2 de março de 2018

Capítulo 30

A turba pulsava de excitação, tanto ultrajada quanto empolgada. O homem gordo brandiu uma clava no ar com um floreio, suscitando mais gritos do povo. Fletcher começou a abrir caminho até a frente, mas foi contido por Otelo.
— Vamos lá! — chamou Fletcher, lutando contra o aperto firme do anão.
— Não temos nenhuma arma, Fletcher. Precisamos procurar ajuda! — retrucou Otelo, enquanto a multidão ao redor deles se convulsionava.
— Quem vamos chamar, os Pinkertons? Se não fizermos alguma coisa agora mesmo, Sylva vai morrer — retrucou Fletcher, soltando o braço e se lançando adiante.
O menino empurrou dando cotoveladas, mas a multidão ficava mais densa conforme ele se aproximava do palco. Logo estava sendo esmagado pela massa de corpos, mal capaz de ver acima das cabeças daqueles à sua frente.
— Os elfos são tão ousados que andam por nossas ruas, como se a guerra nada significasse para eles! — gritou o homem no palco. — Grindle, traga ela até aqui para que possamos mostrar a todos o que fazemos com elfos que não conhecem seu lugar de direito.
A multidão rugiu, alguns a favor, outros contra. O humor coletivo estava eletrizado como o relâmpago que iluminava o toldo acima deles, paralisando seus rostos gritantes a cada clarão. O sol mal acabara de se pôr, e o céu exibia a cor azul-marinho do crepúsculo invernal.
— O que está acontecendo? — perguntou Otelo, gritando de trás do rapaz, pulando para tentar ver o que ocorria. Salomão estava abaixado entre as pernas do dono, grunhindo para os pés que pisoteavam a lama ao redor.
— Eu não sei. Precisamos encontrar um jeito de atravessar essa multidão! — gritou Fletcher.
O ar estava carregado com o som do trovão, gritos raivosos e a chuva martelando a lona esticada acima.
O grito de Sylva cortou tudo isso, um longo berro de medo irracional que trespassou o coração de Fletcher.
O menino trincou os dentes de frustração e tentou avançar novamente, mas só conseguiu se mover alguns centímetros.
— Otelo, mande Salomão fazer barulho! Se não dá para passar, então precisamos dispersá-los — pediu Fletcher por sobre o ombro.
Um urro irrompeu de trás dele, um rugido profundamente grave que lembrou a Fletcher um urso das montanhas. As pessoas ao redor se viraram e se afastaram, abrindo um pouco de espaço.
— Ignácio! — gritou Fletcher, mandando o demônio para seu ombro com um pensamento. O diabrete disparou uma forte rajada de chamas no ar, assustando o resto da multidão para lhes abrir ainda mais espaço. Quando um caminho se fez disponível, eles se lançaram escada acima até o palco.
Fletcher avaliou a cena de relance. A cabeça de Sylva estava sendo mantida sobre um toco pelo orador revoltado, que estava ajoelhado ao lado da elfa prostrada. Grindle tinha erguido a clava, pronto para despedaçar a cabeça da vítima. A pobre menina estava vendada; nem chegaria a ver a chegada da morte.
Ignácio reagiu instintivamente, cuspindo uma bola de fogo que atingiu o homem gordo no alto do ombro, jogando-o para trás. Enquanto o corpo obeso desabava no chão, Otelo saiu em disparada e chutou o orador na cabeça, produzindo um estalo alto e nocauteando-o.
Mais três homens investiram contra o anão, armados de cassetetes muito parecidos com aqueles usados pelos Pinkertons. Otelo levou um golpe no rosto e desabou como uma marionete com os cordões cortados. Antes que o homem pudesse golpear de novo, Salomão o socou na perna, dobrando-a de lado com um barulho nauseante. O Golem subiu no peito do homem e deu-lhe um pisão. O estalo das costelas sendo partidas revirou o estômago de Fletcher.
Os outros dois começaram a avançar, brandindo os cassetetes com prática. Fletcher empalideceu e dançou para trás para ganhar mais tempo, desejando não ter deixado o arco no quarto. Aquilo seria complicado.
— Muito bem, Ignácio. Pegue eles — disse Fletcher.
O diabrete saltou do seu ombro como um morcego infernal, um redemoinho de garras e chamas. Aterrissou no rosto do homem mais próximo e sibilou, com o fino espinho na ponta da cauda estocando a presa como um ferrão de escorpião.
Antes que o outro homem pudesse intervir, Fletcher avançou. Assim que o cassetete veio em sua direção, o rapaz criou um clarão de fogo-fátuo na mão, cegando o adversário com a luz azul. Chutou o homem no meio das pernas e depois lhe acertou uma joelhada no nariz quando ele se curvou.
Rotherham tinha razão; lutar como um cavalheiro era coisa para cavalheiros. Ignácio tinha rasgado a cara inteira do outro homem, que rolava no chão gemendo de dor enquanto o diabrete lambia seu focinho ensanguentado alegremente. A inocência de cachorrinho do demônio não estava mais lá.
Sylva estava completamente amarrada como um embrulho de presente, mas lutava com selvageria no chão. Salomão estava uivando, enfiando a cara rochosa na barba de Otelo.
Fletcher arrancou a venda de Sylva, em seguida mexendo nos nós com dedos endurecidos pelo frio. As cordas estavam inchadas pela umidade, mas se afrouxaram conforme ele as puxava. O tempo todo a multidão assistia, como se ele fosse um ator num palco e eles, uma plateia pagante.
— Tire elas, tire elas! — gritava a elfa. Seus olhos estavam virados para trás. Como diabos ela tinha se metido nessa situação? Da última vez que o rapaz a vira, Sylva estava com Isadora, lá em Vocans.
Então o lado da sua cabeça explodiu em dor e Fletcher foi para o chão, com a brancura da lona acima preenchendo sua visão. A horrenda cabeça careca de Grindle surgiu e entrou em foco, com a clava erguida novamente. Era uma coisa feia, disforme, toda cheia de nós e sulcos como um galho de árvore mal podado.
— Traidor da raça — sibilou Grindle. O ombro dele era um caos de pano e carne queimados. O sujeito segurava Ignácio pelo pescoço como se agarrasse uma galinha, com o esporão de cauda do demônio cravado no outro braço, flácido. O coração de Fletcher se encheu de esperança quando o peito de Ignácio se encheu, mas nada lhe saiu das narinas exceto um fino fio de fumaça. O gordo pousou o pé no pescoço de Fletcher para imobilizá-lo, então centrou a clava em sua cabeça. Fletcher fechou os olhos e rezou para que fosse uma morte rápida.
Ouviu um grito e então um baque. Um peso caiu sobre seu corpo, pressionando o peito e o deixando sem fôlego. Abriu os olhos e viu Sylva, segurando um cassetete ensanguentado nas mãos. O homem gordo gorgolejava no ouvido de Fletcher.
Ele tentou erguer o corpo, mas era como se tentasse mover uma árvore.
— Não consigo respirar — ofegou Fletcher com a última lufada de ar em seus pulmões.
Sylva se agachou e tentou empurrar com toda a sua força, mas o corpo mal se mexeu. A pulsação de Fletcher martelava em seus ouvidos, errática e frenética. O limiar de sua visão começou a escurecer enquanto ele ofegava, capturando pequenas lufadas de ar.
Então Otelo estava lá, cambaleando até a cena com sangue escorrendo pelo lado do rosto. A elfa e o anão empurraram até que Fletcher conseguiu respirar de novo, arfadas profundas e soluçadas, mais doces que mel.
— Seus monstros! — gritou Sylva, cuspindo contra os espectadores mudos.
— Vamos dar no pé agora! — exclamou Otelo, olhando enojado para a multidão.
Os dois levantaram Fletcher e desceram os degraus cambaleantes como três bêbados, quase incapazes de ficar de pé. Desta vez, a multidão se abriu para lhes ceder uma larga passagem.
O trio trepidante fugiu pelas ruas desertas, todos castigados pela chuva que caía em ondas conforme o vento aumentava e diminuía. Otelo parecia conhecer o caminho, guiando-os por becos estreitos e ruas secundárias até chegarem à estrada principal que trouxera o grupo a Corcillum. Eles não faziam ideia se estavam sendo seguidos. A escuridão os alcançaria a qualquer minuto, porém, com a presença de Sylva, eles não poderiam de forma alguma passar a noite numa taverna. Os três andaram por duas horas sem ver uma única charrete ou carroça. Sylva não trajava nada mais que um vestido de seda, e tinha de alguma maneira perdido os sapatos ao ser capturada. Estava tremendo tão violentamente que quase não conseguiu passar os braços pelas mangas da jaqueta de Fletcher quando ele a ofereceu.
— Precisamos parar e descansar! — gritou o rapaz por sobre o rugido do vento e da chuva.
Otelo concordou com a cabeça, cansado demais até para erguer os olhos da estrada. Seu rosto estava totalmente branco, e filetes de água tingida de sangue escorriam pelos lados do seu rosto. O ferimento na cabeça estava molhado demais para estancar sozinho.
Milharais verdes se estendiam de ambos os lados ao seu redor, mas Fletcher viu um telhado de madeira por sobre as espigas, algumas centenas de metros à direita.
— Por aqui! — gritou ele, puxando-os da estrada. O grupo abriu caminho por entre os longos talos, rompendo os caules frágeis ao pisar.
Salomão ia na frente, desesperado para levar seu mestre a um lugar seguro.
Não era nada além de um barracão metido a besta, abandonado havia muito tempo. Fletcher quase se desesperou por um instante quando viu que estava trancado com uma corrente enferrujada, mas Salomão a arrebentou com um soco.
O lado de dentro estava úmido e mofado, cheio de velhos barris de farinha já apodrecida. Mesmo assim, escapar do dilúvio que os castigava era pura alegria.
Sylva e Otelo desabaram no chão, juntando-se para aquecer um ao outro. Fletcher bateu a porta ao entrar e desmoronou também. Não fora assim que ele imaginara sua viagem a Corcillum.
— Não se preocupem, pessoal, vou esquentar vocês. Ignácio, venha cá. — O diabrete desceu pelo seu braço e olhou para ele, parecendo infeliz. O pescoço da criaturinha estava com um hematoma vermelho-escuro onde Grindle o agarrara. Ignácio respirou fundo e soltou uma chama fina, que infelizmente, no ar úmido, não fez nada além de iluminar o aposento imerso em trevas. A única luz vinha das rachaduras nas paredes, que também deixavam entrar correntes congelantes de ar. Tinha que haver outro jeito. Se Fletcher não fizesse alguma coisa, eles provavelmente contrairiam alguma doença mortal.
Salomão grunhiu e começou a despedaçar alguns barris. As mãos dos Golems eram como luvas sem dedos de pedra, mas o polegar opositor lhe dava destreza o bastante para rachar as tábuas podres e jogá-las no centro do aposento.
— Pare, Salomão, economize sua energia — murmurou Otelo. O demônio pausou e deu ao anão um grunhido de desculpas. Então rosnou e indicou os barris, apontando com as mãos atarracadas. — Ah, tudo bem — resmungou Otelo, acenando, derrotado. Salomão continuou trabalhando, agora de forma mais metódica. O que raios ele estava fazendo?
— Ele está fazendo uma fogueira! Vamos lá, antes que Sylva entre em choque! — exclamou Fletcher.
A elfa ainda estremecia, abraçando os joelhos. O menino não conseguia imaginar como teria sido o dia dela. A provação a tinha deixado com as pontas das orelhas marcadas pelo vento, avermelhadas de frio.
Logo a pilha de madeira estava alta, mas Fletcher separou a maior parte para mais tarde. Salomão esmigalhou algumas das tábuas em pilhas de farpas, para servir de isca para o fogo, então Ignácio soprou chamas repetidamente até o fogo pegar. Logo uma luz calorosa preenchia o barracão, e a fumaça subia e saía pelas rachaduras nos cantos do teto. A madeira queimava bem lentamente, como costumava acontecer com lenha podre. Por mais que o fogo deixasse um cheiro de mofo no ar, o frio abandonou vagarosamente os ossos dos três cadetes, e as roupas começaram a secar em seus corpos.
Mesmo assim, seria uma longa noite.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!