22 de março de 2018

Capítulo 2

Fletcher recuou, arrastando a mãe consigo. Eles pressionaram o corpo ao lado do de Lisandro, juntamente aos demais, porém, ainda assim, continuavam a poucos centímetros de distância da água... e dos vultos curvos espreitando sob a superfície.
— De onde eles vieram? — perguntou Cress baixinho, desembainhando o seax.
— Devem ter sentido a presença do Zaratan — respondeu Sylva. — Os Sobeks caçam criaturas menores, como nós.
O casco abaixo chacoalhou, e Fletcher percebeu que seu avanço lento pelas águas havia cessado. Ouviu um ruído na água quando o Sobek mais próximo agitou a cauda com empolgação.
Eles tinham encurralado suas presas.
— Nossa carona vai mergulhar — avisou Otelo, esforçando-se para ficar de joelhos. — Lisandro já se recuperou? Ele vai morrer afogado!
Outro tremor os sacudiu, mas eles não afundaram. O Zaratan manteve a posição, mesmo quando os Sobeks começaram a rodeá-lo, os dorsos cristados negros mal rompendo a superfície da água.
— Por que ele não mergulha? — indagou Fletcher, espiando na direção da água. Os olhos dourados do Zaratan o fitavam de volta. — Ele está... nos protegendo — sussurrou. — Sabe que, se cairmos na água, vamos morrer.
— Bem, ele vai simplesmente acabar morrendo também se não fizermos alguma coisa! — vociferou Sylva, puxando o arco dos ombros. Ela esticou o braço para apanhar uma flecha, mas a aljava estava vazia, seu conteúdo perdido no pântano.
Um Sobek investiu contra o Zaratan. O demônio tartaruga deu um solavanco, inclinando o casco para o lado, e Lisandro deslizou pela superfície.
Ele lutou debilmente para subir de novo, mas, enquanto tentava se agarrar na inclinação suave, os Sobeks mais próximos perceberam ali sua chance. A água espumou, branca, quando dois se separaram do bando, as caudas grossas chicoteando para a frente e para trás conforme nadavam rumo ao pobre Grifo.
Os outros aguardaram: eram mais pacientes que seus irmãos.
— Não! — berrou Fletcher, sacando seu khopesh e saltando sobre o corpo inerte de Lisandro.
Sylva o seguiu, erguendo a falx bem alto enquanto os dois monstros avançavam a toda a velocidade. Olhos verde-amarelados cintilaram, e então o primeiro Sobek saltou da água. Agachou-se bem baixo apoiado nas duas pernas e arranhou o casco com suas garras, deixando sulcos na cobertura de algas. O focinho comprido se abriu, revelando uma cavernosa bocarra amarela, repleta de dentes afiados.
O demônio atacou tão depressa que Fletcher mal teve tempo de se defender, fazendo com que as cinco garras em forma de gadanha se chocassem com a lâmina curva do khopesh. A força dos braços do Sobek era imensa, e Fletcher mal conseguia impedir que as garras afiadas se enganchassem em seu rosto. Ele forçava a espada com ambas as mãos, desesperado.
O demônio levantou o segundo braço, e apenas um movimento frenético da falx de Sylva conseguiu aparar o golpe. Nesse momento, contudo, o outro Sobek saiu da água e a elfa foi obrigada a virar-se para enfrentá-lo. Dentes se fecharam sobre a lâmina de Fletcher, forçando-o a se inclinar para trás e quase cair, devido à cobertura escorregadia do casco. Então o Sobek se afastou, abaixou o corpo e girou. Sua cauda pesada chicoteou e passou uma rasteira em Fletcher, que bateu a cabeça no casco. Sua visão transformou-se em um borrão, e o khopesh caiu de seus dedos inertes.
A mandíbula amarela do Sobek reluziu ao descer sobre ele, mas, no exato momento que seu hálito quente o envolveu, uma bola de fogo arremessou o demônio na água, deixando o cheiro de carne queimada nas narinas de Fletcher.
Ignácio viera em seu socorro.
Confuso devido à pancada na cabeça, Fletcher se colocou debilmente de joelhos e viu Otelo, Cress e Sylva avançarem juntos, atacando e se defendendo do Sobek restante. Ao perceber que seu parceiro tinha sido derrotado, ele mergulhou com um berro irado, deixando o trio ofegante perto da beira d’água.
— Não podemos lutar contra todos — arquejou Fletcher, apanhando novamente o khopesh enquanto Ignácio vinha em disparada até seu ombro.
Atena continuou ao lado da mãe do garoto, impedindo que a mulher confusa deixasse a relativa segurança do centro do casco.
O Sobek chamuscado não parecia muito ferido depois do ataque de Ignácio, mas deslizou até o grupo de árvores do outro lado. Sua retirada não deteve os outros, que já estavam se aproximando em círculo, talvez encorajados pela débil resistência do grupo naufragado. Não demoraria muito mais.
— Fogo não vai adiantar, pelo menos não na água — sibilou Otelo. — Explosões cinéticas também não.
— Raios! — exclamou Cress, e de repente Tosk surgiu em seu ombro, a cauda peluda estalando com centelhas elétricas.
— Não! — gritou Fletcher, erguendo a mão. — O feitiço se espalharia pelas águas e acabaria atingindo o Zaratan também. A gente terminaria afundando.
— Talvez seja nossa única opção — retrucou Cress. — É o único feitiço que vai dar certo.
— Nem adianta desperdiçar seu mana — disse Sylva, apontando para os Sobeks em formação. — Não vai ser poderoso o bastante para matar todos.
Lisandro gemeu a suas costas, lutando contra os vestígios da poção paralisante. Um Grifo de nível dez combatendo a seu lado podia equilibrar as chances, mas Lisandro mal conseguia subir a suave inclinação do casco.
Outro Sobek se separou do bando e se aproximou, deslizando, para testar suas defesas. Uma pata palmada emergiu do rio, espirrando água para todos os lados ao enviar o réptil pelos ares. Tonto e meio atordoado, ele caiu entre seus irmãos com um forte baque. O Zaratan estava se defendendo.
— Pense — Fletcher murmurou para si mesmo.
Repassou todos os feitiços que conhecia. Feitiços de escudo eram inúteis contra demônios; a energia demoníaca os atravessava, como se fossem papel de arroz. Existiam feitiços para anestesiar a dor, abrir e fechar cadeados e fechaduras, retirar umidade do ar. Feitiços que amplificavam e amorteciam o som, feitiços que permitiam ao feiticeiro detectar qualquer movimento próximo. Tudo isso era inútil.
Mas então, ao observar o mangue ao redor, lembrou-se de outro pântano, nas florestas dos orcs. E de Malik, testando o feitiço do gelo de Jeffrey naqueles lagos negros, transformando a água escura em gelo sólido. Os Sobeks congelariam da mesma maneira.
Ele fez um gesto no ar, tentando lembrar-se do padrão que Jeffrey lhes havia mostrado. Era um glifo complexo, em forma de floco de neve.
— Espere aí... — disse Otelo, arregalando os olhos. — Isso pode funcionar.
O padrão soltou um chiado, mas o ano de treinamento que Fletcher passara nas masmorras de Pelego veio à tona, e sua mente conseguiu manter com facilidade a pulsação de mana que se movia tanto na direção de seu dedo quanto através dele. Como se incitados pela luminosidade azul do símbolo, três Sobeks se separaram do círculo, em uma formação de V.
Uma gota de suor desceu pela testa de Fletcher. Seu dedo agitava-se de um lado para o outro, a ponta queimando e congelando quando a última linha foi traçada no ar. O trio de Sobeks estava tão perto que ele pôde ver suas pupilas verticais focadas nele, cheias de intenções malévolas. Um disparo do arco de Cress fez estremecer o ar sobre o ombro do jovem, mas a flecha não atingiu o alvo, desaparecendo na água escura sem causar sequer uma ondulação.
Então, quando o primeiro Sobek saiu do rio, uma comprida faixa branca espirrou dos dedos de Fletcher, atirando cristais de gelo na água. Ele sentiu o mana sendo drenado de si, mas redobrou os esforços, enviando pulsações seguidas na direção dos demônios até que o ar se enchesse com uma tempestade de flocos de neve. Foi somente quando metade de seu mana já havia sido gasto que ele parou, caindo de joelhos, ofegante pelo esforço.
Lentamente os flocos se acomodaram na água, revelando a extensão total do plano de Fletcher.
O Sobek pairava imóvel em um cristal recortado, as mandíbulas entreabertas, as garras esticadas na direção da garganta do jovem. Somente sua cauda e suas pernas traseiras permaneciam descobertas, pendendo flácidas da parte de trás do iceberg flutuante. Dava para ver os outros dois demônios semissubmersos, os corpos congelados, enquanto uma lâmina de gelo estalava a seu redor na superfície do pântano.
— Caramba! — murmurou Cress. — Funcionou perfeitamente.
— O Zaratan está bem? — perguntou Fletcher, preocupado por ter estado tão próximo do demônio ao lançar o feitiço de gelo.
Como se em resposta, o casco abaixo estremeceu quando o Zaratan começou a nadar. Fletcher manteve o símbolo de gelo fixo no ar, mas os Sobeks remanescentes já estavam se afastando ao ver os companheiros atingidos, de início de um em um, mas logo de dois em dois e, então, em grupos de três, à medida que o Zaratan se aproximava da beira do bando.
Em pouco tempo eles estavam novamente sozinhos no pântano, o silêncio sendo interrompido apenas pelo chacoalhar suave dos galhos das árvores quando um vento frio os atravessava. Eles tinham sobrevivido.
Por enquanto.

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