2 de março de 2018

Capítulo 3

A feira começou, como de costume, com o ranger de rodas e o estalar de chicotes. A trilha encosta acima era irregular e íngreme, porém ainda assim os mercadores forçavam seus cavalos ao limite no trecho final, ansiosos para pegar os melhores pontos no fim da estrada principal da vila. Aqueles que chegavam por último inevitavelmente acabavam perto do portão, longe do movimento dos pedestres que vagavam pelo interior.
Caspar estava parado na entrada, chamando-os com acenos, sorrindo e concordando com a cabeça aos cocheiros dos carroções lotados conforme eles entravam pelos portões. Fletcher percebia como os cavalos tinham se esforçado nessa jornada; seus flancos brilhavam com uma camada de suor e os olhos estavam selvagens de exaustão. O rapaz abriu um sorriso culpado com o estado dos animais, sabendo que Berdon se manteria ocupado hoje. Fletcher esperava que eles tivessem ferraduras suficientes para todos.
Após a passagem do último carroção, dois homens com pesados bigodes loiros e quepes entraram trotando na vila. Seus cavalos não eram as bestas de carga que puxavam os veículos do comboio, mas corcéis pesados com flancos largos e cascos do tamanho de pratos. Eles balançaram as rédeas ao passar da trilha de terra aos paralelepípedos irregulares. Fletcher ouviu Berdon praguejar atrás e fez uma careta de solidariedade.
Os uniformes negros lustrosos com botões de latão os identificavam como Pinkertons — homens da lei da cidade grande. Os mosquetes que traziam nas mãos não deixavam dúvida alguma. Fletcher olhou de relance para os porretes com tachas de metal embainhados nas selas. Poderiam quebrar braços e pernas sem dificuldades, e o fariam sem escrúpulos, pois os Pinkertons só respondiam ao próprio rei. Fletcher não fazia ideia de por que estavam escoltando o comboio, mas a presença dos dois significava que haveria pouca necessidade de proteção no caminho. As vendas em sua barraca seriam escassas naquele dia.
Os dois homens poderiam ser irmãos de tão parecidos, com cabelos loiros encaracolados e olhos cinzentos e frios. Eles desmontaram, e o mais alto da dupla caminhou até Fletcher, levando o mosquete casualmente nas mãos.
— Garoto, leve nossos cavalos ao estábulo da vila e lhes dê água e comida — comandou com voz severa.
Fletcher o encarou boquiaberto, espantado com a ordem tão direta. O homem indicou os cavalos enquanto o garoto continuava parado, não querendo deixar a barraca sozinha.
— Não perca tempo com esse moleque, ele é meio lerdo — interveio Caspar. — Nós não temos um estábulo da vila. Meu filho vai tomar conta dos seus cavalos. Didric, leve-os aos nossos estábulos particulares e mande o cavalariço dedicar a eles uma atenção especial.
— Mas, pai, eu queria... — começou Didric, com voz lisonjeira.
— Vá agora, e não demore! — interrompeu o pai.
Didric corou e lançou um olhar furioso a Fletcher antes de pegar as rédeas dos dois cavalos e guiá-los pela rua.
— Então, o que os traz a Pelego? Não vemos nenhuma cara nova há semanas, se estiverem perseguindo foras-da-lei — contou Caspar, estendendo a mão.
O Pinkerton mais alto apertou-lhe a mão com relutância, forçado a ser educado agora que seu cavalo estava sob os cuidados de Caspar.
— Nossos assuntos são com o exército na fronteira élfica. O rei expressou o desejo de recrutar criminosos às tropas e, ao fazê-lo, dar baixa em suas sentenças de prisão. Estamos investigando se os generais seriam receptivos a isso, em nome de Sua Majestade.
— Fascinante. É claro que sabíamos que os alistamentos se reduziram recentemente, mas isso muito me surpreende. Que solução elegante ao problema — elogiou Caspar, com um sorriso duro. — Quem sabe poderíamos conversar sobre o assunto durante o jantar, com um pouco de conhaque? Cá entre nós, a estalagem local é imunda, e ficaríamos felizes em lhes oferecer camas confortáveis depois da sua longa jornada.
— Ficaríamos agradecidos. Viemos de Corcillum e não dormimos numa cama limpa há quase uma semana — admitiu o Pinkerton, tirando o chapéu.
— Então vamos lhes preparar um banho e um desjejum quentinho. Meu nome é Caspar Cavell, e sou uma espécie de conselheiro da vila... — continuou o agiota, guiando os dois homens rua abaixo.
Fletcher considerou as notícias enquanto as vozes se afastavam. Criminosos sendo recrutados nas forças armadas era algo que ele jamais tinha considerado. Muitos rumores afirmavam que o recrutamento forçado de todos os jovens era iminente, o que o empolgava e preocupava igualmente.
O alistamento obrigatório havia sido implementado na Segunda Guerra Órquica, séculos antes. Aquela guerra fora motivada por bandos de orcs saqueadores que roubavam gado e massacravam os aldeões do nascente Império de Hominum. Centenas de vilas acabaram exterminadas antes que os orcs fossem, enfim, rechaçados de volta às selvas.
Desta vez fora Hominum que iniciara as hostilidades, ao devastar as florestas dos orcs para alimentar a revolução industrial que acabara de começar. Sete anos haviam se passado, e a guerra não demonstrava sinais de que terminaria tão cedo.
— Se eu pudesse forjar aqueles mosquetes, não precisaria sequer abrir a barraca — resmungou Berdon atrás do menino. Fletcher concordou com um aceno de cabeça. Mosquetes, produzidos pelos artífices anões que viviam nas entranhas de Corcillum, estavam em alta demanda na linha de frente. As técnicas empregadas na criação dos canos retos e mecanismos eram segredos muito bem protegidos pelos zelosos anões. Era um negócio lucrativo, ainda que a tecnologia só tivesse sido implementada pelo exército recentemente. Antes os orcs podiam ser capazes de resistir a uma saraivada de flechas em batalha, mas uma barragem de fogo de mosquete tinha muito mais poder para travar seu avanço.
Foi então que Fletcher percebeu um último viajante entrando pelos portões. Era um soldado veterano, com cabelos grisalhos e barba por fazer. Vestia um uniforme branco e vermelho de tecido esfarrapado e gasto, manchado com lama e poeira da viagem. Muitos dos botões de latão da túnica estavam ausentes ou pendurados, soltos. O homem estava desarmado, algo incomum a um membro de um comboio de mercadores, e ainda mais estranho para um soldado.
O veterano não tinha cavalo ou carroça; em vez disso conduzia uma mula sobrecarregada com alforjes. As botas que calçava estavam em estado lastimável, com solas gastas e furadas, balançando soltas a cada passo cambaleante que ele dava. Fletcher observou enquanto o sujeito se instalava no espaço diretamente oposto a ele do outro lado da estrada, amarrando a mula na haste da barraca vizinha e lançando um olhar severo ao vendedor antes que ele pudesse protestar.
O soldado descarregou os alforjes, abrindo uma lona de pano e organizando vários objetos sobre ela. Provavelmente estaria a caminho da frente élfica, transferido do sul por ser velho demais para o combate, porém demasiado incompetente para ser promovido a oficial. Como se pudesse sentir o olhar do menino, o velho se endireitou e sorriu perante sua curiosidade, exibindo uma boca com muitos dentes ausentes.
Fletcher esticou o pescoço para dar uma olhada melhor no soldado, e arregalou os olhos ao ver o que estava à venda. Havia enormes pontas de flecha de sílex do tamanho da mão de um homem, com bordas serrilhadas para criar farpas que se prenderiam à carne. Colares feitos de fileiras de dentes e orelhas dissecadas foram desembaraçados e expostos como os mais delicados pingentes. Um chifre de rinoceronte com uma ponteira de ferro foi destacado à frente da coleção. A peça principal era uma enorme caveira de orc, duas vezes maior que a de um homem. Tinha sido polida e branqueada pelo sol da selva, com um cenho largo se projetando de um jeito bizarro sobre as órbitas oculares. Os caninos inferiores eram maiores do que Fletcher imaginara, estendendo-se como presas de uns 8 centímetros de comprimento. Eram suvenires da frente de batalha, vendidos como curiosidades às cidades do norte, distantes de onde a verdadeira guerra acontecia.
O menino se virou e lançou um olhar pidão a Berdon, que também tinha visto as mercadorias do recém-chegado. O ferreiro balançou a cabeça e indicou a própria barraca com um aceno. Fletcher suspirou e voltou a atenção à arrumação dos produtos. Seria um dia longo e infrutífero.


3 comentários:

  1. O q são essas figuras aí final dos capítulos ?

    ResponderExcluir
  2. Talvez seja os simbolos de invocação.ja que parece bastante

    ResponderExcluir
  3. Ta tudo muito tranquilo, mas to gostando.

    ResponderExcluir

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!