17 de março de 2018

Capítulo 2

Rory se afastou de Rook, agitando-se como uma enguia para escapar de suas mãos.
— Espere, menino — rosnou o Inquisidor, agarrando-lhe os ombros. — Você não sabe o que nós temos a oferecer. Charles, contenha-o!
Só que Charles agiu tarde demais, pois enquanto estendia a mão esquelética, Rory acertou uma cotovelada na barriga de Rook e pegou Daisy nos braços.
— Segure firme — sussurrou asperamente enquanto saía correndo pela porta.
Ele quase foi cegado pela luz do sol. A multidão aplaudiu, depois se sobressaltou ao vê-lo passar correndo. Seus pés pareciam flutuar sem peso sobre a trilha da vila, impulsionados pelo medo dos Inquisidores que o perseguiam, mesmo que, em sua imaginação, a ideia daqueles dois homens de rostos duros à sua caçada fosse quase cômica.
Quando começou a reduzir a velocidade, Rory ouviu gritos atrás de si. Algo vinha em sua direção. O limite da vila chegou e passou, e o rapaz se viu correndo em direção à fronteira, saltando por colinas idílicas. Daisy ria e gargalhava, agarrada à camisa do irmão.
— Mais rápido, Rory, mais rápido!
Ainda assim, ele ouvia o trovejar de cascos atrás de si. Só que... não havia cavalo algum na vila, havia? Temendo por Daisy, Rory parou ao lado de uma alta touceira de capim no sopé de uma colina.
— Esconda-se aqui até que eu venha achar você. Se eu não tiver chegado até o pôr do sol, volte para casa — sibilou o menino, empurrando a irmã na touceira.
— Mas Rory, você disse que a gente ia brincar! — reclamou Daisy, tentando se levantar.
— Por favor, Daisy, por favor! — implorou ele, ouvindo o barulho dos cascos ficar mais alto. — É esconde-esconde.
— Mas você já sabe onde eu estou — retrucou a irmã, cruzando os braços em teimosia.
— A mamãe tá brincando também — inventou Rory, tentando empurrá-la de volta à grama. — Nós dois estamos nos escondendo.
— Ah... tudo bem, então.
Ela se agachou bem a tempo, pois um urro de fúria soou no topo da colina. Rory se virou e viu um enorme humanoide com cabeça de touro, trovejando ao avançar. Os chifres curvos da criatura pareciam estar apontados diretamente para ele, as narinas fungando com cada passo. Rory ouvira falar nessas criaturas por um dos soldados locais que visitavam a vila de vez em quando. Um Minotauro.
Seguiu em disparada, evitando as tocas de coelho que poderiam derrubá-lo de cara no chão ou até fazê-lo quebrar um tornozelo, com a velocidade em que corria. O Minotauro seguia em seu encalço, com fortes fungadas e cascos furiosos que diziam a Rory que o demônio estava na sua cola. Logo o velho forte surgiu ao longe, parecendo prestes a desmoronar e marcando a fronteira entre Hominum e a Grande Floresta dos elfos. Acima dele, os topos de árvores gigantescas borravam o horizonte. Rory via as silhuetas de soldados nas muralhas, vigiando a floresta. Por um momento, perguntou-se se poderia buscar santuário ali. Porém, por que aqueles homens enfrentariam um demônio, ainda por cima um pertencente a um Inquisidor? Os Inquisidores eram os cães de caça do rei, investigadores que vigiavam a nobreza e administravam o influxo de conjuradores plebeus. Conjuradores como ele, percebeu Rory.
Em vez de seguir para o forte, ele desviou ao seu redor, forçando-se a correr mesmo com a dor que sentia no flanco. O coração batia forte no peito e a respiração ardia nos pulmões, mas o Minotauro era incansável, mantendo um galope constante que parecia devorar a terra pela qual passava.
Logo Rory estava meio correndo, meio cambaleando sobre as pedras brancas que delineavam a própria fronteira de Hominum. Lembrou-se de quando ele e os amigos tinham desafiado uns aos outros para ver quem arriscava avançar mais do outro lado da linha. Uma vez, Rory pegara uma das pedras brancas para si, atirando-a de volta ao perder a coragem, vinte passos além da fronteira. Agora, Rory cambaleou além dela, quebrando o recorde que estabelecera cinco anos antes.
Enquanto alcançava a sombra das árvores, porém, tropeçou numa raiz serpenteante, escondida logo abaixo da camada mais alta de solo. Esperou pelo fim, ofegando como um peixe encalhado na praia. Perguntou-se se o Minotauro o pisotearia até a morte, ou se simplesmente o espetaria nos chifres. Talvez fosse espancá-lo como faria um gorila da selva, deixando-o para morrer com os ossos moídos na penumbra da mata.
Continuou respirando, saboreando cada inspiração ardente, olhos borrados com lágrimas, abdome doendo e relaxando conforme o corpo se recuperava da fuga desesperada.
Um minuto se passou. Depois outro. Rory ousou se sentar, arrastando-se até a base da árvore mais próxima. Seus músculos doíam conforme ele se puxava de volta à fronteira. Ao longe, o Minotauro andava de um lado para o outro ao longo da linha de pedras brancas. Quando o demônio viu que Rory olhava para ele, soltou um urro tristonho, como o mugir de uma vaca com a paixão de um uivo de lobo.
Rory sorriu, segurando o flanco. A criatura não cruzaria a fronteira, a não ser que quisesse romper o cessar-fogo não oficial de que os dois lados gozavam havia alguns anos.
— Há! — tossiu Rory, usando a árvore como apoio para se levantar. — Seu bufão ridículo! Estou livre!
O Minotauro o encarou com ódio do outro lado, os pelos negros de seus ombros eriçados de raiva.
— Eu não teria tanta certeza — sussurrou uma voz do alto.
Rory olhou para cima e deu de cara com a ponta de uma flecha, fazendo cócegas na ponta de seu nariz.
— Feche os olhos — disse a voz. — Você é meu prisioneiro agora.


Rory foi embalado como um frango pronto para o forno, os joelhos pressionados com força contra o peito e os braços segurando as pernas. Na verdade, estava exatamente na posição que Daisy assumia na hora de histórias, só que ao lado dele. No momento em que pensou nisso, o captor misterioso o ergueu, de modo que Rory ficou sentado de costas para a árvore mais uma vez. Havia um crepitar de fogo e calor próximo ao seu rosto, mas o menino nada podia ver, pois uma venda fora amarrada firmemente sobre seus olhos. Ele não poderia sequer falar, pelo menos não facilmente, devido à mordaça que completava a lista de amarras.
— Você não vai gritar — sussurrou a elfa. Pois só poderia ser isso: uma elfa. — Você não vai olhar para nada além do meu rosto. Você não vai lutar. Na verdade, mal vai se mexer. Estes são meus termos. Concorda?
Rory fez um barulho inarticulado pela mordaça, pouco mais que um gorgolejar.
— É só acenar com a cabeça — instruiu a elfa, com um tom impaciente mas um tanto bem-humorado.
Rory assentiu lentamente, e a mordaça foi removida primeiro, seguida pela venda.
— Obrigado — sussurrou Rory, examinando a captora.
A elfa estava de cócoras à sua frente, equilibrando-se na ponta dos pés ao lado de uma pequena fogueira. Ela segurava uma afiada faca de esfola contra o peito dele, e havia uma aljava cheia de flechas amarrada às suas costas. As roupas eram feitas de tiras de pelo castanho-acinzentado e couro, e pele de lobo cobria-lhe os ombros como um manto. O rosto estava pintado com lama, de modo que os olhos azul-celeste brilhavam ainda mais forte em meio à terra. O mais impressionante, no entanto, eram as orelhas em forma de diamante que se projetavam da cabeleira dourada, por sua vez uma moldura para as feições angulosas da elfa.
— Nunca vi um humano antes — anunciou ela, claramente tão fascinada pela aparência de Rory quanto ele estava pela dela. Estendeu a mão, como se quisesse tocar as orelhas do rapaz, então a puxou de volta, envergonhada. — Sem armas — murmurou, passando os olhos pelo corpo de Rory. — Sem equipamento. Nem mesmo um casaco. O que você está fazendo aqui, garoto?
— Estou fugindo — declarou Rory, erguendo o queixo, desafiador. — Você pode me matar agora, mas não vou voltar. Prefiro acabar meus dias aqui na floresta a ser capturado por um orc nas selvas.
— Um voluntário, então? — indagou a elfa, as chamas da fogueira projetando um tom de cobre em seu rosto.
O sol já havia quase se posto, e a penumbra ao redor deles se aprofundava devagar, deixando-os numa pequena esfera de luz.
— Eu não me alistei — resmungou o rapaz. — Os Inquisidores apareceram na minha vila e descobriram que sou um conjurador. E conjuradores são mandados para lutar nas selvas, sabe.
— Deviam estar voltando do nosso território — explicou a elfa, inclinando a cabeça para o lado enquanto ponderava as palavras de Rory. — Testaram alguns dos nossos jovens há alguns dias. Encontraram até alguns conjuradores dentre os filhos dos chefes, mas só uma delas aceitou ser mandada para a academia de vocês.
— Só que... estamos em guerra... — sussurrou Rory. Depois fez uma pausa. — Como assim, academia?
Ela riu, tirando a faca do peito do rapaz.
— Parece que eu sei mais sobre o seu país que você — comentou a elfa, sorrindo. Cortou as cordas das mãos de Rory, mas deixou as pernas atadas. — Você não vai ser mandado para lutar nas linhas de frente tão cedo — contou ela, fitando os olhos do garoto em busca de sinais de falsidade. — Se fosse o caso, você provavelmente morreria mesmo. Não, todos os conjuradores são mandados para treinamento numa academia chamada Vocans. Vocês até ganham um demônio para treinar. Vai levar alguns anos até que sequer veja um orc.
— Bem, se vocês estão mandando uma das suas elfas para lá, não deve ser assim tão ruim — decidiu Rory, mordiscando o lábio. — Mas por que vocês fariam isso, de qualquer maneira?
A elfa suspirou e se ajeitou numa posição mais confortável, de pernas cruzadas.
— Nós também tínhamos conjuradores, há centenas de anos. Porém, ao longo do tempo, perdemos todos os nossos demônios e não capturamos mais nenhum. Pelo menos é o que diz a história que a minha mãe contou. Quando se perde o último demônio, não existe mais chance de capturar outros. Então, ao mandar alguém do nosso povo à academia, ela receberá um demônio próprio. Com sorte, será a primeira numa nova geração de conjuradores elfos.
— E o que nós humanos ganhamos com isso? — indagou Rory.
— Paz — respondeu a elfa simplesmente. — Talvez até a chance de uma aliança. Vocês estão perdendo a guerra, amigo. Os orcs estão vencendo, e vocês precisam da nossa ajuda. A filha do chefe que vai para a academia é um tipo de refém, para garantir que mantenhamos o nosso lado do acordo.
Rory ficou ali sentado, espantado com as notícias. Talvez o Minotauro tentasse capturá-lo, não matá-lo. Será que tinha cometido um erro terrível? Tinha duas opções agora. Tentar escapar para as terras élficas, ou se jogar à mercê dos Inquisidores.
Outro pensamento lhe passou pela cabeça: será que sua mãe e irmã seriam punidas se ele desertasse? A ideia lhe apunhalou como uma faca no coração.
A elfa notou a consternação no rosto de Rory. Franziu o cenho em solidariedade e soltou suas pernas com um golpe veloz da faca.
— A paz não se iniciará até que a nossa refém chegue à Academia Vocans, mas vou soltar você.
— Assim, tão fácil? — perguntou Rory.
— Assim tão fácil.
O rapaz se levantou com dificuldade, estremecendo com as ondas de dor que subiam e desciam pelas pernas. Na correria insana, aparentemente machucara todos os músculos das coxas.
— Talvez a gente se encontre de novo, depois do fim da guerra entre nossos povos — sugeriu a elfa, ajudando Rory a se levantar. — Meu nome é Dalia.
— Rory — respondeu ele.
Apertou a mão dela, sentindo os estranhos calos que todos os arqueiros tinham nos dois dedos.
— Eu tenho um favor a lhe pedir — disse Dalia, enquanto o rapaz flexionava os braços para recuperar a circulação.
— Se estiver em meu poder — respondeu Rory, agradecido. — Se você realmente for a Vocans, não conte a ninguém que já sabia sobre a elfa, mesmo depois de conhecê-la. Eu tecnicamente cometi traição ao lhe contar.
— Pode deixar — respondeu Rory, apertando mais uma vez a mão de Dalia.
Os dois se encararam. Viviam em mundos diferentes, mesmo que fossem separados por menos que um quilômetro de terra. Era estranho que estivessem tão perto um do outro por tanto tempo, mas nunca tivessem se visto.
— Você vai ficar bem? — perguntou Dalia.
— Eu vou ficar bem.
Rory lhe deus as costas, com a fogueira agora atrás de si e a lua no céu como seu único guia na escuridão à frente.
— Adeus — disse. Então seguiu em frente, treva adentro.

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