônio desatrelado... a não ser que a pergunta fosse uma pegadinha? Fletcher se lembrou da história de Rotherham sobre Baker e o demônio que não o abandonava, mesmo na morte. Talvez fosse um truque.
— Nada, senhor — respondeu Fletcher, confiante. Porém, seu coração afundou ao ver Tarquin sorrir. Sabia que tinha errado antes mesmo de Goodwin abrir a boca.
— Ridículo. Você não sabe absolutamente nada sobre demônios? Quando um conjurador morre, seu demônio permanece em nosso mundo por apenas algumas horas, antes de ser reabsorvido de volta pelo éter. Para ficar vivo no nosso mundo, ele precisa estar atrelado. É essa conexão que os mantém aqui. Caso contrário, eles simplesmente desvanecerão. Ou você achou que havia demônios selvagens correndo por aí? — Goodwin falou bem alto para que todos ouvissem, e a reação geral foi um aumento generalizado na intensidade das anotações.
Desgostoso, o professor deu as costas ao menino e foi até a parede atrás de si. Havia vários rolos longos de pergaminho encostados ali, dos quais ele pegou um, desenrolou e fixou na parede. Era um diagrama detalhado de um Caruncho em preto e branco, com várias estatísticas e números abaixo.
— Hoje vamos aprender sobre Carunchos, o nível mais baixo de demônio, afora seus vários outros primos na base da cadeia alimentar, os quais não vale a pena capturar. Sei que temos dois deles aqui hoje, especificamente Escaravelhos, os mais poderosos da família Caruncho. Fracos em mana, tamanho e força, mas úteis como batedores. Muito bons em distrair o inimigo durante uma luta, especialmente se atacarem os olhos. Genevieve e Rory possuem Escaravelhos juvenis, mas em alguns meses vão desenvolver ferrões, que podem causar paralisia de baixo nível e uma dor nada insignificante. Um enxame de dez ferrões pode matar um orc touro, portanto não subestimem o poder do veneno.
— Fantástico! — exclamou Rory em voz alta, em seguida cobriu a boca com as mãos. Todos riram, exceto Goodwin, que fungou com irritação.
A lição continuou nesse estilo por várias horas, listando inúmeros dados e discutindo os hábitos de alimentação e criação do Escaravelho. Fletcher observou deprimido enquanto páginas e mais páginas de anotações se empilhavam nas carteiras dos outros, até que Otelo o cutucou com o pé e sussurrou:
— Não se preocupe, você pode copiar minhas anotações mais tarde.
Durante o almoço, Fletcher conseguiu pegar uma pena emprestada de Rory e um maço de pergaminhos com Genevieve, agora estava mais bem preparado para a segunda metade da aula.
Entretanto, quando voltaram, o rapaz se surpreendeu ao encontrar Cipião esperando por eles na sala de aula, com uma expressão de impaciência no rosto.
— Fletcher, vá se apresentar na biblioteca. Você ainda não entregou o livro de James Baker, apesar de ter recebido ordens de levá-lo à bibliotecária há vários dias — ralhou ele, irritado. — Major Goodwin, você se incomoda?
— Não com esse cadete — resmungou Goodwin. — Ele foi uma decepção.
Cipião ergueu as sobrancelhas para Fletcher mas não disse nada. O rapaz juntou seus pertences, corado de humilhação. Ele tinha mesmo causado uma impressão tão ruim?
— Caramba, eles levam os livros atrasados a sério mesmo nessa biblioteca daqui, hein? — murmurou Rory no seu ouvido.
— Encontro você lá. Não se esqueça de levar o livro — instruiu Cipião a Fletcher, saindo sem olhar para trás.
O garoto correu escada acima, amaldiçoando seus esquecimentos. Ele tinha esquecido de escrever para Berdon, de entregar o livro e, acima de tudo, de examiná-lo.
Fletcher lembrou a si mesmo que na carroça de ovelhas estivera escuro demais para conseguir ler, um fato que o aborrecera bastante. Tinha sido uma jornada incrivelmente quente e fétida sem nada para se distrair além dos próprios pensamentos. Mesmo assim, Fletcher definitivamente tinha tido tempo de lê-lo na noite anterior.
Depois de correr até o topo da torre, recolher o livro e descer de volta à biblioteca, Fletcher estava ofegante. Apoiou-se na parede e tentou se recompor. Não queria piorar ainda mais a opinião que Cipião tinha dele, chegando ao local todo suado e atrapalhado.
— O que você está esperando, Fletcher, já para dentro! — vociferou Cipião atrás dele, fazendo o menino pular. O reitor pôs a mão no ombro do aluno e o conduziu para o interior do aposento.
Os dois entraram na biblioteca juntos, e o cheiro bolorento de livros velhos trouxe memórias da cripta de Pelego de volta à mente de Fletcher. Aquilo tudo tinha mesmo acontecido havia meras semanas?
— Ah, aqui está você. Tenho de admitir que estava antecipando este momento. Obrigada por tê-lo trazido, reitor Cipião — disse uma voz vinda de trás das prateleiras. Momentos depois, uma mulher de meia-idade com cabelos loiros encaracolados e óculos de armação dourada emergiu das estantes de livros. Ela tinha uma aparência de matrona e um rosto sincero.
— Esta é a dama Rose Fairhaven, a bibliotecária e enfermeira de Vocans. Ela já está conosco há muito tempo — murmurou Cipião.
— Ora ora, reitor, você me faz parecer uma velhinha. Não faz assim tanto tempo! Bem, deixe-me ver o tomo. Vamos dar uma olhada.
Ela chamou os dois até uma mesa baixa iluminada por uma infinidade de velas bruxuleantes.
— Coloque-o aqui onde todos podemos ver. Arcturo me explicou a origem do livro. Eu me lembro de James Baker. Rapaz calado, sempre desenhando. Tinha o coração de um artista, não de um guerreiro. Não nasceu para ser soldado. Lamento saber o que aconteceu com ele. — Ela suspirou e se sentou à mesa.
Fletcher pousou o livro e os dois se juntaram à bibliotecária, inclinando-se para mais perto enquanto ela folheava o tomo com um ar experiente.
— Isto é incrível! — exclamou a dama Fairhaven.
As páginas estavam cheias de esboços intrincados de demônios com uma caligrafia fina e elegante abaixo. O nível de detalhamento era extraordinário, com estatísticas e medidas muito semelhantes ao pergaminho de Caruncho usado pelo major Goodwin para dar aula.
— Ele estava estudando demônios da parte órquica do éter, sua fisiologia e características. Provavelmente dissecava quaisquer demônios órquicos preservados nos quais conseguia colocar as mãos! É exatamente disto que precisamos para nossos arquivos. A maioria dos magos de batalha parece ter esquecido um dos ditos mais importantes de um soldado: conheça seu inimigo. Talvez agora, que está tudo registrado, eles comecem a levar isso mais a sério.
Fletcher sorriu, feliz por finalmente ter sido capaz de contribuir, mesmo indiretamente.
— São notícias excelentes, dama Fairhaven, mesmo que eu tivesse esperanças de que o livro nos desse mais informações sobre como Baker encontrou o pergaminho de conjuração da Salamandra de Fletcher — comentou Cipião, com um toque de decepção na voz.
— Na verdade, dama Fairhaven, se a senhora olhar no final, deve haver alguma coisa sobre esse assunto. Acho que Baker esteve escrevendo um diário perto do fim — sugeriu Fletcher.
Ela passou as páginas até chegar às últimas, onde os diagramas terminavam e as folhas estavam cobertas de linhas de texto.
— Esperem, o que é isso? — indagou a dama Fairhaven, puxando o pergaminho de conjuração coriáceo e o examinando à luz.
— Eu... não tocaria nisso se fosse a senhora — gaguejou Fletcher.
— Sei do que isto é feito, Fletcher — retrucou a bibliotecária, manuseando o material com fascinação. — Já vi um destes, muitos anos atrás. Inscrever um pergaminho por meio da escarificação da pele de um inimigo era o método costumeiro dos velhos xamãs orcs para presentear demônios aos aprendizes. Não é tão comum nos dias de hoje, porém. Vamos ver o que Baker tinha a dizer sobre o assunto.
Os olhos dela esquadrinharam as páginas enquanto Fletcher e Cipião esperavam pacientemente. A dama Fairhaven parecia estar lendo numa velocidade incrível, mas, bem, ela era uma bibliotecária, afinal. Pouco tempo depois, fechou o livro e o pôs de lado.
— Pobre James — comentou, balançando a cabeça. — Ele estava bem deprimido perto do fim; ninguém levava a pesquisa dele a sério. Os outros magos de batalha não o respeitavam porque ele era um conjurador fraco. Fora amaldiçoado com um nível de realização três, pobre coitado. Desconfio que sua malfadada missão floresta adentro foi uma tentativa desesperada de encontrar um xamã orc e, de alguma forma, descobrir as chaves que eles usam.
— Insensatez da parte dele — escarneceu Cipião, lançando as mãos ao ar. — Os xamãs orcs sabem que queremos descobrir quais chaves eles usam, então nunca entram no éter perto das linhas de frente. Agora me conte sobre esse pergaminho. Ele é o motivo de todo esse rebuliço, afinal.
— Diz aqui que ele encontrou o rolo enterrado num velho acampamento órquico. Num trecho mais anterior do diário, ele conta que encontrou muitos ossos no mesmo sítio, tanto de humanos quanto de orcs. Suspeito que o acampamento dos orcs tenha sido atacado no meio da cerimônia de concessão de demônio, e o rolo de pergaminho foi enterrado numa vala comum. Os homens que sepultaram os corpos provavelmente não sabiam de sua importância — explicou a dama Fairhaven, acariciando o documento com fascinação mórbida.
— Inútil! — resmungou Cipião, com a voz cheia de desapontamento. — Uma mera coincidência. Duvido que encontraremos quaisquer outros pergaminhos escavando esses ossos velhos. Faça uma cópia do livro sem o diário e o mande aos magos de batalha.
— Sim, senhor, começarei esta noite. Se bem que devo precisar contratar alguns escribas para copiar as ilustrações direito — respondeu a dama Fairhaven, folheando o livro distraidamente.
— Pode contratar. Pelo menos algum bem adveio de tudo isso — disse Cipião enquanto saía da biblioteca. — Além da sua presença aqui, é claro, Fletcher — acrescentou, do corredor.
Fletcher fitou o livro com cobiça. Não podia acreditar que tinha deixado para lê-lo tão tarde, por maior que fosse. A dama Fairhaven continuou passando as páginas e, quando Fletcher se endireitou, ela ergueu o olhar para ele, como se tivesse se esquecido de sua presença.
— Por favor, me desculpe, Fletcher, é que estou tão fascinada por este livro. Muitíssimo obrigada por tê-lo trazido. Temo que terei que ficar com ele até que cópias suficientes tenham sido feitas, o que deve levar alguns meses. Você poderá ficar com ele depois disso.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!