22 de março de 2018

Capítulo 30

Era estranho ver um céu tão brilhante e alegre em meio a tanta tensão. A primavera chegara cedo, e o dia estava anormalmente quente. Eles estavam na taverna da Bigorna, sentados na varanda, assistindo à marcha das pessoas abaixo. Otelo e Cress já não davam a mínima se fossem vistos, e Fletcher e Sylva se juntaram a eles depois de certa persuasão dos dois anões. Na verdade, poucas pessoas olhavam para eles enquanto os soldados humanos desfilavam paramentados, as baionetas brilhando à luz do sol, os casacos vermelhos agitando-se à brisa quente. Nas calçadas, os cidadãos de Corcillum aplaudiam, agitando bandeiras e galhardetes, juntando-se à cantoria dos homens que entoavam hinos. O ritmo era dado pelos tocadores de tambor, garotos que não tinham mais que 13 anos e marchavam na linha de frente, orgulhosos em seus uniformes, ao lado dos soldados.
Até Otelo se pegou cantarolando aquelas canções alegres e precisou se controlar. O clima era alegre e animado, propício à chegada dos recrutas dos anões. No entanto, ao mesmo tempo, não havia a raiva que Fletcher temia ver, depois da revelação de que um dos nobres de Hominum estava bombardeando o próprio povo. Não havia nenhuma garantia do que iria acontecer naquele dia.
— Eles são tão jovens, não são? — disse Cress, inclinando-se para olhar melhor os soldados.
— Isso é porque são todos dos campos de recrutamento na fronteira élfica — respondeu Sylva. — Eles chegaram alguns dias antes dos anões, então ainda são muito inexperientes. Duvido de que algum deles já tenha visto um combate.
— Isso os torna mais ou menos propensos a receber bem os anões? — perguntou Fletcher, meio que para si mesmo.
Otelo considerou a pergunta por um momento.
— Bem, eles já vêm treinando com os recrutas anões há mais de um ano, mas desde os ataques dos Bigornas as tensões entre eles são grandes: algumas discussões acaloradas aqui e ali, até mesmo uma briga ou outra. Alfric provavelmente não poderia arriscar-se levando até lá os veteranos das linhas de frente, portanto mandou esses rapazes. É uma boa coisa, eu acredito. Esses homens nunca mataram antes; duvido de que eles teriam estômago para matar mulheres e crianças. Provavelmente ele acha que eles são mais propensos a receber ordens, porém, sendo assim tão imaturos. Veremos.
Fletcher, entretanto, mal escutava. Houve uma comoção na estrada, e, por um momento, ele pensou que fossem os anões, mas então os recém-chegados apareceram e Fletcher não conseguiu conter um sorriso. Inclinou-se para ver melhor.
Dracons. A cavalaria dos magos de batalha, dezenas de homens e mulheres vestidos de azul, montados em demônios poderosos. Rápidos e mortais, sua reputação era lendária. E uma figura familiar, de cabelos escuros e na dianteira, tendo Sacarissa ao lado.
Arcturo estava montado em um Hipalectrion. O monstro era um dos mais belos demônios que Fletcher já vira. A metade da frente era de um cavalo, mas o focinho terminava em um bico amarelo afiado, e uma barbela vermelha substituía a crina na parte de trás de seu pescoço. Suas patas traseiras tinham garras como as de um galo, com afiadíssimos esporões que se flexionavam a cada passada. A cauda de penas de cores vivas estendia-se em uma mistura vibrante de vermelhos e verdes que combinava com a pele e a plumagem do corpo do demônio. Ele possuía as linhas elegantes de um cavalo, combinadas à beleza áspera de uma ave de rapina — era gracioso e mortal em igual medida.
— O que aconteceu com Bucéfalo? — perguntou Cress em voz alta.
— Ele agora é o demônio da capitã Lovett — respondeu Sylva, com uma pontada de culpa. — Depois que ela perdeu Lisandro, ele lhe deu Buck, para que ela pudesse voar novamente no Corpo Celeste e ele pudesse se juntar aos Dracons. Ela me contou isso quando eu ofereci para lhe devolver Lisandro quando voltamos a Vocans.
— E ela não aceitou sua oferta? — perguntou Otelo, surpreso. — Lovett adorava aquele Grifo.
— Pois é, eu estou em dívida com ela — disse Sylva, a culpa se aprofundamento no tom de voz.
O desfile de Dracons se aproximou, e Fletcher começou a ver os outros demônios montados pelos magos de batalha. Ficou evidente que os Hipalectrions eram os demônios mais populares naquela tropa de elite. Ele viu Sleipnirs, cavalos musculosos com seis poderosas patas que os tornavam alguns dos demônios terrestres mais rápidos que existiam. E Musimons, demônios parecidos com enormes bodes barbudos, que tinham dois pares de chifres, o menor enrolado e grosso, o outro longo e afiado como o de um touro.
Havia até mesmo um raro Kirin, que tinha aparência de cavalo e focinho reptiliano, um único chifre na testa, escamas verdes cintilantes como armadura para o corpo, e plumas de cabelo vermelho irrompendo da juba, da cauda e das pernas.
Ficou claro para Fletcher que todos os demônios ali eram projetados para velocidade e violência, ideais para as tropas de choque do império. Cada mago de batalha usava uma armadura peitoral e um elmo com plumas, além de estar armado com um sabre de cavalaria: uma espada longa e curva capaz de golpear com eficiência brutal. Acompanhando as armas mortíferas havia carabinas curtas, uma em cada coldre aos quadris. Fletcher observou com inveja: as armas eram mais longas e mais precisas que pistolas, mas mais curtas e leves que mosquetes. Eram incríveis, mas impraticáveis para um soldado não montado como ele.
— Como podemos perder com eles do nosso lado? — disse Fletcher, sem tirar os olhos da temível cavalaria que desfilava lá embaixo.
— Os anões passarão por aqui? — perguntou Sylva.
— Não, marcharão pelo extremo norte de Corcillum, em direção à Praça Corwin — respondeu Otelo, a empolgação de ver os Dracons imediatamente sumindo do rosto ao pensar naquilo. — É lá que o desfile termina. Haverá uma cerimônia ali, um juramento de fidelidade ao rei da parte de todos os novos recrutas, anões incluídos.
— Será que eles jurarão? — perguntou Fletcher.
Otelo mastigou o lábio.
— Eles precisam jurar. — Foi sua única resposta.
— Seu pai não pode falar com eles, contar-lhes o que pode acontecer se não jurarem? — perguntou Fletcher.
— Se meu pai e os anciãos tivessem tal controle sobre nossos homens, então o discurso de Alfric não teria a menor importância — explicou Otelo, balançando a cabeça abatido. — Ele já foi falar com eles, mas ninguém quer discutir o assunto. Você não sabe como é, Fletcher. Centenas de anos de subjugação. Pinkertons nos matando e saindo impunes, nossas vidas governadas pelas leis de nossos opressores.
— Desculpe — murmurou Fletcher. — Eu não pensei...
— Esses jovens anões deixaram tudo isso de lado para terem uma chance de se tornarem cidadãos livres e iguais — interrompeu Otelo. — Eles suportaram as agruras da frente élfica, exercícios sem fim, marchas e as ordens ríspidas dos oficiais. E agora, quando finalmente tudo isso chega ao fim, podem receber a notícia de que foi tudo para nada? Que as velhas leis voltarão? E serem ordenados a ficar de lado assistindo a nossas casas serem invadidas pelos Pinkertons?
Ouviu-se uma batida na porta atrás deles, e Briss apareceu na varanda.
— Athol acabou de enviar uma mensagem. Os anões chegaram — avisou ela. — Eles estão a uma milha de distância.
Cress suspirou e ficou de pé.
— Venha — chamou ela. — É melhor irmos à praça antes que fique lotada.
Então eles saíram apressados da taverna e abriram caminho pelas ruas lotadas. Mantiveram a cabeça baixa e usaram capuz, apesar do dia quente, para evitar serem reconhecidos.
Enquanto atravessavam as ruas apinhadas, Fletcher ficou maravilhado com o número de vendedores apresentando os produtos para as multidões. Homens e mulheres caminhavam com pratos de comida: o cheiro misturado de moluscos em conserva, geleia de enguias, tortas de carne e peixe frito permeava o ar. Outros vendiam ginger ale gelada e cerveja adocicada em copos de papel cujos restos já atulhavam as ruas, bolinhas brancas amassadas que eram pisoteadas por todos.
Felizmente para Fletcher e para os outros, as multidões estavam concentradas ao longo das vias principais do desfile, permitindo que eles cortassem caminho pelas ruas paralelas. Fletcher ficou espantado com a facilidade com que Otelo navegava pelos becos, cortando para a esquerda e para a direita a fim de evitar as avenidas, chegando até a atravessar o telhado baixo de um edifício abandonado para levá-los mais rápido à praça.
— Quase chegando — ofegou o anão, enquanto eles se espremiam através de uma rua particularmente estreita.
O espaço entre os edifícios era tão pequeno que Fletcher poderia esticar os braços e colocar uma mão nas janelas de cada lado. Eles já conseguiam ouvir o barulho da multidão logo além, cantando o hino nacional de Hominum em estridente uníssono.
Alcançaram o que parecia ser um beco sem saída, mas Otelo sorriu para os rostos confusos de seus amigos e rumou para uma tábua de madeira encostada na parede. Atrás dela, um buraco grande o suficiente apenas para que passassem espremidos fora aberto na alvenaria.
— Quem já foi perseguido por muitos Pinkertons acaba conhecendo todos os atalhos. — Otelo deu uma piscadela. — Venham, antes que alguém perceba.
E, assim, eles emergiram na Praça Corwin.

4 comentários:

  1. Aí senhor, aquele momento que você não ousa nem respira e seu coração para de bater.

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  2. Sou só eu que tm dificuldade de visualizar os demônios?? Já to no 3° livro e não consigo imaginar a maioria kkkkkkkk

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    Respostas
    1. Pesquisa o nome da espécie de demonio no Google e vê a imagens

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  3. Vá dar ruim!!!!TENHO CERTEZA!NUNCA NADA DA CERTO!Quero ver o que vai acontecer!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!