13 de março de 2018

Capítulo 32

A prisão era feita de galhos resistentes e entrelaçados; era mais uma cesta esférica que uma jaula. Balançava de um galho acima, dando trancos de um lado ao outro com o vento.
— Estamos acabados — sussurrou Jeffrey,  espiando pelos vãos entre os galhos.
Haviam acordado ali uma hora antes, com as roupas cobertas de terra após terem sido arrastados pela selva.
Todas as ideias de fuga foram abandonadas depois da primeira tentativa. Otelo forçara o braço por entre os galhos, tentando arrombar um buraco por onde poderiam passar. Alguns instantes depois, ele roncava alto, com mais um dardo na mão.
É claro, havia sempre a opção de um escudo, mas as reservas de mana tinham sido gastas na batalha, e as armas, tomadas. Sem falar no fato de que seria uma boa queda até o chão caso destroçassem a jaula.
— O que você vê? — perguntou Fletcher. Estava desconfortavelmente espremido entre os pesados corpos de Sariel e Lisandro. Atena havia se ajeitado no pescoço de Lisandro, a cauda se curvando preguiçosamente sobre seu bico. De todos eles, ela parecia a melhor em manter a calma, aproveitando a oportunidade para cochilar.
— Ainda gremlins. Nenhum sinal de orcs por enquanto — murmurou Jeffrey.
Fletcher torceu o corpo e espiou pelo buraco que Otelo havia feito.
Eles estavam suspensos sobre uma larga clareira na selva profunda, a mata circundante tão densa que levaria o dia inteiro para abrir caminho por ela. Tocas profundas, parecidas com exagerados buracos de raposa, tinham sido escavadas a toda volta. Gremlins patrulhavam os limites, carregando zarabatanas com quase o dobro do próprio tamanho.
— Parecem goblins em miniatura — observou Cress, espremendo-se ao lado dele. — Mas com narizes e orelhas mais compridos.
Fletcher grunhiu em concordância, mal prestando atenção. Ele estava confuso com esses gremlins armados. Tudo que aprendera sobre as criaturas lhes dissera que eram pouco mais que escravos, seres acovardados e obedientes ao extremo. Só que aqueles ali pareciam muito mais hostis, e ele via vários apontando para a jaula, em debate profundo.
— Posso dar uma olhada melhor? — indagou Cress, chegando mais perto. Na escuridão, Sylva tossiu alto.
Cress espiou pelo buraco, e Fletcher teve que se perguntar como Sylva poderia pensar que a anã seria capaz de matá-lo. Não era possível.
Um grito como o de uma águia soou abaixo. Os gremlins cessaram a patrulha, e, em uníssono, as zarabatanas foram apontadas para a jaula.
— Ah... droga — sussurrou Cress.
Dardos metralharam a jaula, muitos ricocheteando, apenas para serem recolhidos e usados de novo. Não demorou muito para que a maior parte da equipe fosse atingida. Fletcher mal teve tempo de examinar o dardo antes de sucumbir ao veneno. Tinha minúsculas penas amarelas, como as de um periquito, enquanto a ponta era um espinho afiado cortado de uma árvore.
Daquela vez, ele não sentiu a consciência se apagando. Em vez disso, uma fria dormência se espalhou a partir da coxa, no ponto onde o dardo tinha acertado. Era muito parecido com a sensação de quando Rubens o ferroara na cela, só que menos potente. Ele ainda conseguia mover as mãos e pernas, ainda que de forma vagarosa. Mais algumas doses provavelmente o teriam deixado completamente paralisado, mas os corpos de Lisandro e Sariel o protegeram do grosso do ataque. Ele talvez fosse capaz até de um feitiço se pudesse erguer a mão a tempo. De qualquer maneira, não ajudaria muito naquela situação.
Ignácio tinha usado uma enorme quantidade de mana ao queimar o orc, mas ele logo descobriu que as reservas de Atena, ainda que menores, mal foram tocadas. Os níveis de mana de Fletcher tinham praticamente dobrado no momento em que ele a conjurara. Era suficiente para um poderoso escudo que poderia mantê-los vivos por um pouco mais de tempo, caso os gremlins decidissem matá-los.
Fletcher sentiu um solavanco enjoativo no estômago, e então houve um baque de chacoalhar os ossos quando a jaula encontrou o chão. O grupo grunhiu de dor, os corpos se chocando uns contra os outros. Mãos ossudas agarraram os galhos enquanto facas serrilhadas os cortavam. Pareciam ser dentes de tubarão embutidos em adagas de madeira, não muito diferentes das clavas dos orcs.
Levou apenas um momento para a jaula se abrir como um ovo partido, fazendo os ocupantes piscarem diante da nova luz.
Olhos de sapo os espiavam de cima das zarabatanas, as pontas ocas ameaçadoras como canos de pistolas. Uma discussão soou atrás da multidão na mesma linguagem de cliques que Fletcher ouvira de Azul na rinha. Fletcher ergueu as mãos lentamente, depois se xingou em voz baixa. Agora eles sabiam que ele não estava paralisado.
— Quietagora, quietagora — chilreou o mais próximo, chutando o peito de Fletcher. Não doeu, mas ele mal se permitiu respirar. Foi aí que ele percebeu que Ignácio não tinha sido sequer atingido, pois o corpo esguio tinha se encaixado com facilidade entre Fletcher e Cress. Seria o momento de fazer uma manobra?
No momento em que o pensamento cruzou a sua mente, um gremlin abriu caminho pela multidão. Era um pouco maior que os outros, com metade de uma orelha faltando e um olhar de desconfiança no rosto.
— Por que tu taqui? — silvou o gremlin, ajoelhando-se e apertando uma adaga contra a pele ferida do pescoço de Fletcher. A voz dele, muito como aquela do outro gremlin, lembrava a Fletcher de como um pássaro soaria se pudesse falar.
— Nós matamos orcs — ofegou o rapaz, os dentes cruéis se cravando em sua garganta. Era difícil falar, com a língua lerda por causa do veneno paralítico.
— Humano mata gremlin — sussurrou Meia-orelha, provocando um chilreio geral de concordância dos outros em volta. — Humano mata mais gremlin que orc.
Naquele momento, Fletcher percebeu que era verdade. Quando os militares atacavam a selva, os gremlins muitas vezes eram tudo que encontravam. As pobres criaturas eram massacradas com impunidade pelos soldados frustrados, ansiosos para matar algum inimigo.
— Eu salvei um gremlin! — exclamou Fletcher,  enquanto a pressão da faca aumentava. — Eu salvei o gremlin azul.
Com essas palavras, o silêncio caiu. Foi então que Ignácio decidiu agir, saltando dos corpos paralisados dos outros e derrubando Meia-orelha no chão. O ferrão da cauda pairou sobre o olho do gremlin e então ele latiu, desafiando as criaturas a atacar.
Fletcher se sentou, usando o lombo de Lisandro como apoio. O Grifo inteligente mantinha os olhos fechados, ou talvez a capitã Lovett continuasse no controle. Se eles estivessem prestes a morrer, ela não ia querer que o mundo assistisse.
Houve uma comoção em meio aos gremlins que os cercavam, em algum ponto no fundo. Um deles abria caminho até que parou ao lado de Ignácio, o peito magro ofegando de exaustão.
O gremlin mancava e segurava um arpão farpado, mas não era isso que o destacava dos outros. Não, era a cor que ainda tingia os ombros e costas do gremlin; desbotada, mas ainda claramente visível.
Era Azul.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!