22 de março de 2018

Capítulo 32


Houve celebrações naquela noite. A Taverna da Bigorna reabriu novamente as portas, com as tábuas que cobriam suas janelas empilhadas e queimadas na lareira, além de mesas bambas trazidas do porão e cobertas com comidas e cerveja.
A maioria dos convidados era formada pelos recrutas anões, que deram um jeito de escapar do acampamento nos arredores de Corcillum. Era difícil dizer quantos estavam apinhados ali, e Fletcher viu-se apertado ao lado de uma mesa baixa de anões morenos, resistindo à tentação de beber dos jarros de cerveja que eles lhe ofereciam generosamente de tanto em tanto.
Todos sabiam quem ele era, sabiam o que ele e seus amigos tinham feito pelos anões. Havia tantas canecas de cerveja a sua frente que não sabia o que fazer. Uhtred passara a maior parte dos últimos dias em profunda conversa com os recrutas: era ele o responsável pela performance dos anões naquele dia, embora a coisa toda tivesse sido quase por um triz.
Canções enânicas eram cantadas simultaneamente em diferentes cantos do salão, e cada grupo tentava abafar os outros em uma cacofonia de vozes graves. Sylva e Cress tinham sido adotadas por uma mesa oposta, e suas vozes doces trinavam acima de todas, para o encorajamento dos homens ao redor.
Um instrumento estranho que parecia uma mistura de gaita de foles com trompete tocava uma melodia que, de alguma forma, conseguia ser a única canção que ninguém estava cantando.
Toda a família Thorsager estava ocupada atrás do balcão do bar. A reunião feliz entre Otelo e os membros masculinos da própria família fora rapidamente substituída pela necessidade de atender à enorme quantidade de clientes famintos. As comidas tradicionais dos anões vinham sendo trazidas da pequena cozinha nos fundos a uma velocidade impressionante, e desapareciam goela abaixo com a mesma rapidez.
Fletcher estava competindo em condição de igualdade com os soldados famintos, pois se deleitava com a variedade de alimentos e deliciosos sabores. Pães macios com castanhas e frutas eram arrancados aos nacos, um aperitivo para os montes de bolinhos ao vapor recheados com alho e carne de porco. Cestos de tubérculos fritos pareciam ser o prato que mais fazia sucesso — pastinaca, inhame e mandioca tinham sido cortados em fatias finas e temperados com sal grosso, e vinham à mesa douradinhos e ainda chiando.
Só agora Fletcher começava a se dar conta de que seus problemas imediatos podiam ter chegado ao fim, e, pela primeira vez em um longo período, ele se pegou pensando em Pelego, seu antigo lar. Mas Pelego tinha desaparecido. Berdon — era o velho ferreiro o verdadeiro lar de Fletcher.
Mas ele não tinha como saber onde estariam seu pai adotivo e os outros aldeões. A viagem de Pelego para Raleighshire era perigosa, patrulhada por bandidos e golpistas.
Ele já estava planejando fazer um voo de manhã para checar como estariam as estradas principais para a viagem. Ele havia percorrido o trajeto escondido em uma carroça de ovelhas que, até onde ele sabia, podia ter feito uma série de desvios na rota. Aquela jornada tinha levado duas semanas, mas a deles... bem, eles poderiam chegar a qualquer momento entre o minuto e o mês seguinte.
Foram esses pensamentos que percorriam sua mente quando as portas da taverna se abriram e homens encouraçados entraram, as lanças cruzadas em uma barreira sólida de madeira e aço.
O coração de Fletcher deu um pulo, mas ele logo relaxou quando viu Harold atrás deles, as mãos para cima e um sorriso de desculpas no rosto.
O ânimo do salão despencou mais rápido que uma bola de canhão ante aquela aparição, e Harold arrastou os pés com dificuldade até a miríade de rostos barbados que o encaravam. Começou o zumbido dos murmúrios.
— Rapazes, desculpem interromper — disse Harold, seu rosto ficando sombrio depois de conquistar a atenção do grupo. — Mas devo pedir-lhes para irem embora imediatamente.
O murmúrio se transformou em silêncio. Então:
— Ah, dê um tempo! — gemeu um dos anões mais inebriados. — Venha tomar uma bebida aqui com a gente.
Harold deu ao anão um sorriso forçado, mas poucos dos outros anões riram. Os anões sabiam que Harold era amigo de seu povo, mas a intrusão naquela noite não era bem-vinda. Fletcher percebeu que ele havia calculado mal a situação. No fundo, tinha dúvidas se os anões obedeceriam às ordens. Seria realmente para valer o juramento que tinham feito poucas horas atrás?
— Uhtred — chamou Harold — Fletcher, Otelo. Poderia ter uma palavrinha com vocês? Continuem por agora, rapazes.
Os três abriram caminho entre os anões e abaixaram-se para passar pelas lanças. O feitiço já fora rompido; a música parara, e murmúrios descontentes começaram a percorrer a sala.
— São os Pinkertons — murmurou Harold em voz baixa. — Eles ainda estão nos arredores do Bairro dos Anões. Meu pai não ordenou sua retirada.
— Por quê? — perguntou Otelo, as sobrancelhas franzidas. — Eles deveriam estar longe daqui a uma hora dessas.
— Depois do que viu hoje, ele... ficou furioso. Quando voltamos ao palácio, ele disse que talvez arriscasse seguir com o plano de qualquer maneira. Mesmo sem o apoio do povo nem dos soldados, ele está pensando em mandar os Pinkertons invadirem as casas dos anões, achando que isso será o bastante para provocar um levante, especialmente se os Pinkertons perturbarem um pouco as mulheres. Palavras dele.
— Mas, se ele ordenasse isso agora, seria visto como um monstro — grunhiu Uhtred, olhando por cima do ombro para ter certeza de que os outros anões não conseguiam ouvi-lo. — Foi por isso que ele não fez o discurso hoje: as pessoas se voltariam contra ele, e ele perderia todo o poder.
— Bem, se os anões não resistirem e começarem a lutar contra os Pinkertons, claro, é verdade, mas, se resistirem, ele terá uma rebelião nas mãos, que poderá reprimir com o máximo de violência possível. Eu o convenci de que não há nenhuma chance de isso acontecer, então, por enquanto, estamos ganhando tempo. Mas, se ele descobrir que há uns cem anões bêbados numa taverna da estrada, ele vai arriscar. Precisamos tirar todo mundo daqui. Agora!
Uhtred fechou os olhos e apertou os punhos.
— Não importa o que façamos, sempre há algo mais, alguma nova ameaça — disse, com a voz estrangulada pela emoção. — E se não tivermos sorte na próxima vez? O que vai ser então?
— Vamos discutir isso daqui a pouco. Agora preciso que você retire esses homens daqui antes que algo ruim aconteça.
Uhtred se virou e voltou a cruzar as lanças cruzadas dos guardas reais. Subiu em uma mesa e se dirigiu à multidão:
— A taverna está fechada. Todo mundo para fora. Levem tanta comida quanto conseguirem carregar, mas deixem a cerveja. Athol, Átila, Cress, Thaissa... certifiquem-se de que todo mundo está indo direto para o acampamento. Sem exceções.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!