2 de março de 2018

Capítulo 31

Fletcher acordou num susto e olhou em volta. Otelo cutucava as chamas com um graveto, aborrecido.
Ele estava de peito nu, com a camisa e jaqueta secando ao lado do fogo.
— Eu devo ter apagado. Quanto tempo dormi? — indagou Fletcher, se sentando. Suas roupas ainda estavam úmidas, mas ele decidiu não se despir. Supôs que Sylva não ficaria feliz com tal quebra de decoro. Porém, para sua surpresa, ela estava sentada do outro lado do fogo, rasgando a barra do vestido numa longa tira. Ignácio estava enrodilhado ao lado da elfa, com as costas aquecidas pelas chamas.
— Só por alguns minutos, Fletcher — respondeu ela, entregando o tecido a Otelo. — Aqui, use como bandagem para sua cabeça. Vai ajudar a curar.
— Obrigado — disse o anão, com uma expressão de feliz espanto no rosto. — Fico muito agradecido. Que pena que você teve que estragar seu vestido.
— Essa é a menor das minhas preocupações. Que burrice a minha, achar que poderia andar pelas ruas de Corcillum no meio da guerra e não sofrer as consequências.
— E por que você foi? — perguntou Fletcher, franzindo a testa.
— Pensei que estaria segura com os Forsyth. Eles andavam com os demônios em plena vista, e todos passavam longe de nós. Em retrospectiva, não estou surpresa. — Ela torceu as mãos em frustração. — Tenho certeza de que, se um homem fosse passear no território élfico, sofreria um destino semelhante. Há gente racista nos dois lados da fronteira.
— Ainda bem que você se sente assim. Eu não a culparia por pensar o pior de nós e convencer seu pai a encerrar todas as chances de uma aliança entre os nossos povos — comentou Fletcher, aproximando-se do fogo e aquecendo as mãos dormentes.
— Não, isso só fortaleceu minha determinação — respondeu Sylva, fitando as chamas. A menina arrogante que os olhara com o nariz empinado tinha desaparecido. Esta pessoa era muito mais íntegra.
— Como assim? — inquiriu Fletcher.
— Se até mesmo esta guerra falsa que fingimos lutar criou tanto ódio entre nossos povos, o que uma guerra de verdade não faria? — salientou a elfa, empurrando mais lenha para a fogueira.
— Qual é o sentimento entre os elfos? — perguntou Otelo, tirando as botas e deixando as meias secarem junto ao fogo crepitante. Salomão prontamente pegou os calçados e os segurou junto ao fogo.
— Alguns de nós entendem, dizendo que vale a pena se juntar aos humanos para lutar no sul, se isso mantiver os orcs longe dos nossos lares. Outros afirmam que eles jamais atacariam tão ao norte, mesmo se o Império de Hominum caísse — contou Sylva, torcendo o nariz para o chulé do anão. — Mas meu pai é um velho chefe de clã. Ele se lembra das histórias que seu pai lhe contou, dos dias em que os orcs devastavam nossas aldeias, massacrando nosso povo por esporte e reunindo as cabeças de nossos guerreiros como troféus. Os elfos mais jovens mal sabem que foram os saqueadores orcs que nos obrigaram a construir nossos lares nos grandes carvalhos do norte em primeiro lugar, milhares de anos atrás. E, mesmo quando o fizemos, isso só os atrapalhou um pouco. Foram os primeiros humanos que se aliaram a nós, rechaçando-os de volta às selvas e patrulhando as fronteiras. Nossa aliança existe desde que os primeiros homens cruzaram o deserto de Akhad, porém, com o tempo e a passagem das incontáveis gerações, ela caiu em desuso.
— Nós éramos aliados dos elfos? — indagou Fletcher, seus olhos arregalados de incredulidade.
— Estudei a história de nossos dois povos antes de vir para cá na minha missão diplomática. Nós, elfos, podemos viver por duzentos anos, então as memórias dos nossos historiadores são mais longas que as dos seus. Rei Corwin, o primeiro rei de Hominum, liderou uma guerra contra os orcs em nosso nome. Foram os elfos que ensinaram a ele e a seu povo como invocar, em troca de proteção, criando assim as primeiras casas nobres de Hominum.
— Uau. Não fazia ideia de que vocês participaram da criação do nosso império — maravilhou-se Fletcher. — Nem de que os elfos foram os primeiros conjuradores.
— Nem tanto — murmurou Sylva. — Os orcs já conjuravam muito antes de nós. Mas a arte deles era mais bruta, imatura; pequenos diabretes e nada mais. Ah, se ainda fosse assim hoje...
— Tenho uma pergunta — interrompeu Otelo. — Por que você não trouxe seu próprio demônio do território élfico? Certamente vocês têm demônios por lá, se ensinaram os homens a conjurar em primeiro lugar?
— Essa é uma pergunta complicada de se responder. Tivemos um longo período de paz depois que o Império de Hominum foi fundando. Enquanto os anões se rebelavam e os orcs saqueavam o reino dos homens, os elfos continuavam em relativa segurança. Assim, nossa necessidade de usar demônios para defesa pessoal deixou de existir. É claro que houve outros fatores. Por exemplo, a invocação de demônios foi banida por um curto período quatrocentos anos atrás, quando os duelos ficaram na moda entre os herdeiros dos nossos chefes de clãs. No fim, não havia mais demônios a se transmitir, pois foram todos mortos nesses duelos ou devolvidos ao éter.
O estômago de Otelo roncou e Sylva riu; o tom sério do aposento se desfez.
— Tive uma ideia — anunciou Fletcher, levantando-se. Depois de um momento de hesitação, ele saiu do abrigo. Trinta segundos depois, voltou correndo ao barracão, mais uma vez ensopado até os ossos, mas segurando uma braçada de milho.
Enquanto se sentava de novo, Fletcher percebeu algo novo. As costas de Otelo eram tatuadas em preto, uma ilustração de um martelo cruzado com um machado de batalha. O nível de detalhamento era extraordinário.
— É uma bela tatuagem, Otelo. O que significa? — inquiriu ele.
— Ah, isso. É um signo enânico. São as duas ferramentas usadas pelos anões. O machado representa nossa proeza em batalha e o martelo, nossa habilidade como artífices. Nunca fui muito fã dessa ideia de tatuagens, porém. Não preciso de marcas na minha pele para dizer ao mundo que sou um verdadeiro anão — resmungou Otelo.
— Então por que a fez? — perguntou Sylva, espetando algumas espigas de milho num forcado enferrujado e segurando-o sobre as chamas.
— Meu irmão se tatuou com isso, então tive que fazer o mesmo. Às vezes tenho que levar a culpa no lugar dele. Faz mais sentido se tivermos a mesma aparência. Os Pinkertons tiram a sua camisa quando... castigam você.
Syvla continuou fitando o anão com uma mistura de espanto e horror, então seus olhos se arregalaram ao pousar nas cicatrizes de Otelo.
— Nós somos gêmeos. Não que os Pinkertons saibam diferenciar os anões, normalmente. Somos todos iguais para eles — explicou Otelo.
— Então... vocês são como Isadora e Tarquin, afinal — deduziu ela. — Sempre me perguntei como seria ter um irmão gêmeo.
— Achei que eles fossem gêmeos, mas não tinha certeza — comentou Fletcher, tentando lembrar dos dois nobres.
— É claro que são — afirmou Otelo. — São sempre os primogênitos que herdam a habilidade de evocar, gêmeos incluídos. Os outros filhos têm chances muito menores, mesmo que aconteça, às vezes. Ninguém sabe bem o porquê, mas certamente ajudou a consolidar o poder nas casas nobres. Filhos e filhas primogênitos herdam a propriedade inteira, então as terras não são distribuídas para múltiplos filhos na maioria dos casos. Os Forsyth têm terra mais que suficiente para dois, porém, isso é certo.
O anão tirou uma espiga de milho do forcado e mordeu com voracidade, soprando os dedos.
— Então me conte, Sylva, o que você estava fazendo em Corcillum? Encontrou Genevieve e os outros na perfumaria? — perguntou Fletcher, tentando evitar o fato de que quase tinham morrido por causa dela.
— Os nobres me levaram numa carruagem até a praça. Então Isadora e Tarquin me trouxeram ao bairro das flores, pois queriam rosas frescas para seus quartos. Eu estava com um lenço na cabeça para cobrir meus cabelos e orelhas, então não pensei que teria problemas. Mas meus olhos devem ter me denunciado. Aquele homem gordo, Grindle, arrancou o xale da minha cabeça e me arrastou para um beco. Isadora e Tarquin correram ao primeiro sinal de problemas. Nem olharam para trás. Eu não tinha meu couro de conjuração, então Sariel continuou infundida dentro de mim. Nunca mais cometerei esse erro.
— Couro de conjuração? — perguntou Otelo, terminando sua espiga e estendendo a mão para pegar outra.
Sylva afastou-lhe com um tapa brincalhão.
— Guloso! Fletcher, coma também. Eu percebi que alguns de vocês não desceram para o almoço na cantina mais cedo, você deveria comer alguma coisa.
— Obrigado. Eu só comi uma maçã de almoço — contou Fletcher, pegando uma espiga para si. Mordeu os grãos macios, cada um explodindo com doçura surpreendente em sua boca.
— Um couro de conjuração— continuou Sylva, virando-se para Otelo. — É só um pentagrama, impresso num pedaço quadrado de couro, que me permite conjurar Sariel se ela estiver infundida em mim. Não sei bem se os seus conjuradores ainda os chamam por esse nome hoje em dia. Os documentos que encontrei sobre práticas de conjuração eram bem antigos.
— Eu não acredito que Tarquin e Isadora fugiram! — exclamou Fletcher, a boca cheia de milho.
— Essa nem é a pior parte. Os dois estavam com os demônios soltos quando eu fui capturada. Suspeito que foram as criaturas que chamaram tanta atenção para nós em primeiro lugar.
— Aqueles covardes — grunhiu Otelo.
— E seus demônios veteranos foram herdados da mãe e do pai — explicou Sylva. — Poderiam ter derrotado dez vezes o número de homens que me atacaram. Se eu tivesse ficado mais perto dos dois, os sujeitos jamais teriam avançado, mas eu estava um pouco farta da conversinha narcisista deles, então me afastei por um momento. — A elfa fez uma pausa, mordendo delicadamente sua espiga.
— Por que você tentou fazer amizade com eles se não os suporta? — indagou Fletcher.
— Estou aqui como diplomata. Com quem você acha que seria melhor fazer amizade se eu quiser promover uma aliança entre os nossos dois povos? Agora eu obviamente sei que a melhor maneira é me tornar uma oficial assim que possível e criar fama em batalha, e não bajular pirralhos mimados sem nenhum poder real. Isso vai facilitar minha causa, se todos souberem que os elfos também estão dispostos a lutar.
— Ah — comentou Fletcher. Fazia sentido, porém a forma como ela o tratara antes ainda magoava. Por outro lado, se ele estivesse sozinho em terras hostis com um fardo de responsabilidade tão grande, ser simpático talvez também fosse a última de suas preocupações. — Certo, melhor nos deitarmos para dormir. Provavelmente vamos levar bronca por termos passado a noite fora, mas não tem como voltarmos andando com esse tempo — sugeriu Fletcher, se esticando ao lado do fogo.
— Ah, não sei — respondeu Otelo, enrolando a jaqueta num travesseiro improvisado e se recostando nele. — Não tem guardas nem nada assim na entrada da academia. Se nós chegarmos antes das entregas, devemos ser capazes de entrar escondidos sem que alguém nos veja.
Enquanto Sylva se enrodilhava ao lado do fogo e puxava o capuz da jaqueta, um pensamento cruzou a mente de Fletcher: como Otelo sabia disso?

9 comentários:

  1. um pensamento cruzou a mente de Fletcher: como Otelo sabia disso?
    Whaaaat?

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  2. Ixiiiiii vai dar merda vaaaai

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  3. Aaaaeeee /o/ Ainda posso shippar rsrs

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  4. Tá perdoada a lindíssima, elfos arrasam, uhul!

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  5. Esse anão apanha mais que mulher de bandido. Pelo amor de Deus, esse daí não morre nunca. Ksksks

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  6. Lendo novamente aqui... Rpz q tentação pra fala kkk...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!