31 de março de 2018

Capítulo 2

MORRIGHAN

Parecia que ter medo estava em meu sangue. Isso me deixava sempre consciente, mas, mesmo aos dez anos de idade, eu estava cansada disso. Eu me lembro que retornei ao acampamento cautelosamente naquele dia. Desde pequena, eu sabia que éramos diferentes. Era o que nos ajudava a sobreviver. Mas isso também queria dizer que pouco passava pelos outros, mesmo as coisas escondidas e não ditas. Ama, Rhiann, Carys, Oni e Nedra eram mais fortes no saber. E Venda também, mas ela já havia partido. Não falávamos dela.
Ama falou sem levantar seu olhar da cesta de feijões, seu cabelo cinza e preto puxado para trás perfeitamente em uma trança.
— Pata me disse que você deixou o acampamento enquanto eu estava fora.
— Somente até a lagoa além do muro de pedras, Ama. Não fui longe.
— Foi longe o suficiente. Leva somente um momento para um abutre te apanhar.
Nós já tivemos essa conversa muitas vezes. Os abutres eram selvagens e imprudentes, ladrões e bárbaros que roubavam o trabalho dos outros. E algumas vezes eles eram assassinos também, dependendo de seus caprichos. Nós nos escondíamos nas colinas e nas ruínas, mansos em nosso caminhar, suaves em nossas vozes, as paredes de um mundo vazio nos acobertando, e onde as paredes eram somente poeira, o mato alto nos escondia.
— Eu fui cuidadosa — sussurrei.
— O que te levou a ir até a lagoa? — ela perguntou.
Eu estava de mãos vazias. Não tinha nada para apresentar como uma razão para minha caminhada. Assim que Jafir saiu galopando, eu retornei. Eu não podia mentir para Ama. Havia tantas perguntas em seu silêncio como em suas palavras. Ela sabia.
— Eu vi um garoto abutre lá. Ele estava dilacerando os amentilhos.
Seus olhos se ergueram rapidamente.
— Você não...
— Ele era um garoto chamado Jafir.
— Você sabe seu nome? Você falou com ele? — Ama se ergueu, espalhando os feijões que estavam em seu colo. Ela agarrou meu ombro primeiro, então puxou meu cabelo para trás, examinando meu rosto. Suas mãos andaram freneticamente pelos meus braços, procurando por ferimentos. — Você está bem? Ele te machucou? Ele te tocou? — Seus olhos estavam penetrantes de medo.
— Ama, ele não me machucou — eu disse firmemente, tentando diminuir seu medo. — Ele só me disse para não retornar à lagoa novamente. A lagoa é dele agora. E então ele partiu com um saco de tubérculos.
O rosto dela endureceu. Eu sabia o que ela estava pensando. Eles tomam tudo, e era verdade. Eles tomavam. Justamente quando nos acomodávamos em uma parte distante do vale, ou em uma campina, ou entre os abrigos abandonados, eles vinham até nós, roubando e espalhando terror por seu caminho. Eu estava brava comigo mesma agora por mostrar o Jafir como soltar os tubérculos. Não devíamos nada aos abutres enquanto eles haviam tomado tanta coisa de nós.
— Foi sempre assim, Ama? Eles não seriam parte dos Remanescentes também?
— Há dois tipos que sobrevivem, aqueles que perseveram e aqueles que roubam.
  Ela examinou o horizonte, e seu peito se ergueu com uma longa respiração.
— Venha, me ajude a recolher os feijões. Amanhã partimos para um novo vale. Um bem distante.
Não havia vales longe o suficiente da espécie deles. Eles brotavam tão livremente como flores do cardo nas planícies.
Nedra, Oni e Pata resmungaram, mas não disseram nada. Elas respeitavam Ama porque ela era a mais velha e a cabeça de nossa tribo, a única entre nós que se lembrava de Antes. Além disso, nós estávamos acostumados a seguir em frente e procurar por um tranquilo vale de abundância. Em algum lugar deveria existir um. Ama nos disse que existia. Ela havia visto com seus próprios olhos quando era apenas uma criança, antes da fundação da terra ter sido sacudida e antes que as estrelas caíssem do céu. Em algum lugar deveria existir um local onde estivéssemos a salvo deles.

4 comentários:

  1. Primeira a comentar eeee diferente vc saber sobre a morringan

    Mirtiz

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  2. Interessante esse relato! Seriam eles sobreviventes de uma guerra nuclear? Esse conto se passa no futuro? Essas eatrelas seriam ogivas nucleares?? Estou na dúvida aqui.

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    Respostas
    1. Uma guerra, sim. Essas estrelas seriam bombas... Ogivas nucleares é um pouco demais. Não seriam necessárias tantas em um só lugar

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Boa leitura, E SEM SPOILER!