22 de março de 2018

Capítulo 31

A barulheira atingiu Fletcher como uma parede sólida. A praça era enorme, e milhares de pessoas estavam reunidas ali, cercando um cordão vermelho onde os soldados se concentravam em fileiras arrumadas. Esticando o pescoço, Fletcher registrou três das estradas da praça cheias de pessoas, deixando livre uma única via, através da qual os batalhões de soldados continuaram a marchar.
— Vamos encontrar um bom lugar! — gritou Sylva.
Sua voz mal era audível por sobre o canto das massas reunidas. Ela agarrou a mão de Fletcher e o arrastou através de uma lacuna na multidão.
O rapaz, por sua vez, teve apenas tempo suficiente para pegar a manga de Cress antes que avançassem. Logo o mundo de Fletcher se viu cheio de cotovelos, pisões e xingamentos irritados enquanto eles lutavam para passar pelos corpos apinhados.
Enfim, de alguma forma, eles conseguiram passar. Suas barrigas ficaram pressionadas contra o cordão enquanto a quantidade de espectadores engrossava de todos os lados. Agora que tinha uma visão clara, Fletcher viu que fora levantada uma plataforma coberta com um teto ornamentado de lona no centro da praça, com uma estreita fila de guardas reais que cercavam a base. Sobre ela estavam duas figuras familiares, sentadas em tronos extravagantes. Alfric lançava um olhar gélido para as fileiras uniformizadas abaixo, enquanto no trono maior a seu lado estava o rei Harold, com um sorriso benevolente. Ele parecia calmo demais para o gosto de Fletcher. Teria ele esquecido o que uma rebelião de anões poderia significar para Hominum? Não estaria pensando nos milhares de vidas que se perderiam em ambos os lados, na vulnerabilidade do império com um exército dividido, combatendo uma guerra em duas frentes?
— Ele é um bom ator, não? — Sylva meio que gritou no ouvido de Fletcher, como se pudesse ler sua mente.
Fletcher torcia para que fosse o caso. Ele se encontrara com o rei em somente três breves ocasiões, e agora o futuro da raça dos anões parecia residir na capacidade deste de manipular o pai déspota. Fletcher só esperava que sua confiança não fosse infundada. Quem saberia o jogo de Harold?
Apenas algumas das tropas adiante eram formadas pelos garotos sem barba que eles tinham visto da varanda. A aparência dos outros era mais desleixada, a maioria com camisas para fora da calça e barbas desgrenhadas. Enquanto os garotos ficavam eretos, em estado de sentido, aqueles homens se curvavam e cuspiam no chão; alguns, inclusive, davam tragos em cantis de bebida que levavam nos quadris.
Fletcher pensou que pudessem ser veteranos da linha de frente, mas os uniformes eram novos. Suspeitou que pudessem ser condenados recrutados nas prisões de Didric — assaltantes, ladrões, embusteiros e todo o resto dos indesejáveis a quem fora oferecida a liberdade em troca do alistamento.
Um viva animado chamou sua atenção para a entrada, e, por um momento, ele sentiu um raio de esperança de que fossem os anões chegando.
Mas não, eram os Dracons, que vinham entrando na praça todos empertigados, com a mão direita encostada na testa em uma saudação ao rei.
Quando chegaram a seus lugares, até os demônios se ajoelharam em reverência, dobrando uma das pernas dianteiras e estendendo a outra em um gesto de subserviência. O efeito de suas fileiras disciplinadas foi apenas ligeiramente prejudicado pelos demônios menores, que acompanhavam seus mestres aleatoriamente ao lado das filas — em sua maioria Canídeos, Felídeos e Vulpídeos. Sacarissa estava entre eles, a grande língua rosada para fora, ofegando sob o calor do céu limpo e brilhante. Havia agora espaço na praça para apenas mais um regimento.
Então, como se tivessem recebido algum sinal, as pessoas aglomeradas caíram em silêncio. Porque, logo além dos Dracons, brilhando em meio à bruma de calor, os anões vinham marchando.
Mesmo à distância, Fletcher percebeu que seus uniformes e armamento eram diferentes. O reluzir do metal cintilava dos elmos arredondados e da cabeça dos machados de batalha carregados às costas. Eles também levavam mosquetes, embora fossem um pouco mais curtos, para combinar com sua altura, e não tivessem as baionetas fixas daqueles dos soldados humanos. O mais estranho de tudo eram suas roupas descombinadas — os casacos vermelhos que usavam sobre as camisas eram iguais, porém o resto das vestimentas era formada de roupas tradicionais dos anões, de couro pesado e tecido de lona.
O silêncio se manteve enquanto os anões em marcha se aproximavam. Os espectadores de cada lado não faziam nada além de assistir, de vez em quando inclinando-se para sussurrar alguma coisa a alguém ao lado. Agora, Fletcher conseguia ver o suor nas testas dos anões, a exaustão em seus rostos.
Esses homens haviam marchado de uma extremidade do Hominum à outra, para apresentarem-se ao rei e ao país. Será que se ajoelhariam, depois de tudo o que havia acontecido? Eles tinham se juntado ao exército antes dos ataques dos Bigornas, antes que o ódio se espalhasse, se tornasse lugar comum. Era um truque inteligente de Alfric, obrigá-los a se ajoelhar.
Fletcher olhou os rostos à volta. Muitos estavam inexpressivos; outros, solenes. Um homem semicerrava os olhos. Seria raiva em seus olhos... ou apenas o sol?
Apesar disso, os anões seguiram em frente. Agora Fletcher podia ouvir seus passos pesados, o tilintar do metal. A seu lado, a respiração de Otelo ficou espessa e acelerada. O silêncio era ensurdecedor. Seria a apatia da multidão o suficiente para que Alfric fizesse seu discurso?
Fletcher olhou para cima: o velho rei estava com o cajado, em cuja ponta destacava-se a carapaça preta do Caruncho. O demônio estava à mostra, encarando os anões que se aproximam. Toda Hominum estaria observando as coisas por seus olhos.
Os anões chegaram à praça. Ainda nenhuma reação da parte das multidões que assistiam além dos sussurros baixos que Fletcher não conseguia discernir. Então, os anões se postaram diante da plataforma, os olhos voltados diretamente para a frente. Harold se levantou do trono.
— Povo de Corcillum — começou ele, com uma voz anormalmente alta: estavam usando o feitiço amplificador. — Estamos reunidos aqui para prestar homenagem aos homens e mulheres que protegem nosso império das hordas selvagens reunidas logo além do horizonte.
Suas palavras ecoaram em torno da praça, o som interrompido apenas pelo barulho da lona agitando-se ao vento acima e pelo ruído de uma brisa suave.
— Em homenagem a seu sacrifício, vamos cantar o hino nacional. Banda, por favor!
Ao comando, os tambores e as caixas começaram a batida lenta e deliberada que abria a introdução daquela música antiga. Os sargentos sopraram seus cornetins, em geral usados para sinalizar ordens aos homens no calor da batalha. Em uníssono, os metais juntaram sua fanfarra à melodia.
Era uma música tão antiga quanto o próprio império e tinha sido cantada pelo primeiro governante da nação, o rei Corwin, com seus homens, enquanto seguiam rumo à batalha que expulsou os orcs de volta às selvas. O hino mais parecia um cântico curto que qualquer outra coisa, mas todas as garotas e garotos de Hominum o conheciam de cor.
Um arrepio percorreu o corpo de Fletcher quando ele olhou para o palco. Alfric sorria, exultante. Aquela era uma música cheia de história, manchada pela lembrança de quando os anões perderam sua pátria para os invasores humanos.
Alfric não achava que os anões a cantariam, nem sequer que conheceriam a letra. Tudo aquilo fazia parte de seu plano, e Harold fora obrigado a seguir com aquilo.
Alfric, porém, estava enganado.

Ouçam-nos, inimigos, por terra ou mar,
Nossos rapazes marcharão
Até o inferno e depois voltarão
Para a luta vos levar

Os anões cantavam em um barítono profundo, as vozes graves erguidas acima da recitação dispersa da multidão.

Jamais nos verão vacilar
sem atender ao chamado do dever,
Nosso exército nenhum de vós poderá derrotar,
Para assistir a nossa bandeira tombar.

Até mesmo o som de milhares de pessoas cantando juntas se perdeu em meio à gravidade do coro dos anões, tanto que muitas das vozes da multidão começaram a calar-se, envergonhadas pela própria falta de fervor.

Trazei todos os seus soldados, por mar ou terra!
Sob o comando de nosso rei
Até o último suspiro lutaremos esta guerra!

Os anões cantaram com toda a potência a estrofe final, as cabeças jogadas para trás, as vozes subindo com o crescendo das trombetas e tambores. Nem sequer os grosseiros soldados eram páreo para o timbre rico da voz.

Hominum, Hominum, Hom-in-uuuum!

Silêncio, pairando pesado no ar. O rosto dos anões estava soturno, e seus olhos, quase desafiadores quando fitaram as multidões. Aquele fora um gesto para mostrar ao povo de Corcillum que ninguém poderia duvidar de seu patriotismo.
Então veio um único viva. Um garotinho, sentado nos ombros do pai a poucos metros de Fletcher, bateu palmas e riu do espetáculo. Depois outro, e mais outro.
— Bravo! — gritou uma mulher na multidão.
A sucessão de aplausos se transformou em tumulto, acompanhado por gritos dos espectadores. Logo toda a praça estava soltando vivas, sem medo de serem os primeiros a reagir.
Nesse momento, os anões fizeram algo que Fletcher nunca pensou que fossem fazer. Um após o outro, eles se ajoelharam, de frente para a multidão. Com os joelhos apoiados no chão, levaram os punhos ao coração e baixaram a cabeça para as massas que os rodeavam. Era um juramento de lealdade... para eles. O povo.
Fletcher então soube o que deveria fazer. Ajoelhou-se, arrastando Otelo e Sylva consigo.
— O que você está fazendo? — berrou Cress, agachando-se ao lado deles.
— Confie em mim — disse Fletcher, torcendo para que estivesse certo.
Uma velha senhora foi a primeira a juntar-se a eles. Ela sorriu com desculpas enquanto se apoiava no ombro de Fletcher para conseguir se abaixar e ajoelhou-se ao lado dele sobre os pedregulhos empoeirados. Um homem corado foi o segundo, meio hesitante, talvez mais desejando estar de pé do que demonstrando respeito aos anões. Porém mais pessoas se seguiram: a maioria sentava-se, porém muitas ajoelhavam-se como os anões.
Foi como uma onda, enquanto fileira após fileira de pessoas instalava-se no chão.
Em questão de trinta segundos, não restava nem uma única pessoa de pé atrás do cordão de segurança. Os soldados, entretanto, continuaram onde estavam, com expressões nervosas, sem saber se deveriam seguir o exemplo.
A voz de Harold ecoou através da praça.
— Ajoelhem-se — ordenou.
Os homens responderam espontaneamente, e o metal de suas armas emitiu um clangor metálico quando elas rasparam no chão. O rei respirou fundo.
— Vocês juram lutar pelo rei e pelo país? Digam sim.
— Sim! — gritaram em uníssono todo homem, mulher e filho na praça, tomados de fervor patriótico, mas ninguém mais alto do que os anões.
— Juram defender essas terras com todas as fibras de seu ser e matar qualquer um que ameace sua segurança?
— Sim!
O sorriso de Harold brilhava por sobre a multidão, mas não era nada comparado ao olhar furioso de ódio negro lançado pelo velho rei Alfric.
O rei Harold abriu bem os braços.
— Levantem-se, soldados de Hominum!

6 comentários:

  1. Chacodaaa!!!
    Acho q tive ate um pouco de espirito patriótico nesse momento rsrsrs.

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  2. Pura, me arrepiei muito aqui
    Ai, eu não tava esperando mesmo
    Achei que ia ser outra tragédia, já que esse livro é só desgraça atrás de desgraça
    Lindíssimo

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Boa leitura, E SEM SPOILER!