13 de março de 2018

Capítulo 30

Era o começo da manhã, e a equipe avançava a passo rápido pela selva. Tomaram ainda mais cuidado ao encobrir os rastros, mas felizmente a trilha em que estavam era usada regularmente pelos animais da selva, e o solo ficava confuso com dúzias de rastros diferentes de cascos e garras.
Mais desconcertante foi encontrar as marcas dos pés chatos de orcs ali também, não muito diferentes de pegadas humanas, só que maiores e com as depressões dos dedos mais acentuadas. Era difícil dizer quanto tempo fazia que tinham estado ali, mas Fletcher ficou feliz de saber que Atena vigiava do alto, sua visão sendo transmitida diretamente ao cristal de visão atado a seu olho.
— Dá... para... nós... reduzirmos... o passo? — ofegou Otelo, reajustando a mochila com um pulo.
Salomão estava infundido dentro dele, pois o Golem era lento demais para acompanhá-los, e suas pernas pesadas deixavam marcas profundas no chão. Assim sendo, tiveram que levar novamente as pesadas mochilas atadas às costas, o que deixava a caminhada ainda mais difícil.
A asma de Jeffrey fazia com que ele inspirasse profundamente por um pano forrado com ervas, e as pernas curtas de Cress a obrigavam a avançar em corridinhas, como Otelo também fazia.
— Pausa de cinco minutos — anunciou Fletcher,  com o coração trovejando no peito, o suor escorrendo pelas costas. Depois de um ano em cativeiro sem nenhum exercício além de algumas flexões, ele também sentia dificuldades. De fato, só Sylva parecia avançar sem problemas.
Eles pararam e desabaram no chão, apoiando as costas em troncos de árvores dos dois lados da trilha. Houve alguns minutos preenchidos apenas com goles de água e o mastigar de frutas e raízes. Então Sylva apontou para a trilha de onde tinham vindo e grunhiu.
— Mesmo neste passo, Isadora e os outros podem nos alcançar ao anoitecer. Simplesmente não conseguimos avançar tão rápido quanto eles.
— Bem, vale a pena tentar — resmungou Otelo, encostando a cabeça no ombro de Fletcher. — Devemos chegar à pirâmide amanhã à tarde. Se pudermos evitá-los até lá, ficará tudo bem.
Eles continuaram sentados, e, mesmo depois que os cinco minutos tinham se passado, Fletcher os deixou descansar mais um pouco. Passara boa parte da noite anterior vigiando a outra equipe com o cristal, na esperança de ouvir suas conversas. Para tristeza dele, o Wendigo patrulhara os limites do acampamento a noite quase inteira, mantendo Atena afastada até Fletcher adormecer.
O medo pulsou até Fletcher vindo dos dois demônios. Ignácio irrompeu da selva, e, na imagem do cristal, o rapaz viu alguma coisa se movendo adiante no caminho.
— Saiam da trilha! — sibilou, e então ele e Sylva saíram correndo para a selva, enquanto Otelo, Cress e Jeffrey mergulharam nos arbustos do outro lado do caminho. Lisandro e Sariel seguiram os outros, pressionando os corpos contra o chão e se remexendo para dentro da vegetação mais cerrada.
Foi bem a tempo, pois não demorou muito para que os recém-chegados se revelassem.
Três rinocerontes, com longos chifres arremetendo adiante como as proas de uma frota de navios de guerra, emergiram. A pele era grossa e coriácea, a cor cinzenta combinando perfeitamente com o tom dos gigantes hercúleos que os cavalgavam.
Eram orcs de mais de 2 metros de altura, crescidos ao seu tamanho máximo, com presas de 8 centímetros e corpos adornados com espirais de tinta de guerra vermelha e amarela. Carregavam grandes clavas, fabricadas em um formato de taco de madeira achatado, com estilhaços de obsidiana lascada embutidos nas bordas, mais afiadas até que as melhores lâminas. Fletcher imaginou o dano que elas eram capazes de provocar; provavelmente poderiam decapitar um cavalo com um só golpe. O diário de Baker as tinha descrito como sendo igualmente maça e espada, esmagando armadura e cortando carne em igual medida.
Atrás dos orcs, goblins de tangas, cavalgavam em fileiras de dois, armados com lanças de ponta de pedra e clavas disformes, feitas de galhos de árvores. Eles se pareciam muito com o espécime que Fletcher vira no grande conselho; uma cabeça mais baixos que ele e magricelos, com longos narizes e orelhas de abano. As montarias eram casuares, grandes aves como avestruzes, com penas negras tão finas que pareciam pelo. Os longos pescoços nus nos corpos incapaz de voar eram de um azul brilhante, com barbelas vermelhas pendendo dos queixos. O mais estranho eram as cristas córneas que exibiam no topo da cabeça, como se fossem chifres curtos e rombudos embutidos nos crânios. Fletcher estremeceu ao ver as garras de rapina rasgarem o chão ao lado deles, cada uma capaz de estripar um homem com um único coice.
Ele sabia, pelas observações no diário de Baker, que os casuares só eram cavalgados pelos orcs mais jovens, quando eram pequenos o bastante para que os pássaros os aguentassem. Com a chegada dos goblins, os orcs haviam encontrado mais uma utilidade para eles.
— Meu deus, há tantos — sussurrou Sylva. Ela estava bem espremida contra Fletcher, a fuga desesperada os tendo deixado praticamente em cima um do outro.
Havia pelo menos cinquenta goblins na marcha, com olhos de sapo que esquadrinhavam a floresta em busca de movimento. Trotando na retaguarda da tropa vinham duas hienas pintadas, poderosas e atarracadas, que perambulavam acima e abaixo pela coluna, farejando o chão. Por um momento, uma delas parou na trilha, com o focinho aguçado fungando o solo logo adiante de onde eles estavam escondidos, encolhidos nos arbustos. Observaram em silêncio sua aproximação. A criatura começou a rosnar, e Sylva agarrou o braço de Fletcher em alarme... mas um comando gutural de um dos orcs fez a hiena correr de volta para a dianteira do grupo.
Felizmente para a equipe, os inimigos pareciam seguir o cheiro que tinham deixado para trás.  Ocorreu a Fletcher que eles poderiam estar farejando outra coisa, não muito distante. Talvez o Wendigo?
Não demorou mais que um minuto até que eles passassem, mas pareceu levar uma era para Fletcher recuperar a calma e voltar ao caminho mais uma vez. Ao fazê-lo, Atena pousou no ombro do mestre,  enquanto Ignácio saltou para os braços e enterrou a cabeça em seu peito. Aquela fora por muito pouco.
— Certo, acho melhor sairmos desta trilha — anunciou Fletcher, com a voz trêmula pela adrenalina.
— De acordo — disse Otelo, saindo da floresta com os outros. — Quando a trilha esfriar, eles voltarão nesta direção.
— Aquelas aves pareciam demônios — comentou Cress, olhando para onde os inimigos tinham ido. — Nunca vi nada parecido antes.
— Acreditem em mim, são um animal de verdade — explicou Jeffrey. — São rápidos como o diabo e chutam como mulas. Vocês deveriam ter visto os ovos são gigantescos e verdes. Se você olhasse de relance, acharia que eram ovos de goblin. Se tentar comer um desses no café da manhã...
— Vocês perceberam que eles estão avançando direto para Isadora e os outros? — interrompeu Cress, olhando na direção da coluna.
— Isso é perfeito — observou Sylva. — Talvez eles acabem uns com os outros.
Só que Fletcher olhou para Lisandro, que observava o batalhão se afastar com uma expressão preocupada. Lorde Forsyth teria um dos cristais de visão de Lisandro consigo, de forma que Aníbal poderia transmitir um aviso a Tarquin e aos demais.
Só que ele sabia que, com o tamanho e o fedor do Wendigo, seria muito difícil escapar do farejar das hienas. Era tentador. Didric ou os gêmeos sendo emboscados por orcs era uma imagem com a qual tinha fantasiado muitas vezes em suas noites solitárias na cela, mas Fletcher logo sentiu uma pontada de censura vinda da consciência de Atena. Ele suspirou.
Ela tinha razão. O rapaz se virou para os amigos.
— Por que nós estamos aqui? — indagou, fitando-os todos nos olhos.
— Para destruir alguns milhares de ovos de goblin e resgatar a mãe de Rufus, lady Cavendish — respondeu Sylva, já colocando a mochila de novo nas costas.
— Não. Por que nós estamos aqui? — repetiu Fletcher.
Eles o encararam em silêncio, como se confusos com a pergunta.
— Nossa equipe é para ser um exemplo luminoso ao mundo da cooperação entre raças — explicou por fim. — Temos que provar que os anões e elfos são dignos do respeito da humanidade. Agora, quero vê-los mortos tanto quanto vocês; eu os mataria pessoalmente se tivesse a chance. Mas qual a ideia que passaremos se abandonarmos a equipe de Isadora, deixando que sejam massacrados?
Otelo e Sylva evitaram os olhos dele, mas sabiam que dizia a verdade.
— Eles estão nos caçando — sussurrou a elfa. — Esta é a nossa chance.
— Não temos certeza disso — insistiu Cress, teimosa. — Eles poderiam ter simplesmente mudado de ideia quanto à rota.
— Se forem mortos, é uma equipe a menos para participar do ataque. Mesmo que consigam escapar, os orcs soarão o alarme — admitiu Otelo a contragosto, em apoio a Fletcher.
— Mas são Didric, Tarquin, Isadora e até Grindle! Eles todos já tentaram matar cada um de nós. Você é ingênua, Cress; o mundo seria um lugar melhor sem eles — rosnou Sylva, e Fletcher não a culpava pelas palavras. Ele realmente iria salvar as pessoas que tinham planejado sua execução? Ele hesitou, mas então Cress falou de novo:
— E quanto a Atlas? Merece morrer só porque não gostamos da companhia dele? — perguntou ela em voz baixa. — Se os deixarmos morrer, estaríamos nos rebaixando ao nível deles, colocando nossos fins à frente da segurança de Hominum.
Sylva exalou com frustração, então se virou na direção de onde tinham vindo e sacou o arco.
— Vamos acabar logo com isso — resmungou.

4 comentários:

  1. Parece q agora os esnobes precisam dos plebeus... kkkkkk

    ResponderExcluir
  2. Não seria mas facil escrever uma mensagem e pedir pra Atena entregar, talves o Jefrey tenha levado papel e caneta

    ResponderExcluir
  3. aposto q os nobres vai trair os plebeus!

    ResponderExcluir
  4. Eles vão salvar esses idiotas e eles nemvvão agradecer e ainda dizer que eles
    Iam conseguir sozinhos.
    Tô até vendo

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!